Crónicas
Segunda-feira, 05 Novembro, 2007
BIODIVERSIDADE:LINCE IBÉRICO
Lince Ibérico (Lynx pardina Termminck)
PORTUGAL: BIODIVERSIDADE IV
Começarei por informar o leitor, amante da Natureza, como esta escrevente, autodidacta «verde», que me não será possível dedicar, aqui, um espaço a todas as 136 espécies em vias de extinção neste pedaço de terra hispânica. Terra, essa, entregue, politicamente, a uma «bicharada», sofrendo de iliteracia ecológica ( e não só neste domínio). Direi, tão- somente, que gostaria de fazê-lo, não apenas porque cumpriria um rito do culto que presto à Mãe- Natureza, como não sujaria as mãos na lixeira nauseabunda do poder central e do local.
Felizmente, no solo do meu monitor, o lince ibérico uiva um SOS Vida, e nenhuma personagem despótica, como se comportou a dama Isabel Damasceno, relativamente ao lobo ibérico, como o leitor bem se lembra, silenciou o seu apelo uivante. Ei-lo, por conseguinte, com belos bigodes e olhos hipnóticos, exibindo-se no cabeçalho deste escrito.
Que se sabe deste único grande mamífero endémico da Península Ibérica? ( quanto ao lince de outras paragens, é, segundo a União Internacional Da Conservação da Natureza, a espécie mais ameaçada). Nos anos 80 estimava-se a existência de apenas 50 indivíduos em território nacional, distribuído pelas áreas da Serra da Malcata, Vale do Sado, Contenda-Barrancos e serras do Algarve. Depois, porém, até há pouco tempo, este belo felídeo foi dado como extinguido em Portugal. Como? Por que motivos? Aqueles habitats naturais, de matagal mediterrâneo, foram destruídos pela plantação de espécies florestais não indígenas, como pinheiros e eucaliptos, e por incêndios, além da extinção, pelas mesmas causas, dos coelhos-bravos, o único alimento daquele felídeo. Com a destruição do ecossistema natural, ao qual sempre tinha estado habituado, o lince, apesar de faminto, não se adaptou, encontrando um recurso alimentar alternativo. Assim sendo, pagou caro a sua história evolutiva, que se traduzia numa elevada especialização em termos de habitat, o matagal mediterrâneo, como, acima, foi dito.
Recentemente, todavia, foi possível confirmar a existência daquela «jóia» da fauna ibérica, ainda que a procura tivesse sido idêntica à de uma agulha num palheiro. Como foi, então, possível aquela confirmação? Graças aos avanços tecnológicos no domínio da biologia molecular que permitem a identificação de uma espécie a partir do ADN extraído de amostras fecais, vários investigadores dedicaram-se à procura de excrementos do lince ibérico, numa determinada área de estudo, e, sem que tivessem visto o animal, não hesitaram, após a análise das referidas amostras, em gritar «Eureka!»
Confirmada que foi, deste modo, a existência do nosso felino, renasceu a esperança de que ainda se vai a tempo de salvaguardar uma das espécies, dada como extinta na biosfera lusa, a espécie, acrescente-se, mais emblemática do nosso património natural.
Mas, dado o desprezo a que é votado o Ambiente pelos nossos desgovenantes e do desconhecimento dos efeitos nefastos dos desequilíbrios ecológicos, pela maioria dos cidadãos, receio que esta espécie designada de lince ibérico, lobo Cercal, liberne ou gato cravo, pelos habitantes das áreas do seus habitats seculares, não volte a habitar serras e planícies deste esgarçado país, no qual a arte mais praticada é a do remendo. Sim! Amante de todas as espécies da flora e da fauna, e, muito especialmente, de felídeos, receio, repito, que o nosso belíssimo lince não venha a ser contemplado pelas gerações a vir.
SOS Vida do Lince Ibérico! Prossigam-se as investigações! Medidas urgentes precisam-se! Empenhemo-nos todos, e sem perda de tempo, em contribuir para a conservação, no nosso cofre natural, da «jóia» da fauna ibérica! Saia do nevoeiro denso e negro um iluminado ministro do Ambiente! «É a hora!»
Violeta Teixeira
Poetisa
Nota: envio duas imagens, na esperança de que uma delas tenha qualidade. Agradeço que me seja comunicado se nenhuma o tiver. Arranjarei outra.
Nota: crónica publicada no semanário TRIBUNA da Marinha Grande, há vários anos. Lamento, mas não indiquei a data no ficheiro, e procurar o recorte lavar-me-ia muito tempo.
Publicado por Violeta Teixeira em 05/11 às 01:30 PM
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Terça-feira, 11 Setembro, 2007
DA ( IN )TOLERÂNCIA
Foto da autoria de Hugo Tinoco-Olhares.com
DA ( IN )TOLERÂNCIA
O meu nascimento não foi planeado. Sou o fruto de um sonho genésico do progenitor e da complacência óbvia da sua companheira. Depois de ter visto os primeiros gorjeios de luz, fui colocada num berço, onde não havia deus algum. Nem alma. Nem biberões de pecados. Nem Céu. Nem Inferno.
Por que motivo começo este escrito pela génese da cidadã do cosmos que sou, como «cidadãos do cosmos», se diziam, já no século V a. C. Diógenes e Sócrates?
Faço-o, porque defendo que tudo quanto somos de essencial nasce no berço. Foi no berço, com efeito, que o meu progenitor me leu e releu a «bíblia» de uma moral cívica. Interrogava-me, com frequência, sobre o sentido dos inúmeros « versículos ». Bebia-a, àquela « bíblia», como bebia leite. Com o mesmo empenhamento. Considerava o meu progenitor que não era possível formar um cidadão digno, sem aqueles nutrientes. Com fesso que dele herdei esta nobilíssima educação.
Como é óbvio, aquela «bíblia» consagrava um sem número de princípios, entre os quais o da tolerância, o objecto temático deste escrito. Este, como o leitor pode supor, tendo em conta o que, acima, foi dito, era trazido à superfície de todas as sessões con- sagradas à cidadania e à história das religiões abraâmicas. Inteligente, culto e conhe- cedor da realidade social daquela época, o meu pai previa que o facto de ser, na ilha da Madeira, onde nasci, única em vários aspectos: pelo nome, por não ser baptizada, por não crer na alma, nem em deus algum, e, além de tudo isto, ser filha ilegítima, dado que os meus pais viviam em regime de união de facto, situação única na ilha, previa, dizia eu, que a sua filha iria ser vítima de uma feroz intolerância.
Assim sucedeu, efectivamente. Quando, aos seis anos, saí das fronteiras da minha quinta, na zona urbana do Funchal, para frequentar a escola, era tratada como um ani- mal de quem ninguém se aproximava. Não era baptizada, logo não tinha alma, dizia-se. Era saudada pelas outras crianças com um coro de latidos. A cadela saudada era eu; aos dez, o mesmo ocorreu , quando comecei a frequentar o Liceu, e a intolerância feriu-me durante toda a minha vida. Nem sempre por motivos religiosos, mas também literários (aos 14 anos, um poema foi-me censurado por ter a palavra beijos; outro, publicado, mas o título Infinito foi substituído por Deus ); e até por motivos ditos fúteis, como vestuário, cosmética, adornos, tabaco, boquilha, etc.
Nem a alvorada redentora da democracia suscitou, como havia esperado, a aceitação, pelo outro, das minhas diferenças, sendo, por isso, aconselhada, por vezes, caridosa-mente, a me integrar no « rebanho »…
A que propósito me decidi retirar do baú das minhas memórias estas revelações?
Em primeiro lugar, com uma intenção pedagógica; em segundo, porque, com a idade que não tenho e uma carreira docente concluída, estava convicta de que, apesar de mui- tos epítetos com conotações de intolerância, nunca mais seria alvo de actos intolerantes graves. Engano feroz! Uma correspondência anónima e obscena, recebida recentemente, veio fazer sangrar as feridas do passado e trazer de volta a criança de seis anos solitária e triste, saudada com o referido coro de latidos.
Quanta falta de educação cívica ainda reina neste início do 3º milénio! É como pedagoga que, com tristeza, aqui deixo esta exclamação. Se aquela matéria não é fornecida no berço, que fazem os agentes de ensino? Limitar-se-ão a cumprir a aprendizagem dos conteúdos programáticos emanados do Ministério da Educação?
