Poesia

Sábado, 10 Maio, 2008

DESNUDA…

Imagem ilustrativa de Modigliani

Desnuda,
Aqui,
Íntegra me dou.

Que venha a crítica,
Mas
Não se atreva
A julgar impudica a sincera
E solitária nudez da artista,
Que se entrega,
Sem moral, sem ética,
Ao sacrifício solene
E sacro da escrita,
Onde derrama o sangue
E se morre,
Em cada
Parto. 

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 10/05 às 11:43 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sexta-feira, 09 Maio, 2008

CANTO

http://www.flickr.com/photos/31435475@N00/566469953/

Canto a cegonha-negra, o abutre-do-Egipto,
O corvo-marinho-de -faces- brancas,
O bufo-real, a águia-real, a águia de Bonelli,
O grifo, o papa-figos. Canto, em suma, uma
Avifauna especial, que me sobrevoa os neurónios,
Quando as insónias se instalam nos lençóis da
Noite, estilhaça-me a clepsidra , põe-me a reler
Os Pessanha, os Baudelaire, e a inalar os fumos do ópio
Do tempo em que os poetas tertuliavam nos fumoirs..

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Edições Magno, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 09/05 às 05:03 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quarta-feira, 07 Maio, 2008

À ESPERA DO NADA

Registo fotográfico de Magali G -Olhares.com

As suas unhas longas
São dez alcachofras roxas.

Em cada dedo lívido
E longo, ostenta um anel
Satânico.

Ao pescoço esguio,
Que fora belo,
Exibe, pendente de um fio
Fino, quase invisível,
Uma grande caveira.

Nas orelhas pálidas,
Pendem dois esqueletos,
Orlados de vermelho,
Como, aliás, o pendente.

Espalma as mãos sobre
Uma mesa de um bar,
Tensas, trementes, como
Asas interditas de voar.

De quando em vez, puxa
Com furor magoado e macio,
O fumo de um charro,
E despe os olhos, com
Olheiras, até ao fundo da alma,
Macilenta e triste e seca.

Só. Parece ausente, absorta,
Embebida numa ideia fixa, feia,
Dolorosa, desesperada.

É nova, mesmo muito jovem.
De nada se inibe, diz-se, dela,
Aliena-se no álcool, na droga,
No sexo. Vive o Sida, agarrada
Ao gozo excessivo, como
Se, desta forma, fugisse da morte,
Embora saiba e sinta o sofrimento
Do temido desenlace. Próximo,
Dentro de todo o seu dentro.

Não consigo fechar os olhos,
Sem que aquelas alcachofras floresçam,
Num campo verde e vivo, sob um
Sol, pingando-me, azedo, sumo de laranja,
No copo do vazio absoluto, sentada
Numa tasca imunda, à espera do Nada.

Violeta Teixeira, PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 07/05 às 03:04 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Domingo, 04 Maio, 2008

SER/FICÇÃO

http://www.southalabama.edu/.../sitegraphics/drama.jpg

O que mais a assusta, contudo, são os olhos, o que
Vê dentro deles, no espelho, sem moldura, da manhã.

São pássaros moribundos, insectos, búzios
Estilhaçados, pedras e seixos vermelhos, limos
E lágrimas escorrentes, rostos de faunos, com musgos
Verdes, nos cabelos, asas atadas com ferro velho,
Areias sujas de mazute, recebendo nas faces vagas
Ferozes, de mares bravos, capazes de rasurar todas
As pegadas e todas as ilhas do amor, despovoadas.

Como se lhe avermelham, os olhos!
Compósitas. Insólitas, as imagens.

Mas, hoje, cedo demais, para se ver, vendo,
Surge-lhe, do fundo do espelho do tempo,
A imagem daquela outra -ela- mesma, algures,
Desaparecida da sua geografia, não sabe quando.

Fixa-lhe os olhos nos olhos, verdes- água, os da outra,
Censores, embora belos, como se lhe quisesse dizer da
Perda irreversível, da separação, da dor e da caminhada,
Sem êxito, que dela fizera uma personagem, talvez
Apenas uma máscara, sem possível viagem de regresso.

Esmagada da verdade dura daqueles olhos, tão nos
Longes da ternura que tivera, estilhaça espelho
E máscara e personagem, com raivas rutilantes
De uma Hera, contrariada nos seus desígnios.

