Sexta-feira, 21 Novembro, 2008

A ARTE

Registo fotográfico da autoria de Hugo Tinoco-Olhares.com

A arte? Tantas expressões de Arte!
Definições? Servem para quê? Tantas!
Vagas e vazias! Façam-se imitações!
Plágios! Colagens, sem margens! Julgue-se
Artista, acasalando versos de outrem!
Pese-se cada sema que se casa, sem tecto,
Sem afecto! Segure-se ao racionalismo,
Simulando o que se não sente! E se, coincide
Com algo vivido, fique-se, à borda do rio.
Mire-se, narcísico, e delicie-se com a imagem
Reflectida! Escreva-se, pensando em cada
Sema! Mas o poético esquiva-se, e bem,
Ao que vem do pensamento. A arte, qualquer
Que seja, vem, sem que se esteja consciente.
Vem do fundo dos infernos, do vazio, do
Silêncio! A arte é o silêncio eloquente
Do indizível, feito poema, fotografia,
Pintura, escultura, e não se pense na medida
Do verso, no ângulo perfeito da foto,
No bronze, no ferro, no mármore,
No lixo reciclado, no azul-cobalto
Do barroco, por exemplo. Esqueça-se
Da norma que já se soube, porque
Arte é transgressão, desvio, perversão.
Mire-se nas águas de um rio, mas figure-se,
Na foz do frio. A arte, essa, se o é, de facto,
Não vai consigo. Prossiga a sua escrita!
Faça as fotos, segundo as normas! Escolha
O mármore mais célebre! O bronze ou o ferro!
Finja que sente o que julga que deve e sente,
Vindo directo do espaço consciente.
Considere-se exímio artista! Imagine louros!
A si, digo-lhe que sou os infernos do inconsciente!
Sou o vazio pleno de sentido, talvez.
Não sou eu quem lê, quem vê, quem sente.
Sou a voz, a cor, a textura do que quer
Que faça. Ritmo poético, ângulo, enquadramento,
Acontecem-me, sem o uso do pensamento. Não me
Peçam materiais esculturais concretos, tonalidades
Cromáticas ditas reais! Não! Não sei! Não sei
O que seja a realidade! Creio, firmemente, que sou
Uma personagem de ficção. Os dedos tudo fazem,
Sem mim. E, mesmo assim sendo, não me inibo
De vos dizer que sou artista, a voz dorida
Do inferno do inconsciente. Tão-somente!
E, se não achais que faço arte, é-me indiferente.
Não espero, nem creio na eternidade do nada.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 21/11 às 12:25 AM
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