Sexta-feira, 30 Janeiro, 2009
«PERSONALIDADES POTENCIAIS»
«Personalidades Potenciais»
«Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolução fez surgir o génio político ou militar nos jovens destinados a uma carreira medíocre numa época normal; a guerra provoca o advento de heróis e de carrascos; a ditadura totalitária transformou seres pálidos em monstros. O exercício incontrolado do poder pode «tornar o sábio louco» (Alain) mas pode tornar sábio o louco, e dar génio ao medíocre, como no caso de Hitler e Estaline. E também as possibilidades de génio ou de demência, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunstâncias excepcionais.
Inversamente, estas possibilidades nunca chegarão à luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, César seria funcionário da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Aristóteles para uma colecção de divulgação, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na Câmara de Arras, e Bonaparte seria do séquito de Pascua.»
Edgar Morin, in ‘Os Meus Demónios’
Publicado por Violeta Teixeira em 30/01 às 06:49 PM
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LA PHOTOGRAPHIE
Registo fotográfico de Chris Steele-Perkins
“Ne pense jamais que la photographie est facile. Etudie la photo, regarde ce que les gens ont réalisé, mais apprends d’eux, n’essaie pas de faire comme eux. Photographie les choses qui t’intéressent vraiment. Sois ouvert à la critique. La théorie et les études sont utiles mais tu apprendras davantage par la pratique”
Chris Steele-Perkins
Voilà, c’est un bref extrait traduit approximativement du blog original de Magnum, ici.
Chris Steele-Perkins é um dos mais prestigiados profissionais do sector, sendo membro da agência Magnum desde 1982, à qual chegou mesmo a presidir de 1997 a 1999.
Começou por se debruçar sobre temas quotidianos no Reino Unido e em 1975 iniciou uma colaboração com a Exit, um grupo cujo trabalho incide sobre problemas sociais nas cidades britânicas.
No seu livro de estreia, The Teds (1979), fotografou os últimos representantes dos Teddy Boys britânicos.
Das viagens efectuadas por diversas zonas de conflito resultaram trabalhos como o que dedicou ao Afeganistão durante a guerra civil e a ascenção dos Taliban.
O currículo inclui prémios como a Robert Capa Gold Medal, o Oskar Barnack Prize, o Tom Hopkinson Prize for Photojournalism e um World Press Award.»
Publicado por Violeta Teixeira em 30/01 às 06:25 PM
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SOU…
Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora, Olhares.com
Sou, invariavelmente,
A que não soube ser,
Salvo o nada que me sou.
Dos longes
Da vida, nada possuo
Que tenha semeado.
No agora, só tenho,
Em mim, o que não tenho
E uma ânsia
Incontida de um abraço.
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, Leiria, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 30/01 às 05:47 PM
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Quarta-feira, 28 Janeiro, 2009
POESIA
«Diante do papel, que «la blancheur défend», o poeta é uma longa e só hesitação. Que Ifigénia terá de sacrificar para que o vento propício se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tróia? Que augúrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debruça cheio de aflição? Porque ao princípio é o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do coração ou do cosmos — quem sabe onde um começa e o outro acaba? Desprendidas de não sei que limbo, as primeiras sílabas surgem, trémulas, inseguras, tacteando no escuro, como procurando um ténue, difícil amanhecer. Uma palavra de súbito brilha, e outra, e outra ainda. Como se umas às outras se chamassem, começam a aproximar-se, dóceis; o ritmo é o seu leito; ali se fundem num encontro nupcial, ou mal se tocam na troca de uma breve confidência, quando não se repelem, crispadas de ódio ou aversão, para regressarem à noite mais opaca. Uma música, sem nome ainda, começa a subir, qualquer coisa principia a tomar corpo e figura, a respirar, a movimentar-se, a afirmar a sua existência e a do poeta com ela, a erguerem-se ambos a uma comum transparência, até serem canto claro e fundo — voz do homem. Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis — a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens.»
