Poesia

Terça-feira, 16 Março, 2010

O INVERNO VEIO…

Pablo Picasso

http://www.allposters.com/-st/Fine-Art-Posters_c1013_p5_.htm

O Inverno veio enevoado, no dentro
Dos olhos líquidos Veio, esperado, desde sempre,
Mas recusado, com sentido, no ventre aceso do corpo.
Veio. Concedo. Concedo a contra gosto Veio,
No miolo duro do racional. Não, contudo, no ser
Emocional, que me sou. Não, na vulva ardente,
Desaguando fluxos de sangue, e sémen do outro.
Veio, com alvoroço absurdo, porque o sopro do vento,
Me batendo no telhado intacto, traz-me o sémen
De Apolo, e não me expulsa do templo de Vénus,
Onde presto culto, e me não pergunto porque, vindo
O Inverno, o faço, coroando-a de rosas e de mirto.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 16/03 às 03:05 AM
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Domingo, 14 Março, 2010

NO DEPOIS…

Escultura da autoria de Maribel Santos (artista plástica)

http://olhares.aeiou.pt/interiolhar_foto3529061.html

No depois,
Sobre o teu sexo,
Carícias cálidas,
A mão molhada,
Um búzio róseo
A marulhar.
Sabe-me a sémen
De Apolo.
Sabe-me a pólen
De luar.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 14/03 às 07:26 PM
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Sábado, 13 Março, 2010

DESCE, REINCIDENTE…

Stephen Hender

http://www.allposters.com/-st/Black-and-White-Photography-Posters_c6127_p4_.htm

Desce, reincidente,
Todos os lanços que a levam,
Parece-lhe, ao tempo
Verde-verde e tenro
Do se não lembra,
No hoje.

Embalde, insiste, obsessiva,
Na descida ao tão longe
Da vista enevoada
Do hoje.

Encontra, apenas,
No tempo do se recorda,
Uma garota, como a fêmea
Do sempre,
Solitária e triste.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 13/03 às 10:06 PM
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Sexta-feira, 12 Março, 2010

O MEU CORPO É…

Pamela Hanson

http://www.allposters.com/-st/Figurative-Photography-Posters_c58281_.htm

O meu corpo
É
Todo um oceano
Revolto
E
Louco.

Nos portos,
No
Entanto,
Nenhum barco
Ancorado.

Por que mo
Não navegas? Por que
Não lanças
A âncora
Do teu barco,
Em todos os portos?

Fá-lo!
Escolhe, como entrada
Da navegação,
A descoberta da
Boca
De uma vaga
Brava.

Ei-la! Aberta.
O que espera
O teu aprumado barco,
Para
Navegá-la?

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 12/03 às 10:43 PM
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Terça-feira, 09 Março, 2010

SOBE SÓ A RAMPA DA IDADE

Registo fotográfico da autoria de Violeta Teixeira/Pandora

http://olhares.aeiou.pt/a_mitica_femina_pandora_louca_desejo_do_no_foto3520050.html

Sobe só a rampa da idade que não tem,
Segura do que, lúcida, simula, estacando
O sangue da verdade, laqueando as veias
Da tempestade do tempo, limpando as lágrimas
Que chora para o dentro do vaso da vanidade
De todo o esforço, para o fingimento se fazer,
De facto, a realidade mais limpidamente pura.

Sobe. Sobe. Sobe a rampa da idade que não
Tem. Sobe segura do saber ser-se um ser só,
E, somente, a sós, se vai morrendo, sentada num
Canapé «handicapé», absorvendo o veneno
Do silêncio, injectado nas nádegas do Nada.

Violeta Teixeira, inédito (VASO DE VAZIOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 09/03 às 02:05 AM
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Segunda-feira, 01 Março, 2010

DESNUDA-SE

Trabalho fotográfico da autoria de Violeta Teixeira/Pandora

http://olhares.aeiou.pt/desnuda-se_no_foto3498132.html

Desnuda-se, com vagares mornos,
De Outono, sob um céu de um branco
Gélido. Cubram-me todo o corpo,
Tombado no solo, exposto ao esquecimento
Iníquo! O tempo! O tempo não tomba!
Passa por nós! A nossa sombra! Tombam
Pássaros, árvores, phallós… Tomba tudo
O que se ama. E a mágoa cresce. Cresce
Nas longas noites geladas, no forro íntimo
Do silêncio amargo. E corta, cerce, as raízes…
Todas as raízes, sem remorsos dos derrotados
Infelizes, contemplando, com júbilo, o gozo
Dos outros, plantados no regaço aveludado,
Do calor de um abraço, num barco ancorado.

