Contos

Quarta-feira, 16 Janeiro, 2008

SARAH

Registo fotográfico de PGN-Olhares.com

Louco é o que tem mais verdade que razão.

CARLOS NEJAR

SARAH

I

A sala do minúsculo apartamento é, talvez, o tudo que sobra de um sismo inominável. São vidraças estilhaçadas, portas partidas, esburacadas, sujas, sem fechaduras; são cortinados rotos, roçando o soalho; são carpetes puídas, descoloridas, palco, suponho, de inúmeras batalhas perdidas, dada a exibição do cortejo prolixo de despojos: garrafas partidas de Whisky ou de Vodka; copos de cristal decapitados; lascas de pratos de sobremesa, de Limoges, por todos os cantos; sapatos de saltos altíssimos, arrogantemente intactos, desafiando a pequenez ridícula dos pés que andaram dentro, altivos e seguros, parece, num tempo, há muito, arrastado, inexoravelmente, para a foz do frio; seringas e velas e pequenas colheres, à espera de um rasgo ténue de lucidez; jornais, lidos ou não, amarrotados, amarelos, rasgados, em cima das mesas; folhas A4, com esboços de flores, de poemas feridos, e de cicatrizes, nunca cerzidas; revistas e gravuras, esparsas, com fissuras de raivas frias; lombadas de livros com fracturas expostas; beatas de cigarros e de charros de cannabis, além de cemitérios de cinzas; sementes de sésamo, de cânhamo e de papoilas; muitas peças pretas de lingerie, algumas vermelhas, nos braços flácidos de uma poltrona, de veludo, que teria sido, em tempos florescentes, cor de ouro - velho.
Sob um friso de um pano de parede, um espelho oval, enorme, exibe fúrias felídeas, em frente do qual, sobre um móvel Luís XV, um Gato de Escritor tenta, enraivecido, encaixar as peças do pudzzle do seu rosto primordial.
A narradora não ousa penetrar no quarto de dormir daquele minúsculo apartamento. Por pudor? Medo? Pura discrição? Sim! Por tudo isso. Não seja indiscreto, o leitor! Não pressione a escrevente. Não! Não violemos o quarto. Imaginemo-lo. Não ousemos emitir juízos de valor sobre uma hipotética decadência da protagonista, cujos indícios, na sala, onde acabámos de entrar, nos sugerem. Sim! Porque, de todo desconhecida, quem quer que lá esteja, ainda não se dispôs a narrar-me a sua história, mas, ainda que o faça, o que espero, em breve, ou daqui a algumas horas, sem a mínima pressa, limitar-me-ei a ouvi-la, abstendo-me de qualquer julgamento. Fará o mesmo o leitor, estou certa. Não me desiluda! Ainda nenhum de nós a conhece. Esperemo-la. Estará, talvez - quem sabe? - a recompor a máscara do mais sincero fingimento. Mera intuição. Que sei eu sobre as personagens dos meus escritos compulsivos, antes da sua aparição? Nada! Nada! Surgem, inopinadamente, do avesso de um espelho, como se saíssem de um vazio branco - árctico. De um frio perturbador. E, com uma espécie de tirania esclarecida, debitam no leito da minha escrita, o caudal das suas vivências, sempre humildemente nobres.

II

- Adónis! Adónis! Salta desse móvel! Vem aqui, querido! O teu belo rosto está neste
espelho, meu tontinho! Vem! Imagino que tenhas as tuas lindas patas feridas! Estás a ouvir-me?
- Que mio doce e dorido!- diz Sarah - aproximando-se, para acariciar os bigodes do seu Adónis, e limpar-lhe o sangue das patas, que, dóceis, se entregam à dona, com um brilho ametista nos olhos.
- Mira-te neste espelho! Vês! Vês como és belíssimo?! Chega! Vem te deitar em cima da capa de Fleurs Du Mal. O Baudelaire não se importa! Sabes porquê, meu gato narcísico? Ele adorava todos os felinos, além de narcóticos, poesia, música, evasões ópticas, viagens reais ou ficcionais, mulheres misteriosas, excêntricas, caprichosas, belas, decadentes ou degradadas. Sabias que ele detestou Lisboa? Disse que achava que o povo português não gostava de árvores. 
- Bem! Chega de lições! Eu já te enivro com o aroma exquis do meu charro de cannabis. Ou preferes, antes, um arenque fumado? Bom! Enquanto o vais saboreando, eu leio o poema que dediquei a uma das tuas amantes. Quantas amantes já conquistaste, meu D. Juan?! És tão volúvel!… Já te deste conta? Isto não é uma crítica. Não te ofendas! Antes assim, do que preso a fidelidades estéreis! Bem! Vou preparar um charro para nós! Queres? Ou vais adormecer, prosaicamemte, com o papo cheio? Adormece! Eu entrego-me a este delicioso fumo, enquanto não chega o Apolo que seduzi esta tarde, na FNAC, junto da prateleira de poesia e de teatro. Como já sabes, se não for eu a… todos têm medo da aranha que sou… Estás a ouvir-me? Não, claro! Já ressonas…

III

- Sarah, posso entrar?
- Sim, entra! Mas, por favor, não estás a ver o que estás a ver, de acordo?
- Só te estou a ver, a ti…
- Queres fumar?  Não!  Daqui a pouco… Beija-me! Aperta-me nos teus braços! Diz-
-me que me desejas, apesar de ter sido eu a...!
- És bela! Adoro os teus cabelos negro- avermelhados! Adoro-os, assim, compridos!
Fumemos, então! Aqui? Ou vamos para o teu quarto?
- Como queiras, Aphonso! Trazes toda a chuva, da qual te falei, para regares a minha orquídea selvagem?
- Sim, querida! Vamos!
- Cheira-me a incenso de ópio. Não preferes o da cannabis?
- Sim, mas… Apeteceu-me experimentar este, mas, na verdade, excita-me mais o clima do da cannabis. E tu? Ainda não me disseste! Aliás, que sei eu sobre ti? Nada.
- Adoro o teu perfume! Doce! Quentíssimo!
- Comprei-o esta manhã. Só conhecia a marca. Apaixonei-me pelo nome de Indécence, da Givenchy.
Aphonso invade o desmesurado decote e beija-lhe os seios. Lambe-os. Morde-os.Com doçura e fúria. Embriagado.
- Sabes? Já to disseram, claro! Até a tua respiração é erótica, sua sedutora satânica!
- Sim! - exclama, num gemido. - Abraça-me! Estrangula-me! Chama-me de fêmea!
- Deixa-me te despir! Ritualmente. Adoro ritos e símbolos eróticos. Para mim, fazer amor é uma arte, uma arte poética.... não me conheces…
Vai despindo a camisa, lambendo-lhe o peito, navegando as mãos até à cintura, enquanto desaperta o cinto, com vagares dóceis, diz-lhe que apenas o animal humano é um ser erótico.
- Belíssimo! Que corpo de Apolo! Adoro-o! - vai dizendo, enquanto o beija, demoradamente, entregando-se ao estudo da carta geográfica das sensações daquele delicioso corpo jovem. Erecto, belo, penetra-o na sua boca, com um prazer molhado e ardente. Devora-o.

IV

Sarah saboreia, na cama, abraçada a uma almofada, o Armani do peito do amante de ocasião, e o cheiro, que lhe não apetece lavar, do seu corpo.
De repente, começa a ver os rebentos verdes e tenros de um poema a irromperem de um solo arenoso, algures, silenciosos. Fecha os olhos para os ver melhor, àqueles rebentos, mas tudo se torna liso e vazio. Profundamente perturbador. Tenta concentrar-se nos cheiros, nos sabores, nas sensações, no corpo das imagens visuais e sonoras, que esvoaçam naquela atmosfera banhada de um erotismo apolíneo, e, ao mesmo tempo, dionisíaco, mas, a verdade é que, não encontra modo de ignorar uma espécie de chamamento, ecoando do fundo do seu próprio abismo, ou melhor, do vazio das suas águas primordiais. Levantou-se. E o parto de um poema se fez. Fê-lo com os seus mesmos dedos, molhados de sangue. Poema de amor e de morte.
- Bem! Que vou eu fazer? Volto para a cama? Não!… Agora, preciso de um banho...Sou toda esperma, suor e sangue… Mas, onde me dói o que me dói? - vai dizendo, num registo de voz magoado, sabendo o porquê, num registo de uma voz- -outra ou de uma voz de uma mulher- outra?- pergunta-se, ainda que não desconheça, desde há muito tempo, que sempre se viveu ou desviveu múltipla, e, sacudindo filosofias, senta-se no soalho, acariciando as orelhas do seu felino, fulvas e macias. 
- Leva-me, meu querido Adónis, a tomar um duche bem quente! Vá! Levanta-te, seu mimado! Vamos falando, enquanto tomo banho, está bem? Vá, levante-se, seu preguiçoso! Vamos! Conte-me o seu último idílio… Ah! Tem pudor em se dizer romântico?! Não seja tolinho! Não há amor sem luar… Que sou eu senão uma lua, escorrendo lavas de cio de todas as crateras? Queres imagem mais romântica do que esta, meu querido Adónis? Vá! Estou à espera que me relates a teu último romance… Não dizes nada?
-Vês? Estou a acabar o meu banho… e tu nem ronronas… Que bela companhia, a tua!
O Adónis espreguiça-se, com olhos lânguidos, fingindo-se ausente, algures, no telhado das suas aventuras secretas.
- Apetece-te jantar? Tens alguma fuga programada para esta noite? Diz lá! Com qual
delas estás a fantasmar? Sabes, não estou a gostar do teu silêncio. Deixa-me só, seu ingrato! Ah! Como não vi! Então, o menino está com uma crise de ciúme? Espere! Não saia! Diga-me! Não gostou do meu Apolo? Interessante! O meu gato quer a exclusividade… Claro! Está mal habituado… Raramente se sente preterido…

V

Injecta cocaína nas veias da sua gélida solidão, e amarrota, num gesto inócuo, a plumagem dos seus vários pássaros de arribação, pousados nas bordas das cisternas da sua memória, ferozmente magoada. A boca da noite devora os ponteiros do relógio da sala, e o pêndulo é um enforcado, balançando numa corda, presa num galho de um pinheiro manso, estranhamente, solitário, segurando uma duna, de um castanho-baunilha
- Quelle image affreuse! - Diz a francesa, que convive com a múltipla Sarah, mas nunca quis aprender a língua portuguesa, e passa os dias, quase sempre só, devorando poetas e tragediógrafos da Antiguidade Clássica, além de romancistas, vindos, directamente, de uma livraria parisiense.
Sarah, a condenada à solidão eterna, como, recorrentemente, se diz, viaja pelas vastidões cósmicas infinitas, dentro de um robe de chambre preto e transparente. Exibe, sem disso se aperceber, o corpo com a idade que não tem, sob repuxos rútilos de astros.
O Adónis, esse, reconciliado, e arrependido do seu egoísmo, fecha a ternura ametista dos seus olhos, e enrosca-se no calor das pernas da poetisa.
Um vento frio investe, com uivos rubros, pelas vidraças esquartejadas, mas aquele dois seres solitários estão ausentes, algures, em órbitas distantes uma da outra, por imperativos diversos, porque, talvez, as palavras, que se não dizem, são mais que palavras. Serão começos de fins ou fins de começos, fundos de poços, sem fundos, abismos abruptos, labirintos marinhos, Luas lívidas e mutiladas, telhados sem traves, nem telhas? Ou - por que não? - a Sarah não fermentará no seu peito a aspiração de um absoluto finito infinito? Como sabê-lo?

VII

- Donde vêm todos estes lobos? - Pergunta Sarah, com gritos histéricos - Adónis!  Adónis! Onde estás? Responde! Estás a ver esta alcateia? Não! Não! Adónis, por que me não disseste que ias sair?! Egoísta! Como expulso estes bichos medonhos? Não!Que estou eu a ver? Adónis! Adónis! Olha! Que louca me pareço! São rebanhos de nuvens cinzentas, correndo nos céus, vergastados pelo vento. Sim! Sossega, Sarah! São nuvens! Por que me não dizes nada? Adónis, diz-me que são nuvens! Diz-me!
O gato sai do quarto de Sarah, bocejando, e esticando as patas, depois de um longo sono na cama desfeita, desde a véspera, e aproxima-se da poltrona, donde se soltaram os gritos que o tinham acordado.  Sarah, depois de um delírio breve, parece ter adormecido, com a cabeça descaída num dos braços da sua poltrona, não se tendo dado conta de que o seu gato ali estava para a acarinhar. Mas, como um maciço silêncio, de novo, se instalou, deitou a cabeça nos pés gelados da dona, e entregou-se aos braços do sono inconcluído.

VIII

Uma esfera de fogo dança dentro dos olhos do gato que, mal tinha acordado, fazia com gosto, a sua higiene matinal, junto das pernas adormecidas de Sarah. Perturbado com aquele clarão de laranja, desvia o olhar e muda de posição. Agora, o fogo afaga o corpo da dona e seca, ao mesmo tempo, as suas patas recém salivadas.
Levanta-se e põe-se a correr de um lado para outro, como sempre faz todas as manhãs, desta vez, inquieto, com as orelhas eriçadas. Sarah dorme. Dorme. Toda banhada de luz. O esfomeado felino, como a dona se demora a acordar para lhe dar o pequeno - almoço, salta para cima da mesa, afiando as garras na lombada de Fleurs Du Mal, e, em seguida, com um olhar melancólico, não se sabe por que motivo, desata a desfazer, com gestos de uma raiva incontida, uma revista francesa, que, parece, ainda estava virgem, pois fora adquirida na véspera.
Quanto à Sarah, com o globo de fogo sobre olhos cerrados, dorme. Dorme, estendida
na esteira que ela mesma tecera, a esteira áspera do Nada. Ou do Tudo?
O Adónis, com gotas grossas, escorrentes, de ametista, nos bigodes, lambe-lhe, com
uma doçura de seda, o ainda belo rosto, sem idade. Um pólen, cor de mostarda, esvoaça
ou flutua sobre os cabelos vermelhos. Pólen de loucura? Ou de crisântemos? Sim! É o mesmo. « A loucura é um crisântemo. Cresce só de noite.»
Não sabe, porém, o fulvo felino, que « é o amor que puxa o coração e a palavra chega ao ouvido, como de um moinho à mó.»

Violeta Teixeira

Conto inédito ( colectânea de contos intitulada CAVALO DE FOGO e subintitulada CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 16/01 às 03:17 PM
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Domingo, 20 Novembro, 2005

DESAFIO DE OLHARES

PARA A SOFIA

«Pupile ouverte sur l’abîme».

