Quinta-feira, 04 Dezembro, 2008
«A PERCEPÇÃO DO POETA»
«Sim, o que é o próprio homem senão um cego insecto inane a zumbir (?) contra uma janela fechada; instintivamente sente para além do vidro uma grande luz e calor. Mas é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. De modo que preguiçosamente (?) se esforça por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas não pode ir além do vidro. Como o ajudará a Ciência? Pode descobrir a aspereza e nodosidade próprias do vidro, pode chegar a conhecer que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro, ali mais delicado: com tudo isto, amável filósofo, quão mais perto está da luz? Quão mais perto alcança ver? E contudo, acredito que o homem de génio, o poeta, de algum modo consegue atravessar o vidro para a luz do outro lado; sente calor e alegria por estar tão mais além de todos os homens (?), mas mesmo assim não continuará ele cego? Está ele um pouco mais perto de conhecer a Verdade eterna?»
Fernando Pessoa, in ‘Ideias Estéticas - Da Literatura’
Publicado por Violeta Teixeira em 04/12 às 01:36 AM
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ARTE FIGURATIVA
Tela da autoria de Valmir Camargo
Arte Figurativa
«Tipo de arte que se desenvolve principalmente na pintura pela representação, de seres e objetos em suas formas reconhecíveis para aqueles que as olham. Na arte ocidental a prática da arte figurativa só se transforma, perdendo sua soberania, a partir do início do século XX, com o surgimento da arte abstrata, que busca expressar o mundo interior, o mundo dos sentidos, bem como relações concretas usando como referência apenas os recursos da própria pintura, como a cor, as linhas e a superfície bidimensional da tela.»
Publicado por Violeta Teixeira em 04/12 às 01:26 AM
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SONHO
Registo fotográfico da autoria de Dany78-Olhares.com
Sonho… A cabeça, no ombro
Do afecto; o mar revolto; as vagas
A musicar no corpo dos rochedos;
O rosto do firmamento, com lágrimas,
Cujas gotas acariciam as areias,
E conjugam o verbo amar no futuro
Incerto. Um hálito quente roça
A face do presente inquieto. Enlaça-o.
Num ápice, inopinado, duas bocas
Se acendem: flama vermelha…
Dois braços abraçam-se. Abraços,
De uma ternura singular incontida.
A chama apaga-se… (Ou o sonho?)
Mas bela e efémera se eterniza
No corpo puro e sedento do poema.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 04/12 às 12:23 AM
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Quarta-feira, 03 Dezembro, 2008
SENTIMENTO
Registo fotográfico da autoria de rattus-Olhares.com
«Um charco», pensou, «dá-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impressão de profundidade do que o oceano, pela simples razão de que a vivência dos charcos é muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma razão os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a preferência que se dá ao sentir, mais do que ao sentimento, que é a marca de todas as pessoas sensíveis às emoções, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as instituições postas ao serviço do sentimento, a uma diminuição do nível e da essência do sentimento face à sua manifestação instantânea como estado de ordem pessoal, e finalmente àquela superficialidade, inibição e total insignificância para as quais não faltam exemplos. «É natural que um ponto de vista como este», pensou Ulrich, completando a sua observação, «choque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recomeça com cada “personalidade”!» Tinha a nítida percepção de estar perante um erro monstruoso, à dimensão de toda a humanidade, mas não conseguiu exprimir isso de maneira inteiramente satisfatória, uma vez que as implicações eram múltiplas e complexas.»
Robert Musil, in ‘O Homem sem Qualidades’
Publicado por Violeta Teixeira em 03/12 às 04:59 PM
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O ARTISTA
Imagem ilustrativa de Salvador Dali
«(…)O artista, em seu sentido mais amplo, seja o poeta da palavra, o poeta do pincel, o poeta das lentes fotográficas, o poeta da composição musical, antes de qualquer coisa, tem de assumir o seu papel de ser um ser aberto à universalidade e ter consciência de que o saber, o conhecimento, só é suficiente se tiver caráter universal.(…)»
Não importa o tipo de linguagem usada pelo artista (palavras, imagens, música...) na sua prática social de representação e significação. O importante é usar a linguagem artística na construção de identidades e representações do mundo real. O importante é que o poeta, o pintor, o escultor, o cineasta, o fotógrafo e o músico saibam preencher o vazio com os seus refinados toques e retoques, criando alicerces suficientemente fortes para estabelecer interações entre as mais variadas formas de arte com o objeto de identificar a interdependência de todos os aspectos que formam a realidade de nosso tempo. Cada artista deve viver o seu próprio tempo correndo os riscos de sua época na tentativa de construir e registrar o seu momento poético, na poesia, na música ou nas artes plásticas.»
