Reflexões

Domingo, 14 Março, 2010

SONHO E HEROÍSMO

Trabalho fotográfico de Alberto Korda

http://www.lilithgallery.com/arthistory/photography/big_iconic_che.jpg

Che Guevara
Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas

A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo,

Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas.

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas”

Publicado por Violeta Teixeira em 14/03 às 08:15 PM
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Sábado, 13 Março, 2010

OS CAMINHOS DA VIDA

Jackson Pollock

http://www.allposters.com/-sp/No-14-Gray-Posters_i1813739_.htm

Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.

Milan Kundera, in “A Imortalidade”

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200709280900&author=478

Publicado por Violeta Teixeira em 13/03 às 10:39 PM
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Sexta-feira, 12 Março, 2010

ESCRITA

http://fowlergenealogy.com/images/Fowler-crest.gif

«Um escritor exprime-se em palavras que já foram usadas porque elas exprimem melhor a sua ideia do que ele mesmo o pode fazer, ou porque são belas e espirituosas, ou porque espera que elas toquem uma corda de associação na mente do seu leitor, ou porque deseja mostrar que é culto e lido. As citações devidas a este último motivo falham invariavelmente: o leitor inteligente descobre-o e passa a desprezar o autor; o leitor menos avisado talvez fique impressionado, mas ao mesmo tempo sente repulsa, pois as citações pretensiosas são o caminho mais seguro para o tédio.»

Henri Watson Fowler (1858-1933) e F.G.Fowler (1870-1918), in ‘Dicionário Inglês do Uso Moderno’

Henri Watson Fowler
Inglaterra
[1858-1933]

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200406040932&author=20321

Publicado por Violeta Teixeira em 12/03 às 03:12 AM
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Terça-feira, 09 Março, 2010

«AMOR E AMIZADE AFECTAM SEMPRE TERCEIROS»

The Tree of Life, Stoclet Frieze, c.1909

Gustav Klimt

http://www.allposters.com/-sp/The-Tree-of-Life-Stoclet-Frieze-c-1909-Posters_i1214452_.htm

«Pretende-se sempre obter a mesma preferência que se conce¬de; o amor deve ser recíproco. Para se conseguir ser amado, é pre¬ciso ser-se amável; para se ser preferido, é preciso ser-se mais amável que outro, mais amável que todos os outros, pelo menos aos olhos do objecto amado. Daí, os primeiros olhares sobre os nossos semelhantes; daí, as primeiras comparações com eles, daí a emu¬lação, as rivalidades, o ciúme. Um coração penetrado de um sen¬timento que transborda gosta de se expandir: da necessidade de uma amada, em breve nasce a de um amigo. Aquele que experi¬menta a doçura de ser amado quereria sê-Io por todos, e todos não poderiam pretender ser preferidos, sem que houvesse muitos des-contentes. Com o amor e a amizade, nascem as desavenças, a an¬tipatia, o ódio. Do seio de tantas paixões diferentes, vejo a opinião que, para si mesma, erige um trono firme, e os estúpidos mortais, sujeitos ao seu domínio, basearam a sua existência nos juízos de outrém.»

Jean-Jacques Rousseau, in ‘Emílio’

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200608250900&author=26&theme=11

Publicado por Violeta Teixeira em 09/03 às 02:47 AM
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Segunda-feira, 01 Março, 2010

A MÚSICA

http://atelierdeideia.files.wordpress.com/2008/12/piano.jpg

«A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.»

Arthur Schopenhauer

http://www.pensador.info/

Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 10:03 PM
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Domingo, 28 Fevereiro, 2010

COMUNICAÇÃO

http://maschamba.weblog.com.pt/JoseGilPortugalOMedoDeExistir.jpg/JoseGilPortugalOMedoDeExistir.jpg

«Paradoxo: por um lado, a televisão fabrica-me representações de um mundo longínquo; por outro, esse é o mundo adequado ao meu mundo. É o que me convém: se as imagens do mundo não me dizem respeito, ou me dizem só longinquamente respeito, então está tudo bem assim, porque a minha imagem também só enevoada me diz respeito.
Eu nem me apercebo do «longe», do «afastamento», da «ausência de mim a mim». Não há paradoxo, porque não há consciência dele. Não há sobressalto de pensamento. Tudo se mistura, talvez.»