Desnuda-se, com vagares mornos de Outono.
Cubram-me todas essas folhas! Cubram-me
Todo o corpo! Não se esqueçam das pedras!

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 11:29 PM
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Domingo, 28 Fevereiro, 2010

LEVO-ME PARA OS LENÇÓIS DO FRIO

Trabalho fotográfico da autoria de Paulo Faria

http://olhares.aeiou.pt/peitos_de_pedra_paulo_faria_foto3461376.html

Levo-me para os lençóis do frio,
Passos descalços e espectrais,
Quando os pássaros soletram
Supostas notas musicais, sem maestro,
As quais rendilham-me os nervos,
Com fios que me ferem. Aliás,
Se despertos são, ter-se-ão
Entregues ao sono, num qualquer
Galho macio, o que não creio,
Porque os pássaros não dormem,
Como não dormem as pedras.

Levo-me para os lençóis do frio,
Mas, se cantos entoam os pássaros,
Não me aquecem, pois, gélido o corpo,
Logo, me naufrago, nas trevas.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 01:59 AM
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Quinta-feira, 18 Fevereiro, 2010

A NOITE TOMBA-ME…

Manuel Alvarez Bravo
Fotografo Mexicano
1902-2002

http://www.ocaiw.com/galleria_maestri/?lang=pt

A noite tomba-me sobre o coração dos dias.
Toneladas de pedras esmagam-me,
Embora a sentença me tivesse sido ditada,
Desde o ventre da primeira alvorada celular.
Todavia, o brilho solar cegou-me os olhos
Da evidência, durante o longo tempo do pulsar
Das gotas de águas fluentes. No agora,
Julgo que não há modo de negar a ficção
Das palavras, nem de tomar o rumo de uma fonte,
Onde lavar o rosto da luta, as mãos da terra e da lama,
Do orgulho dos passos seguros da caminhada.

Mesmo esmagada por toneladas de pedras,
A poeta, paradoxalmente, de súbito, renasce, pisando
As uvas das palavras, afagando os seios, como se foram
De seda. Surpresa, A vulva se acende, e, dela, um poema
Se faz voz, se faz grito, se faz orgasmo de cratera vermelha.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 18/02 às 02:11 AM
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Quarta-feira, 17 Fevereiro, 2010

SOU…

Trabalho fotográfico da autoria de lúcio caldeira

http://olhares.aeiou.pt/enamorado_foto3463653.html

Sou, invariavemente,
A que não soube ser,
Salvo o nada que me sou.

Dos longes
Da vida, nada possuo
Que tenha semeado.
No agora, só tenho,
Em mim, o que não tenho,
E uma ânsia
Incontida de um abraço.

Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, Leiria, 1999

Publicado por Violeta Teixeira em 17/02 às 02:23 PM
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Sábado, 13 Fevereiro, 2010

GESTOS? SINAIS?

http://www.juonline.com.br/arquivos/galeria_imagem/thumb_g_1236191872.jpg

Gestos? Sinais? Barco encalhado nos areais.
Faróis? Apagados. Navegamos no mesmo barco?
E os naufragados? Os destroçados?
Os barcos a mais nos oceanos inavegados?
Interrogo os astros. Faço gestos. Lanço sinais.
Mas… Sou um barco a mais. Um fracassado.
Navegamos todos no mesmo barco? Ingénuo
Argumento dos argonautas crentes no jamais
Somos sós!Afundado o barco. Expulso dos areais.
Gestos? Sinais? Faróis? Tudo jaz no fundo
Dos fundos. Para todo o sempre, sem retorno
A algum cais.Que monólogo, este! Absurdo e nulo,
Como tudo. Mundo que temos, sem portos de abrigo.
Sem um gesto. Sem uma voz. Sem um farol aceso.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 13/02 às 11:24 PM
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Quinta-feira, 11 Fevereiro, 2010

ANALISA-SE

«Sem definição concreta.»
Registo fotográfico da autoria de Catarina

http://olhares.aeiou.pt/sem_definicao_concreta_foto3395055.html

Foto do mês - Janeiro
Catarina Alexandra Rosa Melo, com a sua fotografia intitulada “Sem definição concreta”, foi premiada como Foto do Mês de Janeiro de 2010.
Nascida em 1993, Catarina reside em Terra chã (Angra do Heroísmo, Açores) e é actualmente estudante do 11º ano de Artes, na Escola Básica e Secundária Tomás de Borba.
Além da Fotografia, Catarina possui outras paixões, como o violino ou a dança. Veja outros trabalhos da Catarina na sua galeria no Olhares.