ST. JOHN PERSE

«Porque a tua alma foi visual até aos ossos.»

SOPHIA DE MELLO ANDERSSEN

DESAFIO DE OLHARES

I

Letícia Câmara e Augusto de Almeida passavam aquele fim- de -semana numa quinta, recém adquirida, ainda em fase de remodelação e limpeza, a cerca de quinze quilómetros da cidade, onde exerciam medicina hospitalar, e privada, numa clínica que
lhes pertencia. Na casa, que fora dos caseiros da anterior proprietária, de nacionalidade alemã, Letícia instalara o seu atelier de pintura e uma pequena biblioteca, apenas com livros de poesia e romances clássicos. A arte era, para ela, uma terapia eficaz para o estresse do exercício da sua profissão.
No Sábado, depois do jantar, Letícia levou o marido a ver a tela que havia concluído
naquela tarde. Antes, porém, de a mostrar, o perfume das flores dos limoeiros, bebidos,
ebriamente, no espaço que separa a vivenda do atelier, levou-a a abrir uma janela. Não
chega a fazê-lo. Empalidece, e espalma as mãos contra os vidros, como se algo lhe tivesse a roubar a força para se manter de pé.
- Que se passa, Letícia? Estás pálida…
Segura-se ao parapeito, imóvel, com as pupilas dilatadas fixas no céu. Aterrada, leva
alguns segundos a expressar o que está vendo. 
- Olha para o céu! Vês? A Lua tem um buraco no peito e está girar de cabeça para baixo. Estás a ver? Põe os óculos, Augusto! Olha, por favor!
- Vá! Não te faças de louca! - Exclama, sem olhar para a Lua.
Diante dos seus olhos, num canto do vidro da janela, acolhera-se uma constelação de
aranhas, cada uma, de patas finas, longas, peludas, pretas, no centro de toalhas de teias heptagonais, debruadas de franjas de frioleiras verde-azuladas.
- Louca?! Eu?! Toma este espelho. Que vês dentro dos teus olhos? Diz lá, Augusto?
Não são aranhas e teias? Atenta bem! Têm olhos vermelhos, as aranhas. Olha! Não te
parece que já não segregam babas para tecerem? Vês algum tear?
- Já te disse, Letícia, que não te fizesses de louca! Chega de desvarios!
- Dá-me, por favor, o espelho! Louca? Eu?! Os meus olhos estão alvos e sóbrios. Não
direi o mesmo dos teus…
- Guarda o espelho! Fecha os olhos! Fecha-os! Peço-te… Queres um café forte ou um
chá verde? Depois… Prometo-te que vamos observar os dois, ao mesmo tempo, o peito
esplêndido da Lua.
- Tu é que enlouqueceste de vez! Não! Obrigada! Não me apetece nem café, nem chá.
Nem nada! Ouviste? - Di-lo, com agressividade acutilante.
- Acalma-te! Deixemos este desafio de olhares incoincidentes!
Deixam o atelier, em silêncio, e dirigem-se ao seu quarto, na vivenda. Com a mais macia ternura, Augusto começa a desnudá-la, beijando e lambendo, ao mesmo tempo,
cada ínsula de pele que vai aflorando à superfície das suas águas agitadas. Assim, esgarçadas as nuvens espessas e negras que os enovelavam, agora, só se ouve o silêncio
da fusão de duas respirações, borbulhando nas vagas vermelhas do prazer mais sublime do Universo.

II

Letícia desperta mais cedo do que habitualmente, e, atónita, verifica que havia adormecido com as portadas abertas, ela que só colhe o sono num campo onde só se cultive a escuridade nocturna. Num súbito «élan» erótico, enrosca as pernas nas do marido, que acorda, e, sem desfolhar os olhos sobre o corpo amado, semeia-o de beijos. 
- Dormiste bem esta noite, ou eu não me dei conta de te teres levantado, para leres e fumares, como sempre acontece, quando tens insónias?
- Sim, Augusto, apesar das portadas terem ficado todas abertas.
Emudece, com um ar aterrado.
- Que se passa, Letícia?  Voltas aos teus delírios poéticos! Líricos?!
- Augusto, por favor!… Tão céptico! Tão prosaico!
- Ah! Que aconteceu ao Sol?! Olha bem para ele! Tem um olho cego! - di-lo, num tom gritado. Fluem, lentos, uns segundos. Escorre um silêncio frio pelas paredes. De repente, Letícia lança uma seta de terror:
- Augusto! Augusto! O céu vomita ovos negros! Espreita pela janela! Vês? Quebram-se, mal caem naquela varanda. Não te cheira a ovos podres? Olha! Estão a boiar os que caem na piscina. Negros! Negros!
- Por favor, Letícia, não recomeces! Que visões descosidas, as tuas! Ontem, à noite, desfiguravas a Lua… Hoje, o Sol. Agora, é um vómito cósmico de ovos putrefactos. Não achas que te faria bem tomar um banho bem quente? Estás a delirar. Terás febre?
- Por que haveria de ter febre?! - Grita, enraivecida.
- Acalma-te, Letícia! Vamos tomar banho. Vá! Faço-te umas massagens com óleos relaxantes. Não queres? Depois do pequeno - almoço, vamos ao mesmo tempo para o hospital. Hoje, é 2ª feira, sua lunática! Sabias?
- Vês! Continuas a não me levares a sério. Lunática, na tua boca, tem um sentido tão azedo, que me queima os ouvidos. Só te falta dizer que eu sou uma psicótica! Não dizes?! A tua frieza fere-me. Sabes, seu primata insensível!
- Por favor, tenta ter calma, Letícia! Quando te irritas, perdes de todo a razão. Depois, pedes-me desculpa, é certo, mas… Bem! Olha, antes, para a nossa cama!
Com efeito, a cama, ainda desfeita, é uma sementeira de grânulos auríferos. Dádiva dos testículos do Sol, que Letícia não vê. E Augusto parece ter tido um rasgo de poesia.
- Augusto, por que hei-de olhar?  Está desfeita, e, com certeza, fria. Achas que sou uma criança? Que consegues desviar os meus olhos do que não queres que eu veja? Ingenuidade, a tua! Concede que o Sol não só tem um olho cego, como, esta manhã, perdeu o senso. Não te dás conta de nada! Vês o que não vês, e insistes que eu desvario. Por que não dizes, como, há segundos, que tudo quanto digo é poesia?! Ou algo que desenhei ou pintei? Fá-lo! Que gozo sádico, esse, de me irritares! Que racionalidade insensível!
- Desculpa! O que te digo é que estás a perder o senso e não o Sol…
- Ofendes-me, Augusto! Eu vi o Sol dar à luz no Oriente. Sim! Vi! Quer acredites ou não! E a luz, deu-a pela metade… Quanto aos ovos, estão lá…
- Que sensibilidade mórbida, a tua!  Só falta que me digas que a Via Láctea se descarrilou! Talvez mesmo todo o Cosmos…
- Estás cego, como o Sol! Sabes? Insistes, teimosamente convicto, que sou eu que distorço tudo quanto olho? Chega, Augusto! - Exclama com uma tonalidade aspérrima, na voz rouca, que a caracteriza, nos momentos de crise e de confronto.
- Basta de exageros, Letícia! Se continuas com esses desvarios ou vertigens, sei lá, não tardará muito tempo que me digas que estamos no Pólo Sul… Que a Terra fez, esta noite, uma acrobacia extraordinária, digna de uma ginasta olímpica..., de uma daquelas chinesas minúsculas, vítimas de bárbaros ensaios clínicos…
- Não estou a suportar a tua ironia, sabes?! Vai tu tomar banho. Eu não me demoro… Já venho… Se vier…
- Sim! E se ouvisses as notícias na rádio? Fá-lo, Letícia! Confirmarás uma catástrofe cósmica…
Com a garganta e a mente secas de azedume, perde a vontade de dizer seja o que for. Subitamente lembra-se de olhar para o relógio.
- Estou atrasada! - vai dizendo, enquanto entra na casa de banho, - acrescentando que, assim sendo, não sairiam de casa os dois ao mesmo tempo.
- Então! A rádio confirma alguma catástrofe cósmica? - Pergunta, com um acento sarcástico.
- Julgas que vou responder ao teu sarcasmo?! Não! Olha, vou arranjar-me na casa de banho dos filhotes. Ainda bem que passaram este fim-de-semana com os teus pais… Quando estiveres pronto, não me venhas, por favor, dizer que estou atrasada. Ouviste? Não preciso de me submeter aos teus horários rígidos! A cada um, felizmente, o seu espaço físico e psicológico, o seu ritmo, o seu carro!
- Claro! Nesse aspecto, tens razão...Em todo o caso, vê lá se não te enganas no percurso!
- Que aviso tão sem sentido! Guarda a tua fria ironia para tua equipa médica! Sabes? Estou farta!
- Não te esqueças da catástrofe cósmica e das suas consequências! - Insiste, com um sorriso tolo, nos olhos míopes.
- E se te calasses! Por favor… Irritas-me, Augusto!
- Olha! Já pensaste na inevitável sublevação dos pontos cardinais?
Letícia sai da casa de banho privativa do casal, e, com fúria, fecha a porta. Atravessa, apressada, um corredor, e entra, raivosa, no escritório. Pega num pesadíssimo chaveiro. Abre uma gaveta e retira, com gestos de um rito sacro, um «charro» de cannabis. Era a sua terapia para a ansiedade. Aliás, a Dr.ª Letícia, defendia a liberalização do consumo da cannabis, para fins clínicos, como por exemplo, nos doentes terminais, e não só.
III
No longo trajecto, ainda dentro da quinta, as laranjas são luas minúsculas que, ora se ocultam, ora incham. Redondas. Perfeitas. Com olhos oblongos. Pára o carro. Retira os óculos escuros. Uma chuva de pinhas de pinheiros bravos cai, com um ruído ensurdecedor, em cima do tejadilho vermelho. Arranca, de novo, mas até chegar ao portão, a chuvada persiste em engelhar-lhe os nervos.
- Que sede, esta! - exclama, procurando uma garrafa que sempre traz no carro, no assento ao seu lado.
Não. Não a encontrava. Melhor seria voltar a casa, e saciar aquela sede deveras estranha, até porque nem fazia calor àquela hora da manhã.
Abre o frigorífico. Pega numa garrafa, mas, logo, lhe cai das mãos. Do plástico estilhaçado, saem hexágonos de gelo. Tenta controlar-se. Abre a torneira do lava-loiça, para encher de água o copo trémulo, mas, lentas, jorram gotas gelatinosas, cor de groselhas maduras. Estica o elástico das suas resistências, e dirige-se à sala, onde espera encontrar água tónica, que costuma misturar com whisky. Não era possível que, durante a noite, a água se tivesse transformado em florações pétreas, sem partir as garrafas. Desistia. Um cubo de gelo ia resolver o problema da sua sede selvática. Abre a porta superior do frigorífico, mas, para pasmo extremo, encontra uma montanha glaciar, de um branco ferino.
Cai num dos maples de veludo, e, ali, fica, mole e muda, ouvindo e não ouvindo o toque musical do seu telemóvel.

IV

- Então, Letícia, por que não atendeste as minhas chamadas? Conta-me o que aconteceu para teres faltado toda a manhã? O que sentes?  Vamos lá medir essa tensão! Desmaiaste? Fala! Como queres que eu te ajude, se não me dizes nada, nem te levantas? Vá! Levanta-se, a custo, sussurrando um não valia a pena, porque em nada ele acreditaria.
- Sê razoável, Letícia! Algo de sério aconteceu, senão não estarias aqui nesse estado. Conta o sucedido quando quiseres, mas, por favor, ajuda-me a tentar um diagnóstico, apesar da minha especialidade. Precisas de ser tratada… Sabes tão bem quanto eu. Ou achas que os teus comportamentos, desde Sábado, são normais? Diz-me, Letícia!
- Conheces, porventura, os parâmetros da normalidade? Distingues as fronteiras que separam o que denominas normalidade das da loucura?!
- Deixa-te, Letícia, de filosofias!
Que, assim sendo, nada do que ele pudesse fazer valia a pena. Só precisava de descansar umas horas. Que fosse tratar dos olhos dos seus pacientes.
-Bom! Não vamos discutir. Se é isso que queres, vou levar-te para a cama. Tomas um ansiolítico e vais dormir sossegada. Não penses que te deixo só. Vou já cancelar as consultas do consultório. Dá-lhe um beijo em cada face e sai do quarto.