José Gil, in ‘Portugal Hoje - O Medo de Existir’

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200504110005&author=20537

Filósofo e pensador português nascido em 1939, em Lourenço Marques, Moçambique. Após completar o ensino secundário na capital moçambicana, em 1957 veio estudar para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se inscreveu no curso de Ciências Matemáticas. Contudo, logo no ano seguinte mudou-se para Paris, em França, onde prosseguiu os estudos em Matemática. No entanto, percebeu que a sua área preferida era a Filosofia e mudou de curso. Em 1968 concluiu a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras de Paris, na Universidade da Sorbonne. No ano seguinte fez o mestrado de Filosofia, com uma tese sobre a moral de Kant. Em 1982 concluiu o doutoramento com a tese Corpo, Espaço e Poder, editada em livro em 1988.
Entretanto, já desde 1965 era professor de Filosofia num liceu, funções que manteve até 1973, com passagens por Vincennes e pela Córsega. A partir dessa altura foi coordenador do Departamento de Psicanálise e Filosofia da Universidade de Paris VIII. Ao mesmo tempo fazia traduções de textos científicos para um organismo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
Em 1976 José Gil regressou a Portugal para ser adjunto do Secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica. Cinco anos mais tarde instalou-se definitivamente em Portugal quando passou a ser professor auxiliar convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Leccionou Estética e Filosofia Contemporânea. Paralelamente deu aulas no Colégio Internacional de Filosofia, de Paris, numa escola em Amesterdão, na Holanda, e na Universidade São Paulo, no Brasil. Orientou também vários seminários em Porto Alegre, no Brasil, e participou em congressos de Filosofia nos Estados Unidos da América. A partir de 1996 passou a dirigir a Colecção de Filosofia da editora Relógio D’ Água.
Publicou diversos artigos e ensaios científicos em revistas e enciclopédias de todo o mundo, destacando-se nas suas preferências a reflexão sobre o corpo. Também elaborou alguns trabalhos sobre o poeta Fernando Pessoa.
Em 2004 publicou Portugal, Hoje. O Medo de Existir, a sua primeira obra escrita directamente em português, que rapidamente se tornou um sucesso de vendas. O livro fala do quotidiano de uma forma simples e acessível. Antes disso já tinha publicado diversas obras, sobre temas tão diversos como Salazar, Fernando Pessoa, a Córsega, o corpo ou O Principezinho, de Saint-Exupéry.
Em Janeiro de 2005 a conceituada revista francesa Le Nouvel Observateur integrou José Gil no grupo dos 25 grandes pensadores do mundo.

http://www.wook.pt/authors/detail/id/7402

Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 03:17 AM
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Sábado, 20 Fevereiro, 2010

AMANTES

http://www.imotion.com.br/imagens/data/media/75/2872amantes.jpg

Os Amantes não Contam Nada de Novo uns aos Outros
A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De facto, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direcções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação connosco próprios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para quê a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?

Robert Musil, in ‘O Homem sem Qualidades’

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200905302300&author=988&theme=601

Publicado por Violeta Teixeira em 20/02 às 02:57 AM
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Quarta-feira, 17 Fevereiro, 2010

HOMEM

És Um HOMEM, Se…

Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,

Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,

Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,

Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,

Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,

Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,

Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,

Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,

Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!

Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,

Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,

Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe

E não receies que te o tomem,

Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.

Rudyard Kipling

Rudyard Kipling
Bombaim, 1936 – Londres,1865

Escritor britânico. Nasce na Índia onde o seu pai, pintor, é conservador de um museu. Enviado para a Grã-Bretanha para estudar, passa ali uns anos de solidão infantil num internato. Desta experiência sai posteriormente uma descrição: Bee, bee, Ovelha Negra. Em 1878 ingressa num centro educativo de filhos de oficiais e funcionários, de rigorosa moralidade e rígido ambiente (que lhe serve de inspiração para Stalky e Companhia). 
Em 1882 volta à Índia como jornalista; nesta época preocupa-se com os temas que são uma característica da sua obra: a relação entre os dominadores brancos e a população indígena, a função civilizadora dos Britânicos, a memória da remota civilização indiana… Tudo isso está recolhido nos seus primeiros ensaios narrativos: Três Soldados, Contos das Colinas, obras com as quais consegue notoriedade. 
Canções de Caserna é a obra que o torna verdadeiramente popular; trata-se de textos poéticos sobre o sentido político e ético da acção inglesa na Índia, se bem que estão muito abertos à criação individual. As grandes obras de Kipling são Kim e O Livro das Terras Virgens. Esta última conserva, sob as estruturas da fábula, um delineamento ideológico centrado no problema da relação do indivíduo com a sociedade e a primazia da lei moral sobre os impulsos e instintos existenciais. Convencionalmente considera-se que é uma obra infantil. Estes temas e delineamentos reaparecem em Kim, mas mais aprofundados e com reflexões sobre as regiões orientais. Em ambas as obras sobressaem a agilidade narrativa e a solidez formal. 
De grande êxito são as suas brilhantes narrações de aventuras, como Capitães Intrépidos. Quanto à sua obra poética, muito popular até aos anos 20 e depois esquecida, tem um ritmo vigoroso, revela uma notável habilidade no uso da métrica e possui uma sinceridade na expressão dos factos que chega a provocar ressentimentos entre personalidades públicas. O seu livro de versos mais interessante é Os Sete Mares. 
Em 1907, Kipling recebe o Prémio Nobel da Literatura. Considera-se Kipling o principal representante da literatura imperialista, mas esta interpretação é superficial. O que Kipling mostra, mais que a presunção do propagandista, é a preocupação do moralista. Preocupa-o certamente o futuro do império britânico, que sabe que vai acabar por desaparecer, mas sustenta que as suas instituições devem defender-se a partir de uma postura ética. Para Kipling, a acção do homem recupera significado na sua dimensão social. Por isso lhe interessam tanto as comunidades militares e escolares e, inclusive, a singular associação dos animais da selva.