Apesar da tolerabilidade a tantas agressões, concluo, perguntando- me: «tolerar a in- tolerância, sem protestar, não será, de facto, aceitar a injustiça?»
Violeta Teixeira
Poetisa
Publicado por Violeta Teixeira em 11/09 às 10:26 AM
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Domingo, 31 Dezembro, 2006
PORTUGAL: POBRE E OBESO
Gravíssima doença, esta, a da obesidade. Doença epidémica, já considerada pela Organização Mundial de Saúde como a doença do século XXI. Com efeito, ela ameaça, actualmente, metade da população mundial. Trata-se, na verdade, de uma patologia devastadora, na medida em que engendra um leque de outras doenças, nomeadamente diabetes, problemas cardíacos, hipertensão arterial, cancro, etc. Não se pense, todavia, que ela é, digamos, um perigo exclusivo no universo dos indivíduos adultos, pois ela alastra, também, numa progressão assustadora, no das crianças. Uma criança obesa será um jovem obeso, que entrará na idade adulta já com esta patologia, e, neste caso, tem riscos maiores de morrer prematuramente. Alertou o presidente do Grupo de Trabalho Internacional sobre a obesidade « que se os jovens continuarem obesos até aos quarenta, a sua esperança de vida será reduzida em sete anos e, se fumarem, a redução será de catorze».
Ocorre-me perguntar: que se passa em Portugal, onde se celebrou no dia 22 de Maio o Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, país no qual a pobreza está a tornar-se, igualmente, uma doença epidémica, com dois milhões de pobres (tão-somente!), de acordo com os mais recentes dados estatísticos?
Antes, porém, de responder a esta pergunta, faço um apelo ao leitor: em primeiro lugar, observe a imagem eloquente, que encontrei na Internet, e, como pedagógica, ilustra o tema deste escrito. O homem obeso que está a ver é português. É natural. Além do mais, quanto a mim, é obscena. Exibe uma realidade medonha, se bem que seja, julgo, um aviso seríssimo a todos quantos, sendo obesos, façam por mudar o seu estilo de vida, e, aos não obesos, a terem cuidados específicos, de modo a não virem a sê-lo. O seu médico poderá indicar-lhe o regímen dietético que deverá adoptar. Informe-se!
Vejamos, agora, o que se passa em Portugal, relativamente à patologia em questão: se tivermos em conta o maior estudo de investigação, realizado em Portugal, sobre o peso da população nacional com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos, coordenado pela endocrinologista, Isabel do Carmo, estudo, esse, que decorreu entre Janeiro de 2003 e Junho deste ano, chegamos à conclusão de que 57 por cento das mulheres e homens com mais de 30 anos é obesa. Acrescente-se que este estudo é actualíssimo, pois decorreu entre Janeiro de 2003 e Junho do corrente ano. Actualíssimo e cientificamente indiscutível.
Como explicar que um país, com dois milhões de pobres (tão-somente!), de acordo com os dados estatísticos mais recentes, ou, mais concretamente, seis em cada dez portugueses sejam obesos? Como explicar, repito, que 50% da população lusitana esteja afectada pela obesidade? Em princípio, pensava eu, que esta doença afectava apenas os países ricos, aqueles onde reina a superabundância, mas a verdade é que estava plenamente enganada. A minha ignorância dizia-me que os indivíduos sem recursos para adquirirem os bens alimentares essenciais não podiam ser obesos. Atrevo-me, por isso, a perguntar: será a nossa superabundância de luz solar a responsável por tão grave doença? Sim! Porque, segundo a minha perspectiva, é o único bem gratuito que possuímos em abundância. Bem, esse, precioso. Tão precioso que nenhum feliz Bagão se lembrou de instituir uma taxa solar. Seria uma medida política inteligente que evitaria a persistente alienação de património estatal, isto é, de todos nós. Permito-me, por isso, deixar, aqui, ao ministro das Finanças, a sugestão que consiste em obrigar todos os portugueses, independentemente dos rendimentos que declaram, a pagarem uma taxa solar. Nada de taxas moderadoras, como as obrigatórias pela prestação de cuidados de saúde. Uma taxa desta natureza, essa, sim, seria positivamente obesa. Feita a referida sugestão, permito-me, antes de me silenciar, informar o leitor que o peso deste escrito situa-se dentro dos parâmetros da normalidade, assim como a escrevente.
Quanto lamento este Portugal pobre e obeso! Obeso nos sentidos literal e metafórico. Não entremos, contudo, em pânico! Creio mesmo que devemos ter orgulho da nossa posição no «ranking» da obesidade, porque, neste único domínio não estamos na cauda da Europa, e, para mais acentuado júbilo, alinhamos em perfeitíssima consonância com a população mundial, afectada 50% por esta patologia, como já sabemos, e a nossa, um pouco mais. Não tenhamos, pois, a tentação nefasta de cairmos numa situação de desnutrição por causa do espectro da obesidade! A tão falada globalização não abrangerá aquela epidémica realidade?
Crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 11:41 PM
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DA INTERRUPÇÃO ( IN )VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ
Assumo que me não é fácil invadir este terreno do foro íntimo, sobretudo pelo facto de estar minado de hipocrisia. Não deixo, todavia, de correr o risco de pisar alguma mina e, com certeza, sofrer as inevitáveis consequências de estilhaços explosivos.
Não seria mais cómodo me instalar na poltrona do silêncio? Sim. Eu sei. Mas não me
posso permitir, apesar de tudo, mergulhar este meu corpo de mulher nas águas glaucas da covardia, corpo amante de águas límpidas, com cardumes de peixes verdes, sobre-
voadas por asas brancas. Não! Antes prefiro enfrentar todos perigos do que sufocar o
grito ígneo da indignação. Sim! Como sufocá-lo, ao ter conhecimento que os PPs e os
PSDs, no seu amigável projecto comum da revisão constitucional, inseriram um artigo, cuja ambiguidade pérfida visa impedir a viabilidade de descriminalizar a mulher que, voluntariamente involuntária, recorre à interrupção da gravidez, como única saída para um acto não programado, logo, indesejado.
Dado que não gostaria de enveredar por um discurso recorrente, dispenso-me de enu-
merar os múltiplos factores, de todos conhecidos, que pesam, intoleráveis, na decisão de interromper, abruptamente, a germinação de uma vida, como arrancar, cerce, o rebento de uma semente de uma planta que promete vir a ser flor, vir a ser fruto.
Com efeito, os machos hipócritas do PP e do PSD ignoram que nenhuma mulher faz,
com gosto ou prazer, um aborto, acto de um sofrimento psicossomático atroz. Acto, esse, cujo trauma perdurará durante toda a sua vida, e, na pior das hipóteses, a colherá nas malhas que a morte tece, silenciando, cruelmente, dois corações.
Os ditos políticos terão, alguma vez, ouvido as primeiras badaladas, num ventre ma-
terno, do pequeno pêndulo do sangue? Saberão quanto é, indizivelmente, exultante?
Tendo em conta o que acabo de afirmar, aparentemente, paradoxal, perguntar-me-ão, com semblante angélico: como explicar ou justificar, então, que milhares de mulheres pratiquem o aborto? Fazem-no, caríssimos políticos, por razões mais poderosas do que as do coração. Dispam-se, por isso, da sua hipocrisia! Nenhuma mulher, repito, diz
sim à pergunta referendária sobre a interrupção da gravidez. Nenhuma. Pergunte-se, antes, se se é por ou contra a despenalização do aborto. Entre os dois tipos de pergunta
abre-se um abismo semântico abissal, como qualquer cidadão de boa fé compreenderá.
Se os referidos machos hipócritas pretendem que sejam julgadas e condenadas à pri- vação da liberdade, por detrás de grades, as mulheres que não respeitem as leis por eles
cerzidas, manifestam uma crueldade requintada. Estarei a ser injusta? Não! Sou, em muitos domínios, insurrecta, mas, por mais duras que sejam as leis, defendo o seu estrito cumprimento, embora, muitas vezes, delas discorde, com a legitimidade que me assiste como cidadã livre, dotada de espírito crítico. Eis porque pugno pela descrimi- nalização do aborto. Desejarão os PPs e os PPDs pena mais pesada do que o sofrimento atroz, acima afirmado, que todas as mulheres experimentam, ao entregarem o seu corpo a uma mutilação, como considero o acto de interrupção de uma gravidez? Não ousarei responder afirmativamente, mas confesso que declarações e intenções expressas oral -mente ou em suporte de papel jornalístico por aqueles políticos me levam, incrédula e estupefacta, a pensar que sim.