Mas, ao se ver nua, de fora daqueles olhos do ser que fora,
Não se é. Suplica, desvairada, que se lhe devolva a invenção.
O ser- ficção que se fez . Logo, que se é, diz,
Incessantemente. Ouve-se, agora, em off, a sua voz.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 04/05 às 05:16 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sábado, 03 Maio, 2008

ABRAÇO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora.Olhares.com

Concedam-me
Um imprevisível
Abraço.
De âmbar!

Invadam-me os limites
Do ilícito!

Naveguem-me
Contra a direcção
Ortodoxa!

Inflamem-me
De marés pagãs!

Fascinam-me
Os desvios
Da poética
E todos os rios
Do corpo.

Por que se não
Consentem
Respirar o sopro
Da subversão?

Moral e ética, na arte,
São enjoos
De mar.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 03/05 às 07:07 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sexta-feira, 02 Maio, 2008

LE TEMPS

Registo fotográfico de Violeta Teixeira

Que le temps coule lourd sur
Les épaules faibles de ma vie !
J’ai beau remonter au passé,
En quête d’un arbre vert, aux
Fleurs parfumées, d’une odeur
Fraîche ou chaude. Rien de vivant
À ramasser ! Sauf des pétales
Pâles et secs. Mes rêves ?
Où son-ils les rêves que j’ai faits,
Au Printemps ? Je les trouve,
En effet, mais étranglés par les
Mains d’un monstre, aux yeux
Grands e rouges. Effrayants !
Quel dédale de pierres enragées !
Quel climat froid e sombre !
Qui m’a coupé les pieds pour
M’empêcher maintenant, de faire
Un pas, au moins, vers le bord
De la mer qui hurle, très loin de
Ma vue aveugle ?  Le temps,
Je le sais, coulera, quand même,
Aussi bien que la Terre. Je n’ai
D’autre à faire que de me mettre
Fin, et de combler de sang
Le ventre vide de ce poème.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 02/05 às 12:11 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quinta-feira, 01 Maio, 2008

A ARTE

Trabalho fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-OLhares-com

A arte? Tantas expressões de Arte!
Definições? Servem para quê? Tantas!
Vagas e vazias! Façam-se imitações!
Plágios! Colagens, sem margens! Julgue-se
Artista, acasalando versos de outrem!
Pese-se cada sema que se casa, sem tecto,
Sem afecto! Segure-se ao racionalismo,
Simulando o que se não sente! E se, coincide
Com algo vivido, fique-se, à borda do rio.
Mire-se, narcísico, e delicie-se com a imagem
Reflectida! Escreva-se, pensando em cada
Sema! Mas o poético esquiva-se, e bem,
Ao que vem do pensamento. A arte, qualquer
Que seja, vem, sem que se esteja consciente.
Vem do fundo dos infernos, do vazio, do
Silêncio! A arte é o silêncio eloquente
Do indizível, feito poema, fotografia,
Pintura, escultura, e não se pense na medida
Do verso, no ângulo perfeito da foto,
No bronze, no ferro, no mármore,
No lixo reciclado, no azul-cobalto
Do barroco, por exemplo. Esqueça-se
Da norma que já se soube, porque
Arte é transgressão, desvio, perversão.
Mire-se nas águas de um rio, mas figure-se,
Na foz do frio. A arte, essa, se o é, de facto,
Não vai consigo. Prossiga a sua escrita!
Faça as fotos, segundo as normas! Escolha
O mármore mais célebre! O bronze ou o ferro!
Finja que sente o que julga que deve e sente,
Vindo directo do espaço consciente.
Considere-se exímio artista! Imagine louros!
A si, digo-lhe que sou os infernos do inconsciente!
Sou o vazio pleno de sentido, talvez.
Não sou eu quem lê, quem vê, quem sente.
Sou a voz, a cor, a textura do que quer
Que faça. Ritmo poético, ângulo, enquadramento,
Acontecem-me, sem o uso do pensamento. Não me
Peçam materiais esculturais concretos, tonalidades
Cromáticas ditas reais! Não! Não sei! Não sei
O que seja a realidade! Creio, firmemente, que sou
Uma personagem de ficção. Os dedos tudo fazem,
Sem mim. E, mesmo assim sendo, não me inibo
De vos dizer que sou artista, a voz dorida
Do inferno do inconsciente. Tão-somente!
E, se não achais que faço arte, é-me indiferente.
Não espero, nem creio na eternidade do nada.

Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 01/05 às 12:49 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quarta-feira, 30 Abril, 2008

EN HOMENAJE A FERNANDO PESSOA

Sigo uno hombre vestido
De negro, sutilmente ridículo.
Cuando de él mi acerco,
El evaporase en le espacio,
Dejando uno rastro
De fumo grisáceo
Y en el solo, unas lunetas
Dentro de uno bolsillo,
Con olor de opio
Y de aguardiente,

Pienso que el evaporase
Pera non ser apañado
«en flagrante de litro»
Y pera no ser obligado
A confesar que la dosis
De opio que tiene en el bolsillo
Ha sido Álvaro de Campos
Quien ha traído,
De la suya viaje al Oriente.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 30/04 às 01:37 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quarta-feira, 23 Abril, 2008

SE CAMINHOS HÁ

Imagem ilustrativa de Raphael Veronese -«Caminhos»

Se caminhos há, não vejo pegadas
De quem os tenha percorrido. A brisa
Tê-los-á rasurado? Ou as vagas marítimas,
Nas areias? Terei os olhos cegos? Nunca
Dei um passo em caminhada alguma?
Raiz tenaz enterrada na profundeza da terra,
Jamais lavrada? Mas tronco cortado, cerce,
Sob os olhos da Lua? Abertos? Velados
Por nuvens cinzentas ou negras, no cimo
De um céu deserto, sem astros luzentes?

Se caminhos há, alguém os terá percorrido,
Sem deixar marcas, sem deixar vestígios do
Haver caminhado? Ou terá ocultado, a cada
Passo dado, no espaço, aparentemente, alisado,
Pelo desconhecido. Egoísmo feroz! Correrá
Algum lençol de água, roendo a raiz? Apodrecida
Na mente de quem se crê que sangue alaga
A lava de veias inexistentes? Mas, lucidamente,
Louca, as alimenta de nada. Também se vive
De ilusórias inverdades. Também se vive,
Se viver existe, dentro de um ser que se
Não move, salvo na saga do se escreve, sem
Se escrever, sem se dizer da morte antecipada.

Se caminhos há, pegadas foram deixadas, nas
Manchas gráficas do corpo de poemas nunca lidos,
Por mentes amorfas ou adormecidas. Incultas, talvez.
Dou, porém, humildemente, o benefício da dúvida.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 23/04 às 01:24 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Terça-feira, 22 Abril, 2008

CORPO DE FÊMEA IMPOSSUÍDO

Registo fotográfico de Guilherme Santos- Olhares.com.


Vibram-me,
Estilhaçam-se-me,
Caem, em lascas luzidas,
Todos os vidros
Da morada dos sentidos,
Erguida na borda
Do abismo

Da demência
Lúcida e lisa, onde me
Abrigo dos
Desvarios do coração,
Que me
Não pulsa.

Senão
Na escrita que me molda,
Me cinzela e me
Esculpe
Este corpo de
Fêmea.

Entrego - o,
Puro e sem pudor, aos
Braços fictícios
Dos que me vão sondando
E descascando
E fantasiando o êxtase
Da
Posse.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 22/04 às 06:02 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Segunda-feira, 21 Abril, 2008

PACTO

Registo fotográfico de DDIARTE-Olhares.com

O crepúsculo toma tintas
De letargia amena,
Nas vidraças,
Que dão para as lagunas
Do desassossego
De penas migrantes.

Mergulha os olhos
Nos juncais, alagados
De um desespero
Esbracejante.

Rasga-se as vestes,
De seda,
Tingidas de vermelho,
Descalça-se,
Com gestos esfarelados
De cansaço,

E apressa-se a cumprir
O pacto celebrado,
Na cerimónia solene
Do pórtico branco.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 01:07 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sexta-feira, 18 Abril, 2008

ABISMO NO SEIO DO DISCURSO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com e fotogenico.net

Abriu-se-me, súbito
E abrupto, um
Abismo no seio
Do discurso.

Crepúsculo cínzeo
De signos.
Ruído de parafusos
Oblíquos.
Escombros.
Desperdícios.