V

Letícia acorda já passavam das dezanove horas, mas o rosto que vê não é o de Augusto. É o de um dos psiquiatras da clínica, o Dr. Jacinto Faria.
- Boa noite, Dr.ª Letícia! Sente-se melhor?
- Boa noite? Quantas horas terei eu estado a dormir?! Desculpe-me, Dr., mas ainda não sei… Acabei de vir à tona de uma espécie de hibernação.
- Foi o Dr. Augusto que me pediu que aqui viesse… Ele acha que eu sou o médico indicado para tratá-la. Espero que aceite o propósito do seu marido. Diga-me, Dr.ª, se está de acordo.
- Sim… Por que não? Já nos conhecemos há muitos anos.
- Onde está o meu marido? Sabe, Dr.?
Que tinha sido chamado de urgência ao consultório. Uma criança espetara uma agulha numa das vistas. Não deveria demorar.
- Uma criança! - Exclamou, pensando nas suas pacientes habituais.
- Então, já me pode responder se se sente melhor? O Dr. Augusto não teve tempo de me indicar os seus sintomas. Já se sente capaz de me falar sobre eles?
- Que lhe hei-de eu dizer, Dr.? Foi tudo tão estranho! Aterrador e belo, ao mesmo tempo…
Letícia sentou-se na cama e, com todos os pormenores, contou ao colega tudo quanto lhe tinha acontecido, estendendo-se, de novo, num gesto a roçar volúpia, certamente, sem disso se aperceber.
- É a primeira vez que tem essa espécie de alucinações?
- Acha, Dr., que é disso que se trata?
Era, efectivamente, a primeira vez que tinha visões daquela natureza, se bem se lembrava. Tinha estado a pintar durante todo o fim de semana, tão compulsivamente, que até se esquecera de se alimentar.
- Trabalhou, Dr.ª, com o atelier arejado?
- Não me recordo, mas creio que não, que não abri as janelas, a não ser naquele momento ao qual, há uns minutos, me referi. Creio que devo dizer-lhe que ainda não foi feita uma limpeza conveniente ao atelier, após a saída dos caseiros da antiga proprietária. Como sabe, adquirimos esta quinta há pouco tempo. A minha pressa em ocupar aquele espaço era tão grande, que não pensei em mais nada, a não ser em estar só, entregue inteira às minhas telas ou à escrita poética.
Que compreendia aquela pressa de estar só. Todos os artistas eram como ela. A produção artística, qualquer que fosse, era, segundo se dizia, um acto solitário.
- Sim, Dr., tem razão.
- Como não efectuou uma limpeza conveniente ao seu atelier, ocorre- me perguntar-lhe se deu conta da existência de produtos tóxicos não removidos pelos tais caseiros? Pesticidas? Sulfato de enxofre? Sei lá que mais. E os óleos acrílicos ou não, dissolventes ou diluentes, etc, nunca lhe provocaram perturbações, como náuseas e vómitos? Dores de cabeça, tonturas ou perdas pontuais da visão?
- Não, Dr. Do que me recordo deste fim de semana é que não só me esqueci de me alimentar, como não saí do atelier.
- Apenas, Dr.ª?
- Não. Estou a lembrar-me que tomei vários whisky…
- Desculpe, costuma tomar bebidas alcoólicas enquanto está a pintar ou a escrever?
- Sim, Dr., também fumo cannabis… O meu marido não tem conhecimento do vício do Whisky, nem desta droga.
- Não se preocupe, Dr.ª, nada lhe direi. Como sabe, seria deontologicamente grave, se o fizesse.
- Claro! Não pensei no nosso código deontológico. Desculpe-me, Dr.!
- De nada!
Ficou em silêncio, olhando para a beleza do rosto, e do corpo da colega, ondeando por debaixo dos lençóis. Um brilho lúbrico acende-se no seu olhar, a boca é um morango maduro, que se dá a devorar, e os braços são dois longos remos , prontos para uma navegação, num oceano fantasmático. As mãos tremulam. São duas folhas de álamos. Ensopado de pudor, levanta-se da cadeira, numa tentativa de esgarçar aquela casulo do desejo, tecido na borda da cama da paciente. Ou de um abismo? Lança, desesperado, apelos à ética, estendida na esteira da indiferença ou, talvez, da impotência. Volta a sentar-se, mas não consegue articular um palavra.
Letícia, em vão, se esforça por fingir que se não apercebe que o colega é um náufrago, esbracejando, num mar revolto. Oculta-se num véu de bruma, mas o certo é que se permite a rendição ao gozo daquele jogo erótico, jogo que a incita a entrar a bordo, sem hesitar um gesto, se o colega explicita verbalmente os seus desejos. O barco, esse, balança nas águas deontológicas.
- O meu quadro clínico é assim tão grave, Dr.? - Pergunta, ironicamente.
- Não me referi a isso… Parece-me que a colega não está a atribuir alguma importância ao sucedido. Achará que se trata de algo de pontual, de passageiro, de normal?
- Sim, Dr. Jacinto. Não lhe vou ocultar o que penso… Mas, diga-me, calou -se com receio de me ditar uma pesada sentença? Tive essa impressão…
Boiando, agora, à tona das vagas que, enfim, sossegou, afasta os olhos dos da Letícia.
- Que pessimismo, Dr.ª! Ou, continua a ironizar?
- Sim, de facto. Por que não? Digo-lhe, porém que sou, por natureza, optimista. Então, por que me não revela já o diagnóstico, Dr. Jacinto?
- É mais difícil do que retirar, sem lesões, uma agulha da vista de uma criança de sete anos. Não se importa de, amanhã, ir ao meu consultório?
- Com certeza, se acha que é necessário… A que horas? Estarei toda a tarde na clínica, a dar consultas. Pode, por favor, mandar-me chamar à hora que lhe for mais conveniente?
- Sim! Farei, como me está a pedir. Tome, uma hora antes de se deitar um comprimido dos que o Dr. Augusto lhe deu ontem. Vai dormir bem, e, amanhã, conversamos. Antes, todavia, se tiver oportunidade, seria aconselhável que, acompanhada do Dr. Augusto, investigasse, digamos, toda a casa que fora dos tais caseiros. Boa noite, Dr.ª! Não se preocupe. O seu marido não deve tardar.

V
O Dr. Jacinto meteu-se no carro, não sem antes, ter lançado um olhar a toda aquela enorme e bela vivenda. Mas, o trajecto até o portão da quinta, quem o fez foi a criança que foi. Com efeito, a variedade de árvores autóctones e as das mais variadas regiões do mundo, além de arbustos, de cactos, de plantas, de flores, o tudo exalando fragrâncias inebriantes, viajaram-no no tempo e no espaço, como se asas tivesse . O miúdo que tinha sido impediu-o de analisar o homem, médico, embora, que, de súbito, fora atraído de um modo avassalador pela colega a quem dava uma consulta. Só quando terminou o longo trajecto da vivenda até o largo portão de saída da quinta, a criança que tinha sido se evolou, como volutas opiáceas num fumoir.

VI

Quando o Dr. Jacinto chegou a casa, na cidade de Faro, esperava-o a mulher.
- Boa noite, querido!
- Boa noite, Filipa! Desculpa-me o ter chegado tão tarde para o jantar. Fui chamado de urgência à vivenda do Dr. Augusto. A Dr.ª Letícia encontra - se doente.
- Algo de grave?
- Ainda não sei… Tenho de reunir toda uma série de elementos, antes de fazer um diagnóstico. Trata-se de um quadro clínico complicado. Bem! Deixemos o assunto, se não te importas, e vamos jantar.
- Sim, Jacinto! Vamos!
Sempre bem disposto e conversador, o Dr. Jacinto jantou em silêncio, o que, como é óbvio, não passou desapercebido à mulher.
Com efeito, o Dr. Jacinto, ali, sentado, não estava, no entanto, presente. Ficara na borda da cama de Letícia, deslumbrado, seduzido, e, com uma vontade exacerbada de possuir aquele belo corpo, serpenteando sob os lençóis. Jantou, navegando nas mais eróticas fantasias, se bem que se esforçasse por pôr termo àquele fantasmar excitante e eufórico, mas ferido de ilicitude. O seu pensamento cavalgou, desenfreado, na noite intérmina. A consulta marcada com Letícia, à tarde, no seu consultório, transformara-se em todo o sentido da sua vida. Era a primeira vez que desejava fazer amor com uma paciente, além do mais colega, casada com um colega, os proprietários da clínica onde alugara o seu consultório. O encontro aliciava-o e, ao mesmo tempo, preocupava-o, por motivos deontológicos e éticos. Não saberia, pensava ele, como lidar com aquela atracção, cujas consequências ainda ignorava. Não era capaz de as realizar. Ou, no fundo, não queria fazê-lo?
Deitou-se mais cedo do que lhe era habitual, voltou as costas à mulher, que, dado o seu estado de espírito, passou a ser uma desconhecida. Aliás, ele próprio se sentia um estranho de si mesmo.
Consumara, em sonhos, todos os seus desejos, relativamente à Dr.ª Letícia, mas acordou com todos eles, de novo, acesos. Que iria acontecer durante a consulta daquela tarde?


VII

Ás dezassete horas, o Dr. Jacinto pede à empregada que vá ao consultório da Dr.ª Letícia dizer-lhe que, se estiver disponível, ele está livre para a consultar.
- Sabe, Dr., a Dr.ª Letícia, segundo fui informada, deixou a clínica, há cerca de um quarto de hora.
- Foi ao consultório do Dr. Augusto?
- Não, Dr.
- Então, vá lá, por favor! Ele deve saber onde terá ido a esposa.
Que não sabia. A Dr.ª Letícia não tinha o hábito de se despedir, quando acabava as consultas. Com certeza teria ido fazer alguma compra, e voltaria à clínica para a consulta com o Dr. Jacinto.
- Obrigada, Sr.ª Dª Irene! Pode ir embora. Eu ficarei aqui mais algum tempo.
- Boa tarde, Dr.! Até amanhã.
- Até amanhã. Tenha uma boa noite.
Letícia não voltou à clínica, o que levou o Dr. Jacinto a comunicar ao Dr. que a sua esposa tinha faltado à consulta.
- Desculpe-me, colega, deve se ter esquecido, e regressou a casa. Ansioso e frustrado,
O Dr. Jacinto senta-se, de novo, e mergulha numa tempestade de sensações multímodas, sem a mínima vontade de ir para casa.

VIII

Levantou-se, saiu da clínica, e dirigiu-se à vivenda da Dr.ª Letícia. Como não a tivesse encontrado, regressa à cidade, sem saber onde a procurar.
- Está a fugir dela mesma, sabendo, embora, da impossibilidade, e também de mim… - Vai dizendo, enquanto toma o rumo da Marina. O crepúsculo é um braseiro, com faúlhas azul-petróleo, rodopiando nos céus, precipitando-se, depois, nas águas incendiadas, e no seu peito, cujo pêndulo se move taquicardíaco. Encosta-se a uma palmeira. Os seus dedos são garras felídeas, ferindo as escarpas ásperas do tronco, sem disso se dar conta, até porque os fantasia, acariciando, maciamente, o corpo de Letícia.
- E se ela…
Asfixia a ideia que começa a escalar as falésias esfareladas da sua mente.
Um alvoroço de asas de gaivotas sobrevoa barcos e veleiros, que se balanceiam, com ritmos uníssonos, nas águas tingidas de nuances púrpuras arroxeadas, respingadas de flocos de cinzas.
- O Dr. Augusto, se não me engano, tem um barco ancorado nesta Marina. E se ela estivesse a bordo? Belo refúgio! - Devaneia, apesar das veias túmidas de um medo indominado. Se soubesse identificar o barco, teria ido a bordo procurar a colega, mas como nunca o tinha visto, achou que o mais sensato seria deixar a Marina.

IX
Dada a busca, sem êxito, da foragida Letícia, o Dr. Jacinto decide comunicar o facto ao Dr. Augusto, que, aparentemente, não manifestou a mais ínfima preocupação. A mulher deveria estar, segundo ele, no apartamento da cidade, onde viviam, num décimo sexto andar.
- Vamos lá a casa, Dr. Jacinto? Importa-se?
- Sim! Gostaria de fazer algumas pergunta à Dr.ª Letícia, já porque faltou à consulta.
- Vamos no meu carro, está bem?
- Com certeza. Vamos! - Exclama, com uma dose, indisfarçável, de ansiedade.
- Que terá acontecido? Olhe, Dr. Jacinto! Veja aquele magote de gente junto à porta da garagem do meu prédio! Que maçada! Vou ter que arrumar o carro aqui fora.
- Sabe, Dr. Augusto, alguma desgraça aconteceu.
- Por que diz isso?
- Ora, Dr., está a esquecer-se que é próprio de todo o se humano o gosto da tragicidade sucedida aos outros…
- Sim! Claro! - Diz, num tom neutro.
- Bem! Vou arrumar aqui, e vamos a pé. Entramos pela porta principal do prédio.
Aproximam-se daquele magote de gente. Junto à porta da garagem, o passeio é um arquipélago de sangue, e a uma pequena distância, jaz, danificada, uma grande tela, na qual um trecho das salinas de Faro exibem cores esbranquiçadas, sob um céu lavrado de ardores lunares.

Violeta Teixeira, inédito (CAVALO DE FOGO – colectânea de contos subintitulada CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 20/11 às 02:31 PM
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Quinta-feira, 03 Novembro, 2005

A GATA

Creio na poesia, no amor, na morte.
GIÁNNIS RITSOS

A GATA

I

A noite faz-se, sem a mínima cintilação, num céu de um cinzento arroxeado. Sentado, num banco de pedra basáltica, o arquitecto Jorge de Albuquerque olha, meditativo, para umas dunas erosadas, e pergunta-se, perplexo, qual a idade que tem, ou seja, a idade que sente ser a sua. Olhos negros, fixos no movimento da brisa iodada, a resposta demora-se dentro de um tempo perplexo, por eventos que não queria que tivessem dado à costa da memória. Não havia outra alternativa que não fosse sacudi-los, como fazia aos mosquitos que lhe rondavam o rosto. De súbito, o eco de uma voz jovem ecoa-lhe no fundo do peito, com uma serenidade macia. Não tinha a idade que tinha, conclui, com júbilo, sorrindo do paradoxo. Não, não importava a idade registada no Bilhete de Identidade. Fizera, na véspera cinquenta anos, mas fora, seguramente, engano, pensa, espreguiçando-se, com um prazer, até então, desconhecido. Não, não pensaria mais no que lhe havia acontecido, há cerca de três anos, disse, como se tratasse de um pacto firmado com ele próprio.
- O senhor arquitecto não vem jantar? Já está na mesa, e já o chamei várias vezes…
- Desculpe-me, Dª Rosalina! Não a ouvi me chamar, estava distraído, a olhar para o mar. Vou já. Obrigada! 
Levantou-se. Estava orgulhoso do seu corpo elegante e ágil. Não tinha, com efeito, a idade que tinha, repetiu, em voz baixa, com um acento de uma verdade irrevogável. 
Quando acabou de jantar, pegou num dos muitos livros que levara para a sua casa de praia, e entregou-se à leitura, como se abraçasse uma mulher. Sim, outra acabaria por o seduzir, pensou, com um olhar brilhante, voltejando fora das margens do livro de poesia que estava a ler.
- Desculpe-me, senhor arquitecto, mas não me pediu, como costuma, depois do jantar, um copo de whisky. Aqui o tem. Desculpe-me!
- De nada, senhora Rosalina. Obrigada!
Retoma a leitura, mas os seus pensamentos são crinas fulvas e esvoaçantes. Tenta encontrar uma explicação racional para o seu estado de espírito, mas uma espécie de medo indefinido apodera-se do seu corpo excitado. Não se recordava de ter desejado, durante os últimos três anos, fazer amor com outra mulher que não fosse… Fecha, bruscamente, o livro, e lança-o para o chão, de mármore róseo, como se tivesse desembaraçado de um corpo que lhe repugnasse. Estranha aquele gesto, por certo, simbólico, mas…
- O senhor arquitecto chamou-me?- pergunta-lhe a Dª Rosalina.
- Sim! Diga, por favor, ao senhor Manuel que eu vou sair.
Sim. Que ia já avisá-lo.
O arquitecto, nem em férias, dispensava o seu guarda - costas. Achava que tinha inimigos que o perseguiam.  tê- los-ia? Por que motivo? Mania da perseguição? Talvez… Com certeza…
- Bom! Não vou pensar nisso! Quero dar-me ao luxo de fazer uma loucura esta noite Acabou este cenobitismo, sem sentido! Chega de só me entregar ao trabalho, ou, em férias, deixar-me ficar neste refúgio! - Diz em voz alta, como se falasse a um ele- outro.
Mete-se no carro e acelera. Vai a Lagos, com o intuito de passar o resto da noite num bar, não deixando, no entanto, de o perturbar a mudança abrupta do seu estado de espírito.