Dou por findo este escrito, gritando para dentro, mas registado neste espaço, que voto sim à despenalização do aborto. SIM!
Crónica publicada no REGIÃO DE LEIRIA (não foi actualizada, para a publicação de hoje)
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 11:15 PM
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Segunda-feira, 05 Junho, 2006
DIA MUNDIAL DO AMBIENTE
DA PUREZA DO AR
Embora não tenha formação académica em nenhum dos ramos das múltiplas ciências, algumas fazem parte da minha cultura geral, em especial as denominadas ciências humanas e sociais, e, com algum estudo mais aprofundado, adquiri os conhecimentos essenciais da Ecologia, como ciência biológica, estando sempre em estado de alerta informativo, relativamente às problemáticas ambientais, quer as de Portugal, quer as da Terra, dado o facto do Planeta Azul ser uma prolixa lixeira, gerando na cidadã empenhada que sou preocupações bastante dolorosas.
Imagine-se, por isso, a satisfação que experimentei ao ter conhecimento de que uma cidade deste país, cujos governos têm subalternizado as questões ambientais, se tenha tornado a primeira «cidade Bioclimática Ibérica», certificação concedida, em Fevereiro, à Guarda, pelo Instituto Clínico de Alergologia do Hospital Inglês (ICAHI) de Lisboa.
Por que motivos a Guarda recebeu este «troféu» e não, por exemplo, Leiria?
Mais adiante, responderei a esta pergunta, mas, por agora, é da Guarda que falo. Assim sendo, esta cidade deve aquela certificação ao facto de ser dotada de um índice de pureza e qualidade do ar que se respira, o que potencia o tratamento de doenças do foro respiratório, permitindo que, após aquela certificação, possam vir a ser criadas, seja por industriais, seja por entidades políticas, investimentos no tratamento das doenças, do foro, atrás referido, até porque a zona da Guarda «é uma área privilegiada, beneficiando de todas as condições naturais da vizinhança do maciço da Serra da Estrela, às quais se juntam características próprias», razões pelas quais «para o efeito foi constituída a «Guard-Ar/ Associação para a Promoção do Ambiente e Saúde do concelho da Guarda», integrando médicos pneumologistas e industriais da região.
Acrescento que, no dia em que à Guarda foi concedida a certificação de «cidade bioclimática», no âmbito do Congresso de Bioclimatismo, que ali teve lugar, foi assinado um acordo de geminação com a cidade francesa Biançon, onde está sedeada a Federação Europeia de Bioclimatismo.
Faço questão, ainda, para que não cometa uma injustiça grave, que todo aquele processo foi iniciado pela Câmara Municipal, em colaboração com parceiros locais e nacionais.
Bem! Já porque, me ocupo, neste espaço jornalístico, da pureza do ar que se respira na cidade da Guarda, responderei à pergunta, acima formulada, a saber: por que ganhou aquele «troféu» a Guarda e não, por exemplo, Leiria? Responder-me-ão que esta cidade não tem as condições geogáfico-climatéricas daquela. Sim, não as tem, é certo. Mas, quanto a mim, dispensava a referida certificação, exigindo, contudo, que fossem tomadas medidas urgentes de modo a reduzir drasticamente os níveis de emissões poluentes, e, consequentemente, a respirarmos um ar, não direi tão puro como o da Guarda, mas com suficiente qualidade. Que medidas? As entidades responsáveis pela qualidade de vida dos cidadãos, sabem-no bem. Recordo apenas que esta é a cidade portuguesa que tem a taxa mais elevada de automóveis «per capita» ( como de cães e de gatos, muitos sem-abrigo), ainda que não possua parques de estacionamento suficientes ( o meu bairro, por exemplo, o dos Capuchos, está transformado num parque), e os que se estão a ser construídos situam-se no coração da cidade, o que não acontece em nenhuma urbe dos países civilizados.
Ora, imagine o leitor quão puríssimo é o ar que os residentes do Bairro dos Capuchos respiram! O da cidade, no seu todo, dispenso-me de falar, dado o que já afirmei acima.
Termino, reafirmando o quanto me regozijo com o facto da Guarda ser a primeira «Cidade bioclimática Ibérica», até porque Portugal está em todos os domínios na cauda da Europa. A título de exemplo, refira-se que, no respeitante ao Ensino Superior Universitário, da lista das 500 melhores universidades, de Portugal apenas está incluída uma ( no 381º lugar mundial). E quanto ao sucesso da disciplina de Matemática? Ocupa uma posição inferior à de muitos países asiáticos, considerados subdesenvolvidos.
Mas, que têm as universidades e o insucesso da matemática a ver com a qualidade do ar que os fazedores dos programas, os estudantes e docentes respiram? Responda o leitor, se souber. Sim! Porque vou arrumar o automóvel, que não tenho, e recolher-me na minha cela de cimento, onde, «pour cause», há um défice elevadíssimo de oxigénio.
Violeta Teixeira ( crónica publica na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE)
Publicado por Violeta Teixeira em 05/06 às 06:16 PM
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Segunda-feira, 29 Maio, 2006
DIA MUNDIAL DA ENERGIA
PORTUGAL: ENERGIAS RENOVÁVEIS
Depois da própria força humana, o fogo foi a fonte de energia que os homens primitivos utilizaram, e, com ele, nasceram as primeiras civilizações. Dispenso-me de enumerar as outras fontes de energia anteriores às explorações petrolíferas, porque seria maçar o leitor. Direi apenas que, aquando do aparecimento do petróleo, o homem ficou tão maravilhado com a inúmeras possibilidades da sua utilização, que desprezou as energias renováveis, contribuindo, assim, como todos sabemos, para o efeito estufa, as chuvas ácidas, as alterações térmicas da Terra, etc.
Ocorre perguntar: por que não mudou o homem de atitude, a partir de 1973, ano da primeira grave crise energética, voltando-se para as várias energias renováveis, a saber, a eólica, utilizada, primitivamente, para a navegação, já antes do ano 2000 a.C. ( e para outros fins, assim como outras), a hídrica, a do hidrogénio, a dos oceanos ( das marés), a da biomassa, a solar e a geotérmica? Escuso-me de responder a esta questão, por considerá-la demasiado óbvia.
O importante é que, felizmente, cada vez mais se enraíza na consciência mundial a necessidade urgente de serem adoptadas medidas que garantam a qualidade de vida na Terra, sendo a primeira medida a de educar o ser humano para o futuro, de modo a preservar o meio ambiente, encarando o mundo de forma holística, ou seja, pondo em prática os saberes da «ecologia profunda», o que leva, inevitavelmente, a recusar a denominada «ecologia rasa». Quais são, afinal, as diferenças essenciais entre estes dois ramos bio- científicos? O primeiro «entende que existe uma interdependência primordial entre todos os fenómenos da Natureza, inclusive integrando o homem e a sociedade. Ou, mais explicitamente, «entende o homem, a Natureza e todos os fenómenos como uma rede fundamental interconectada e interdependente ( ou seja), a Terra não está para nós como uma casa alugada, mas sim como o casco da tartaruga»; o segundo ramo, antropocêntrico, «entende o ser humano como superior à Natureza, atribuindo a esta um valor instrumental».
Vejamos como se posiciona Portugal no panorama energético mundial, nomeadamente, no da União Europeia: importa 80 a 90% da energia que consome, e o seu consumo por unidade de Produto Bruto Interno tem vindo a aumentar nos últimos anos, tendência contrária à da maioria dos Estados- Membros da U.E. ( dos 15). Todavia, as energias renováveis constituem, segundo estudos há muito realizados, o único recurso energético que nos é mais próprio. Porquê? Porque de algumas daquelas energias está bem provido o nosso país, como, por exemplo, a energia solar, a eólica, a hídrica, a das marés e a da biomassa.
Consultemos o Livro Branco para uma estratégia e um plano de acção comunitários, no respeitante às energias renováveis: « as fontes de energia renováveis podem contribuir para diminuir a dependência das importações de energias e para aumentar a segurança do abastecimento (…)O objectivo principal é o de duplicar a parte das fontes de fontes de energia renováveis no consumo interno bruto de energia da União Europeia, elevando-a a 12% até 2010» (…), assim como utilizar 39% de electricidade procedente de fontes de energia «verde».
