Poesia

Segunda-feira, 21 Abril, 2008

PACTO

Registo fotográfico de DDIARTE-Olhares.com

O crepúsculo toma tintas
De letargia amena,
Nas vidraças,
Que dão para as lagunas
Do desassossego
De penas migrantes.

Mergulha os olhos
Nos juncais, alagados
De um desespero
Esbracejante.

Rasga-se as vestes,
De seda,
Tingidas de vermelho,
Descalça-se,
Com gestos esfarelados
De cansaço,

E apressa-se a cumprir
O pacto celebrado,
Na cerimónia solene
Do pórtico branco.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 01:07 AM
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Sexta-feira, 18 Abril, 2008

ABISMO NO SEIO DO DISCURSO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com e fotogenico.net

Abriu-se-me, súbito
E abrupto, um
Abismo no seio
Do discurso.

Crepúsculo cínzeo
De signos.
Ruído de parafusos
Oblíquos.
Escombros.
Desperdícios.

Violeta Teixeira, inédito (ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 18/04 às 05:32 PM
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Quinta-feira, 17 Abril, 2008

NÃO SEI SE…

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com e fotogenico.net

São vozes? Vozes velozes! Ou asas de albatrozes,
Contra mastros? Asas ébrias de maresias e de escamas,
No dorso das vagas do oceano das euforias induzidas,
Por especiarias das índias engolidas pela justiça
Da História? Sons, ecos secos, sibilantes, sílabas
De disfunções cognitivas, mórbidas. Frias. Ferem-me
A derme, a epiderme. Os ossos são rendilhados
Por dedos ineptos do tempo. Estilhaçam. Caem
Em lascas finas, no lajedo gélido do cepticismo,
E a brisa sádica fá-las penas de aves, esvoaçantes,
No pátio, que daria para saídas, se o portão do tudo
É possível, se abrisse aos caprichos insanos de uma
Mente embriagada, incrivelmente, lúcida.
Mas não! Invisível, um cérebro puro, varre
O lixo do inexorável, e senta-se, sereno, no sofá,
Rindo, às gargalhadas, da cena encenada,
Por um ser que se crê invencível. Não!
São vozes conhecidas! Abrem de par em par
O portão cerrado. É um corpo de bailado,
Sem orquestra, sem maestro, sem, ao menos,
Um piano a quatro mãos. No entanto, delicio-me.
Todo o mundo se fez luz. Adormeço, abraçada
À almofada, como se fora o corpo esbelto
De quem amo. Como se tivesse feito amor.
Não sei, porém, se adormecerei para o sempre.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 17/04 às 02:25 AM
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Quarta-feira, 16 Abril, 2008

FIZEMO-LO…

Registo fotográfico de jomagope-«Sentires de um Sentir» (fotosite)

Fizemo-lo.
Navegámos…

Navegámos nas
Nossas águas revoltas
De «Eros» e de «Thánatos».

Fizemo-lo, sem rota
Traçada à «l’avance».

Embarcámos…
Puros humanos
Que nos somos!

Modo não achámos
De nos sentarmos,
Sensatos, numa
Imóvel jangada,
Contemplando, à distância,
Penhascos ornados
De belos cachos de cactos,
Amantes-estetas
Como confessamos sê-lo.

Fizemo-lo.
Atraquemos os nossos
Barcos, no cais do tempo
Pretérito, com orgasmos
Dentro: segredos
Sacro-profanos.

Sem sentimentos
De culpa, miremos, aqui,
No fundo do poema,
O Belo dulcíssimo dos
Bosques marinhos!

Poema inédito (ARKIPÉLAGOS EROTICÓS)

Publicado por Violeta Teixeira em 16/04 às 05:16 PM
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Terça-feira, 15 Abril, 2008

