Poesia
Quinta-feira, 02 Setembro, 2010
DA ESCRITA. DA VIDA
Esmigalham-me os mitos, a magia
Dos signos móveis, do fantasmático
Da imaginação, o gosto feérico dos lumes
Vermelhos, nos olhos dos astros, a mania
Do requinte esquisido das imagens, do rebuscado
Raffiné das metáforas desmesuradas, das
Antíteses hiperbólicas, do oximoro, da ambivalência
Dos meus Egos ramificados, em floração explosiva,
Da arrumação concertada e desconcertante
Das múltiplas vozes que me não conhecem, mas me
Abordam nas esquinas mais escusas dos poemas.
E me arrastam, compulsivas, pelos bas-fonds
Da depravação anilada de componentes
Aceitáveis, agradáveis, irresistivas,
Como cerejas ou morangos, sementes de papoulas
Vermelhas ou «charros» de cannabis, com chocolate
De avelãs nos lábios, cognac nos mamilos, ou sangues
Escorrentes nas pernas que se oferecem,
Lascivas, nos passeios libérrimos da escrita.
Pernas beijadas com furores loucos e mansos,
Na borda das crateras das luas cheias,
Para júbilo dos sóis, amanhecidos em charcos
De sémen ou em farrapos brancos de nuvens.
Tudo se me esmigalham os predadores do sonho,
Da volúpia, da violência, da seiva, do sangue.
Da errância alternativa da escrita.
Da vida.
Violeta Teixeira, inédito?
http://www.youtube.com/watch?v=TszJoHwPetg&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 02/09 às 01:35 PM
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Sábado, 28 Agosto, 2010
LA GORGE DU TEMPS
By Michael J. Austin
Les rives rouges et cuivrées
Sont des braises, au fond de mes
Yeux. Je m’assieds, tout en
Remplissant de terre la paume
De mes mains. Les eaux du fleuve
Coulent. Coulent, sans cesse.
Coulent vers l’océan du froid,
Dont je fais semblant de n’y pas penser,
Mais, hâtées, les braises s’effacent.
Et, au fond de mes yeux le vent épand
Des cendres, dans la gorge du temps.
Violeta Teixeira, inédito
ttp://video.google.com/videoplay?docid=-8274121260876748807#docid=6952560015073304904
Publicado por Violeta Teixeira em 28/08 às 06:37 PM
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Sexta-feira, 27 Agosto, 2010
ADORMECE!
versosencinados.blogspot.com
Adormece! A morte abre a porta. Deixa-la entrar!
Sentar-se-á. Olhar-te-á. Que importa! Dormes.
Dormes. Serena, como a boneca de porcelana,
Despenteada. Pernas quebradas, mas a abraças,
E sonhas a criança. Essa mesma! Abraça-a!
A morte, tenta acordar-te. Átropos prepara-se
Para cortar a trama tecida. Dorme! O corte é doce.
Acordarás outra. Orquídea roxa. Pedra granítica.
Música nas veias de fontes, antes, secas. Dorme!
Abraça a boneca de porcelana! Essa mesma!
A da criança! A sepultada, no poema. Eterna!
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=Zi8vJ_lMxQI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=k1-TrAvp_xs&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 27/08 às 05:51 PM
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Quinta-feira, 26 Agosto, 2010
NÂO SEI DIZER QUEM ME SOU
By John Carroll Doyle
Não me sei dizer se sou eu ainda,
Se ainda existo. Talvez no lodo
Esverdeado das palavras. Talvez
Nas cinzas do fogo de uma sílaba.
Talvez nas valas da sintaxe. Talvez
Em fonemas mudos ou adormecidos
Nas folhas secas, onde nem poisam
Pássaros. O Sol, esse, parece cego.
Ou, cegos são os meus olhos doridos
Da queda, no beco emparedado
E sem saída, da iníqua exclusão.
Talvez nas cicatrizes da norma,
À qual nunca obedeço. Talvez.
Tavez na brasa do cigarro, sempre
Aceso, com festival de fumos.
Não encontro resposta na boca,
Magoada, na fluidez do sangue,
Escorrendo na garganta do tempo.
Nada me sai do silêncio frutificante.
Se ainda existo, falta-me o ar. Asfixio.
Falta-me a espuma branca do mar,
Que já me não alaga a nudez das
Pernas Inertes e frias. Teceria a trama
De um texto, lavraria uma nesga de terra,
Com versos de espigas de aveia e de pétulas
Belíssimas de papoulas opiáceas.
Desconheço, todavia, se me sou ainda.
O poema guarda o segredo dessa voz,
No seu trajecto, em direcção à foz, porque,
Para nós, bichos da terra, nunca há recomeço.
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=IA6q6BCAyFY&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 26/08 às 04:36 AM
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Terça-feira, 24 Agosto, 2010
A LINGUAGEM ME FICCIONOU
A LINGUAGEM ME FICCIONOU
A linguagem de tal modo me ficcionou,
Com pólen de astros e fios de teias orvalhadas
De cristais azulinos, que, se existo, sou uma
Personagem de ficção. A vida! A vida!