http://www.vidaslusofonas.pt/rudyard_kipling.htm

Publicado por Violeta Teixeira em 17/02 às 02:02 PM
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Sábado, 13 Fevereiro, 2010

DESTINO

http://www.gaden.jp/zeit-foto/2003/030325/araki.jpg

«Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.»

Haruki Murakami, in ‘Kafka à Beira-Mar’

http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200603261600&author=20099

HARUKI MURAKAMI

Um dos mais populares escritores japoneses, Haruki Murakami nasceu em Kyoto em 1949. Cresceu em Kobe, cidade portuária que lhe rendeu uma visão de mundo cosmopolita, um dos pilares de sua obra. Seus dias de universidade foram caóticos e intensos, incluindo uma participação ativa nos protestos contra a guerra do Vietnã. Formou-se em dramaturgia clássica no Departamento de Literatura da Universidade de Waseda. Pouco depois, montou um bar em Kokubunji, Tóquio (1974 a 1981), sobre o qual diria mais tarde: “Tudo que preciso saber na vida aprendi no meu bar de jazz.” Nesse período, publicou seus dois primeiros livros: Hear the Wind Sings (1979) e Pinball 1973 (1980).
Depois viriam Caçando carneiros (1982), publicado no Brasil pela Estação Liberdade em 2001; Hard-boiled Wonderland and the End of the World (1985), que lhe rendeu o prestigioso Prêmio Tanizaki; Norwegian wodd (1987), com mais de 20 milhões de cópias vendidas em um ano, e, em seguida, Dance Dance Dance (1988), entre outras obras. Seus livros de ficção mais recentes são After the quake (2000) e Kafka on the shore (2002).
Em 1996, Murakami recebeu o Prêmio Literário Yomiuri, prêmio já concedido a importantes nomes da literatura japonesa, como Kenzaburo Oe, Kobo Abe e Yukio Mishima.
Suas maiores influências literárias são Raymond Chandler, Kurt Vonnegut e Richard Brautigan. Paralelamente à atividade de escritor, traduziu para o japonês autores como F. Scott Fitzgerald, John Irving, Tim O´Brien, Truman Capote e Paul Theroux.
Após morar alguns anos na Europa e nos Estados Unidos, Murakami voltou ao Japão e atualmente vive nas proximidades de Tóquio.

CAÇANDO CARNEIROS
DANCE DANCE DANCE

http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/murakami.htm

Publicado por Violeta Teixeira em 13/02 às 01:11 AM
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Quinta-feira, 11 Fevereiro, 2010

«NÃO SOU NADA MULHER»

http://www.triplov.com/.../nocturno.html

Eu não sou em muitas coisas, nada mulher; pouco de feminino tenho em quase todas as distracções da minha vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem, toda a fina gentileza duns trabalhos em seda e oiro, as rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas, apenas talhadas para folhear livros que são verdadeiramente os meus mais queridos amigos e os meus inseparáveis companheiros. Zango-me comigo própria, tento fazer qualquer coisa, mas a leveza aérea das sedas, a fluidez ideal das rendas, fazem tremer-me as mãos que não tremem nunca ao folhear os livros que mais fatigam toda a gente, irritam-me e maçam-me a um ponto que tenho de atirar com aquilo tudo para outro regaço mais de mulher, mais cariciante, mais doce e com todas as carícias e doçuras que o meu não teve, não tem e não terá nunca. Que desconsolo ser assim, minha Júlia! Ter apenas paciência para penetrar os arcanos duma alma que se fecha nas páginas dum livro; ter apenas gosto em chorar com António Nobre, pensar com Vítor Hugo, troçar com Fialho de Almeida e rir suavemente, deliciosamente, com uma pontinha de ironia onde às vezes há lágrimas, com Júlio Dantas! Eu não devia ser assim, não é verdade? Mas sou… Tive os melhores professores de tudo na capital do Alentejo (que se são melhores não são bons), de bordados, de pintura, de música, de canto, e afinal sou uma eterna curiosa de livros e alfarrábios, e mais nada. E pensando bem, minha querida, não há tudo isso nos meus livros? Música e canto, bordados e rendas… que delícia e que finura em certos versos… que encanto e que magia em certas frases!… Palpo esses bordados, essa macieza de cetins, beijo esses pontos delicados, essa espuma de rendas, essas brancuras ténues, esses negros chorosos e trágicos, e acho-os melhores, convenço-me que valem mais que os mais valiosos trabalhos em que mãos de princesas descansassem. E muitas vezes surpreendo-me a sorrir com um pouco de ironia e de piedade por todas essas belas coisas, coisas de mulheres tão finas e tão leves como a leviandade…