II
- Há quanto tempo não saio à noite, Sr. Manuel? Recorda-se?
- Há vários meses, Sr. arquitecto… Mas não me lembro há quantos… Posso fazer-lhe uma pergunta? Desculpe-me.
- De nada! Faça, Sr. Manuel.
- Por que escolheu o bar mais pacato desta cidade? Desculpe-me a curiosidade…
- Sabe, Sr. Manuel, é como se estivesse a dar os primeiros passos… Entende?
- Acho que sim… Em todo o caso, quando o Sr. arquitecto saiu de casa...Sabe? Pareceu-me mais entusiasmado… Não sei bem como dizer… Desculpe-me…
- Sim, talvez o Sr. Manuel tenha razão… Muda-se de humor tão rapidamente…
- Bem! Vou entrar, mas não me devo demorar muito tempo… Esteja atento, como seu hábito...Mas ... estes ambientes exigem cuidados redobrados. Não se afaste do passeio. Está bem?
- Com certeza, Sr. Arquitecto.
O arquitecto entra no bar, procurando uma mesa donde possa ver a saída. Não consegue despir-se do medo, daquele medo. É como se fosse uma segunda pele, pensa, com os olhos postos na porta.
- Que deseja tomar?
- Traga-me, por favor, um whisky velho.
- O senhor deseja com gelo?
- Não, obrigado.
Cruza as pernas, para se sentir mais descontraído e, lança um olhar, quase furtivo, à sua volta, como se se tivesse evadido de uma prisão. Dá-se conta do sem sentido do seu comportamento mas, vulnerável, inspecciona todo o espaço. Sente-se, ao mesmo tempo, recluso foragido e guarda perseguidor de si mesmo.
- O Sr. deseja mais alguma coisa?
- Não, obrigado!
Acende um cigarro, depois de um pequeno gole. Tenta distrair-se, olhando à sua volta mas, de súbito, os seus olhos tombam no fundo do copo. Engolidos, compulsivamente. Reage, esbracejando, sem êxito, nas águas que se enraivecem dentro do peito. Toma um grande gole e puxa, com fúria, o fumo do cigarro, apertado entre dos dedos esguios e trémulos, tentando se libertar das vagas de mágoas que lhe vêm bater contra as paredes frágeis do coração.
- Não! Não! Não saí de casa para isto! Não! Estaria melhor em casa, lendo poesia, pensa arrependido de ter saído do seu retiro. Não sabia porquê, mas a verdade era que a poesia era uma escrita que o libertava, uma espécie de fonte de água límpida, que lhe lavava as tintas escurecidas da abobada da alma.
- O Sr. arquitecto ligou-me?! Tão cedo! Desculpe-me…
- Sim, Sr. Manuel. Vou regressar a casa. Já. Não suporto ambientes desta natureza.
- Com certeza… Vamos, então, regressar? Desculpe-me, não lhe faria bem dar um passeio a pé pela marginal? Não tenha receio. Eu sigo-o, também a pé, Sr. arquitecto.
- Talvez tenha razão, Sr. Manuel. Siga-me, por favor.
O mar é uma colcha de prata, salpicada de escamas luzidias. De pé, deslumbrado, o arquitecto não consegue afastar as mãos daquelas escamas. Acaricia-as, às costas macias de uma sereia. Ali, enovelado em recordações eróticas, vai-se ausentando da realidade, despegando-se do tempo, desconhecendo-se. O Sr. Manuel, esse, deixara-se ficar encostado ao tronco de uma palmeira, olhando para o patrão, à espera que este se desplantasse da calçada do passeio. De súbito, vê um gato enorme, com os olhos, rubramente acesos e faiscastes, aproximar-se do arquitecto. Dá dois passos muito rápidos mas, logo, desiste de se aproximar do patrão, quando, atónito, não quer acreditar nos seus olhos. O gato enrosca-se nas pernas do arquitecto, e este, que não gostava de felinos, toma-o nos braços, acariciando-lhe a cabeça, como se fora a farta e cetinosa cabeleira de uma amante. Não era possível! Aquela gata fulva e macia acabava de o seduzir, de se lhe entregar. Sim. Afinal, era verdade o que, vulgarmente, se dizia a propósito dos gatos. Eram eles, com efeito, que escolhiam o dono, não o contrário, como acontecia com os cães. Mas, por que o havia escolhido, a ele, aquela gata? Interrogava-se, confuso, e, ao mesmo tempo, inexplicavelmente satisfeito. Levá-la-ia para casa, dizia , docemente, à sedutora gata.
- Sr. Manuel! Vamos regressar. Não estranhe, mas julgo que já percebeu que esta gata também vai connosco.
- Sim, Sr. arquitecto! Por que não? Vê-se que é uma gata abandonada e que gostou do senhor… sabe-se lá porquê…
- Também não sei, Sr. Manuel… Levamo-la. A Dª Rosalina deve saber como tratá-la.
- Sim, ela adora gatos, como o Sr. arquitecto sabe.
- Bem! Vamos! A gata vai no meu carro.
- Não vá arranhar os estofos, Sr. Arquitecto!
Já tinha fechado a porta e, portanto, nada ouviu, salvo, naquele momento, um ronronar feliz da gata, com a cabeça deitada nas suas pernas.

III

Mal abriu a porta do carro, a gata saltou para o chão, num voo rápido e seguro, como se acabasse de regressar a um local sobejamente conhecido, o seu, desde sempre, facto que não deixou indiferente o arquitecto, com um grito estrangulado na garganta, não sabia porquê. Pensaria nisso mais tarde. Naquele momento, o importante era instalar a gata, ainda não decidira onde.
- Diga-me, Sr. Manuel, onde acha que devo pôr a minha princesa?
- Não sei… Não sei, Sr. arquitecto. Parece-me que ela já escolheu o lugar da sua preferência…
- Por que me está a dizer isso, Sr. Manuel? Ela desapareceu daqui, da garagem enquanto estávamos a falar. Viu em que direcção ela foi?
- Sim! Senão, não tinha dito que ela já tinha escolhido o seu canto...Sabe, ela já está dentro de casa, e, se bem adivinho o hábitos dela, deve ter-se instalado numa poltrona da sala. Creio mesmo que na sua, Sr. arquitecto… O melhor é irmos verificar, não vá estragar o veludo das poltronas, não acha?
Efectivamente, a princesa, toda vestida de pêlo fulvo, com olhos verdes, de um brilho hipnótico, aninhara-se na poltrona onde sempre se sentava o arquitecto, quer para ver televisão, quer, sobretudo, para se dar inteiro à leitura, único verdadeiro prazer que lhe restava, além do vício do tabaco, vício - prazer, como costumava dizer a quem o acompanhava a deixar de fumar.
- Não acha tudo isto estranho, Sr. Manuel? Eu diria, mesmo, misterioso...Parece que já aqui viveu… sei lá!… E eu? Eu não gostava de gatos… Diga-me qualquer coisa, por favor!
- Que lhe hei-de dizer, Sr. arquitecto? Desde o aparecimento, não se sabe de onde, da gata, na marginal, até o ter-se enroscado nas suas pernas, e tudo o resto que estamos a ver é muito estranho… Como quer que eu lhe explique, se o Sr. também está confuso… Que sei eu?…
- São tão imprevisíveis estes animais! Recorda-se, Sr. Manuel, se, porventura, a minha ex - mulher gostava de gatos ou se terá, alguma vez, estado nesta casa, quando vinha passar alguns dias aqui, no Inverno? O Sr. Manuel, veio trazê -la ao Algarve algumas vezes, se bem me lembro…
- Isso aconteceu nos últimos anos do casamento… passou muito tempo… Não sei...Deixe-me recordar
O guarda-costas, com a testa toda enrugada, e os olhos semi- serrados, mergulha no passado com um certo ar nostálgico. Um silêncio pesado cai, retumbante, sobre os ombros do arquitecto, de tal modo excessivamente pesado, que se deixa cair na poltrona, tocando, sem querer, numa das patas da princesa, que solta um mio lânguido e dorido. Uma carícia bastou para que a princesa se deitasse no colo do arquitecto, estupefacto e indefeso. Iria ela atrás dele, se se levantasse dali, perguntou-se, e, de imediato, põe-se de pé, sem que a gata caísse, segurando-se às suas calças, com pequenas garras.
- Que vou fazer com ela, Sr. Manuel? Ajude-me, por favor! Não sei como não ceder aos seus caprichos. Parece que não quer que eu me afaste dela… Onde vamos pô-la, que eu quero ir dormir? Diga-me, por favor?
- Experimente, Sr. arquitecto, afastá-la… e, logo, vemos o que ela faz. Não percebo nada destes bichos!
Para onde quer que o arquitecto vá, a princesa segue-o, quase colada a ele, com um olhar pedinte de protecção.
- Bem! Não me diga, princesa, que vai deitar-se na minha cama? - Pergunta-lhe, com ternura, o arquitecto. Mas… Mas…
Num ápice, a gatinha salta para cima da cama, e faz-se num novelo, no lado oposto àquele onde costuma deitar-se o arquitecto. Assim fica, enquanto o companheiro se vai despindo, atrapalhado com aquela situação, já porque não quer contrariar a sua linda princesa. Ao mesmo tempo, porém, não consegue explicar tudo o que lhe tem vindo a acontecer desde a queda arroxeada da noite. Mas, como poderia ter-se transformado num quase desconhecido de si mesmo? - interroga-se. Não! Não! Não está a sonhar! Mas… O que se estará a passar dentro dele… Debalde, se pergunta, já em pijama.
- Bem! Boa noite, Sr. Manuel! Vou me deitar com a gata ao meu lado. O que é que o senhor faria se estivesse no meu lugar?
- Não sei! Estou a achar tudo isto tão estranho, que a minha cabeça já não funciona. Amanhã, falamos com a Dª Rosalina. Talvez ela tenha outra solução que agrade ao bicho. Boa noite, Sr. arquitecto!

IV
Na manhã seguinte, depois de uma noite mal dormida, dada a tempestade que assolou a mente do arquitecto, este dirige-se à cozinha, onde a empregada acabava de lhe preparar o pequeno - almoço, pronto para lhe contar a história da gata.
- Bom dia, Sr. arquitecto! Então, como passou a noite com a gata? Desculpe-me, mas parece-me uma história de novela. Ah! Lá vem ela! Que linda gata! Deve ter fome.
- Dê-lhe comida, por favor. Depois, leve-me o pequeno almoço. Hoje, vou tomá-lo na sala de jantar.
- Sim, Sr. arquitecto. Vou arranjar qualquer coisa, enquanto não se compra comida própria para gatos.
A princesa parece ter percebido toda aquela conversa, porque saiu logo da cozinha e foi sentar-se, na sala de jantar, na cadeira ao lado da do arquitecto.
- Bem! Assim sendo, trago-lhe já o pequeno- almoço. Quem sabe se ela também gosta do mesmo. Já não estranho nada… Até me faz lembrar a história de uma princesa encantada…
- Vamos ver se ela gosta de torradas com leite, Dª Rosalina, diz o arquitecto, a sorrir. Num prato fundo, a empregada mistura migalhas de torradas com leite e coloca-o em frente do focinho da gata, a qual, sofregamente, tudo come, e acaba lambendo o prato com um charme principesco, sob o olhar atento e incrédulo do arquitecto, que, só minutos depois decide tomar o seu pequeno almoço, com o coração num alvoroço indizível.
- Tome conta da princesa, enquanto o Sr. Manuel e eu vamos a um supermercado comprar umas latas de comida para ela.
- Com certeza, mas..., mas, Sr. arquitecto, não sei se ela vai aceitar ficar comigo. É tão esquisita!
- Vamos ver… Espero que sim… Não vá ela meter-se no meu carro! Olhe! Olhe, Dª Rosalina lá vai ela a correr para a garagem.
A princesa, sabe-se lá como, pareceu adivinhar as intenções do dono. De facto, mal este abriu a porta do carro, ela saltou para o banco, e, logo depois, se deitou, voluptuosa, nas pernas do arquitecto. Embora, a este, lhe agrade o calor daquela beleza, não consegue compreender nem o seu comportamento, nem o da gata. Por mais que se esforce, não encontra respostas para as suas inquietas interrogações, o que lhe rouba a tranquilidade que veio à procura naquela casa, plantada à beira mar, e, por ele mesmo, projectada, dois anos antes de se ter casado.