A vida, uma intriga ainda não fechada, porque
A protagonista, que me sou, persiste em tecer-se
E em destecer-se, sem personagens-outras.
Sendo várias, representa as mais diversas,
Sempre sinceras no fingimento, mas sempre
Desconhecidas e rivais de si - mesmas, excluídas
Das margens inconscientes dos poemas.
Violeta Teixeira, inédito
WillyRonis
http://www.youtube.com/watch?v=sNBziC49LOg&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 24/08 às 04:36 AM
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Segunda-feira, 14 Junho, 2010
PEDRAS COM ARESTAS…
http://files.myopera.com/IzaMota/blog/Nas%20asas%20da%20poesia.jpg
Pedras com arestas afiladas, e fissuras,
Onde pingam gotas de águas ácidas,
São, sobretudo, a matéria-prima da poeta,
Que me sou. Além de um silêncio frio,
Vazio, buscando, em vão, pleno sentido
Para o sem sentido da vida, passando,
Como sombras obscuras, invisíveis,
Doridas, por entre os dedos. Como justifico,
Então, Malgré tout celà, este fascínio inglório
Pelo acasalamento de fonemas, morfemas,
Lexemas? Como olhar o Outro, inexistente,
E grafá-lo, nas artérias túmidas dos poemas?
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=laWOBCnAwFM
Publicado por Violeta Teixeira em 14/06 às 09:56 PM
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Domingo, 13 Junho, 2010
ANTES DE OUVIR O APELO LONGÍNQUO…
http://www.rakelpossi.com/archivos/image/rosas_vermelhas_com_orvalho.jpg
Antes de ouvir o apelo longínquo
Do mar e de sentir o bater brusco
Das vagas contra ilhas minúsculas,
Como quilhas de barcos destroçados,
Busco uma aurora ébria nos olhos
De um veado, vagueando num prado,
Um voo quebrado de um pato bravo,
No rebordo de um lago gelado, onde
O todo retorna ao nada e ao mesmo todo,
Num silêncio mudo, de mármore frio
Ou de xisto luzente, num riacho, sem água.
Antes de sentir o bater urgente de porta
Alguma contra o rosto do tempo algemado
Num pêndulo, algures, no Universo de astros
Mortos, pendurados e suspensos por um fio
De nada, busco um fogo, uma faúlha fátua,
E, finalmente, todas as cinzas de uma ferida.
Lancem-mas às vagas, com rosas vermelhas!
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=jqkMbk8eX6Y
Publicado por Violeta Teixeira em 13/06 às 08:56 PM
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Quinta-feira, 03 Junho, 2010
MON REGARD VORACE
Amedeo Modigliani
http://i76.photobucket.com/albums/j5/CampSD/modigliani_Jeanne.jpg
Mon regard vorace,
Cet après midi-là,
Dévora l’espace
Où, il y a des siècles,
Je fais, aveugle,
La descente aux enfers.
Les dépouilles de cette
Après midi-là, je les ai gardées,
Dans une poche accessible
À l’avidité de mes mains vides.
Violeta Teixeira, inédit
http://www.youtube.com/watch?v=2X2P4VfKjUI
Publicado por Violeta Teixeira em 03/06 às 04:12 PM
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Domingo, 30 Maio, 2010
FALO-VOS DE UM FESTIM
http://www.storm-magazine.com/.../pessanh6%5B1%5D.jpg
Falo-vos de um festim
De aromas genuínos,
Com centenas
De belíssimas e brancas
Papoilas opiáceas,
Colhidas, candidamente,
Numa noite esbranquiçada
Por um luar de leite.
Não fossem estes
Aromas genuínos,
Como saborearíamos
Os Baudelaire,
Os Rimbaud,
Os Pessanha
Ou os Walt Whitman?
Não fossem
Os sofisticados
Aromas opiáceos
Como suportaríamos
A náusea deste
Hospício de alienados?
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, Leiria, 1999
http://www.youtube.com/watch?v=gVSWgyywZXw&NR=1
http://www.dailymotion.com/video/xb2ml8_leo-ferre-spleen_music
Publicado por Violeta Teixeira em 30/05 às 09:26 PM
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Quarta-feira, 19 Maio, 2010
ME VOICI, ICI, ÉCRASÉE
http://www.novomilenio.inf.br/santos/calixto/calixt188f.jpg
Me voici, ici, écrasée
Par le poids de l’insolite,
Devant l’image
De mon visage.
Comment déchiffrer
Le mystère
De deux oiseaux
Moribonds
Dans mes yeux
Épouvantés ?
Comment déchiffrer
Le sens de ces fils de sang,
Tout en coulant, sans cesse,
Du bout de mes doigts ?
Violeta Teixeira, inédit
http://www.youtube.com/watch?v=Zi8vJ_lMxQI
Publicado por Violeta Teixeira em 19/05 às 04:44 PM
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Domingo, 16 Maio, 2010
DÁ-MOS, AOS LÁBIOS…
carmenneves.prosaeverso.net/visualizar.php?id..
Dá-mos, aos lábios, molhados de Malvazia
Boal, Mascara ou Moscatel. Embriaga-me!