Eugénio de Andrade, in ‘Rosto Precário’
Publicado por Violeta Teixeira em 28/01 às 05:49 PM
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EUGÈNE ATGET
Registo fotgráfico de Eugène Atget-«Prostitute»
«Eugène Atget (Paris, 12 de fevereiro de 1856 ou 1857 - 4 de agosto de 1927) foi um fotógrafo francês, hoje tido como um dos mais importantes fotógrafos da história. Passou toda a vida em Paris. Pioneiro, revolucionou a fotografia com seu olhar desviado do ser humano. Fotografava o vazio das ruas parisienses, e objetos inusitados.
Ficou órfão ainda criança e foi criado e educado por um tio. Tornou-se marinheiro, viajando por rotas americanas. Posteriormente optou pela carreira de ator. Foi estudar em um conservatório em 1879, deixando-o em 1881, partindo com uma pobre companhia de teatro que atuava nas redondezas e subúrbios de Paris. Atuou em papéis insignificantes e desiludiu-se com a profissão. Em 1889 dedicou-se a pintura e acabou desenvolvendo sua capacidade de observador tornando-se fotógrafo, resolvendo desmascarar a realidade.
Iniciou a profissão de fotógrafo aos 40 anos de idade. Inovador, foi o precursor da fotografia moderna em Paris. Especializou-se em vistas cotidianas e postais parisienses ,pois conhecia cada canto de sua cidade natal. Reproduzia quadros e fornecia material de referência para seus colegas pintores.
Em sua genialidade expressava verdadeiramente o surrealismo. Sua rotina durou cerca de 25 anos, de carregar pela cidade sua enorme e ultrapassada câmara, um tripé de madeira e mais uma caixa de placas fotográficas de 18x24 cm, num total que ultrapassava 15 quilogramas.
Atget desprezava a fotografia convencional,especializada em imagens humanas. Inaugurou a fotografia urbana. Libertou os objetos de sua aura, tornando irresistível a necessidade de possuí-los,na imagem ou na sua reprodução. Retratava o vazio, a privacidade em suas fotografias de vistas.
Não teve reconhecimento de seu trabalho em vida,pois os escritores públicos da época “nada sabia sobre aquele homem que passava a maior parte do tempo percorrendo os ateliês com suas fotos, vendendo-as por alguns cêntimos,muitas vezes ao mesmo preço que aqueles cartões-postais,que em torno de 1900 representavam belas paisagens urbanas envoltas numa noite azulada, com uma luta retocada.Ele atingiu o pólo da extrema mestria, mas na amarga modéstia de um grande artista, que viveu na sombra, deixou de plantar ali o seu pavilhão. Por isso muitos julgam por ter descoberto aquele pólo, que Atget alcançara antes deles.” (Camile Recht)
Em 1926 Berenice Abbot, nova iorquina, recolheu a sua obra de mais de quatro mil imagens e dez mil negativos, que foram publicadas por Camile Rechet, em um volume de magnífica beleza; as fotos de Atget participaram, no mesmo ano e através de Berenice Abbout, assistente de Man Ray, curador do Museu de Arte Moderna dos EUA, na exposição “La Révolution Surrealiste”. Contudo, o sucesso chegou tardiamente, pois Atget morreu em 1927, pobre e solitário, em Paris.»
In CotiaNet
Publicado por Violeta Teixeira em 28/01 às 05:29 PM
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EVA SEDENTA E PERVERSA
Registo fotográfico de Christian Coigny
Eva sedenta
E perversa,
Desvio-te do
Rumo da terra
Vermelha.
E faço com que
Subas uma encosta,
Onde te demoras,
E onde outro rio
Desagua,
Com margens,
Para ancorares
O barco.
E gemidos
Meigos.
Líquidos.
De gaivota.
Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 28/01 às 04:04 AM
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Domingo, 25 Janeiro, 2009
DESNUDA-ME!
Trabalho fotográfico da autoria de Gary Faye
Desnuda-me!
Deixa-me, de seguida, adormecer
No mar!
Não me digas
Nada! Basta-me uma
Pétala de uma rosa vermelha,
A flutuar.
E o musicar triunfal
Das vagas, para aceitar, sem mágoa,
O berço matricial das algas.
Afasta-te
Da borda da esplanada.