Florbela Espanca, in “Correspondência (1916)”

http://www.citador.pt/pensar.php

Biografia
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 8 de Dezembro de 1894, sendo baptizada, com o nome de Flor Bela Lobo, a 20 de Junho do ano seguinte, como filha de Antónia da Conceição Lobo e de pai incógnito. É em Vila Viçosa que se desenrola a sua infância. Em Outubro de 1899, Florbela começa a frequentar o ensino pré-primário, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca (algumas vezes, opta por Flor, e outras, por Bela). Em Novembro de 1903, aos sete anos de idade, Florbela escreve a sua primeira poesia de que há conhecimento, «A Vida e a Morte», mostrando uma admirável precocidade e anunciando, desde já, a opção por temas que, mais tarde, virá a abordar de forma mais complexa. Ainda no mesmo ano, Florbela começa a escrever uma poesia sem título, o seu primeiro soneto.
Conclui a instrução primária em Junho de 1906, entrando para o actual sexto ano de escolaridade em Outubro do mesmo ano. No ano seguinte, Florbela aponta os primeiros sinais da sua doença, a neurastenia; além disso, escreve o seu primeiro conto, «Mamã!». Em 1908, Antónia Lobo, a mãe de Florbela morre vítima de neurose, após o que a família se desloca para Évora, para Florbela prosseguir os seus estudos no Liceu André Gouveia, com o chamado Curso Geral do Liceu, cuja sexta classe (próxima do 10º ano actual) completa em 1912. Entretanto, em 1911, começa a namorar com Alberto Moutinho, mas acaba por se afastar deste, em virtude de uma nova paixão por José Marques, futuro director da Torre do Tombo. Após romper com este, no ano seguinte, Florbela reata o namoro com Alberto Moutinho e, a 8 de Dezembro, uma vez emancipada, casa com ele, pelo civil, aos 19 anos.
Em 1914, apesar de algumas dificuldades económicas, o casal muda-se para o Redondo, na Serra d’Ossa, onde abre um colégio e lecciona. Numa festa do colégio, Florbela recita, pela primeira vez, versos seus em público. É no ano seguinte que Florbela inicia o seu caderno «Trocando Olhares», que completa ao longo de cerca de um ano e meio. Em 1916, a revista «Modas e Bordados» publica o soneto «Crisântemos», cheio de alterações ao original, e Florbela torna-se amiga da directora e da sub-directora da revista, Júlia Alves, com quem, aliás, inicia correspondência. Alguns meses depois, torna-se colaboradora do jornal «Notícias de Évora», e desiste de um projecto intitulado «Alma de Portugal», um livro de acentuada carga patriótica, e que conteria as partes «Na Paz» e «Na Guerra».
Em 1917, após ter regressado a Évora, Florbela completa o actual 11º ano do Curso Complementar de Letras, com catorze valores; apesar de querer seguir essa área, acaba por se inscrever, em Outubro, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o que a obriga a mudar-se para Lisboa, onde começa a contactar com a vida boémia. Na sequência de um aborto involuntário, em 1919, Florbela tem de se mudar para Quelfes, perto de Olhão, onde apresenta os primeiros sintomas sérios de neurose. Pouco depois, o seu casamento desfaz-se e Florbela decide ir para Lisboa prosseguir o curso, separando-se do marido, e passando a conhecer a rejeição da sociedade. Em Junho de 1919, depois de alguma correspondência trocada com Raul Proença, sai a lume o «Livro de Mágoas»; posteriormente, completa o terceiro ano de Direito. No ano seguinte inicia «Claustro das Quimeras»; simultaneamente, passa a viver com António Guimarães, em Matosinhos, com quem se casa em 1921, após o primeiro divórcio.
De volta a Lisboa, em 1923, Florbela vê publicado o «Livro de Soror Saudade», mas tem de se mudar rapidamente para Gonça, perto de Guimarães, para se tratar de um novo aborto. Assim, Florbela separa-se do marido, que pede o divórcio, oficializado em 1924; isso leva a que a família de Florbela não lhe fale durante dois anos, o que a abala muito.
Em 1925, depois de se ter mudado para a casa de Mário Lage em Esmoriz, casa com ele, pelo civil e, depois, pela Igreja. Dois anos depois, enquanto Florbela traduz romances franceses para a Livraria Civilização no Porto (que publica oito trabalhos seus), e prepara «O Dominó Preto», o seu irmão falece, o que a torna uma mulher triste e desiludida e inspira «As Máscaras do Destino». Enquanto a relação com o marido se desgasta progressivamente, a neurose de Florbela agrava-se bastante; é neste período que, possivelmente, se apaixona pelo pianista Luís Maria Cabral, a quem dedica «Chopin» e «Tarde de Música»; talvez por isso, tenta suicidar-se. Em 1929, Florbela passa por Lisboa, onde lhe é recusada a participação no filme «Dança dos Paroxismos», de Jorge Brum do Canto, e segue para Évora, onde, em 1930, começa a escrever o seu «Diário do Último Ano». Passa, então a colaborar nas revistas «Portugal Feminino» e «Civilização», e trava conhecimento com Guido Battelli, que se oferece para publicar «Charneca em Flor». Já em Matosinhos, Florbela revê as provas do livro, depois da segunda tentativa de suicídio, em Outubro ou Novembro, período em que a neurose se torna insuportável e lhe é diagnosticado um edema pulmonar. A 8 de Dezembro, dia do nascimento e do primeiro casamento, Florbela suicida-se, cerca das duas horas, com dois frascos de Veronal.