Violeta Teixeira, inédito (ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 18/04 às 05:32 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quinta-feira, 17 Abril, 2008

NÃO SEI SE…

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com e fotogenico.net

São vozes? Vozes velozes! Ou asas de albatrozes,
Contra mastros? Asas ébrias de maresias e de escamas,
No dorso das vagas do oceano das euforias induzidas,
Por especiarias das índias engolidas pela justiça
Da História? Sons, ecos secos, sibilantes, sílabas
De disfunções cognitivas, mórbidas. Frias. Ferem-me
A derme, a epiderme. Os ossos são rendilhados
Por dedos ineptos do tempo. Estilhaçam. Caem
Em lascas finas, no lajedo gélido do cepticismo,
E a brisa sádica fá-las penas de aves, esvoaçantes,
No pátio, que daria para saídas, se o portão do tudo
É possível, se abrisse aos caprichos insanos de uma
Mente embriagada, incrivelmente, lúcida.
Mas não! Invisível, um cérebro puro, varre
O lixo do inexorável, e senta-se, sereno, no sofá,
Rindo, às gargalhadas, da cena encenada,
Por um ser que se crê invencível. Não!
São vozes conhecidas! Abrem de par em par
O portão cerrado. É um corpo de bailado,
Sem orquestra, sem maestro, sem, ao menos,
Um piano a quatro mãos. No entanto, delicio-me.
Todo o mundo se fez luz. Adormeço, abraçada
À almofada, como se fora o corpo esbelto
De quem amo. Como se tivesse feito amor.
Não sei, porém, se adormecerei para o sempre.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 17/04 às 02:25 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quarta-feira, 16 Abril, 2008

FIZEMO-LO…

Registo fotográfico de jomagope-«Sentires de um Sentir» (fotosite)

Fizemo-lo.
Navegámos…

Navegámos nas
Nossas águas revoltas
De «Eros» e de «Thánatos».

Fizemo-lo, sem rota
Traçada à «l’avance».

Embarcámos…
Puros humanos
Que nos somos!

Modo não achámos
De nos sentarmos,
Sensatos, numa
Imóvel jangada,
Contemplando, à distância,
Penhascos ornados
De belos cachos de cactos,
Amantes-estetas
Como confessamos sê-lo.

Fizemo-lo.
Atraquemos os nossos
Barcos, no cais do tempo
Pretérito, com orgasmos
Dentro: segredos
Sacro-profanos.

Sem sentimentos
De culpa, miremos, aqui,
No fundo do poema,
O Belo dulcíssimo dos
Bosques marinhos!

Poema inédito (ARKIPÉLAGOS EROTICÓS)

Publicado por Violeta Teixeira em 16/04 às 05:16 PM
Categoria • Poesia • (2) Comentários

Terça-feira, 15 Abril, 2008

SUBLIME, O SILÊNCIO

Registo fotográfico de Lucien Clergue

Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
O céu, flocos de neve, sobre o flanco
De uma montanha, e, nos longes, desmaios
De azuis-cobalto, ferem as veias das vagas
Do oceano revolto do sem retorno. Estanco
A hemorragia do poente, e aperto o pulso,
Que não pulsa, salvo se águas murmuram
Sonatas telúricas, e os olhos, ressuscitam
Moinhos de vento, moendo grãos de centeio,
Perfumados, como o pão, no forno do me
Recordo. Sublime, o silêncio, tecido nos teares
Lunares, quando a madrugada esmaga fantasmas
De nada, e veste de veludo verde o cimo
Dos penhascos das emoções veladas. Sublime,
O silêncio, na ponte que atravesso, sobre o rio
Que fluí, silente e manso, no reverso da medalha
Que moldo, acobreada, por lumes que acendo,
Com acentos agudos; por labaredas que sopro,
Com lábios rubros, nas brasas desesperadas
Do fluxo incontido do tempo. Sublime, o silêncio,
De um branco árctico, emudecida a voz do infinito,
E o grito inaudível do coração das pedras, à borda
Do abismo. Rendilho, em vão, os pespontos de todos
Os equívocos, de todos os sonhos decepados,
De todos os amores atraiçoados, de todas as promessas
Incumpridas, de todos os juramentos falsos.
Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
Nenhuma voz confessa, arrependida, as feridas
Feitas na pele dos dias invividos. Nenhum gesto de afecto,
Ainda que tardio e inútil. Nenhum aceno. O Universo
Gélido continua a girar impávido. Sereno. A Lua,
Essa, esconde as faces, num novelo de nuvens cinzentas,
E simula o que já não sente. Do Sol, não falo. Quando
Terei nascido, já ele estava morto, e, por mais que tivesse
Pedido, ninguém mo deu a beber na boca. Sublime,
Este silêncio, à borda do abismo. À borda do NADA.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 15/04 às 12:06 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Página 1 de 73 páginas  1 2 3 >  Último »