Já me aqueceste do efémero. Basta-me!
Nunca soube o que seja
Ser amada.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 25/01 às 10:57 PM
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FIDELIDADE FEMININA
Trabalho fotográfico da autoria de Art Kane
«Fala-se muito da fidelidade feminina, mas raras vezes se diz o que convém. Do ponto de vista estritamente estético, ela paira como um fantasma por sobre o espírito do poeta, que vemos atravessar a cena em demanda da sua amada, que é também um fantasma preso à espera do amante - porque quando ele aparece e ela o reconhece, pronto, a estética já não tem mais que fazer. A infedilidade da mulher, que podemos relacionar directamente com a fidelidade precedente, parece relevar essencialmente da ordem moral, visto já que o cíume toca sempre os aspectos de paixão trágica.
Há três casos em que o exame é favorável à mulher: dois mostram a fidelidade, e um a infedilidade. A fidelidade feminina será enorme, excederá tudo quanto a gente possa pensar, enquanto a mulher não tiver a certeza de ser verdadeiramente amada: será muito grande, ainda que nos pareça incompreensível, quando o amante lhe perdoar; no terceiro caso temos a infedilidade.»
Soren Kierkegaard, in ‘O Banquete’ (Discurso de Constantino)
Publicado por Violeta Teixeira em 25/01 às 10:45 PM
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ART KANE
Retrato-de-Jazz-Harlem-Nueva-York-1958-PostersArt_Kane.
«Apesar de ser mais conhecido como um dos melhores retratistas norte-americano, das décadas de 60 e 70, Art Kane não é somente isso. Sua fotografia relata toda a mudança social e política da época, opinando, delatando e persuadindo com suas imagens simples e poderosas.
Art Kane nasceu em New York em 1923. Durante a II Guerra Mundial, serviu à US Army na Europa. Aos 27 anos se graduou na Cooper Union School of Art e tornou-se director de arte da revista Seventeen. Kane deixou a revista em 59 e dedicou seu tempo totalmente à fotografia.
Kane tem um grande senso de cor e composição, que vem de sua grande experiência e conhecimento da área de layout, impressão e artes gráficas.
Art Kane ministrou vários workshops fotográficos pelo mundo; passou inclusive muito tempo no Brasil entre 1976 e 1977, trabalhando em um livro de fotografia para a Time-Life e gostou muito daqui. Kane morreu em fevereiro de 1995 e infelizmente nenhum destes workshops foram documentados em filme ou vídeo.»
http://www.cotianet.com.br/photo/great/lewcar.htm
«Em 1958 o fotografo Art Kane juntou 57 músicos de Jazz, na 126th Street (entre as avenidas Fifth e Madison) no Harlem, para uma foto para a revista Squire (publicada em janeiro de 1959) que se tornou uma das mais famosas da história da música.»
In bebopcafe.wordpress.com/category/it´s-very-nice-pra-xuxu/
Publicado por Violeta Teixeira em 25/01 às 10:24 PM
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Sábado, 24 Janeiro, 2009
BATESTE-ME COM A PORTA DO NÃO…
Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com
Brusco.Tom
Metálico. De aço.
Bateste-me
A porta do não,
Contra o rosto
Do desejo óbvio.
Ainda hoje
Se me anoiteço.
A mesma noite.
Ainda hoje.
Longuíssima .Ilógica.
Ainda hoje,
Fluem suspiros
Líquidos,
Nas fendas
Do poema.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co- edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 24/01 às 02:46 AM
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ARTISTA
Registo Fotográfico da autoria de Bill Brandt
«Todos queremos ser amados, mas o artista quer sê-lo de uma maneira tão total, tão desalmada, que é impossível. Por isso cria. Mas o acto de criar tem muita lama: não é limpo, é mesmo um pouco sórdido, como nascer. O que oferecemos separa-se de nós. Como um segredo violado fica parecido com algo inefável ao ser tocado por uma impura mão.»
Ana Hatherly, in ‘Tisanas’
Publicado por Violeta Teixeira em 24/01 às 02:37 AM
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ANSEL ADAMS
Registo fotográfico de Ansel Adams
«Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao acto de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos.»