http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/florbela_espanca/domino_preto.html

Publicado por Violeta Teixeira em 11/02 às 01:53 AM
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Terça-feira, 09 Fevereiro, 2010

HÁ SÓ UMA VIDA

In the morning por Anatoly Slepkov.

http://www.gehspace.com/poesias56a60.htm

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém…
que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraça-la…
Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para faze-la doce,
dificuldades para faze-la forte,
tristeza para faze-la humana.
E esperança suficiente para faze-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram…
Para aqueles que buscam e tentam sempre…
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar…
…duram uma eternidade…

Clarice Lispector

http://www.pensador.info/frase/NTE5MDc1/

Publicado por Violeta Teixeira em 09/02 às 12:56 AM
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Domingo, 07 Fevereiro, 2010

SOCIEDADE

http://www.jordan-cdv.de/bilder/Musil.gif

Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redacções dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um génio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redacção são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o génio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de factos concretos, com todas as consequências que isso tem.
Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância. Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjectivo. A «portentosa plenitude» de Shakespeare, a «universalidade» de Goethe, a «profundidade psicológica» de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estratega do ténis é «insondável» ou um poeta em moda «grandioso». É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um facto aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exactamente a que qualidades. (...) «Uma parte significativa da importância de um homem reside na sua capacidade de se fazer compreender pelos seus contemporâneos».

Robert Musil, in ‘O Homem sem Qualidades’

Publicado por Violeta Teixeira em 07/02 às 03:19 AM
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Sexta-feira, 05 Fevereiro, 2010

FOGRAFIA/CINEMA

http://openreflections.files.wordpress.com/2009/03/walter-benjamin.jpg

«(…)Fotografar um quadro é um modo de reprodução; fotografar num estúdio um acontecimento fictício é outro. No primeiro caso, o objeto reproduzido é uma obra de arte, e a reprodução não o é. Pois o desempenho do fotógrafo manejando sua objetiva tem tão pouco a ver com a arte como o de um maestro regendo uma orquestra sinfônica: na melhor das hipóteses, é um desempenho artístico. O mesmo não ocorre no caso de um estúdio cinematográfico. O objeto reproduzido não é mais uma obra de arte, e a reprodução não o é tampouco, como no caso anterior. Na melhor das hipóteses, a obra de arte surge através da montagem, na qual cada fragmento é a reprodução de um acontecimento que nem constitui em si uma obra de arte, nem engendra uma obra de arte, ao ser filmado” (Benjamin, 1994, p. 178).(…)»

O Cinema segundo Walter Benjamin
http://www.espacoacademico.com.br/066/66viana.htm

Walter Benjamin

Walter Benedix Schönflies Benjamin (Berlim, 15 de julho de 1892 — Portbou, 27 de setembro de 1940) foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão.
Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tanto por autores marxistas, como Georg Lukács e Bertolt Brecht, como pelo místico judaico Gerschom Scholem. Conhecedor profundo da língua e cultura francesas, traduziu para alemão importantes obras como Quadros Parisienses de Charles Baudelaire e Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. O seu trabalho, combinando ideias aparentemente antagónicas do idealismo alemão, do materialismo dialético e do misticismo judaico, constitui um contributo original para a teoria estética. Entre as suas obras mais conhecidas, contam-se A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), Teses Sobre o Conceito de História (1940) e a monumental e inacabada Paris, Capital do século XIX, enquanto A Tarefa do Tradutor constitui referência incontornável dos estudos literários.

