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A ESCRITORA
Egon Schiele
Semi demenciada, a escritora, devassa
As entranhas das palavras, derrama-lhes as artérias,
Raspa as manchas de tédio do rosto do crepúsculo,
Os rastros de ferrugem dos cabelos das nuvens;
Limpa o iodo acre e cálido da boca da baía,
Que parece engoli-la; desembacia a luz suja
Das suas vozes emudecidas; abre canais e calhas
E regos e rios nas encostas das luas; rega gladíolos,
Gerânios, jacintos, junquilhos e narcisos, com coktails
De seivas, de sémen e de pólen marinhos;
Sossega o vento outoniço, sacudindo fonemas musicais
E areais submissos, com dedos húmidos de ânsias,
Indecisos e brandos; entrança e destrança laços
Obscuros de memórias e de mistérios negros;
Expulsa insectos e zumbidos inquietos das margens
Do medo; redescobre barcos, lava as velas,
Enverniza os mastros, desenrola os cordames, e faz-se
Ao largo desconhecido, bêbeda de brancos sujos
E de espumas cintilantes; abre as veias dos pulsos
Dos pesadelos, e adormece-se num alvoroço
De asas e de barbatanas policromas e de astros novísssimos.
Leve e rápida, enfebrecida, se leva na voragem do gozo
Audaz de um vagabundo, sentada numa cadeira de espaldar,
Saboreando o álcool «grisant» do nenhum lugar.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 11/04 às 01:58 AM
Categoria • Poesia •
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