V
- Desculpe-me, mas o Sr. arquitecto nem sequer comeu toda a sobremesa. Não gostou do gelado de framboesas e chocolate? É uma receita do tempo da…
O arquitecto tirou-lhe a palavra da boca, para lhe dizer que o gelado estava delicioso, mas que se tinha distraído, olhando para a gata, que nada tinha comido do conteúdo daquela lata. Talvez o facto de ter visto a imagem de um gato no rótulo a tivesse incomodado. Seria melhor não pôr a lata à sua vista. Calou-se durante uns segundos, tendo caído, inadvertidamente, no fosso fundo do passado, talvez por causa daquela alusão feita pela empregada. Acrescentou, ainda um tanto respingado de frias lembranças, que, doravante, a comida da gata seria posta no prato, na cozinha, e, só depois, trazida para a sala de jantar, onde ela insistia em se sentar, ao seu lado.
Que estava bem, disse a empregada.
- Onde está ela agora? Viu-a passar para algum sítio?
Que não, que se tinha distraído com a conversa.
- Então, se não se importa, vá procurá-la. Está bem? Terá ido para a garagem?
Dª Rosalina foi encontrar a princesa, toda enroscada, na poltrona do patrão, como se estivesse à sua espera, para se pôr no se colo, pedindo, com um olhar lascivo, que ele a acariciasse na cabeça e na barriga, o que a fazia transbordar de prazer, prazer, esse, revelado através da posição das patas, com as garras guardadas nas bolsas sedosas.
- Está na sala, Sr. arquitecto. Parece-me que está à sua espera, como já a habituou.
- Deve ter razão, Dª Rosalina. Ainda não tinha pensado nisso… Uma gata abandonada, mostrando tantos mimos e caprichos, não me parece normal, mas… Mas que sei eu sobre os hábitos desta espécie de animais? Nada. Nunca quis ter nenhum animal, não sei porquê, mas esta… esta gata conquistou-me… Foi um autêntico coup de foudre…
- Como? Não percebi o que o Sr. arquitecto acabou de dizer… Não se importa de…
Calou-se, talvez com vergonha da sua ignorância. Como sabê-lo?
- Sabe, Dª Rosalina, o que nos aconteceu, a mim, e à princesa, é como se fosse um amor à primeira vista.
- Sim! Assim percebo o que isso quer dizer. Só pode ter sido isso...Embora eu não soubesse que podia acontecer com um animal. Está-se sempre a aprender coisas, não é verdade? Por sinal, esta é muito estranha… Mas… Sei lá… Há tanta coisa que a gente não entende.
- É verdade. Também eu não compreendo o que se terá passado, Sabia? Não tenho a certeza do que lhe disse… Bem! Vou, então, ver a minha caprichosa… Até já!
Ronrona, quando se apercebe da chegada do dono. O ronronar toma acentos de sedução, aos quais o arquitecto não resiste, sorrindo como Narciso apaixonado, mirando-se nas águas. Pega-a ao colo, senta-se, e entrega-se à sua princesa, fazendo-lhe as carícias mais excitantes, resvalando, sem se dar bem conta, para um corpo-outro, de uma Eva não mítica, gotejando águas genésicas, onde, avidamente, mergulha, e engrossa, com as dele, o caudal do leito da posse erótica. Estava a ficar louco? Perguntou-se, sentindo-se todo transpirado, como se tivesse acabado de fazer amor. Como aquela gata o hipnotiza? Não! Não! Levanta-se, de repente, mas não consegue que a princesa se desprenda das suas calças. Dá um passo brusco, sacudindo-a, e apressa-se a ir ao jardim, para respirar um pouco do ar marinho, naquele fim de tarde, regado de sumo fresco de laranja. 
A gata deitara-se na relva, com os olhos postos nas pernas esguias do dono, com um ar de quem devaneia ou esvoaça.
- Que hei-de eu fazer? Estou a perder a minha independência? Sim! É isso mesmo… Não vou permitir que aquela louquinha de gata me roube o que tenho de mais precioso… Mas… Mas como? Quero respirar um pouco, mas só! Está a ouvir, minha princesa? Vivemos juntos, mas sem perdermos a liberdade. Entendeu, sua gata possessiva? Vá dar um passeio e deixe-me aqui só, pelo menos, uma hora, ouviu? Vá! Se não lhe apetece passear no jardim, vá até à cozinha. A Dª Rosalina também gosta muito de si… Então! Quer que eu a leve lá?
O arquitecto dirige-se e à cozinha, com a gata ao seu lado.
- Srª Rosalina, tome, por favor, conta desta caprichosa! Preciso de estar só e sossegado, pelo menos durante uma hora.
- Com certeza, não me custa nada. Vou pegá-la ao colo, para ver se a cativo, não vá ela começar a correr atrás do Sr. arquitecto.
Afasta-se, fechando a porta, e pensando que o facto de não ter tido, quase durante vinte e quatro horas, um espaço físico e psicológico somente dele, estava-lhe a perturbar o equilíbrio emocional, muito precário, é certo, mas o que lhe era possível conquistar, com a ajuda de uma especial filosofia de vida.

VI

O horizonte, àquela hora, era, ao contrário do da véspera, uma colcha alaranjada, com uma longa franja de fios da sangue, que flutuavam nos céus e caiam, gota a gota, na espuma branquíssima das ondas. Não tardaria, o Sol seria um grande ovo de fogo, sugado pelo mar. Ficou à espera desse momento de uma beleza sublime, e, recuperada a sempre ténue tranquilidade, sentou-se no seu banco de basalto, folheando, com vagares pacientes, como os do avô a fumar o seu cachimbo, a história que estava a viver desde a véspera. Mas, nem tempo teve de reflectir sobre ela. A princesa salta-lhe para cima das pernas, e, garras erectas, puxa-o pelas calças, com mios tingidos de nuances de socorro urgente. Imperativo.
- Que me queres dizer, minha princesa? Que te aconteceu? Quem te maltratou? -pergunta-lhe, acariciando-lhe, preocupado, as orelhas eriçadas. A gata não se lhe entrega, como ele estava à espera, e os mios eram setas atiradas ao peito. Perplexo, sofrido, o arquitecto ainda tentou, em desespero de causa, usar as armas da sua sedução, mas, estranhamente, a gata não se deixa seduzir. Puxa-o, arrasta-o, com uma violência insuspeita. Nada! Nada, porém, conseguiu fazer para a dissuadir das suas ilegíveis intenções, intenções ocultas nos seus olhos gritantes.
- Dª Rosalina, acenda, por favor, todas as luzes do jardim e os candeeiros do exterior do portão, disse, num tom deveras aflito.
- Aconteceu alguma coisa, Sr. arquitecto? Que se passa? A princesa está a puxá-lo e já fez um rasgão nas suas calças. Que quer ela? Fugiu da cozinha alvoroçada. Nunca vi
nada assim… nada disto, a não ser nas telenovelas ou em filmes na televisão...Credo!
- Sossegue, Dª Rosalina! Vou me deixar levar por ela, até onde ela quiser.
- Vamos, princesa! Não precisa de me empurrar ou de me rasgar. Ouviu, sua mimada! Vamos! Não vê que me está a preocupar com os seus modos agressivos, minha doce princesa? Vamos!
- Tão insólita, esta situação! Que quer esta gata? Já não sei em que pensar..., ia dizendo em voz baixa, enquanto a gata o levava, com rasgos apressados, até o portão.Este, de ferro verde- escuro, estava fechado, como sempre, e, do exterior parecia blindado. A princesa mia e arranha-o, com um furor, aparentemente, forrado de absurdo. O arquitecto decide abri-lo, sob pressão da felina. No chão da calçada, jaz estendido um corpo de mulher, todo empapado em sangue. Os sapatos, com saltos altíssimos, pareciam ter sido, violentamente, atirados pelos ares, e a mala era um ventre aberto, donde saiam as entranhas. Mudo, o arquitecto olha para a princesa, que, em alvoroço, salta para cima daquele corpo, todo vestido de preto, com manchas esbranquiçadas de luar. Ao lado, de um saco de viagem, em pele genuína, solta-se, de repente, espreguiçando-se, um grande gato de pelagem fulva. Olha à sua volta. Primeiro, um tanto aturdido. Depois, dá um salto ágil, e, num gesto de uma ternura comovente, encosta-se à gata, toda enovelada sobre aquele cadáver de uma mulher irreconhecível.
A Lua, naquela estrito momento, como se estivesse arrepiada de frio ou de sofrimemento, agasalha-se numa mantilha de nuvens cinzentas, orlada de lantejoulas embaciadas.
De lágrimas?

Violeta Teixeira

Conto inédito da colectânea de contos intitulada CAVALO DE FOGO e
subintitulada CONTOS ATÍPICOS ( no prelo).

Publicado por Violeta Teixeira em 03/11 às 02:14 PM
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Quarta-feira, 12 Outubro, 2005

MISTÉRIO

Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.

Federico García Lorca, in Conversa Sobre o Teatro

MISTÉRIO

O mar era uma placa rutila de zinco. Quisera o jurista banhar os olhos nas águas, como, frequentemente, fazia, levantando-se da secretária, com processos amontoados, apelantes de pressas imperativas, para se debruçar numa janela envidraçada, na qual o Sol desenhava reflexos de águas policromas e de uma suave brisa flutuante.
Naquele fim de tarde, todavia, em vez de banhar os olhos em água atlântica, passeava-se, bebendo, ávido, a beleza do zinco rutilante. O jurista Horácio de Mendonça, diletante, dizia, para dentro, uns versos, da Ode Marítima de Álvaro de Campos. Uma brisa branca, de algodão, desabrochando de uma vagem enorme, acariciava-lhe o rosto, como se mãos fossem de uma amante.
Soaram, insistentes, os telefones fixo e móvel, mas o jurista era uma presença ausente.Ali, à janela, a imaginação tinha desfraldado as velas, e, à deriva, o barco deixara o cais, rumo a paragens exuberantes, de coqueiros, palmeiras, tamareiras e um sem- número de árvores, cujo nome desconhecia. O mar, esse, era um xaile, com franjas de corais multicolores, no qual uma esfera de fogo penetrava, com vagares, ostensivamente lascivos, como o olhar poético de Horácio percepcionava, segundo me parece.
Sem se dar conta, o jurista havia atracado o seu barco ébrio de verde, e subido os degraus de pedra negra de um cais, numa ilha, aparentemente deserta. Avançou lento e surpreso. Aventurava-se numa ruela empedrada, sem que vislumbrasse o rumo do que quer que fosse, quando, altivo, se ergueu diante dos seus olhos, tingidos de uma névoa enegrecida, uma espécie de fortaleza. Aproximou-se. Não tendo encontrado entrada alguma, deu voltas atónitas a todo o recinto amuralhado, mas sem ameias. Estranhou a falta da presença de guardas, a ausência de tochas, de placas brancas grafadas, explicativas de rotas, de entradas, de saídas. Andando, num piso térreo, por ruas nuas, estreitas, curvilíneas, das fendas invisíveis dos muros, saíam múrmuros silêncios, e, no cimo, asas sem quilhas, ensaiavam acenos ilegíveis, avisos, talvez, talvez ameaças de perigos, de interdições veladas. Não se assustou, porém. Antes, insistiu em refazer, vezes inúmeras, todo o percurso que circundava o recinto, e, seguramente, terá pensado que fosse impenetrável. De repente, uma espécie de um túnel, com uma tocha ao fundo, pareceu-lhe, iluminou a sua vista verde, e, ao mesmo tempo, uma figura esfíngica se exibiu, emoldurada de pétalas de seda policromáticas. O viajante olhou-a, extasiado. De repente, soltaram-se dedos e novelos intactos. Em silêncio. Suplicou, então, o viajante que, de uma meada acobreada, um fio lhe fosse lançado e lhe orientasse o desvario. Uma entrada se desenhou. Falsa? Perguntou-se. Desnudou-se de um medo acídulo, que começara a sentir, sem sentido, crê a narradora, e avançou em direcção a um alegado ludíbrio, recluso de uma ilusão tingida de algo oculto. Deu mais três passos. Pousou, em breves e eternos segundos incrédulos, na polpa violácea da sua mão, um fio de cânhamo acastanhado e incandescente. Não cria, o viajante, no que estava a ver, mas agarrou-se a ele, com uma força inusitada.
Onde se ocultou o fantasmástico ser, que vira ao fundo daquela espécie de túnel? Aquela figura esfíngica e serena? A mesma, julgou, que lhe lançara o fio, o qual apertado, segurava. Se bem que só vislumbrasse uns olhos verdes e hipnóticos, o certo é que eles o guiavam, o cativavam e lhe excitavam todos os sentidos. «Não! Não sou Teseu!», disse, para si mesmo. Nem havia, portanto, nenhum Minotauro naquele espaço semelhante ao labirinto de Creta. Seria uma Ariadne-outra, todavia, a figura que o orientava no interior daquele recinto amuralhado? Não! Que ideia absurda, a sua! Expulsou do pensamento aquela apaixonante história mitológica, quando, súbita, uma porta se abriu, sem o mais ínfimo ruído, e, logo, se encerrou, em segundos.
Ainda possuído de um fascínio iniludível, fez três passos, sem ter fixado, contudo, a porta por onde havia entrado. Negligência grave, realizou pouco depois. Onde se teria ocultado a sua guia? Teria saído? Segui-lo-ia, seduzida e sedutora? Aventurou-se, porém, um tanto inseguro, a percorrer um beco empedrado.
Dois olhos, o enredaram, repentinamente, na trama de um novelo, cujos fios de cânhamo, de um verde cegante, lhe ataram as pernas. Suplicou, com raiva, creio eu, que, fosse quem fosse, o libertasse. O tempo fluí desesperado. Traído, como, obviamente, se julgou, pegou num pedra, com arestas aguçadas, e atirou-a. Segundos negríssimos! Aqueles dois olhos fascinantes, logo, se derramaram. O empedrado tornou-se num poço de sangue, sem que se visse o fundo. Sangue vermelho, mesclado de fios nimbados de um ouro velho, o que, atordoado, o viajante ainda reteve no seu olhar de esteta.
Liberto, não sabia o como, era, de repente, um albatroz pousado num mastro do navio da chegada àquela ilha. Mas roído o coração pelas vingativas Erínias, segundo julga, sem a mínima certeza, a escrevente, o estrangeiro viajante regressou ao recinto do crime, para contemplar, com olhos-outros, o vermelho líquido do poço. Ou, como o saber, despojos daquela figura que o havia guiado. Enlouquecido, os dois olhos que a pedra, institiva, fizera derramar, miraram-no, demorados, rútilos e hipnóticos.  Um silêncio branco e gélido tombou, retumbante, sobre os seus ombros, sempre prontos, no antes deste evento, a fazer justiça e a não ser advogado de defesa de criminosos.
Terá sucumbido de remorsos e perplexidades o viajante estrangeiro? Não sabe a escrevente, a qual perdeu o fio da narrativa, descontente com a exiguidade da «estória» inconclusa, tendo apenas guardado, com uma ternura, de uma pureza inexplicável, o rosto, e a voz, nunca ouvida, é certo, do jurista diletante.

Violeta Teixeira, conto atípico inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 12/10 às 01:59 AM
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Terça-feira, 02 Agosto, 2005

CAVALO DE FOGO

O que não sei me impressiona…
O que não sei excita-me.