SUBLIME, O SILÊNCIO

Registo fotográfico de Lucien Clergue

Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
O céu, flocos de neve, sobre o flanco
De uma montanha, e, nos longes, desmaios
De azuis-cobalto, ferem as veias das vagas
Do oceano revolto do sem retorno. Estanco
A hemorragia do poente, e aperto o pulso,
Que não pulsa, salvo se águas murmuram
Sonatas telúricas, e os olhos, ressuscitam
Moinhos de vento, moendo grãos de centeio,
Perfumados, como o pão, no forno do me
Recordo. Sublime, o silêncio, tecido nos teares
Lunares, quando a madrugada esmaga fantasmas
De nada, e veste de veludo verde o cimo
Dos penhascos das emoções veladas. Sublime,
O silêncio, na ponte que atravesso, sobre o rio
Que fluí, silente e manso, no reverso da medalha
Que moldo, acobreada, por lumes que acendo,
Com acentos agudos; por labaredas que sopro,
Com lábios rubros, nas brasas desesperadas
Do fluxo incontido do tempo. Sublime, o silêncio,
De um branco árctico, emudecida a voz do infinito,
E o grito inaudível do coração das pedras, à borda
Do abismo. Rendilho, em vão, os pespontos de todos
Os equívocos, de todos os sonhos decepados,
De todos os amores atraiçoados, de todas as promessas
Incumpridas, de todos os juramentos falsos.
Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
Nenhuma voz confessa, arrependida, as feridas
Feitas na pele dos dias invividos. Nenhum gesto de afecto,
Ainda que tardio e inútil. Nenhum aceno. O Universo
Gélido continua a girar impávido. Sereno. A Lua,
Essa, esconde as faces, num novelo de nuvens cinzentas,
E simula o que já não sente. Do Sol, não falo. Quando
Terei nascido, já ele estava morto, e, por mais que tivesse
Pedido, ninguém mo deu a beber na boca. Sublime,
Este silêncio, à borda do abismo. À borda do NADA.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 15/04 às 12:06 AM
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Segunda-feira, 14 Abril, 2008

TENHO TODO O TEMPO QUE NÃO TENHO

Registo fotográfico de Dave Rudin


Tenho todo o tempo
Que não tenho.

Vivo-me ou
Me desvivo,

Não no presente,
Que não há,
Mas tão-só
No momento a
Momento.

Em cada ensaio
De voo
Quebrado,

Enluta-se-me
Todo
O Universo.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 14/04 às 07:40 PM
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Domingo, 13 Abril, 2008

DIZER-ME…

Trabalho fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com e fotogénico.net

Dizer-me…

Não o disse,
De todo,
Ao teu corpo.

Brevíssimo,
O tempo!

Para tanto
De desconhecido!

Para tão pouco
De infinito!

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES ( 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000), Co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 13/04 às 01:01 AM
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Sábado, 12 Abril, 2008

SEDENTA DE SANGUE

Henrique Matos, 1994, Sem título, Óleo sobre tela, 60 x 50 cm (redemensionada)


Sedenta de sangue
Apanho-as,
A todas as rosas rubras,
A todas
A papoulas bravas dos campos
Sem ceifa, a todas as pétalas,
Sumarentas,
De um vermelho,
Uivantemente
Vivo.

A todas,
As esmago, com acentos
De silêncio
E de feroz euforia,
E trago-as líquidas,
Para o dentro das veias,
Obsessivamente
Assassinas,
Da minha amantíssima
Poesia.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 12/04 às 10:37 AM
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Quinta-feira, 10 Abril, 2008

CÉPTICA

adeusmundocruel.wordpress.com/2007/08/

Demasiado maduro, o fruto. Desfez-se,
Num charco, apodrecido de cepticismo.
Espaço, esse, propício ao gosto dos mosquitos
Do absurdo. Lanço-me um desafio que não
Lanço. Faltam-me os fios da crença num algo,
Num algo qualquer, um algo que cresça,
Que floresça, que frutifique, de modo a puder
Saboreá-lo, antes da fatídica queda, no solo
Do desafecto. Céptica, não faço um passo,
Um gesto, salvo na saga dorida da escrita.

Violeta Teixeira, inédito (DÉDALO DE AFECTOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 10/04 às 11:08 PM
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Quarta-feira, 09 Abril, 2008

FRUTIFICAÇÃO DA FRASE

Registo Fotográfico de XÃ-Olhares

Dir-me-ão que disponho de
Tempo para a frutificação da frase
Verde. De todo o tempo.

E, todavia, não tenho tempo para
Esse tempo. Resta-me tão- somente
A fluência fugidia de uma concha vazia,
Nas águas da rebentação do poema.