No entanto, Portugal, neste, como em muitos noutros domínios, é o mais atrasado no cumprimento daquele objectivo, ou melhor, daquele compromisso ( a par da Grécia), tendo, embora, boas condições para ser obediente. Parece que este exíguo território hispânico tem prazer em ser indisciplinado, desprezando a tomada de medidas políticas que melhorem a qualidade de vida do ambiente e dos cidadãos. Lamentável!
Não estarei a ser injusta? A realização do Euro 2004 neste atrasado país não é um evento mais glorioso do que a utilização acelerada das energias renováveis? Não basta para pôr, desmesuradamente, em erecção, o «ego» patriótico?
Em todo o caso, como o meu «ego» não aumenta de volume com aquele feito heróico, porque é antipatriótico, dou por findo este escrito, transcrevendo ( em vão, disso estou convicta) as recomendações da Comissão comunitária das energias «verdes», feitas em 2001: « A Comissão entende que, no futuro, os esforços devem incidir essencialmente na elaboração das estratégias e objectivos específicos para os sub-sectores nos Estados- Membros, na promoção da biomassa, nas medidas relativas ao sector da construção, no intercâmbio de boas práticas, visando uniformizar as medidas voluntárias nacionais, e na supressão dos entraves jurídicos e administrativos, acompanhada dos instrumentos comerciais inovadores a nível comunitário, sobretudo em matéria fiscal.»
Violeta Teixeira ( crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE)
Publicado por Violeta Teixeira em 29/05 às 01:25 AM
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Segunda-feira, 22 Maio, 2006
DIA INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE
Ophrys tenthredinifera
PORTUGAL: BIODIVERSIDADE III
Depois de ter dado ao leitor conhecimento da existência de uma lista, dita vermelha, das 136 espécies, quer da fauna, quer da flora, em vias de extinção, no nosso exíguo solo hispânico, comecei pela defesa do Cavalo do Sorraia (Ibérico), seguindo-se a do Lobo Ibérico. No agora, entregar-me-ei à defesa das orquídeas em perigo. Não as escolhi. Exibiram-se, exuberantemente floridas, no guardanapo virgem da minha escrita. Entre inúmeras plantas graciosas, igualmente ameaçadas, aquelas solicitaram-me, ao se exibirem, que eu lançasse a quem de direito um SOS VIDA. Aceitei fazê-lo, mas não me seja perguntado o porquê.
Terá sido pelo facto de aquelas plantas exóticas, de uma beleza e perfume embriagantes, com formas excêntricas, sedutoras e sensuais, autênticas peças escultóricas da Natureza, terem originado as mais variadas crenças e mitos, desde o seu aparecimento sobre a Terra, há 15 milhões de anos, mais concretamente, na Ásia, se forem tidos em conta os fósseis antigos que se conhecem actualmente? Uma dessas crenças deve-se ao facto das suas flores fazerem lembrar insectos ( fêmeas irresistíveis, fazem-se acasalar por aqueles, fornecendo-lhes o pólen que, por sua vez, estes oferecerão a outras, assegurando a perpetuação da espécie) e até silhuetas humanas. Além disso, a designação «orquídea» crê-se derivar do latim «orchis» que significa testículo, aludindo à forma do par dos tubérculos das plantas pertencentes ao género Orchis, o que levou a terem entrado nos receituários afrodisíacos. Por se tratar de um grupo taxonómico cosmopolita? Com efeito, está distribuído por todos os recantos da Terra, apresentando três linhas evolutivas distintas, ou seja, três famílias que terão evoluído de um ancestral comum. Ou, pelo facto de, além de serem dotadas de inúmeros aspectos curiosos, tantos que me não couberam aqui referir, as orquídeas apresentarem um número elevadíssimo de sementes, mas as mais pequenas do reino vegetal ( 0,5 mm de cumprimento e 10 microgramas de peso), e de produzirem o maior número de sementes? Um exemplo. Apenas: uma espécie tropical americana chega a produzir 37770000 sementes. Imagine-se! Um só pé de umas das espécies de orquídeas produz tantas sementes que, se todas germinassem, assim como as dos seus descendentes, cobririam toda a Terra em apenas 4 gerações. Mais. Por serem as plantas mais evoluídas de todos os tempos?
Para responder às perguntas que, atrás, formulei, limito-me a dizer que, talvez, tenham sido todos os aspectos referidos e os ocultos, por razões óbvias, os grânulos de pólen que, germinados, floriram no espaço deste escrito.
Dito isto, passo a falar apenas das orquídeas portuguesas em perigo de extinção, apesar de serem um pouco menos belas do que as tropicais. São 55 as espécies indígenas que existem em Portugal continental, como a que ilustra esta crónica, considerada rara ( duas delas endémicas), e cinco no arquipélago da Madeira, 3 das quais endémicas. Como a maioria das espécies prefere o solo calcário, a maior variedade encontra-se no Barrocal algarvio, na Serra da Arrábida, no centro Oeste Olisiponense e na Serra de Aire e Candeeiros. Gostaria de dedicar mais espaço a estas plantas, cuja beleza fascina e embriaga todos os sentidos, mas, como aquele me falta, salto, abrupta e desencantadamente, para a conclusão.
Urge, pois, e já, preservar as orquídeas lusitanas! « Além da sua beleza, têm ainda um papel importante. Podem ser utilizadas como indicadores do estado de saúde de um ecossistema.» Infelizmente, porém, tal como sucede com muitas outras espécies, este valioso património vegetal tem sido muito afectado pela destruição dos seus habitats: urbanização, novas técnicas agrícolas, exploração agrária intensiva e plantação de pinhais e eucaliptais, etc.« Em alguns casos, existem orquídeas abrangidas por áreas protegidas, mas nunca são objecto de conservação destas. Dá que pensar…»
Termino, nutrindo a esperança de que os responsáveis pela preservação do Ambiente tomem ( se ministro do Ambiente o elenco (des)governativo Satânico tem, ainda não tive o prazer de o descobrir) medidas urgentes, de modo a que estas belas plantas, excêntricas, sedutoras e sensuais continuem a fascinar as gerações vindouras.
Violeta Teixeira ( crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE)
Fonte informativa: Ambiente 21, Setembro de 2004
Publicado por Violeta Teixeira em 22/05 às 04:50 PM
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Sexta-feira, 14 Abril, 2006
«ECO-EFICIÊNCIA NA INDÚSTRIA DA ÁGUA»
«ECO-EFICIÊNCIA NA INDÚSTRIA DA ÁGUA»
Como várias crónicas, neste espaço jornalístico, e noutros, tiveram como objecto temático o ambiente ( no seu sentido mais lato), nomeadamente o «ouro azul», hoje, Dia Mundial Do Ambiente, estando este minúsculo estado hispânico ( e não só ele) a sofrer de uma seca extrema/severa e da eclosão de bastantes incêndios, limitar-me-ei a dar a palavra a um especialista na matéria em causa, cujo nome, estatuto e fonte indicarei em nota de rodapé.
Antes, porém, faço questão de declarar que o título que atribuí a este escrito é da responsabilidade da fonte onde fui beber, da qual passarei a transcrever dois excertos.
Oiçamos, então, o referido especialista: « (…) a eco-eficiência traduz-se na produção de bens e serviços a preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e melhorem a qualidade de vida, adoptando processos produtivos que minimizem os impactos ambientais e a intensidade de utilização de recursos até o nível que seja compatível com a capacidade do planeta. Os objectivos associados ao conceito de eco-eficiência podem-se sintetizar na redução de recursos, na redução do impacto ambiental na natureza e na melhoria do valor do produto ou serviço.
Tendo em conta o seu carácter geral, a aplicação dos princípios da eco-eficiência poderá ser feita a qualquer tipo de indústria. Em teoria, os efeitos positivos para a empresa e para o ambiente, deverão ser tanto maiores quanto maiores forem os recursos naturais utilizados e o impacto ambiental da sua actividade. Ora, estando a indústria da água, e, dentro dela, os Serviços Urbanos de Água (SUA), dentro do grupo das actividades mais intensivas no uso da natureza, a aplicação dos princípios da eco- eficiência deverá ter maior efectividade e originará impactos mais positivos na dupla óptica económica e ecológica.