Analisa-se. Mas não realiza
Se, de tão repetida, sendo, talvez,
Fictícia a versão, se fez verídica,
Irrefutável para si- mesma.

Terá sido derrubada a sebe,
Sempre débil, erguida entre
A clareira luzida e a morada
Das sombras movediças e, por
Certo, mórbidas? Não sabe.
Não tem acesso nem a um, nem
A outro desses crípticos recintos.

Analisa-se. Sofre de disfunção
Cognitiva? Quem lhe abre a porta desse
Inferno? Quem haverá que a salve,
Lavrando o seu chão de luz?

Violeta Teixeira, inédito (DÉDALO DE AFECTOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 11/02 às 12:53 AM
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Terça-feira, 09 Fevereiro, 2010

PARA ONDE ME LEVAM AS PALAVRAS?

Natasha por Nikolay Reznichenko

http://www.gehspace.com/poesias56a60.htm

Para onde me levam as palavras? Vento.
Chuva. Madrugada. Para onde mas levam?
Gotas grossas. Pesadas. Para onde me levam
As lágrimas? Onde desabrocham? Nas veias
Das pedras da calçada, com buracos fundos,
No coração, oculto pelas pegadas pesadas
Das minhas palavras?Vento. Chuva. Gotas grossas.
Marugada. Grainhas de uvas Violáceas e raízes
Apodrecidas, à mostra, nas páginas da gramática
Violada com raiva. Amarrotadas.Vento. Chuva.
Gotas grossas. Madrugada. Para onde me levam
As palavras? Para onde mas levam? As lágrimas,
Lavo-as, com a ponta de dedos doces, dedos, esses,
Que desconheço. Vento. Chuva. Madrugada.
Que me faço? Afasto-me, pianíssimo. A voz.
As vozes da artista rasuram todos os indícios do rumo
Erótico, que tinha traçado, sem êxito. E silencia-se.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 09/02 às 01:32 AM
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Sábado, 06 Fevereiro, 2010

ALGUMA VEZ ME FUI?

Elliott Erwitt

http://www.allposters.fr/-sp/Mains-de-femme-tenant-une-cigarette-Affiches_i1099855_.htm

Estou no aqui.
Vejo-me. Estou, também,
No ali. Não dei um passo.

Não sou, porém, no aqui.
Nem no ali. Não me sou
Em espaço algum,
Aquém ou além do me não sei
Se alguma vez me fui.

Violeta Teixeira, inédito (VASO DE VAZIOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 06/02 às 01:11 PM
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Quinta-feira, 04 Fevereiro, 2010

ALI. SÓ. SEMPRE.

http://www.allposters.fr/-sp/La-femme-de-l-artiste-Affiches_i118124_.htm

Obra pictórica da autoria de Egon Schiele

Ali. Só. Sempre.
Corpo que se dura, porque,
Se recusa a ser outra,
Outra diferente.

Ou está, para além do ali,
Só, orbitando, num
Firmamento fantasmático.

Desloco-me no aqui, mas não dou
Um passo. Não estou convosco.

Sabei que nasci cedo demais,
Num mundo tosco e grotesco,
De gente, sem asas voantes,
Conformados, como rãs ou sapos,
Nadando em tanques, sem água.

Digo-vos do meu desencanto.
Não tardo o último desafio
Que me lanço.

Digo-vos que entrego,
o meu corpo, isento de pudor.
Entrego a quem voe
Os meus delírios, a quem
Ame todos os desvios
Dos meus cursos de água,
A quem me mate o cio
Às crateras da Lua.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, Leiria, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 04/02 às 01:42 AM
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Segunda-feira, 01 Fevereiro, 2010

SÓ! INSONE!

Henri Matisse

Sérigraphie

http://www.allposters.fr/-sp/Nu-Couche-de-Dos-c-1944-Affiches_i339269_.htm

Noite. Negrume.
Um silêncio de cinzas
Veste-me as paredes
Das veias.

O Sol dorme, algures,
No sossego de um
Leito de sumaúma.

A Lua, essa, oculta
A face nos novelos
Dos alvéolos
Das suas mágoas.

Só. Insone.
Avivo
Faúlhas no ventre
Rosáceo de Vénus.

O sono é um cavalo,
À solta, num pasto de fogo.

Violeta Teixeira, inédito (ORGIAS DE ESQUECIMENTO

Publicado por Violeta Teixeira em 01/02 às 01:32 PM
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