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«A ERA DO DESAMPARO»

“É importante ponderar a dificuldade de classificar a si próprio como cristão”, escreveu Czeslaw Milosz (1911-2004); “os obstáculos que encontro derivam da vergonha”. Durante os noventa anos de vida do poeta, a linguagem dos catequistas foi substituída pela fala rigorosa e impessoal da civilização científica, o céu e o inferno desapareceram e o universo se desinteressou. “A era do desamparo”, segundo Milosz. “O que dizer da morte? Sua aparição foi especialmente espetacular neste meu século.” Ele faz a pergunta essencial: Como justificar a fé diante do sofrimento dos inocentes? “Pode Deus existir se Ele é responsável, se consente naquilo que nossos valores condenam como monstruoso? Camus dizia que não. Estamos sozinhos no universo.”

Czeslaw Milosz (1911-2004) romancista e poeta polaco, foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1980. Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se o romance político “A Tomada do Poder”, sobre as tentações e os perigos do totalitarismo, um livro que foi editado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote. “Alguns gostam de Poesia”, uma antologia de poesia polaca contemporânea que reúne dois escritores polacos galardoados com o Nobel da Literatura, juntando-o a Wislava Szymborska (1996), foi outras das obras do poeta apresentadas no mercado português numa edição da Cavalo de Ferro. A sua obra, um dos quatro autores do seu país vencedores do Nobel da Literatura até ao momento, foi sempre distinguida pela abordagem intelectual e emotiva dos piores momentos históricos do século XX. Considerado um dos nomes mais importantes da literatura da Polónia, também era conhecido pelas suas declarações polémicas. Em 1998, ano em que José Saramago foi distinguido com o Nobel da Literatura, o poeta foi um dos poucos antigos galardoados que assumiu não gostar da obra do escritor português. “É uma escrita da moda, cheia de humor, mas esse humor é plano. Confesso que não o suporto”, declarou na altura à PAP. Nascido na Lituânia, no seio de uma família de origem nobre, seguiu uma formação académica ligada ao Direito. Em 1951, iniciou um período de exílio em França, onde foi adido cultural na embaixada polaca em Paris. Assumiu a mesma função em Washington quando, em 1958, emigra para os Estados Unidos, onde anos mais tarde ingressa na Universidade de Berkeley, na Califórnia, para leccionar Línguas e Literaturas Eslavas. Ali permaneceu até 1989, ano em que regressou à Polónia. Faleceu em Agosto de 2004 na sua casa, em Cracóvia.»

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 06:19 PM
Categoria • Reflexões

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