A redução do consumo de recursos é o primeiro objectivo. Para que tal aconteça na IA, a diminuição das perdas de água captada e consumida, esta-se a retirar `natureza menos recursos, a utilizar menos energia em elevação e tratamento, a consumir menos reagentes no tratamento, isto é, utilizamos menos a natureza e produzimos a menores custos. Esta é uma questão bem conhecida e analisada. Quando verificamos o desperdício ambiental e económico que implicam taxas de perda da ordem dos 40 ou 50 por cento, como as existentes em bastantes entidades distribuidoras, compreende-se imediatamente que o controlo de perdas é crucial para se atingir a eco- eficiência no sector.
No entanto, o controlo de perdas não é a única medida. Muitas outras posem ser adoptadas. Temos em Portugal um verdadeiro manual para nos ajudar a utilizar a água eficientemente. No « Programa Para o Uso Eficiente da água (da autoria do Laboratório Nacional de Engenharia Civil com a colaboração do Instituto Superior de Agronomia). (Neste manual) estão elencadas 87 medidas de âmbito e impacto diverso, de maior ou menor facilidade de implementação e com custos igualmente diferenciados Elas são dirigidas às entidades gestoras dos SUA, à agricultura, à indústria e às famílias. A aplicação deste Programa sendo urgente, vai para além das obrigações e das capacidades dos SUA. Mas, a responsabilidade social e ambiental inerente a qualquer empresa, é acrescida num Serviço de Interesse Geral como são as entidades gestoras do sector. Estas estão obrigadas a contribuir, de uma forma assertiva, para a conservação da água num país, embora sem problema de «stress hídrico» permanente, não escapa a períodos de seca, como a verificada neste Inverno (…)», seca, essa, como, acima afirmei, extrema e severa.
«(…) Por último, refira-se que a aplicação dos princípios da «Ecologia industrial e a partilha da rede dos SUA com outras actividade, sendo possível e útil do ponto de vista da eco-eficiência, mostra, mais uma vez, a necessidade da gestão enformada por uma visão integrada e sistémica.»
Violeta Teixeira
Nota: Sérgio Hora Lopes, (economista docente da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica nas áreas da Economia e Gestão do Ambiente, in Água Em Revista, integrante do Jornal Público do dia 2 de Maio de 2005.
Publicado por Violeta Teixeira em 14/04 às 08:57 AM
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Quarta-feira, 22 Março, 2006
DIA MUNDIAL DA ÁGUA
DA ESCASSEZ DO «OURO AZUL»
Sabemo-lo. As sociedades primevas plantaram-se, quer à borda de águas marítimas, quer nas margens dos rios. Assim, as primeiras grandes civilizações floresceram nas planícies dos grandes rios: Amarelo, Tigre, Eufrates, Nilo e Indo. Estas, as denominadas fluviais. As outras, banhadas pelo mares, as talassocráticas.
Vem esta introdução a propósito da escassez de água doce que, no hoje, se verifica na Terra. Eis por que passo, de imediato, a tecer um retalho da história do «ouro azul», «ouro», esse, que tem acompanhado as mais diversas etapas da vida da humanidade. Com efeito, os rios não só forneciam a água, os alimentos e a defesa natural. Além disso, eram as vias privilegiadas de navegação, para transporte de bens e de pessoas, e, também, vias de penetração em territórios a explorar.
A seca severa que assola a biosfera, trouxe-me à lembrança um artigo lido, há longos anos, num jornal francês, no qual se afirmava que a Terceira Guerra Mundial seria causada pela escassez do «ouro azul». Não estranhei, por isso, que, segundo dados actuais da ONU, dentro de 25 aos, mais de três milhões de pessoas vão ser atingidas pela falta de água. Por outro lado, tal como se previa há imensos anos, aquela falta já estar a ser apontada como a principal causa de conflitos e guerras num futuro próximo, o que constitui o maior problema deste século. Já em 1990, este líquido essencial à vida da Terra, afectava 300 milhões de habitantes.
Daí que este magno problema exija que sejam tomadas medidas urgentíssimas, já porque o ser humano pode suportar várias semanas sem ingerir alimentos sólidos, mas sem beber água falece ao fim de três dias, na medida em que todas as reacções químicas indispensáveis à vida verificam-se na presença da água.
No entanto, apesar da água ser abundante na média global, o homem não a obtém quando e onde quer, ou na forma desejável, pois mais de 97 por cento daquele precioso líquido é salgado e quase 2 por cento está sob a forma de gelo. Somos levados, tendo em conta o afirmado, a pensar que a que está disponível é suficiente, na medida em que cobre mais de 70 por cento da superfície da terra, o que representa um volume de cerca de 1400 milhões de km3. Estes números poderão fazer crer que a água existente chegará para satisfazer as necessidades do ser humano. Um olhar, todavia, mais atento chega à conclusão de que a maior parte da água não fornece condições de consumo. Ademais, as águas fluviais estão mal divididas, ou seja, de modo desproporcional . Senão, vejamos: mais de 40 por cento dos rios e lagos estão concentrados no Brasil, Rússia, Canadá, Estados- Unidos, China e Índia, enquanto que as outras zonas da superfície do planeta dispõe de exíguos recursos hídricos.
Ocorre, por imperativos vitais, perguntar o que se passa neste minúsculo rectângulo Hispânico. O Dia Mundial da Água foi assinalado, aqui, com cerca de 800 mil portugueses sem abastecimento domiciliário, e o nível das pouquíssimas barragens abaixo do normal, em consequência da seca que tem vindo a flagelar o nosso país. Mais exactamente, segundo dados recentes do Instituto Da Água, sofrendo de uma seca extrema de incompetências, a descida do volume de água armazenada nas albufeiras diminuiu em Janeiro, e ao período homólogo do ano transacto. Ainda que tenha havido num ou noutro curso de água algumas subidas, estas são muito pouco significativas. Em suma, as consequência da seca severa estendem-se a 85 por cento do nosso território continental.
Diante deste flagelo terrifiante, não me permito deixar de exprimir o meu protesto contra a ausência de uma política da água por parte dos vários desgovernos deste arremedo de país. Tão incompetentes, que se ajoelharam, como gesto de vassalagem humilhante, ao país vizinho, cuja política da água tem sido, a todos os títulos, notável.
Concluo, lembrando que o ano corrente marca o início da Década Internacional da Acção «Água Para A Vida», uma iniciativa internacional para fazer chegar água potável e saneamento às casas e escolas de todo o mundo.» Desiderato utópico?
Violeta Teixeira
Publicado por Violeta Teixeira em 22/03 às 10:30 AM
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Quarta-feira, 01 Março, 2006
CAVAQUISTÃO: NÃO SERÁ A HORA?
CAVAQUISTÃO: NÃO SERÁ A HORA?
Hesitantes, os meus dedos! Com efeito, se bem que tolerantes, no seu sentido etimológico, ou seja, aceitando os outros, como hóspedes, há muitas semanas que se recusam a escrever. Hoje, todavia, hesitando, é certo, estão a «teclar». Não sei se continuarão a fazê-lo. Sou a espera diante do branco. Por que motivo aquela recusa, esta hesitação?
Creio que a razão reside no facto de serem tantos os eventos que ocorrem neste rectângulo hispânico. Dificílimo é, por conseguinte, eleger um deles para tema de uma crónica. Concedo que esta justificação terá um peso exíguo mas, para quem, como eu, cuja produção escrita de qualquer índole é automática, ou dito de outro modo, não consigo escrever quando quero, nem o que gostaria, porque, aparentemente, os meus dedos escrevem sem mim. Deles sou refém indefesa.
Assim sendo, embora sempre actualizada sobre tudo o que se passa nesta lixeira a céu aberto, isto é, no denominado Planeta Azul, e, obviamente, sobre o que acontece nesta jangada ( não a de pedra da obra de Saramago), em risco de ser engolida pelas águas glaucas, nas quais, apesar de socrática, navega (des)governada. Em breve, estou convicta, a ajuda na governação por um Cavaco sensato, impoluto, trabalhador incansável, patriótico, conhecedor do cavaquistão real ( sofrendo de todas as espécies de iliteracia, paupérrimo em todos os domínios, obeso, porém, nos sentidos literal e metafórico), tomará o rumo certo.
