CANTO-ME
Registo fotográfico de Bruno Silva.Olhares.com
Canto-me filha do mar, da tempestade,
Da fúria do vento, do tempo enraivecido,
Dos gritos de dores, feridas de inutilidade.
Canto-me a fêmea, plena de medo e frio,
Na estrebaria, onde nem o luar iluminou
O parto, nem uma flor floriu, com lágrimas
De orvalho, naquela alvorada, sem sentido.
Canto-me o que me não canto, não por pudor,
Mas, porque a palavra se recusa a obedecer
Aos meus dedos doridos de tanto molhar na
Tinta. Canto-me? Choro-me? Não distingo
Os signos. Exilo-me no cimo de um rochedo,
E regresso-me, ao ventre quente do dorso
Das vagas, ávidas de detritos e de destroços.
Oiço o eco da queda e a música sereníssima
De uma orquestra, num palco de um teatro
Mágico, sem plateia. Logo, sem algum aplauso.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 12/08 às 04:53 PM
Categoria • Poesia •
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