Aromatiza os beijos de ervas: poejo, orégão,
Manjerona, salva, hortelã. Condimenta-os
De gengibre, açafrão, noz-moscada. Saliva-me!
Polvilha-me toda de canela! Navega-me!
Desagua -me na boca! Atenta! Não tarda
Fulgura a Lua. E o céu é um rebanho de astros,
A loirado e cúmplice. Naufraga-me nas tuas
Seivas exóticas! Retira esse véu de todas
As normas e princípios hipócritas! Saudemos
Esta posse dita ilícita! Beija-me, de novo!
Deixa-me ser tua! A única. Que seja uma
Só vez! Estrangula-me, docemente, depois!
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=PEWcxrXLTiA&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 16/05 às 04:39 PM
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Segunda-feira, 10 Maio, 2010
SIGO O CAMINHO DEFINITIVO…
http://farm3.static.flickr.com/2799/4268608827_be01538f23.jpg
Levam-me, sem êxito, ao sono as aves
Das árvores dos passeios públicos.
São andorinhas no beiral da vizinha.
São melros a debicar sementes de luz.
Cânticos! Invenção de poetas românticos.
Mas alertas ao bando disperso. O soar
De sinos, a rebate, que me rendilham
Os nervos de uma neurose, sem ninhos
No meu beiral. Sem uma recordação real
De ter ouvido gorjeios eufóricos, de haver sido,
De haver vivido. Fiquem as aves a fazer ninhos,
A debicar sementes de luz! Sigo o caminho
Decisivo e definitivo, sem dizer um adeus,
A não ser neste escrito ferozmente lúcido.
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=XoHhvZvfTpY
Publicado por Violeta Teixeira em 10/05 às 12:18 AM
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Quarta-feira, 28 Abril, 2010
NÃO SEI…
Julio Romero de Torres (Córdoba 1879 - 1930)
http://www.jdiezarnal.com/pintura/julioromeroofrenda01.jpg
NÃO SEI…
Não sei
Se me estou onde estou.
Não sei
Se sou o eu
Que me desteço, no desassossego
Do
Centro
Do tudo sabe
Ao me não saber a nada.
Se a luz
Me toca, me roça, me força,
Sem a ver,
A me situar ao
Centro
Do já me não teço,
Enrosco-me
No casulo
Do me não existo,
Do, logo, me não sou.
Como
Me digo
Do não onde
Me
Não digo?
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=Jev_UVxw1mA
Publicado por Violeta Teixeira em 28/04 às 12:37 AM
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Domingo, 25 Abril, 2010
O SACERDOTE DA ARTE
Tela da autoria de Álvaro Almaguer (Almer)
El Hijo Prodigo - 2001
Óleo s/Tela 70x50
http://www.guilhim.com/autores/Almer_1.html
Passa, o oficiante,
O dorso da mão,
Pelo pó do tempo.
Convulsão cósmica,
De astros, sacode a trama
Das suas crenças.
A mítica aranha, em vão,
Enrijece as babas
Da Fortuna.
Em vão,
Implora o belo deus,
De longos cabelos
Negros, azulados,
De reflexos como
Pétalas de violeta.
Suprema, a água segue o seu
Trânsito silente.
Inelutável.
Só o sacerdote da arte
Investe contra
O absurdo do discurso linear.
Do curso finito.
Pinta, no santuário de Apolo,
O delírio místico do silêncio vário
Das cores.
Religa-se,
EM ESTADO
DE
ESNART,
Aos ritos transcendentes
E eternos do sacrifício.
Da estese.
Violeta Teixeira, in Catálogo da exposição do pintor cubano Álvaro Almaguer (Almer),
realizada de 6 a 30 de Julho de 2000, na Câmara Municipal da Amadora
Publicado por Violeta Teixeira em 25/04 às 10:21 PM
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Quinta-feira, 22 Abril, 2010
ACEITO O TUDO E O NADA
Registo fotográfico de er…
http://olhares.aeiou.pt/triste_foto3097541.html
Olhos baços, lagrimando chuva
Acídula, regresso, ressuscitada,
À cama, sobre a colcha de linho bordada,
Desabrochando pétalas de jacarandás.
De um cálice violáceo, brota, num ápice,
Um poema, ainda enlaçado à placenta, por
Um cordão crochetado de sangue vívido.
Não. Não to envio. Deixemo-lo, pretérito,
Neste arquivo morto, criando bolor e cogumelos
Roxos. Não nego, contudo, que vou visitá-lo,
Por mais absurdo que pareça, e, a alquímica
Que me sou, fá-los-á brancos e benéficos.
Não renego o sucedido. Assumo-o, sem sentimentos
De culpa. Sem moscas no rosto do absurdo. Não
Tricoto a ilusão do sermos perfeitos. Aceito o tudo
E o nada. Aceito os puros humanos que somos.
Violeta Teixeira, inédito
http://www.youtube.com/watch?v=gxNxvpf__0E&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=_w-8-8-YTCI&feature=related
Publicado por Violeta Teixeira em 22/04 às 01:50 PM
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