Acho que os meus dedos, amantes de águas límpidas, as quais, até agora, escorriam lentas e negras, se têm recusado a nelas mergulhar. Tão eugénicos! Tão utópicos, os meus dedos! Lixo, na verdade, é a matéria prima, orgânica ou não, que cobre o, acima, referido rectângulo, onde os caprichos da História nos plantaram, a todos nós, cidadãos sebastianistas de um país que, não havendo, esperam o haver. Mas não será há muito a Hora? Sim! A hora da chegada de um salvador D. Sebastião, por entre um nevoeiro cinzento e macilento. O povo- povo, e não só, crê que chegou há umas semanas, mas ainda não se sentou no seu trono inteligentíssimo.
Não serei um Velho do Restelo? Responda o leitor, se lhe apetecer, apresentando-me um panorama edénico, o qual, pisando-o, os meus olhos, turvados de longas esperas frustradas, não lograram ver a aparição do rei que, morto nos areais de Alcácer Quibir, ressuscitou nos confins da Ibéria, escolhido por Deus. Ora, faleceu apenas o corpo, não a sua loucura. Não diz o Pessoa de « Mensagem», no poema intitulado «D. Sebastião», que «Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?»?
Em suma, os meus dedos concluem a produção deste escrito. Manchado de cepticismo. Conseguirá o leitor fazer-me ver uma clareira, ainda que exígua, para acender-me os olhos e aquecer-me a «anima»? Duvido e, paradoxalmente, espero. Mas… não será a HORA?
Violeta Teixeira, in REGIÃO DE LEIRIA
Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 01:49 AM
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Domingo, 08 Janeiro, 2006
PORTUGAL: FALTA DE LÍDERES
PORTUGAL: FALTA DE LÍDERES
Como, na última crónica, os meus dedos foram egoístas! Tão incoerentes! Hoje, dizem-me que uma semana de férias passada no meu escritório lhes foi suficiente. Incitam-me, imperativamente, a produzir escrita «engagée», além de me indicarem o objecto temático do texto a haver, recordando-me, ao mesmo tempo, o conteúdo da obra ( por mim lida, mal foi lançada no mercado) «Portugal, hoje, O Medo de existir», da autoria de José Gil, filósofo, ensaísta, professor universitário, considerado um dos 25 grandes pensadores do mundo. Aceito, com agrado, voltar a ser a cidadã empenhada político, social e culturalmente, embora, como sempre, apartidária.
Já porque está na ordem do dia a problemática de candidaturas às eleições presidenciais, passo a lembrar, bem a propósito, o que afirma o referido grande pensador: « Há uma descrença, uma falta de credibilidade dos políticos em toda a Europa e em Portugal, em particular. Isso vem do facto de, cada vez mais, se verificar que aquilo que se promete não é realizado. Temos uma classe política cada vez menos apta e com menos sentido de Estado. Não há líderes. Há uma crise de liderança e um líder é uma pessoa fundamental. Ele deixa de ser um cidadão comum para congregar uma série de forças temporariamente e a dar um rumo. Tem que ter um sentido de Estado, de causa, de dedicação à comunidade. Não é só ao Estado. É ao estado como comunidade. Isso perdeu-se. Vivemos numa sociedade, cada vez mais atomizada, em que cada um pensa só no seu bem-estar, no seu futuro, na sua segurança, face a um exterior cada vez mais inseguro. Há uma baixa de nível e de qualidade dos políticos em Portugal, que é confrangedora.»
Depois desta longa transcrição, direi, de passagem, que, há duas semanas, num outro semanário, foi publicada uma crónica da minha autoria, intitulada Dos Políticos de Plástico, cujo conteúdo está em conformidade com o que, acima, transcrevi. Já lera, nessa altura, a obra supra referida, mas não a entrevista, da qual retirei o transcrito que o leitor acabou de ler. Consonância de pensamentos, estes! Melhor, mera coincidência. Sim! Sou uma humílima pensadora, além de tudo o mais poetisa.
Bem! Volto ao assunto das eleições para a presidência da República. Num país de políticos de plástico, onde, quanto a mim, apenas dois o não são ( o terceiro, Álvaro Cunhal, com cuja ideologia marxista leninista nunca concordei, faleceu recentemente). Faço questão de não revelar os nomes daqueles dois políticos, para não levantar nenhuma polémica, e, sobretudo, porque, como todas as opiniões, a minha é discutível.
Tendo em conta tudo quanto até aqui foi dito, ocorre perguntar-se: que candidatos às eleições presidenciais têm o perfil de líderes, ou seja, apresentam as características, atrás transcritas, segundo a opinião de José Gil?
Após longa e amadurecida reflexão, quanto a mim, humílima pensadora, repito, só Mário Soares. Vejamos, para além do que dele sabemos, o que, recentemente, afirmou: «Contudo, uma aceitação minha, terá de ser tomada numa perspectiva nacional destinada a unir os portugueses e a contribuir para lhes dar estabilidade, segurança e uma nova esperança quanto ao futuro.»
Antes de concluir, direi que nutro um grande respeito pelo ex- Presidente da República, «animal político» desde o berço. Penso, todavia, que a altura chegou de dispensar a espada e pegar apenas na pena, ao contrário de Camões épico, num contexto diferente, ter afirmado:« Numa mão sempre a espada, noutra a pena/».Acrescentarei que o facto de Mário Soares estar disposto a continuar a lutar, apesar da sua provecta idade, só vem provar que o partido socialista não tem nas suas fileiras nenhum líder.
Mas…, e Manuel alegre não apresenta perfil de líder? Embora sabendo que o seu partido o não apoia, nem Soares, não afirmou ele que «parte para a luta sozinho, porque, enquanto se bate a guerra não está perdida (…) um homem não se rende.»? É certo que não é um político de plástico, mas, na minha modesta opinião, faltam-lhe as características de líder. Nem me refiro ao inculto economicista Cavaco, sempre com vestes de 1º Ministro.
Em suma, creio, firmemente, que comprovada está, pois, a tese defendida por José Gil: em Portugal há falta de líderes. «Há uma crise de liderança.» Confrangedora constatação, esta! Somos um país adiado para as calendas gregas. Estarei eu a ser exageradamente céptica? Responda o leitor, se o quiser.
Violeta Teixeira ( crónica publicada no REGIÃO DE LEIRIA - antes da pré-campanha eleitoral)
Publicado por Violeta Teixeira em 08/01 às 11:33 AM
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Sábado, 24 Dezembro, 2005
DAS CRIANÇAS DE RUA DO FUNCHAL
DAS CRIANÇAS DE RUA NO FUNCHAL
Viajo. Viajo-me. Aqui, sentada numa mesa da cafetaria de uma livraria, com um jornal aberto e um guardanapo branco para a escrita. Desta vez, não poética. Viajo-me, depois da leitura de uma notícia sobre crianças de rua no Funchal. Como faço a viagem?
Sou uma menina de treze anos, saindo do Funchal, onde nasci e resido, acompanhada pelo pai, com destino a Câmara de Lobos. Chego a esta belíssima e paupérrima vila pis- catória. Sou a menina rica que só quer pintar um quadro, cujo cenário é apenas o da na- tureza física. Estou a ver, é certo, muitos miúdos sujos, mal vestidos e pedintes, mas, la- mentavelmente, que sei eu da pobreza? O meu pai guarda-me numa redoma dourada, e, com desprezo, chamo-lhes garotos, vilões, por oposição à menina rica e urbana.
Agora, passados séculos, deixei de ser a menina rica, e, solidária com os mais des- protegidos de todas as sociedades da Terra, querendo, utopicamente, pôr fim às mais gritantes iniquidades do mundo, onde a maioria da população é pobre ou vive abaixo do limiar da miséria, viajo e choro. Choro para dentro. Choro os milhões de mortes de cri- anças. Crianças que morrem devido à fome, às doenças, às guerras. Órfãs de tudo. Co -mo me indigno e grito para dentro!
Viajo. Viajo-me. Estou no Funchal. Vejo, já não os garotos, os vilões, dos tempos de
menina rica. Vejo crianças. Vejo adolescentes. Vejo, em suma, seres humanos iguais a mim. E deixo, aqui, neste suporte de papel jornalístico, a minha mais feroz e dolorosa indignação. Como é possível que, volvidos tantos anos, desde aquela visita de turismo cultural, haja crianças dos bairros daquela vila, pobres do ontem, ainda pobres no hoje, mais de duas dezenas, com idades compreendidas entre os quatro e os catorze anos, que se dedicam à mendicidade no centro do Funchal? Como é possível que nesta cidade de- senvolvida e, desde há muito, cosmopolita, existam crianças de rua? Como? Crianças de rua, homólogas dos sem-abrigo das grandes urbes?