JEAN JACQUES ROUSSEAU

CAVALO DE FOGO

I

A manhã despertou-o com repuxos de luzes multicolores dentro dos olhos alvos. Ei-lo, com as suas longas crinas de fogo, esvoaçando ao sabor de uma brisa macia! Passeia-se, exuberante e altivo, num vasto pasto de luzerna e de trevo farouch. Não é uma tribo feroz de moscardos que voltejam e o cobrem de picadas, mas uma nobilíssima corte de borboletas, da cor das flores dos trevos, com pontículos auríferos no rebordo das asas.
Numa abertura estreita da sebe de cânhamo, que abraça uma vasta pastagem edénica surge uma figura, com pernas e tronco de mulher jovem. A cabeça, essa, é de uma égua decrépita, cuja cabeça está envolta num xaile, de uma negrura viúva ou de uma mãe magoada, por um destino eriçado de espinhos. Sedentos de algum sangue sacrificial?
O cavalo de fogo passeia-se, alheio às teias que, porventura, o destino lhe tece. Que pode ele saber dos desígnios inelutáveis da fortuna? Como activar símbolos inertes da memória se os não sabe que tem? Tê-los-á? Vai bebendo a claridade sensual da manhã, e as suas narinas gozam, gostosamente, todos os aromas dos campos, esvoaçando em torno. Não tem olhos para ver aquela espécie de espectro, que se oculta, algures, por detrás da fronteira interdita da sebe. Pareceu - me, há pouco, que não retirava as mãos de um tear, sob o olhar implacável de um qualquer deus.
A narradora, amante da beleza daquele equino, fecha os ouvidos às vozes, talvez iníquas, de oráculos, que voltejam nos ares, sussurradas por alguma Pitonisa, e toda se entrega ao fantasmar acasalamentos e crias, com uma volúpia sacrílega, sabendo, embora, da justiça crua dos deuses. Lembra-se da Cassandra insubmissa, primeiro, e revoltada, depois. Não deixa, por isso, de, louca e lúcida , de recear pela sorte daquele cavalo de fogo, pastando, pagão decadente, cego e surdo a sinais, que não decifra, a vozes sinistras, que não ouve, e, ainda que as ouvisse, não saberia o como as descodificar.
- Não conhece a sua história?- Solta-se esta fala, por detrás da sebe de cânhamo.
Relincha, e sacode, com desprezo rebelde, a longa e cintilante cauda, como se um insecto tivesse perturbado o seu carpe diem. Continua, por isso, hedonisticamente, com passos dançantes, o seu passeio.
- Não finja que ignora a sua história!
Reaparece aquela figura, e, logo, se oculta, atrás dos galhos de cânhamo, sem que o
inocente pagão a veja ou, muito menos, a ouça.
Feliz é a ignorância, ou melhor, só os ignorantes e os inocentes, como este cavalo, são felizes, diz, convicta, a céptica e infeliz narradora cogitante, num tom inaudível.
- Insiste no fingimento? - Pergunta, insistente e sarcástica, agora, bem visível na fissura da sebe, sentada numa pedra de xisto luzente, arrancada, segundo crê a escrevente, do leito do riacho ou ribeiro, ali próximo.
- Parece-me que é surdo… , além de mudo… ou, então, é um exímio fingidor - con-clui aquele vulto, arrancando, com raiva, punhados de folhas da sebe, supostamente protectora, do belíssimo equino, cujo dono, suponho, ainda não o acariciou naquele início de manhã de uma pureza primordial.
- Olhe-me! Olhe-me! - Grita , enraivecido, o espectro. Também é cego?! Não! Creio que não… Então, por que não me vê ? - Grita a figura híbrida, dando três passos no inte- rior da pastagem.
O ávido cavalo bebe, despreocupado, lagoas cheias de água e de luz laranja. A narra-dora, por seu turno, rejubila, e treme de medo, não sabe ainda porquê, ou quer, talvez, à viva força, não o saber, com o peito roído de mistérios.
- Não conhece a sua história? - Pergunta, com olhos acesos de incredibilidade, invadindo a pastagem, com passos pesados, passos de quem julga que é detentor de uma única verdade.
- Como se existissem verdades e certezas! - Exclama, sorrindo, irónica, a narradora.
O cavalo, esse, relincha ébria euforia, e, dos lábios rosáceos, saem, silentes, cachos azulinos de constelações. A sua cauda é, agora, um feixe de caules retorcidos e macios
de bambus, cor de baunilha, orvalhados de pérolas cintilantes. Põe-se, de repente, a galope, num ímpeto inflamado, as orelhas sacudidas, marginando toda a cerca. A cauda veloz levanta e atira pelos os ares o xaile do rosto intruso, sem que se aperceba que, na- quela abertura da sebe, faíscam de febre maligna uns olhos, pingando sangue, por certo, vingador.
De súbito, liberta-se, do ventre inchado da terra, onde, há pouco, fincou, com fúria, os pés, aquela insólita figura, agora, com cachos de cactos carnudos, com uma penugem de espinhos, no cimo da cabeça descoberta, um coro atormentado, de relinchos. Quantos cavalos se anicham no seio grávido da natureza? Vivos? Mortos? Ressuscitados, depois de um morte cruenta - imagino -, pela mão de alguma benigna divindade? Res- suscitados para fazer algum apelo àquele cavalo de fogo? - Pergunto-me, inconvicta, ou, por mãos mágicas de mães, inconsoladas?- Interrogo-me, vendo o Sol a perder, paulativo, o senso. Mas, nenhuma fonte fidedigna, me debita uma resposta credível, a mim, inepta fiandeira, talvez alvo do bafo de alguma maldição. A mim, que me vou sentido perdida na trama da minha escrita, emaranhada de laços vis, e de nós cegos. Irremediavelmente? Como o saber? Limito-me a suplicar a cumplicidade da luz solar que, como, acima, vos disse, está a perder o senso, e faço-o, porque creio que o Sol deveria ser sempre cúmplice de quem ama. E eu estou apaixonada pelo cavalo de fogo, que, neste momento, estanca o seu galope, e me acaricia com as suas crinas ceti- nosas e a língua salivada de mel das flores, de um encarnado claro e vivo, dos trevos. Excito-me. Exulto. Esqueço-me, por momentos eternos, que estou empenhada em arrancar a casca da história do equino, que me parece hermeticamente lacrada. Alheada fico, também, da visão daquele sinistro espectro, que se oculta, algures, preparando, suponho, presa de um medo gélido, uma estratégia eficaz do como atacar, ou - quem sabe? - degolar o meu cavalo.
- Que suposições, estas!- exclamo, com perplexidade.
A terra incha cada vez mais e mais, e o coro de relinchos ganha um fôlego de insultos ciclónicos, que emudecem os pássaros, sacodem, com uma brusquidão inaudita, os galhos da sebe, os troncos dos álamos, erguidos nas redondezas. Ouço o choro convulso dos choupos que bordam o ribeiro, que serpenteia a encosta, onde vive o casal proprie- tário de um haras esplêndido, e, segundo creio, deste «meu» equino.
- Cínico! Não está a ouvir os relinchos dos seus irmãos? Que surdez!
- Irmãos! Que quer dizer aquela fala? - Inquiro-me, aproximando-me do cavalo.
- Julga que consegue, seu garanhão pretensioso, não se deixar apanhar nas teias tecidas pelo destino? Desengane-se! A sua história, não a conhece?! Está a ouvir-me?
Senta-se, de novo, na pedra de xisto luzente, com as pernas cruzadas, fingindo, se bem entendo de psicologia, a descontracção que não tem, nem sabe como consegui-la.
O cavalo empina-se, exibindo, sem pudor, a sua fogosa virilidade, a poucos metros do vulto falante.
- Pretensioso? Não! - exclamo. Olhos cegos, sim, e ouvidos surdos à figura e àquele discurso descosido. Inclina o longo e esbelto pescoço, saciando o voraz apetite de verde e o sumo de amoras, que pinga dos céus.
- Vá! Devore toda a pastagem! Sim! Aproveite… enquanto… - diz, num tom frio de ameaça velada.
Ouço-a. Incrédula. Ou, melhor, infectada de ignorância. Colo os olhos à beleza do fogo do cavalo, para, deste modo, exorcizar o medo que persiste em me correr nas veias túmidas, sem, contudo, entender das razões, como se a beleza fosse o refúgio mais seguro do cosmos, beleza, essa, que advém sempre da arte, qualquer que seja a sua natureza. Ingenuidade? Que sei eu do que não sei? Gravo, no entanto, numa pedra esta provisória e precária convicção. E a pedra pulsa, como se fora um coração. Ou, não serão as pedras que pulsam nas palavras da narradora?- pergunto-me, pensativa, e triste com aquela ameaça, ainda que tudo faça, com vista a conseguir ficar imune, aos ditames do destino, em que não creio, mas…
- Que pena! Não tem um espelho, seu garanhão! Saia desse espaço da sebe! Conhece a saída? Não se faça ingénuo! Venha! Saia por aqui! Venha mirar-se nas águas límpidas do ribeiro que corre aqui próximo! Vá! De que está à espera?
Olho para o cavalo. Todas as crinas estão a ser levadas pelo sopro do vento que, de repente, se levantou, com fúrias vingativas, e os pêlos da cauda começam a voar na mesma direcção. Grito. Grito. Grito. Em vão.
- Mas, Mas… que se passa? Não! Não posso crer no que acontece. Como rasurar todo este horror da escrita? Como? Que narradora influenciável! Que narradora impotente? Quem me tiraniza? Quem me escreve? Quem me molha os dedos na tinta? Afastem de mim este tinteiro! Amarrem-me os dedos e os braços à uma aresta de uma pedra! Ati- rem- na, à pedra, sem demora, para o mais fundo mar, penhasco ou abismo! Tragam-me de volta as crinas de fogo do meu cavalo! Tragam-me os pêlos da cauda, orvalhados de astros! Façam-me, depois silêncio! Cozam com fios de cânhamo a boca daquela figura satânica! Já! Não deixem o cavalo sair do espaço da sebe! Já! Enlouqueço?! Calem, para sempre, aquele coro de relinchos! Ensurdecem-me! Enlouqueço! Ouviram? Que esperam de mim? Que entregue o meu cavalo àquela louca? Não! Não! Eu não tardo a pegar, de novo, na meada da escrita. Verão! Não tolero a tirania! Eu já volto! Hão-de ver quem controla o exercício dos meus dedos?! Esperem um pouco! Estou cansada! Ou - por que não vos confessar? - estou morrendo de medo de mim mesma, do curso ou doleito onde navegam, sem bússola, os meus signos.

II

- Aqui estou! Pego de novo, na meada da escrita! Sim, mas armada contra as ciladas de quem escreve ou me escreve. Atravesso a pastagem, segura dos passos que dou, nãová cair em alguma armadilha. Vou em direcção daquele vulto tirânico, sentado no xisto.
Já não reluz, a pedra. Fez-se preta. Ei-lo, que se levanta, mal lhe metralho os olhos, com
os meus.
- Não se atreva a proteger aquele cavalo de fogo!
- É uma ameaça?! Diga! Não me assusta! Trago comigo um feroz exército. Não vê?
Faz explodir uma gargalhada, e, em seguida, lança-me um desafio:
- Nenhum exército vence os desígnios do destino, do qual sou eu a emissária. Cale -se! Ouviu? Ou…
- Não! Não me calarei! As minhas armas, se quer saber, são as palavras.
Nova explosão de gargalhadas.
- Sente-se! Sente-se e esteja atento, seu monstro!
Cai em cima do xisto, desajeitadamente, e as pernas são dois galhos secos, fustigados por um vento furioso.
- Saiba que só existe o que é nomeado, e, para nomear o que quer que seja, não se po- de pôr de parte as palavras. Já entendeu? Se eu quiser faço-a inexistir. Basta-me tão- só não a nomear. Mas, antes, vai retirar a casca da história do meu cavalo de fogo. Já! Comece! Vá! Por que o quer aniquilar? Perdeu a voz?! Está surda?! Não me faça espe- rar! Não tenho tempo para ter tempo, nem muito menos, paciência!
Baixa a cabeça. Levanta as mãos, as mãos que não tem, para apanhar o xaile, caído aos seus pés. Só, então, abre a boca, com vagares que me enfurecem.
- Vá! Comece a descascar a história, senão… - digo, gritando.
O equino passa por nós, a trote, exibindo as suas crinas de fogo, a cauda cintilante.
Espuma de raiva, ao vê-lo, a dita emissária do destino. Ataco-a, novamente, com um grito, que fez estremecer a forragem, a sebe, os choupos. Tudo! Salvo o cavalo, que anda a trote, serpenteando a pastagem, com as mais exuberantes cores. Cede ao meu grito, o monstro falante:
- Sabe, aquele cavalo fugiu a uma sentença de morte irrevogável… sabe… - gagueja.
- Como assim?
- Não ouviu aqueles relinchos revoltados, vindos das profundezas da terra? Não?
- Sim! Mas…
- Oiça primeiro! Eu já lhe explico das razões… Aqueles cavalos relincham o cumpri-mento da justiça. Foram todos mortos, por serem de fogo.
- Mas… Mas por que tem de ser extinta essa raça belíssima? Vá! Responda-me!
- Não totalmente. Alguns cavalos são poupados, segundo critérios bem definidos.Este, que insiste em o manter vivo, não reúne os requisitos da existência. Logo, todos os que foram atirados para os infernos, exigem a sua morte. Entendeu?
- Não! Não aceito essa explicação! E, como já vai ver, revogo, em poucos segundos, essa lei de um legislador louco, com certeza, sádico ou amante da fealdade. Olhe, rasgo essa lei iníqua, tão depressa, como o cavalo de fogo desta pastagem recuperou crinas e cauda originais. Sente-se! Sente-se! Já disse! Não suporto de pé a sua medonha figura!
Do seio da terra, emerge, com relinchos, de uma doçura de mel de pétalas de trevos, todo uma manada de cavalos de fogo, que mal cabe na pastagem. São centenas. Curvam esbeltos, os pescoços. Comem folhas e flores. Bebem luz e água. Beijam-se. Abraçam-se. Acasalam, com ritos rutilantes. O, até há pouco, solitário, equino, não se distingue dos seus semelhantes.
Da pedra de xisto luzente, soltam-se labaredas azuladas, e, no chão, vê-se um monte de cinzas.
Retiro-me. Corto o fio da meada da escrita, e estendo-me toda num recanto da pastagem, acendo e fumo, em êxtase terreno e estético, um longo cigarro, junto daquela sebe de cânhamo.

Violeta Teixeira

Inédito (CAVALO DE FOGO- CONTOS A ATÍPICOS

Publicado por Violeta Teixeira em 02/08 às 12:06 AM
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Sexta-feira, 08 Julho, 2005

CARDUME DE ESCAMAS

«Quero chegar ao sem limite…
Para regressar a mim».