Violeta Teixeira, inédito (ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 09/04 às 01:05 PM
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Terça-feira, 08 Abril, 2008

FALO-VOS DO SILÊNCIO

Registo fotográfico de Man Ray

Falo-vos do silêncio,
Do silêncio áspero e frio,
Do silêncio que faz
Fissuras violáceas na alma
E me despenha do alto
Da esperança que não tenho.

In Violeta Teixeira, FALO-VOS DO SILÊNCIO, MAGNO EDIÇÕES, 1999

Publicado por Violeta Teixeira em 08/04 às 04:32 PM
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Segunda-feira, 07 Abril, 2008

NÃO ME SOU EM SÍTIO ALGUM

Trabalho fotográfico de Angel Nino- Ollhares.com

Tantos eventos
Me acontecem,

Onde não sou,
Onde não estou.

Quem os vive, se vive?
Ou, quem os inventa,
Vivendo ou não?

Sem mim? Fora? Dentro?
Como o saber, ao certo?

Não estive,
E não me sou,
Em sítio algum.

Violeta Teixeira, in AFFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co-edicão Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 07/04 às 02:11 AM
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Domingo, 06 Abril, 2008

CAEM-ME TODOS OS NÃO DO UNIVERSO

Registo fotográfico de Man Ray

Para o José Hermínio

Retumbantes.

Caem-me em cima
Todos os nãos
Do Universo.

Ausências. Fugas
Omissas.

Marulho feroz
De sílabas
Secas.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 06/04 às 01:02 AM
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Sábado, 05 Abril, 2008

O SOL ESTAVA MORTO

Imagem ilustrativa de autoria de Pablo Picasso

Quando acordou já o Sol estava morto,
Dentro dos seus olhos amarelo - esverdeados,
De lagarto. Não fora ele o assassino, porque, aliás,
Se o Sol já tinha sido, ele jamais o havia visto
Redondo e dourado, rubro ou ruborizado,
Empalidecido e triste, como o haviam descrito,
No tempo em se cegara, numa cela
Escancarada de iníqua exclusão, pelo facto
Dos seus olhos reclusarem, em segundos,
Horizontes infinitos, fossem da terra ou fossem dos
Céus, do dentro ou do fora dos seus semelhantes,
Que caíssem, por um infausto acaso, no seu espaço,
Incomensuravelmente exíguo, mas sem fundo.

Quando chegou ao termo da sua condenação,
A cela toldou-se de uma cegueira de iluminado.

Passou, então, a ser acusado de demência esclarecida
E cegante. Assustou-se o ser livre, o vidente, e ficou
Para todo o sempre aprisionado numa cela, sem muros,
Com todo o mundo à alerta, vigiando e protegendo
Os seus gestos excêntricos, os seus passos
De «snob» satânico, o mais ínfimo mover de lábios
Ou de olhos ou das maças do rosto.

Deleita-se, desmesuradamente, com a derrocada dos
Livres, com cataclismos cósmicos, com reclusos - reclusos,
Com a decadência dos soalhos e dos tectos, que não pisa,
Que não vê, com todos os emparedados, do sem álcool, do
Sem marijuana, sem heroína, sem cocaína, sem ópios.

Consagra os seus ódios, excessiva e comedidamente, contra
O assassino do Astro luzente, embora não creia que tenha,
Alguma vez, brilhado uma aurora sobre a sua seara, ou nascido
Luz da boca de alguma noite cerrada de breu, tal como não crê
Na unicidade do eu, na existência de um deus, nem em coisa
Nenhuma, a não ser na extinção radical da urbana humanidade.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 05/04 às 03:08 AM
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Sexta-feira, 04 Abril, 2008

SILÊNCIOS/GRITOS

Henrique Matos, 1988, Gritos V, Óleo sobre tela, 145 x 115 cm


O meu silêncio
Será, para o sempre, um grito
Inconformado.

Um grito
Estrangulado na garganta
Do tempo.

O teu, será
O espaço iníquo e raso do
Esquecimento.

O espaço corrosivo,
No corpo
Da vingança, para o sempre.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 04/04 às 02:07 AM
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