Viajo. Viajo-me. Choro e grito para dentro. Recordo-me da obra «Capitães da Areia do Nobel Jorge Amado, e derramo lágrimas para o dentro da minha revolta. Tenho a sua fome, o seu frio. Sinto o sentimento de exclusão social, a imperativa necessidade do fur- to, do assalto. Enfim, o ímpeto legítimo da violência. Sim! Não vale a pena me chama- rem à atenção, neste caso, para a ilicitude. Quem pratica ilícitos são os responsáveis políticos. Sim! Estes deveriam saber que a pobreza gera violência, porque a pobreza é uma das múltiplas formas de violência. Quando compreenderão o óbvio? Para eles a solução é o internamento em lares da Santa Misericórdia, muitos sem qualquer mise- ricórdia, em Casas Pias, sem piedade, ou, então, as prisões, escolas excelentes para pre- pararem a reinserção social. Ignóbil hipocrisia! Sim, caro leitor! Assim, oculta-se dos turistas a intolerável e inestética realidade da mendicidade das crianças de rua.
Viajo. Viajo-me. Estou, neste momento, na minha cidade natal e, não posso deixar de me dirigir ao meu ex-colega liceal, Presidente da Região Autónoma da Madeira, que, graças ao alto patrocínio que me concedeu, foi-me possível publicar, há um ano, a min- ha quinta obra poética. Dirigir-me ao João jardim para quê? Reiterar o meu agradeci –mento? Sim. Mas, muito mais importante do que tudo isso, fazer-lhe um apelo urgente. Inadiável. Apelo, esse, no sentido de fazer com que, tendo desenvolvido extraordinária- mente a nossa ilha, elimine, de uma vez por todas, as causas que provocam a existência de crianças de rua.
Fecho o jornal. Guardo o guardanapo da escrita. Levanto-me, com lágrimas invisí veis, guardadas no bolso da memória.
Agora, sentada comodamente no meu escritório- biblioteca, viajo, vendo, com saudade e tristeza, as imagens, oferecidas pela Net, do arquipélago da Madeira, da vila de Câmara de Lobos e da cidade funchalense.
Viajo, igualmente, neste escrito, e espero chegar a bom porto, com as «armas» das palavras, armas de dois gumes. Ferem e acariciam. Viajarão, também, até ao Gabinete da Presidência do Governo da Região Autónoma Da Madeira, de modo a ferirem a consciência política do meu amigo João Jardim, e, com certeza, acariciarem o projecto da exérese do cancro social em causa.
Violeta Teixeira
Publicado por Violeta Teixeira em 24/12 às 03:30 AM
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Sexta-feira, 11 Novembro, 2005
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» II - 2ª edição
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» II – 2ª EDIÇÃO
Pego, de novo, no fio do xaile negro, inconcluso na última edição, porque tenho os olhos bem abertos e atentos às mais uivantes iniquidades sociais, quer neste país, o estado-membro da União Europeia que, segundo as Nações Unidas, é o que regista a maior desigualdade entre ricos e pobres, onde os dez por cento mais ricos têm um rendimento quinze vezes superior aos dez por cento dos pobres, quer na maioria dos países do mundo. Eis por que me não posso alhear, comodamente, estendida no divã da indiferença, perante o sofrimento e a morte de milhares de seres humanos, sobretudo crianças, vitimas da falta de alimentos, de água, de vacinas, de medicamentos, de roupa. Em suma, da falta do essencial a uma vida minimamente digna. Solidária, sofro. Indignada, escrevo.
Dito isto, silencio-me, dando a ouvir outras vozes, salvo em alguns «pivots» da minha lavra, pelas razões já, aqui, expressas:
« A erradicação da pobreza e o combate à exclusão social foram indiciadas como importantes prioridades das políticas públicas na União Europeia (…). Contudo, até que as necessárias mudanças estruturais se verifiquem, configura-se o direito fundamental ao sistema de protecção social e acção social, com vários instrumentos de intervenção por forma a garantir a cada homem e a cada mulher os direitos e recursos inerentes a uma existência com dignidade. (…) Em contraposição a processos de conquista dos direitos sociais, desenha-se um contexto global de desmantelamento dos serviços públicos (assim como a liquidação do Serviço Nacional de Saúde).
A complexidade dos problemas da segurança social são hoje pretexto fácil para uma feroz ofensiva de liquidação do seu carácter universal e unificado. Com uma argumentação que procura justificar a significativa diminuição do sistema público de segurança social, através de propostas de descontos obrigatórios para os sistemas privados e da selectividade no acesso aos direitos sociais, é sugerida uma reforma liquidadora do sistema público da Segurança Social. Nesta sequência, concretizam-se cedências às reformas da Segurança social redutoras de direitos e com objectivos privatizadores». (…) Repudie-se, no que a esta problemática diz respeito, os actuais agravamentos político-regressivos no nosso país, porque « o fim da pobreza depende do Estado: ético, no compromisso com um país sem pobreza; competente, para formular soluções simples que enfrentem o problema directamente; austero, para não desperdiçar recursos; forte, capaz de levar adiante suas políticas sociais; e pequeno, para não cair no pântano da burocracia». Em suma, « A segurança Social deveria adequar-se para poder exercer a decisiva função de prevenir a pobreza e a exclusão» desses numerosos homens e mulheres que (des)vivem imersos no sub mundo da miséria.
Leia-se num relatório do PNUD que « a erradicação da pobreza em todo o lado é mais do que um imperativo moral e do que um compromisso de solidariedade humana. É uma possibilidade prática e, a longo prazo, um imperativo económico para a prosperidade global (…). Chegou a altura de erradicar, numa década ou duas, os piores aspectos da pobreza humana e de criar um mundo mais humano, mais estável e mais justo. (…)». A pobreza e a exclusão são violências. Logo, a violência gera violência, acrescento eu. Atente-se, «et pour cause», nos actos de violência que, há vários dias, proliferam em França.
Dou por concluído este escrito. Não a problemática da pobreza: « É também a política, e não apenas a Economia o que fazemos – ou não fazemos – em relação à pobreza humana. E para enfrentar a pobreza o que falta não são recursos e soluções económicas, mas sim o ímpeto político», sublinha com letras maiúsculas, numa segunda nota de rodapé, o Relatório 97 do PNUB.
Violeta Teixeira, in REGIÃO DE LEIRIA- 11-11-2005
Poetisa
Publicado por Violeta Teixeira em 11/11 às 02:42 PM
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Quarta-feira, 19 Outubro, 2005
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» II
PARA O LOBO DAS ESTEPES
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» II
Convicta de que não maçarei os leitores, pegarei, de novo, no fio do xaile negro, inconcluso na última edição, porque tenho os olhos bem abertos e atentos às mais uivantes iniquidades sociais, quer neste país, o estado-membro da União Europeia que, segundo as Nações Unidas, é o que regista a maior desigualdade entre ricos e pobres, onde os dez por cento mais ricos têm um rendimento quinze vezes superior aos dez por cento dos pobres, quer na maioria dos países do mundo. Eis por que me não posso alhear, comodamente, estendida no divã da indiferença, perante o sofrimento e a morte de milhares de seres humanos, sobretudo crianças, vitimas da falta de alimentos, de água, de vacinas, de medicamentos, de roupa. Em suma, da falta do essencial a uma vida minimamente digna. Solidária, sofro. Indignada, escrevo.
Dito isto, continuarei, como declarei na última semana, a silenciar a minha voz, dando a ouvir outras, salvo em alguns «pivots» da minha lavra.
Oiçamos, pois, outras vozes: « A erradicação da pobreza e o combate à exclusão social foram indiciadas como importantes prioridades das políticas públicas na União Europeia (…).
Contudo, até que as necessárias mudanças estruturais se verifiquem, configura-se o direito fundamental ao sistema de protecção social e acção social, com vários instrumentos de intervenção por forma a garantir a cada homem e a cada mulher os direitos e recursos inerentes a uma existência com dignidade. ( acontece, porém, que) em contraposição a processos de conquista dos direitos sociais, desenha-se um contexto global de desmantelamento dos serviços públicos (assim como a liquidação do Serviço Nacional de Saúde).