Biografia
Walter Benjamin nasceu no seio de uma família judaica. Filho de Emil Benjamin e de Paula Schönflies Benjamin, comerciantes de produtos franceses. Na adolescência Benjamin, perfilhando ideais socialistas, participou no Movimento da Juventude Livre Alemã, colaborando na revista do movimento. Nesta época nota-se uma nítida influência de Nietzsche em suas leituras.
Em 1915, conhece Gerschom Gerhard Scholem de quem se torna muito próximo, quer pelo gosto comum pela arte, quer pela religião judaica que estudavam.
Em 1919 defende tese de doutorado, A Crítica de Arte no Romantismo Alemão, que foi aprovada e recomendada para publicação.
Em 1925, Benjamin constatou que a porta da vida acadêmica estava fechada para sí, tendo a sua tese de livre-docência Origem do Drama Barroco Alemão sido rejeitada pelo Departamento de Estética da Universidade de Frankfurt.
Nos últimos anos da década de 1920 o filósofo judeu interessa-se pelo marxismo, e juntamente com o seu companheiro de então, Theodor Adorno, aproxima-se da filosofia de Georg Lukács. Por esta altura e nos anos seguintes publica resenhas e traduções que lhe trariam reconhecimento como crítico literário, entre elas as séries sobre Charles Baudelaire.
Refugiou-se na Itália, de 1934 a 1935. Neste momento cresciam as tensões entre Benjamin e o Instituto para Pesquisas Sociais, associado ao que ficou conhecida como Escola de Frankfurt, da qual Benjamin foi mais um inspirador do que um membro.
Em 1940, ano da sua morte, Benjamin escreve a sua última obra, considerada por alguns como o mais importante texto revolucionário desde Marx; por outros, como um retrocesso no pensamento benjaminiano: as Teses Sobre o Conceito de História.
A sua morte, desde sempre envolta em mistério, teria ocorrido durante a tentativa de fuga através dos Pirenéus, quando, em Portbou, temendo ser entregue à Gestapo, teria cometido o suicídio.
Suas ideias
Benjamin tinha seu ensaio “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica” na conta de primeira grande teoria materialista da arte. O ponto central desse estudo encontra-se na análise das causas e conseqüências da destruição da “aura” que envolve as obras de arte, enquanto objetos individualizados e únicos. Com o progresso das técnicas de reprodução, sobretudo do cinema, a aura, dissolvendo-se nas várias reproduções do original, destituiria a obra de arte de seu status de raridade. Para Benjamin, a partir do momento em que a obra fica excluída da atmosfera aristocrática e religiosa, que fazem dela uma coisa para poucos e um objeto de culto, a dissolução da aura atinge dimensões sociais. Essas dimensões seriam resultantes da estreita relação existente entre as transformações técnicas da sociedade e as modificações da percepção estética. A perda da aura e as conseqüências sociais resultantes desse fato são particularmente sensíveis no cinema, no qual a reprodução de uma obra de arte carrega consigo a possibilidade de uma radical mudança qualitativa na relação das massas com a arte. Embora o cinema, diz Walter Benjamin, exija o uso de toda a personalidade viva do homem, este priva-se de sua aura. Se, no teatro, a aura de um Macbeth, por exemplo, liga-se indissoluvelmente à aura do ator que o representa, tal como essa aura é sentida pelo público, fico, o mesmo não acontece no cinema, no qual a aura dos intérpretes desaparece com a substituição do público pelo aparelho. Na medida em que o ator se torna acessória da cena, não é raro que os próprios acessórios desempenhem o papel de atores. Benjamin considera ainda que a natureza vista pelos olhos difere da natureza vista pela câmara, e esta, ao substituir o espaço onde o homem age conscientemente por outro onde sua ação é inconsciente, possibilita a experiência do inconsciente visual, do mesmo modo que a prática psicanalítica possibilita a experiência do inconsciente instintivo. Exibindo, assim, a reciprocidade de ação entre a matéria e o homem, o cinema seria de grande valia para um pensamento materialista. Adaptado adequadamente ao proletariado que se prepararia para tomar o poder, o cinema tornar-se-ia, em conseqüência, portador de uma extraordinária esperança histórica. Em suma, a análise de Benjamin mostra que as técnicas de reprodução das obras de arte, provocando a queda da aura, promovem a liquidação do elemento tradicional da herança cultural; mas, por outro lado, esse processo contém um germe positivo, na medida em que possibilita I outro relacionamento das massas com a arte, dotando-as de um instrumento eficaz de renovação das estruturas sociais. Trata-se de uma postura otimista, que foi objeto de reflexão crítica por parte de Adorno.
Atualmente a obra de Benjamin exerce grande influência no editor e tradutor de suas obras em italiano, Giorgio Agamben, sobretudo acerca do conceito de Estado de exceção.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin

Publicado por Violeta Teixeira em 05/02 às 03:20 PM
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Quinta-feira, 04 Fevereiro, 2010

CIÊNCIA

http://relexus.ning.com/

O falsificacionismo de Karl Popper
1. Indução
Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, primeiro propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada.
Se olharmos para a ciência desta maneira, defende Popper, então veremos que ela não precisa da indução. Segundo Popper, as inferências que interessam para a ciência são refutações, que tomam uma previsão falhada como premissa e concluem que a teoria que está por detrás da previsão é falsa. Estas inferências não são indutivas, mas dedutivas. Vemos que um A é não-B, e concluímos que não é o caso que todos os As são Bs. Aqui não há hipótese de a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Se descobrirmos que um certo pedaço de sódio não fica laranja quando é aquecido, então sabemos de certeza que não é o caso que todo o sódio aquecido fica laranja. Aqui o facto interessante é que é muito mais fácil refutar teorias do que prová-las. Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.
2. Falsificabilidade
Assim, segundo Popper, a ciência é uma sequência de conjecturas. As teorias científicas são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas. No entanto, esta maneira de ver a ciência suscita uma questão óbvia: se as teorias científicas são sempre conjecturais, então o que torna a ciência melhor do que a astrologia, a adoração de espíritos ou qualquer outra forma de superstição sem fundamento? Um não-popperiano responderia a esta questão dizendo que a verdadeira ciência prova aquilo que afirma, enquanto que a superstição consiste apenas em palpites. Mas, segundo a concepção de Popper, mesmo as teorias científicas são palpites — pois não podem ser provadas pelas observações: são apenas conjecturas não refutadas.
Popper chama a isto o “problema da demarcação” — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa. Pelo contrário, os sistemas de crenças como a astrologia são irremediavelmente vagos, de tal maneira que se torna impossível mostrar que estão claramente errados. A astrologia pode prever que os escorpiões irão prosperar nas suas relações pessoais à quinta-feira, mas, quando são confrontados com um escorpião cuja mulher o abandonou numa quinta-feira, é natural que os defensores da astrologia respondam que, considerando todas as coisas, o fim do casamento provavelmente acabou por ser melhor. Por causa disto, nada forçará alguma vez os astrólogos a admitir que a sua teoria está errada. A teoria apresenta-se em termos tão imprecisos que nenhumas observações actuais poderão falsificá-la.
3. Ciência e pseudociência
O próprio Popper usa este critério de falsificabilidade para distinguir a ciência genuína não só de sistemas de crenças tadicionais, como a astrologia e a adoração de espíritos, mas também do marxismo, da psicanálise de várias outras disciplinas modernas que ele considera negativamente como “pseudo-ciências”. Segundo Popper, as teses centrais dessas teorias são tão irrefutáveis como as da astrologia. Os marxistas prevêm que as revoluções proletárias serão bem sucedidas quando os regimes capitalistas estiverem suficientemente enfraquecidos pelas suas contradições internas. Mas, quando são confrontados com revoluções proletárias fracassadas, respondem simplesmente que as contradições desses regimes capitalistas particulares ainda não os enfraqueceram suficientemente. De maneira semelhante, os teóricos psicanalistas defendem que todas as neuroses adultas se devem a traumas de infância, mas quando são confrontados com adultos perturbados que aparentemente tiveram uma infância normal dizem que ainda assim esses adultos tiveram que atravessar traumas psicológicos privados quando eram novos. Para Popper, estes truques são a antítese da seriedade científica. Os cientistas genuínos dirão de antemão que descobertas observacionais os fariam mudar de ideias, e abandonarão as suas teorias se essas descobertas se realizarem. Mas os teóricos marxistas e psicanalistas apresentam as suas ideias de tal maneira, defende Popper, que nenhumas observações possíveis os farão alguma vez modificar o seu pensamento.
David Papineau
“Methodology” em A. C. Grayling (org.), Philosophy: A Guide Through the Subject, Oxford University Press, 1998

David Papineau

Tradução de Pedro Galvão

http://aartedepensar.com/leit_falsificacionismo.html

«(…)No dia 17 de setembro de 1994, aos noventa e dois anos de idade, faleceu na Inglaterra o célebre
filósofo Karl Popper. Austríaco de nascimento, imigrou nos anos 30, fugindo do nazismo; inicialmente esteve na
Nova Zelândia, estabelecendo-se depois na Inglaterra. Na London School of Economics foi professor de Filosofia
da Ciência; em 1964 recebeu o título de cavaleiro (Sir).
A filosofia de Popper, o racionalismo crítico, ocupa-se primordialmente de questões relativas à teoria
do conhecimento, à epistemologia. Ainda na Áustria, em 1934, foi publicado o seu primeiro livro, Logic der
Forschung ( A Lógica da Pesquisa Científica (Popper, 1985) na versão brasileira), que se constituiu em uma
crítica ao positivismo lógico do Círculo de Viena, defendendo a concepção de que todo o conhecimento é falível
e corrigível, virtualmente provisório.(…)»

http://www.if.ufrgs.br/~lang/POPPER.pdf

Publicado por Violeta Teixeira em 04/02 às 01:21 AM
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Quarta-feira, 03 Fevereiro, 2010