(Palestra proferida em Feira de Santana, no Cuca/UEFS, dia 20 de novembro de 2002).
Publicado por Violeta Teixeira em 03/12 às 04:49 PM
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NÃO SEI COMO…
Registo fotográfico de Paulo Rebelo Loriente-Olhares.com
Sem o
Aconchego
Côncavo do teu peito,
Não sei como suster
O meu barco
Em sossego.
Caem-me,
Impotentes, os remos,
No poema.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 03/12 às 01:09 AM
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Segunda-feira, 01 Dezembro, 2008
ARTISTA
Trabalho fotográfico da autoria de Miguel Silveira-Olhares.com
«Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais.»
Malraux, André
Publicado por Violeta Teixeira em 01/12 às 04:18 PM
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SOCIEDADE CONSUMISTA
Trabalho fotográfico da autoria de Augusto Pinho-Olhares.com
«Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício. Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica. O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais. Para quê? Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o bluff da produtividade.»
Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito’
Publicado por Violeta Teixeira em 01/12 às 02:08 AM
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DO FUTURO
Registo fotográfico da autoria de Manuel Rebocho Pais-Olhares.com
A custo, me seguro à garupa
Do agora, sem sela, sem estribos,
Sem cabeçada, mas, num rasgo
Rápido, realizo o trágico, conhecido,
Embora, de que só o pretérito existe,
Se bem que todo o instante instaure
O fluir do tempo, como o silêncio
Transgride e funda o discurso
Que, não tardo, concluo,
Porque, como o sei, não acho modo
De montar o cavalo descarnado do futuro,
Que não havendo, há. Há, para quem, feliz,
Apesar de tudo, semeia campos
Para ceifar, no devir, com azevém,
Trevo e luzerna de luar.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 01/12 às 01:00 AM
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Domingo, 30 Novembro, 2008
ARQUITECTURA
Registo fotográfico da autoria de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com
«Ninguém que não seja um grande escultor ou pintor pode ser um arquitecto. Se não é um escultor ou pintor, apenas pode ser um construtor.»
Ruskin, John,in “Lectures on Architecture and Painting”
Publicado por Violeta Teixeira em 30/11 às 02:18 AM
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«A MEMÓRIA»
Trabalho fotográfico da autoria de JET… Olhares.com
«A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto — eis a invenção.»
Ana Hatherly, in ‘Tisanas’
Publicado por Violeta Teixeira em 30/11 às 02:07 AM
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ENLOUQUEÇO-ME
Trabalho fotográfico da autoria de MARIAH- Olhares.com
Enlouqueço-me.
Quebre-se-me
O fio do pensamento.
Fechem-se-me
As pálpebras do eu.
Que me não veja,
A não ser
Não me vendo.
Ficcione-me a vida,
A linguagem,
Que me não sei
Viver.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições,Leiria, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 30/11 às 01:33 AM
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Sábado, 29 Novembro, 2008
BEIJO
Imagem ilustrativa da autoria de Guthier
«Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.»
Rostand, Jean
Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 01:34 AM
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PENSO-TE
Registo fotográfico da autoria de Paulo Pinheiro Vieira-Olhares.com
Penso-te.
Dedos doces,
Límpidos,
Macios.
Carícias rútilas
Nos
Lábios.
Testículos túmidos,
Salivas,
Fluidos líricos.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 01:12 AM
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«OS HOMENS NÃO SABEM O QUE É O AMOR»
Imagem ilustrativa de Maurice Tabard
«De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante - então chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte - e mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.
É assim que nós vivemos, e ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas. Por mais que no-lo digam, é um disparate. Depois de nos termos divorciado e de o quadro familiar se ter desfeito, as relações com os filhos perdem o sentido. Um filho é uma armadilha que se fechou, é o inimigo que temos de continuar a manter e que vai acabar por nos enterrar.»
Michel Houellebecq, in ‘As Partículas Elementares’
Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 01:01 AM
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