ELSE LASKER- SCHULER

CARDUMES DE ESCAMAS

I
Sentado na base de esculturas de rochas magmáticas, contra as quais marulham águas atlânticas, e o ocaso é uma boca de um monstro mítico, com garras afiadíssimas de linces, o pintor navega-se, com púrpura volúpia, em lagoas de sangue. Nos pulsos, picotados pela absoluta entrega do seu corpo, ínfima parte despicienda da totalidade da matéria expansionista do Universo, perpassa, dolente e lânguido, um frémito estético, resultante do trabalho bioquímico da mesma matéria de que são feitos os astros.
- Sim! Só creio na matéria. E o imaterial, por exemplo, gerado no intelecto? Simples! É do trabalho bioquímico da matéria que o imaterial resulta.
Monologa, olhando o mar, com uma apetência voraz de ser engolido por um rebanho branco de ondas revoltas.
Despe-se. Começa por boiar, mas, de súbito, faz-se pedra, e afunda-se, num mergulho abrupto. No fundo, entrega-se, possuído por um gozo de estesia erótica. Flana, sem peso, num bosque marinho, com cardumes de escamas argênteas, serpenteando galhos roxos, parindo framboesas, amoras e medronhos, sobre o veludo de vales verde- musgo. Cabeleiras vermelho-acobreadas cobrem as copas das árvores. Rebentos folhados, rasando o chão, são ninhos de sexos femininos. Abraça-os. Acaricia cabelos, lábios e clitóris rosáceos, com dedos e mãos e boca, de uma alvura pura, até então desconhecida. Ejacula sémen cálido, e logo, brotam erectos, ninhadas de cogumelos azulinos, da casca macia de todas as árvores. Os seus olhos são lagos esverdeados, onde bóiam luas-d’água. No seu peito jovem, crescem raízes poético- eróticas. Recorda-se, num ténue momento, filtrado pela sua mente amolecida, das secas sementes de mágoas que havia plantado, germinado e crescido arbustos, com apêndices, agudos, de carne, num universo- outro. Desnudo, agora, dessa folhagem espinhosa, Pedro de Almeida flutua na linfa nívea de um êxtase inefável.
- Quem és tu? Que fazes nestes domínios interditos a bichos humanos?- pergunta-
-lhe, sem hostilidade, um cavalo - marinho. Esbelto. Belíssimo. Continua, fazendo silêncio. Não consegue articular palavras. A gramática da sua língua materna é uma massa pastosa de papel, mastigada por cardumes de peixes, colados ao seu corpo, com grandes pupilas mudas e curiosas. O roçar das escamas e a dança das caudas são carícias lascivas. O artista exulta.
- Quem és tu?  Estás assustado? - inquire de novo, num tom sedutor, o cavalo-mar- inho
Como poderia responder-lhe? Pedro de Almeida, naqueles fundos abissais, faz a desaprendizagem dos códigos que conhecia, mas ainda não logra dominar a semiótica do mundo subaquático, onde começa a se sentir um estranho de si mesmo, facto que, ao contrário do que se possa pensar, é uma embriaguez de todos os seus sentidos. Um delírio narcótico. Opiáceo.

II
O cavalo- marinho afastou-se, uns centímetros, do seu corpo, mas Pedro continua a vê-lo num jogo labiríntico de espelhos abobadados, ad infinitum. Sustenta, deliciado, os elos que ligam aquela natureza subaquática ao seu corpo. Também ele está a conhecer a Beleza que não morre, mas, ao contrário, do poeta suicida açoriano, não fica triste. O Belo, aquele Belo, saboreia-o, como sendo uma dádiva. Fruto suculento da sua excessiva subversão, naquele meio. Basta-lhe, para isso, de agarrar não só aos laços da solidariedade cósmica, que o unem à totalidade do Universo, mas, também, aos átomos mítico-artísticos, fiando uma teia de fios entrecruzados. Solidários. Resistentes, como cordas de cânhamo. Vislumbra, com pasmo primordial, uma cabeça azul. Move-se. Agita uma longuíssima cabeleira. Os olhos são feixes de luzes vermelhas, que parecem ter escolhido, como alvo preferencial, a sua figura bárbara.
- Será a morte?  Mas o que é a morte? E a vida? - pergunta-se, para o seu dentro. 
Distante. Quase ausente. Avança, com passos estranhamente seguros, em direcção àqueles olhos, apesar de tudo, atraentes. Magnéticos. Irresistíveis. Faróis no fundo de uma mina de carvão ou de pirite. Encontram-se, face a face. A cabeça azul desliga, rápida, as luzes, sem que se saiba o porquê. Privado do rubor daquela claridade, logo se estanca a hemorragia da imaginação opiómana. Pedro despenha-se, brutalmente, no fundo da cratera extinta da suposta realidade-real. Começa a sentir arrepios de frio, e um gosto ácido de vómito. Desconhece-se. Tenta, dada aquela situação inesperada, carregar as baterias do cérebro. Dar corda ao pensamento liquefeito. Reencontrar-se múltiplo, é certo, mas inteiro. Fluí lenta, uma eternidade. Não consegue entender por que é que aquela cabeça azul, fez total escuridão no seu espaço. Finalmente, as engrenagens psíquicas começam a emitir signos e imagens sobejamente conhecidos, que lhe agradam, e, ao mesmo tempo, lhe causam náuseas, escorrendo, inelutáveis, no leito estreito das veias.
- Como me habituar, de novo, a este negrume, dito real? Bem! Atear outra vez o fogo? Escalar o Olimpo? Roubá-lo ao feio Hefesto? Como? Não sou Prometeu. - Vai ironizando, com pesar, e pisando a terra onde tinha plantado as sementes de todas as suas angústias existenciais.
- Vida e morte, o que são? - Inquire, sentado na base das esculturas de rochas magmáticas, onde, inicialmente, a narradora marcara encontro com Pedro de Almeida, para uma conversa de matriz artística, conversa, essa que não houve. Nem há-de ser uma conversa a haver.
Ora, o artista ainda não se deu conta que as esculturas rochosas são dunas feias, erosadas, pelas vândalas ventanias do tempo. Inevitáveis. Montes disformes de areia, ornamentadas de cactos, em cujos magriços troncos e folhas mutiladas, pequenas bolhas segregam líquidos licorosos, cheirando a baunilha , a cascas de cidra e a brisa marinha.
- Obra, esta, mágica? De quem? Para, com certeza, me aliciar com estes aromas excitantes? - pergunta-se, inalando aquele concerto aromático. 
- Não! Não estou onde estou! Não sou quem me sou! Não estou a ver o que estou a ver! Não me cheira a nada do que me cheira! - exclama, num tom dorido, o estilhaçado artista, que pinta, recorrentemente, campos brancos de vívidas papoilas.
- Que injusta é a vida! Ou, não será desvida? Só a fuga, qualquer que seja, é a mais eficaz saída terapêutica. Chamem-me covarde! Ou, por que não, louco? Sim! Serei tudo isso. - Grita, fitando um poente abrasador.
Veste-se, demoradamente, e avança, descalço, sobre um areal deserto macio e ainda quente.
- Que farei esta noite?
Não responde. Não sabe. Não quer saber. Odeia programas, horários, projectos. Rebeldia? Anarquismo? Cepticismo? Tem grãos de tudo isto, mas é, sobretudo, um amante desmesurado da vagabundagem criativa e boémia, da marginalidade, paradoxalmente, selecta.

III

A noite pega-o pelos braços, e leva-o até aos restaurantes populares do cais. Cheira, profusamente, a sardinha, a chocos e a pimentos grelhados, além da maresia apimentada, que enche as narinas, quase entupidas de odores.
Chegam caravelas das Índias, carregadas de especiarias: cravinho, noz-moscada, canela, baunilha.
- Como estes aromas orientais me excitam! - confidencia, exclamativamente, às ondas que embatem na muralha do cais.
Afasta-se da borda. Escolhe uma mesa, de onde vê velas ondeantes. Pede ao empregado chocos grelhados, com todo o sumo preto, envolvendo batatas cozidas, e tingindo uma salada mista.
- Boa noite, Pedro! Como poderia te imaginar numa tasca destas! Mais uma das tuas excentricidades!
- Boa noite, Luís! E tu que fazes aqui? Cumpres a rotina popular das sardinhas grelhadas na brasa? Ou viestes assistir à descarga das especiarias da Índia?
- Deliras? Onde estás a ver caravelas? Que visões históricas, as tuas!
- Sabes, enlouqueci de vez. É o que estás a pensar. Diz lá! Ou, então, como só vês as prosaicas sardinhas, senta-te.
- Obrigado, Pedro. Não gosto de chocos, exactamente por causa de todo esse líquido preto. Mas…
- O que deseja, senhor?
- Traga-me, por favor meia dúzia de sardinhas, batatas e pimentos.
- Não quer uma salada?
- Não, obrigado. Não se esqueça de trazer azeite e broa, está bem?
- Com certeza. O que deseja beber?
- Pode ser uma cerveja bem fresca.
- Já não consomes bebidas alcoólicas, Pedro! Água mineral com gás! Sempre o culto da diferença!
- Não havia o vinho de que gosto. Aqui, só há o vinho da casa…
- Só bebes das melhores marcas, claro! Desculpa, já me tinha esquecido desse pormenor in…
- Luís! Chamas pormenor in ao bom gosto?
- Desculpa! Tens razão. A qualidade do vinho é importante, tão importante que, não a tendo, estraga qualquer refeição, por melhor que seja.
- Olha, Luís! Acaba de ancorar outra caravela. Não te cheira a canela?
- Estás mesmo louco, Pedro! Ou, então, queres-me fazer passar por cego? Só estou a ver um barco de pesca. Está partir para a faina da noite.
- Quanta opacidade no teu olhar! E, já agora, sabes dizer-me em que consiste a loucura? E, o que é a normalidade, Luís?
O Luís faz um silêncio denso. Só se ouve o marulhar das ondas e a Babel dos comensais de sardinhas.
- Então, não respondes, seu normalíssimo! Suspeito que não saibas que ser normal, de acordo com o conceito normativo, partilhado pela maioria das pessoas, não é saudável. Quem está doente és tu, Luís. Vá, diz-me o que achas sobre isto?
- Parece-me, Pedro, que te transformaste numa personagem ficcional. De papel. Desculpa! Estou a ser sincero. Repara, não tomaste a água que tens aí…
- Bem! Mudemos de assunto, se não te importas. Por que não vens trabalhar no meu atelier?
- Obrigado! Prefiro continuar a pintar na rua… A que conheces. E vender aos passantes as minhas aguarelas ou óleos acrílicos.
- Não te quero ofender, mas não estás farto de pintar trechos de paisagens desta cidade e arredores?
- Sabes, pinto o que as pessoas gostam. Assim, tenho sempre tudo vendido… Chama-
-me mercenário da pintura. Não me importo. Faço aquilo de que gosto, indiferente às concepções elitistas da arte.
- Claro! Continua. Desculpa, mas, no meu atelier, serias um autêntico e reconhecido artista, ainda que não vendesses as tuas obras. Como sabes, o que se vende mais, quer seja pintura, literatura, etc, não é, na quase totalidade dos casos, autênticas obras artísticas. Obras que ficarão na História.  Diz-se, nos tempos que correm, que se trata de arte ligth. Não te incomoda a expressão?
- Não, Pedro. Não tenho a pretensão de ficar na História. Trabalho, como sabes, para viver. Ou, melhor para sobreviver… Dignamente, creio.
- Desculpa, Luís, mas não consigo estar de acordo contigo. Prefiro ser o louco, como me rotulaste, há pouco. Louco e lúcido, como, habitualmente, me defino. Sem loucura, não há, na minha opinião, genuínos artistas.
- Respeito as tuas ideias, mas…
- Mas, o quê?
- Não saberia viver como tu…
- De acordo… Não é fácil. sabes? Paga-se uma factura extremamente pesada, mas, não seria capaz de mudar.
- Tomas café, Luís?
- Não! Vou pedir um descafeínado. E tu?
- Um café, claro! Puro. Bruto. Com muita cafeína… Trabalho muito pela noite dentro. Preciso, por isso, desse excitante… e de outros… Conheces algum artista sem vícios? Eu não. Os verdadeiros, é óbvio… Não te quero ofender, Luís…
- Eu sei. Não somos todos iguais. Felizmente.
- Queres um cigarro de cannabis ?
- Não, obrigado! Já sabes que não consumo nenhuma droga…
- Desculpa! Estou a ser perverso. Mas, arte, sem perversidade…
- Vamos! Faz-se tarde.
- Sim. Já vais voltar para casa?
- Claro! Não te esquecestes que tenho família?
- Não, Luís, mas não é tão tarde quanto isso…
- Não gosto de fazer uma vida boémia, como tu. Trabalho muito durante o dia, e levanto-me sempre cedo. Dirás que é normal, mas não saudável?
- Cada um tem o seu ritmo biológico, digamos. Respeito o teu, mas… Eu ainda vou passar um bocado de tempo no bar « Néctar dos deuses». Conhece-lo?
- Já ouvi falar dele. Diz-se que é o bar dos gays e dos artistas desta cidade. E que mui- tos desses habituais frequentadores consomem drogas duras.
- Incomoda-te, se, de facto, isso é verdade?
- Não! Nada!
- Sim. O que se diz corresponde à realidade. Não te vou negar. Eu, por exemplo, quando lá chego, começo por tomar um gin- toni ou uma Vodka- citron ou ananás, e, ao mesmo tempo, vou fumando uma «chinesa». Heroína puríssima, sabes?
- Bem! Isso vem ao encontro do que disseste, há pouco, a propósito dos vícios de todos os artistas, não é verdade?
- Não te disse nada de novo, creio. Pois não?
- Claro! E só no dentro fundo da noite te metes no atelier para trabalhar, não é? Sabes, nunca te disse, os fumos das drogas são os círculos que ondulam nas tuas telas. Círculos e, muito recorrentes, volutas roxas ou púrpuras. Estás de acordo com esta minha leitura?
- Talvez. Não sei. É uma das várias leituras possíveis. Discutíveis, como todas.
Caminham, conversando, à borda do cais. Minutos depois, cada um seguirá trajectos opostos.
- Boa noite, Luís. Dá os meus cumprimentos à Ester. Até à próxima!
- Que seja louca a tua noite, Pedro!
- Será. Obrigado!

IV
Eram quatro horas da manhã quando Pedro de Almeida, depois do consumo excessivo das suas drogas habituais, entra no seu atelier, com a intenção de concluir uma tela. Antes, porém, acende e fuma um charuto do Fidel.
- Como é que o Luís consegue ter uma vida tão sensata e prosaica? Bom! Não serei eu a lhe dar uns grãos de loucura, como se dá grãos de milho aos pombos da Praça Infante D. Henrique… Fala para as paredes, acabando de fumar o seu charuto. Entrega-se, finalmente, ao trabalho, concluindo uma tela que lhe parece ter saído da mente de Salvador Dali. Desagrada-lhe a semelhança. Sente uma vontade feroz de esfaqueá-la. Procura uma faca por todo o atelier, ou um outro qualquer objecto cortante afiado. Pega num corta- papéis, e, com gestos dementes, retalha a tela, ainda com as tintas frescas. Olha para as mãos. São um mata-borrão, com cores gritantes. Enfurece-se. Procura os diluentes. Tropeça. Entorna-os. Esfrega as mãos no pavimento encharcado e escorregadio. De súbito, mergulha no seu mar. Afunda-se. Ei-lo, de novo, no mundo subaquático. Aquela cabeça azul, com feixes luminosos nos olhos, logo dele se aproxima. Mas, desta vez, não desliga as luzes. São raios laser Esquartejam -no, como bisturis benéficos. Na tarde do dia seguinte, o Luís, depois de ter pensado na proposta de Pedro, decide dirigir-se ao seu atelier. Empurra a porta semi aberta, e entra, chamando o amigo. Silêncio. Estranha a desordem inusitada, como se, por ali, tivesse passado um furacão. O cheiro a óleos e a diluentes derramados enjoa-o.
- Mas… que se terá passado durante a madrugada? - interroga-se, num tom ténue, avançando até um recanto do atelier, com uma janela por entra o mar. Amontoam-se telas inacabadas, viradas do avesso e cavaletes mutilados, por sopros esquizofrénicos. Figura-se o pintor de paisagens. Pedro dorme em cima dos destroços de um cavalete, colado a uma massa pastosa de uma tela. Tem, no peito, um belo búzio rosáceo, de onde jorra um fio de sangue, que desagua numa lagoa exígua. Soa, solene, uma sonata marítima. Orquestrada pelo búzio?