A ESCRITA DE UM ROMANCE

josebazabalza.blogspot.com/2009/05/aniversari…

Pedro Páramo, Juan Rulfo
18 January 2008 0 Comentários
O escritor mexicano Juan Rulfo (1918-1986) escreveu apenas três obras: um livro de contos, El llano en llamas (1953), uma novela ou pequeno romance, Pedro Páramo (1955), e uma, não tão aclamada quanto as anteriores obras, colectânea de textos para cinema, El gallo de oro y otros textos para cine (1980). De tão pouca produção literária ter saído material de tão inquestionável qualidade, é um feito notável. Tanto assim é que Juan Rulfo conseguiu fazer aquilo que muitos escritores almejam e poucos conseguem: deixou trabalho aos críticos por muitos e longos anos.

Pedro Páramo é a sua obra mais aclamada (e porque não dizer: a sua obra-prima). No entanto, aquando da sua publicação, apesar de ter sido, de um modo geral, bem recebida, foi também alvo de diversas críticas (no sentido negativo do termo). Isto porque, então, Pedro Páramo se afigurava como um objecto estranho. Uma narrativa fragmentária, em que os tempos e as vozes se misturavam e que narrava a história de um homem poderoso e sem escrúpulos, cujo nome é o título da própria obra. Ou será que narrava a história de um homem que buscava seu pai? Ou narraria, não a história de um qualquer desses homens, mas a história de uma aldeia, de todos os seus homens e todas as suas mulheres?

O próprio Juan Rulfo respondeu a estas perguntas, mas o simples facto de as podermos colocar, e é natural que partamos para uma obra e a leiamos com base apenas no seu texto e não em palavras posteriores do escritor, o facto de podermos colocar tais perguntas, dizia, é sugestivo dos problemas de leitura que a obra pode suscitar. E como se não bastasse, parece que todos os habitantes daquela aldeia, Comala, estão mortos. Aliás, o próprio narrador (em alguns fragmentos) Juan Preciado, o tal homem que busca o pai, a certa altura morre. Ou será que ele está morto desde o início?

O autor terá escrito um romance três vezes maior, mas achou que ninguém o ia ler com tantas páginas. Então resolveu começar a cortar, até chegar às cerca de cem páginas que Pedro Páramo tem. Acontece que ficam coisas por explicar. O próprio Rulfo disse que só conseguiu perceber o livro, o seu próprio livro, à terceira leitura. Fez um livro para se ler três vezes. A verdade é que três vezes podem chegar perfeitamente. Também é verdade que, mesmo lendo-o apenas uma vez, ficamos de imediato assombrados. É isso. Pedro Páramo é um livro assombroso. Não há melhor adjectivo para o descrever.

A obra teve dois títulos provisórios, antes de o autor se decidir pelo título com que nos chegou: Los murmullos (os murmúrios) e Una estrella junto a la luna (uma estrela junto à lua). Pelos três títulos, podemos traçar um retrato de tudo o que este livro é. É a história de um cacique (Pedro Páramo), é a história de um amor impossível (Una estrella junto a la luna) e é a história de uma aldeia ou, melhor dizendo, da decadência de uma aldeia (Los murmullos).

Juan Rulfo escreveu um livro sobre mortos, que fala magistralmente da vida. É verdade que não é um livro fácil e que pode ser confuso, mas a vida não é isso mesmo? Pedro Páramo é a busca de um homem pelas suas raízes e pela sua identidade, é um hino à morte e à vida e é uma obra de uma infinita tristeza e mais infinita ainda beleza. Podemos morrer sem ler Pedro Páramo, desde que voltemos para o ler depois. É, a repetição impõe-se, um livro assombroso.

É assim que começa:

“Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. «Não deixes de ir visitá-lo» – recomendou-me. «Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te.» Na altura nada mais pude fazer para além de lhe dizer que sim, que o faria, e de tanto lho dizer, continuei a dizê-lo mesmo depois do trabalho que as minhas mãos tiveram para se afastarem das suas mãos mortas.”

por Gonçalo Mira

http://orgialiteraria.com/?p=86

Publicado por Violeta Teixeira em 03/02 às 02:25 AM
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