A complexidade dos problemas da segurança social são hoje pretexto fácil para uma feroz ofensiva de liquidação do seu carácter universal e unificado. Com uma argumentação que procura justificar a significativa diminuição do sistema público de segurança social, através de propostas de descontos obrigatórios para os sistemas privados e da selectividade no acesso aos direitos sociais, é sugerida uma reforma liquidadora do sistema público da Segurança Social. Nesta sequência, concretizam-se cedências às reformas da Segurança social redutoras de direitos e com objectivos privatizadores».
(…) Repudie-se, no que a esta problemática diz respeito, os actuais agravamentos político-regressivos no nosso país, porque « o fim da pobreza depende do Estado: ético, no compromisso com um país sem pobreza; competente, para formular soluções simples que enfrentem o problema directamente; austero, para não desperdiçar recursos; forte, capaz de levar adiante suas políticas sociais; e pequeno, para não cair no pântano da burocracia». Em suma, « A segurança Social deveria adequar-se para poder exercer a decisiva função de prevenir a pobreza e a exclusão» desses numerosos homens e mulheres que (des)vivem imersos no submundo da miséria.
Leia-se num relatório do PNUD que « a erradicação da pobreza em todo o lado é mais do que um imperativo moral e do que um compromisso de solidariedade humana. É uma possibilidade prática e, a longo prazo, um imperativo económico para a prosperidade global (…). Chegou a altura de erradicar, numa década ou duas, os piores aspectos da pobreza humana e de criar um mundo mais humano, mais estável e mais justo. (…)».
«A libertação da pobreza tem sido de há muito um compromisso internacional e um direito humano. A Declaração dos Direitos Humanos de 1948 afirmou o princípio de que toda a pessoa tem direito a um nível de vida adequado à saúde e bem estar pessoais e da sua família, incluindo comida, roupa, habitação e cuidados médicos e serviços sociais necessários», lembra o PNUD.
Dou por concluída, muito redutora, é certo, esta peça, recordando que o compromisso, acima referido, « tem sido, nos últimos anos, reafirmado e clarificado nas declarações e nos planos de acção adoptadas em muitas conferências sobre crianças (1990), sobre ambiente e desenvolvimento sustentável (1992), sobre direitos humanos (1993), sobre população e desenvolvimento ( 1994), sobre desenvolvimento social (1995), sobre mulheres (1995, sobre povoamentos humanos (1996), sobre segurança alimentar (1996)»
Como se pode verificar, no fim do século XX não houve praticamente um ano sem um compromisso mundial no sentido da erradicação da pobreza, sem nunca se esquecer que « É também a política, e não apenas a Economia o que fazemos – ou não fazemos – em relação à pobreza humana. E para enfrentar a pobreza o que falta não são recursos e soluções económicas, mas sim o ímpeto político», sublinha com letras maiúsculas, numa segunda nota de rodapé, o Relatório 97 do PNUB.
Que medidas tomará, neste domínio crucial, o Sócrates, cujo Orçamento acaba de ser aprovado, indiferente, quanto a mim, àquele domínio, apesar de ser, segundo um jovem, empenhado na acção política, «um gajo com muita pinta»?
Violeta Teixeira
Publicado por Violeta Teixeira em 19/10 às 09:51 AM
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Segunda-feira, 17 Outubro, 2005
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» I
«POBREZA, PROBLEMA POLÍTICO» I
Mal nasci, enclausuram-me numa redoma dourada, onde nem um excerto mínimo de uma paisagem de pobreza se infiltrava. Só quando me libertei daquela prisão, bastante tarde, reconheço, as bolsas de pobreza na minha terra, e, depois, as do mundo inteiro, entraram, qual avassaladora enxurrada, dentro dos meus olhos, até essa altura, com um brilho verde e aurífero. Em vão, acusei quem me havia, para meu bem, disse-me, me mantido protegida de todas as misérias humanas.
Que visa esta introdução autobiográfica? Não pense o leitor que é uma forma de me não culpabilizar de uma cegueira que me foi imposta. Não! Confesso, sem pudor, que é uma espécie de lamento, relativamente a um tempo irreversível. O tempo de menina rica e triste.
Eis por que, passarei a fazer ouvir uma outra voz, que não a minha, no corpo desta crónica, voz , essa, que diz melhor do que eu o que há muito penso sobre o assunto, sintetizado no título que, sem autorização, tomei a liberdade de o adoptar.
Passarei, pois, a partir de agora, a transcrever um excerto de um longo artigo da referida voz: « A pobreza persiste na sociedade portuguesa enquanto fenómeno social (…e) permanece, ainda, em larga escala.
À escala mundial, crescem ilhas de poder e de opulência num oceano de miséria crescente e de impotência. O desenvolvimento é um banquete com poucos convidados. (…). À abundância de bens e serviços a que alguns têm direito corresponde uma inadmissível pobreza de tantos. O bem-estar de uns é construído à custa do sangue do pobre. É pelo manter da fome de muitos que subsiste o fastio de alguns. As carências e o desespero de multidões é o preço com que se paga a prosperidade de uma minoria. Como diz E. Galeano, « o bem-estar das nossas classes dominantes é a maldição das nossas multidões». A opulência de poucos é edificada sobre monstruosas pirâmides de explorados.
Importa ver a ligação que existe entre pobreza e desenvolvimento. Desenvolvimento e subdesenvolvimento estão unidos por um nexo causal, de tal forma que são cara e coroa da mesma moeda.
Sabemos que o problema da pobreza está intimamente ligado à forma como se estruturou o poder económico e político e à maneira como tem sido exercido. A pobreza tem as suas raízes profundas no modo como a sociedade está organizada, decorre de uma determinada acção política. Existem orientações políticas embrenhadas com mecanismos sociais que se constituem em causas geradoras da pobreza. (…)
A persistência da pobreza enquanto fenómeno social, a sua proporção e dimensão, com cerca de dois milhões de portugueses ( e, segundo o relatório do desenvolvimento Humano do Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento ( *PNUD) Portugal é o país da União Europeia onde se regista a maior desigualdade entre ricos e pobres, acrescento eu), ou cerca de quinze milhões só na União Europeia, resulta da existência de mecanismos implacáveis enquanto caminhos que levam à pobreza. Estes factores ajudam-nos à compreensão de quanto é infundado continuar a olhar o fenómeno da pobreza como um problema cujas causas estão no pobre.« Quem conheça o nosso sistema de pensões, o mercado do trabalho, o sistema de salários e o carácter precário de algumas actividades por conta própria (…), saberá que, com estes tipos de sistemas é forçoso que haja pobreza em Portugal. A montante dos sistemas referidos, encontra-se o sistema educativo ( destaco, também, que, segundo o PNUD, o nosso país apresenta o maior nível de iliteracia ( isto é, analfabetismo funcional) da União Europeia) e de formação profissional, onde, em certa medida, começa e termina o círculo vicioso da pobreza».
A pobreza não se trata de um problema periférico da sociedade, mas de uma questão central para a Democracia. A pobreza constitui um verdadeiro e relevante problema político.
Perante a pobreza, tantas vezes, emerge a indignação e o protesto. Mas, a superação de um certo idealismo moralista, tão frequente a partir de uma consciência pouco crítica, que se expressa com rodeios tais como: a raiz de todos os males radica no egoísmo humano, frente a ele, deve-se postular uma sociedade fraterna e justa, que se atinge mediante a solidariedade, a corresponsabilidade e a prática do amor… Tais generalidades em nada ajudam a diagnosticar a realidade conflitiva, nem identificam o problema social, muito menos as suas causas, nem preparam saídas viáveis. (…).
Não basta a indignação ética, ( porque) o problema de fundo é mais político que moral; mais do que se insurgir, em abstracto, contra a injustiça estrutural, é necessário superar, em concreto, as estruturas injustas, (pois) a pobreza enquanto problema social, contém uma profunda dimensão política.»
Para finalizar este escrito, por não dispor de mais espaço ( voltarei a tratar do mesmo assunto na próxima semana), pergunto, com indignação: como se pode aceitar que se possa viver neste nosso país, que é, em muitos aspectos desenvolvido, mas onde um quarto da população sofre de problemas tão graves que ferem, profundamente, a sua dignidade?
Silva, Edgar, in VÉRTICE, Novembro-Dezembro 2003 –II Série
*O relatório do PNUD serve de guia para conhecer o estado do mundo em questões
como a pobreza, saúde, rendimento, esperança média de vida, factores determinantes para o desenvolvimento, em especial dos países mais carenciados.
Violeta Teixeira
Nota: crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE
Publicado por Violeta Teixeira em 17/10 às 11:51 PM
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