Violeta Teixeira ( Inédito – Colectânea: CAVALO DE FOGO- CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 08/07 às 12:22 AM
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Sexta-feira, 10 Junho, 2005

ORQUÍDEA SELVAGEM

Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade.

RUY BELO

ORQUÍDEA SELVAGEM

I

Afastou-se, discretamente, do acampamento na floresta, onde fora passar uma semana impelido por uma busca desesperada da melodia odorífera do silêncio das árvores, das aves, das nascentes, dos pequenos lagos, cansado que estava da babel e do lodaçal urbanos.
Romancista medíocre, poeta, diseur expressivo e sensível de poemas seus e alheios, envelhecido pelo excessivo consumo de bebidas alcoólicas, para segurar o peso das múltiplas máscaras sobre os palcos, Francisco Teles, perdeu, naquela primeira tarde, o rumo do regresso à sua tenda, plantada, propositamente, bastante afastada das demais. Só via árvores enlaçadas e um matagal luxuriante e denso. Na terra castanha, e mole, dado o grau elevado de humidade, nem uma pegada impressa fazia crer que alguém por ali havia passado. De repente, deveras desbussulado, ouve, não sabe calcular a que distância, um murmúrio de uma nascente. Avança, apressado, com os sapatos enterrados na lama, em direcção daquela música de águas.
Sem fôlego. Uma ténue esperança, respingando-lhe o coração, encontra-se na borda de um lago. Suado, despe-se e mergulha. Vontade de lavar o corpo e a psique, sujos e roídos pelos parasitas citadinos, cinicamente civilizados.
- Quelle merde! Que água fria! Que lodaçal! - exclama com fúria.
Tem a impressão claríssima de que o sangue flui, célere, no leito estreito das veias e que se faz da cor da lama e do lodo, desde a nascente até à foz.
- Enlouqueço de vez! E se cortasse as veias?! Pintava de castanho- esverdeado a tela da existência, agora, que a sinto, sem a sentir. Ou a morte, cuja raiz é a mesma.
A imaginação delira. Febril. Crespos e lívidos, se tingem costados de barcos aprisionados sem âncoras, ao cais do seu desespero de pedra, e realiza, com uma espécie de paz absurda, de que não haverá viagem de volta. Veste-se, e, descalço, toma o rumo ou, talvez, o desrumo, ávido de um banho quente e de uma meia dúzia de garrafas de cerveja, lúcido da morte que o enreda, na trama das teias, visíveis, apesar dos olhos nublados.  Uma ave canora olha-o, atonicamente. Acende-lhe a vista e o vício. Abre o frigorífico. Num gesto anuidor e silencioso, retira uma garrafa de cerveja e bebe sete goles vorazes. Acende um cigarro. Fuma-o, com um prazer feroz, convicto de que fumo e álcool afogam angústias e vazios. Continua, por isso, a beber e, como não tem ninguém a quem brindar um nada, salvo um coaxar dentro do copo, fá-lo, até os dedos estremecerem, até um jacto de fogo começar a trepar as pernas, e, da garganta azeda, um grito cósmico se soltar.
- Estou bêbado! Estou livre! Não tarda descubro o rumo… De quê?…
- Ninguém dará conta do meu desaparecimento. Ninguém! Quem viria em busca de um ninguém? - pergunta-se, enlameado, num charco de uma de abulia glauca.

II

Senta-se num pedregulho, sob um chuveiro ralo de luz, pingando por entre a copa de um álamo frondoso e imóvel. Aquece-se. Ou imagina-o. De súbito, debaixo dos seus olhos, toda se abre a vulva húmida de uma orquídea selvagem. Apanha-a. Põe-se a lamber, lascivamente, as gotículas de água daquela pele macia. Esquece-se, assim, que se encontra perdido. Encostado ao tronco erecto de uma árvore, acaricia a flor, e, ao mesmo tempo, uma das várias amantes, a que dele, com certeza, já se esqueceu, exibindo as longas pernas desnudas, nos palcos da cidade, além dos seus olhos verdes. Fundos. Hipnóticos. Penetra-a. Rega-a de sémen, mas, logo, a deixa, enrodilhada em lençóis azul- marinho. Há que fazer uma gestão rigorosa das suas energias genésicas, vai pensando, enquanto abre a porta do carro. Dentro, pega em três garrafas de cerveja. Bebe, com avidez compulsiva, sem intervalos entre os goles, todo o conteúdo. Só depois arranca, com os dedos trémulos, ao volante, como se tivesse pressa de regressar a casa, se casa se podia chamar, onde o esperavam paredes sujas e mudas, solidão e vómito.  Além de cerveja, vodka, tabaco, papier ambré, para enrolar cigarros, e uma velha máquina de escrever, numa mesa pequena, contra uma parede, rendilhada de fissuras, onde, por vezes, se balançavam aranhas, na ponta de fios finíssimos e fortes, ou serpenteavam centopeias pacíficas.  Incoerências legítimas, estas, pensa a narradora, com uma cumplicidade, sem casca dura envolvente.

III

Um crepúsculo ameaçador despenha-se sobre a floresta. Gotas grossas de chuva são uma sinfonia grotesca, aguçando os seus medos, e, ao mesmo tempo, libertando-o de si mesmo. Desbrava um monte de silvas, e toma um rumo oposto, parece-lhe, ao da vinda do acampamento. Segura-se às rédeas do instinto, que lhe acena com o encontro de um qualquer atalho, ainda que desviante, mas conducente à sua tenda. Avança na mata escura aos tropeções. Aquele rumo desconhecido há-de levá-lo seja lá onde for. Pouco lhe importa o onde, desde que encontre um vestígio de algo humano, pensa. Mas a verdade é que, por mais passos que vá dando, só ouve vozes de animais e o esvoaçar veloz do vento, por entre ramagens inquietas. Falecem-lhe as forças. Escorrega nos galhos secos e espetados do desespero e da impotência. Junta, com pena de si próprio, o seu choro aos guinchos dos morcegos. Chora-se, até as lágrimas abrirem regos de fogo no rosto e manchas negras na mente.
- Morro-me! Merde! - murmura, salivando secura ácida.
Tomba, como se fora um fardo de feno seco e deslaçado. Síncope? Não.  A queda é o recolhimento do escritor na sua casca de caracol, sem cornos ao Sol, que não faz. Morto de fraqueza, o homo sapiens ainda conserva umas gotas de seiva, as suficientes para fantasmar uma vulva humidamente quente, onde se abriga, como se fora a oikos primordial. Existe e inexiste-se.  Está ali, sem o ser. Desconhece-se. Andrógino? Que sabe ele do que não sabe? Enrosca-se. Agasalha-se? Talvez. Não lhe peçam racionalidade! Que poder tem a razão prática sobre um indivíduo, à borda do nada?  Deixemo-lo. Sim! Deixemo-lo, enleado à desrazão. Perdido, é certo, mas abrigado da adversidade, num desabrigo de seda virgem. Deixemo-lo. A saída daquele fosso, se de fosso se trata, é apenas fruto da nossa razão sensível, da nossa imaginação, lançando labaredas na oficina da estética. Esperemos que o bicho, supostamente, cogitante, encontre a porta do seu labirinto, cujo Minotauro é ele mesmo, muito embora se não dê conta. Que sabemos nós dos nós que nos aprisionam? Que sabemos nós do como os deslaçar, aos laços do invisível terribilis? Aos fios da desistência da navegação no leito das veias sinuosas? Cerremos os olhos. Imaginemos que são brancas as velas da narrativa a bordo do qual navegamos, sem destino, ao alcance da nossa vista, dada a cegueira que somos. Deixemo-lo, ao escritor, tecendo ou destecendo - não o sabemos - as teias do seu achamento, sem babas, aparentemente, à mostra. A nossa perdição é bem outra. 

IV

Enrola, com vagares serenos, um cigarro, sentado à mesa da escrita. Fuma e, de um vazio fundo, um longo poema se faz, marginado ao centro da folha. É um barco encalhado num banco de areia, contra uma falésia, eriçada de cactos gigantescos.
Francisco Teles levanta-se. Os seus olhos não suportam o peso daquela forma gráfica. Talvez umas cervejas desfaçam o presságio trágico do corpo daquele poema, vai pensando, enquanto bebe, pelo bocal, duas garrafas de cerveja gélida. Retira, depois, da máquina, com raiva muda e cega, o barco da iminência da destruição. Gotas de sangue pingam-lhe da ponta de todos os dedos, e o soalho é um arquipélago de cacos de vidro e de respingos de espuma, com minúsculas manchas vermelhas. O barco, esse, é uma montanha de destroços, num dos cantos do escritório, sobrevoado por gaivotas.  Colado à cadeira, pesam-lhe de tal modo os olhos, que naufraga no sono, como uma criança cansada dos deveres escolares. Ei-lo, magro e ágil, no recreio, a jogar à bola, gritando que marcou um golo, apesar de um joelho ferido, na véspera, por um adversário mais forte e mais velho do que ele. O jogo continua durante horas. A sala de aulas é a ausência da professora gorda e castigadora. Os livros e os cadernos são um alvoroço de asas, sobre as mesas e as cadeiras vazias.
Toca o telefone. Toca a campainha da porta do apartamento. Continua no recreio o exímio jogador, mas, agora, estranhamente só, atirando a bola contra as paredes, contra a sebe de pedra que circunda a escola, contra o ventre obeso da professora.

V

Finalmente, acorda, com uma dor aguda na garganta, e a noite, definitiva, instalada na floresta. Uma noite medonha, pesando-lhe sobre os ombros débeis, como se todo o Universo se tivesse despenhado em cima.
- Maldita floresta! - grita.
Grita. Inaudível. Enfurecido. Assaltam-no a fome, a sede e o frio. Bicho encurralado, procura o brilho de um astro. O céu, porém, se lá está, alguém o forrou de alcatrão.
- Maldita floresta! - grita, de novo, rouca e dolorosamente.
A garganta é um desfiladeiro áspero, seco, cheio de espinhos. De súbito, alonga um braço, despido de intencionalidade Uma mão toca numa pedra.  Escorrem gotas, ao erguê-la. Lambe, com voracidade animalesca, a minúscula lagoa. A sede, agora, é uma ausência de cerveja, a fome, a de um corpo róseo de lagosta. Espicaçado o instinto de sobrevivência, põe-se a esmagar e a comer as primeiras folhas que roçam a pele flácida dos braços. Sente-se um herbívoro saciado? Um homem dos tempos primevos?  Talvez, sem que nisso tenha pensado. Não ousa a escritora lho perguntar, até porque, creio, ele não poderia responder-lhe. Arrepiantes, lúgubres, assustadores e belíssimos, chegam-lhe aos ouvidos os sons musicais de um coro de uma alcateia, algures, na fundura da noite dos tempos, em que os animais seriam não seres inferiores ao homem, mas companheiros, no misterioso e complexo ecossistema do chão matricial, a cujas águas uterinas, quente e sereno retorna. Grato e conciliado com o Nada - Ser que somos.

Violeta Teixeira

Inédito ( COLECTÂNEA: CAVALO DE FOGO- CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 10/06 às 08:27 AM
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Sábado, 28 Maio, 2005

PESADELO POÉTICO

(...)preciso de me contaminar
para suavizar esta solidão…

CARLO LUCARELLI

PESADELO POÉTICO

I

Acorda, às cinco e trinta da manhã, colada às costas de um corpo gélido. Assustada, com arrepios de frio, apesar do quarto aquecido, salta da cama, e, num gesto instintivo, empurra-o para o chão. Tomba. Hirto. Arroxeado. Não ousa, a escritora, cerrar-lhe as pálpebras, nem cobri-lo. Num rasgo lúcido, passados que foram uns segundos estupe -factos, reconhece a identidade do corpo, com um grito de surpresa.
- Não! Não! Não é possível!
Estivera a escrever um conto até às duas, mas não o havia concluído, como era sua intenção, dado que o protagonista silenciou-lhe o desfecho.
- Mal consigo manter os olhos abertos! «Merde! Merde»! - Grita, enraivecida, enquanto veste um «robe de chambre», em seda vermelha.
Corre até o escritório, e liga, apressada, o computador. Busca o ficheiro do conto inacabado, e vai se dirigindo àquele corpo, com palavras de uma ironia embebida de amargura.
- Que pintor maldito! Por que escolheste a minha cama para dormires? Não te deixei, ontem, de madrugada, no teu atelier? Sim! Não vale a pena me enganares! Acabavas de pintar um tela plagiada de Salvador Dali! Não gostaste dela, e a retalhaste, porque nenhum «marchand» ta compraria, para a revender como autêntica. Julgarás que ignoro o teu talento de plagiador?! Enfim! Mudemos de assunto. De acordo? Sim! Achas delicado, seu terrorista emocional, o me teres acordado a esta hora lavada da manhã, nesse estado assustador? Estás à espera, com certeza, que seja eu, a tua criadora, a cerrar-te essas pálpebras visionárias? Olha para mim, seu pintor maldito? Fechá-las-ias se fossem dois sóis cegos. Julgas que sou eu o médico que te vai passar a certidão de óbito? Ou o legista que te há-de fazer a autopsia? Fica sabendo que é o teu amigo Luís quem vai tratar de todos esses pormenores macabros. Vou levar-te, daqui a pouco, ao teu atelier, e é lá que ele te vai encontrar. Interessante! Dá uma gargalhada, e acrescenta, sarcástica: 
- Sabes, é lá que vou encenar uma «overdose» poética. No «décor» haverá uma lagoa de sangue, pista falsa, obviamente, para intrigar a polícia judiciária. Um pintor maldito, como tu, merecia uma perversidade com mais requinte, não achas? Mas, vá, não te lamentes! Colocarei sobre o teu