Ansel Adams
In O PENSADOR
«Ansel Adams foi um fotógrafo americano ( ambientalista, captou da América a beleza selvagem). Nasceu a 20 de fevereiro de 1902, em São Francisco, e morreu a 22 de abril de 1984.
Artista de multitalentos, começou como professor de piano e pianista profissional, escritor, até que tirou sua primeira fotografia. Acostumado ao dedicado trabalho de técnicas musicais e o estudo dos grandes compositores, transferiu para a sua fotografia, um profundo senso estético voltado para a criatividade. Quando trocou a música pela fotografia, Adams já tinha optado pelo perfecionismo e criatividade levando seu trabalho fotográfico onde nunca antes outro tinha chegado.
Suas técnicas de ampliação e revelação, desmembrados em banhos distintos de contraste e meio-ton (hidroquinona-metol) são sinônimos de perfeição.
Sua primeira fotografia foi tirada com uma Kodak Brownie durante a visita a Yosemite Valley, em 1916.
Adams participou do Grupo f/64 junto com Willard Van Dyke (Fundador), Imogen Cunningham, Edward Weston e seu filho Brett Weston.
Seus muitos livros sobre fotografia, incluindo o Morgan & Morgan Basic Photo Series (a câmera, O negativo, a impressão, luz natural, Fotografia, Fotografia e luz artificial) tornaram-se clássicos no mundo da fotografia.
Foi eleito, em 1966, membro da Academia Americana de Artes e Ciências. Em1980, Jimmy Carter atribuiu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honra civil da nação.»
http://www.cotianet.com.br/photo/great/aadams.htm - 7k
Publicado por Violeta Teixeira em 24/01 às 02:05 AM
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Terça-feira, 20 Janeiro, 2009
CRIANÇA
Registo fotográfico de Violeta Teixeira-Olhares.com
«Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.»
Eugénio de Andrade, in ‘Rosto Precário’
Publicado por Violeta Teixeira em 20/01 às 07:15 PM
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PAULO NOZOLINO
Registo fotográfico de Paulo Nozolino
«A perspectiva autobiográfica de Paulo Nozolino (1955), que desde sempre fez parte dos seus trabalhos, é-lhes tão intrínseca quanto ficcionada, e nunca prescinde da destreza alquímica do preto e branco para sublimar o alcance sedutor das imagens. Essa mestria confirma-se ainda na qualidade extrema dos livros que tem publicado e na colaboração frutuosa com outros criadores em edições de poesia. Também aí, o grão é uma pedra de toque tão concisa quanto qualquer palavra.
Tal como Jorge Molder, outro dos autores actualmente mais divulgados no estrangeiro, Paulo Nozolino também iniciou o seu percurso fotográfico na Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, ainda nos agitados anos de 1974-1975 da capital lisboeta. Frequentou depois o London College of Printing, fixando-se naquela cidade até 1978. Dois anos depois, seria revelado pelos, então também estreantes, Encontros Fotográficos de Coimbra, através da participação no projecto fotográfico Quatro Olhares sobre Coimbra (1980). Foi o primeiro reconhecimento da sua capacidade de conciliar uma visão única (personalizada), com uma perspectiva mais lata da realidade, ao ponto de com ela se relacionar de um modo “documental”.
Mas um documento é o que fica para a história, tem a densidade humana de um testemunho e de todas as circunstâncias materiais e ocasionais que reajustaram a sua existência ao longo do tempo. Por isso mesmo, nunca é genuinamente objectivo, neutral, imparcial. E, nesse sentido, um fotógrafo é sempre uma testemunha; no caso de Nozolino, uma testemunha de viagem em viagem. Ou ainda, lembrando o título da série que integra a colecção do CAMJAP, uma “testemunha em fuga”.
Nesse conjunto de imagens apresentadas logo no começo do seu percurso, encontramos três estratégias representativas que estruturam grande parte da obra desenvolvida por Nozolino nas duas décadas seguintes: 1) uma dimensão autobiográfica mais intimista que íntima; 2) a viagem como condição essencial, vital, do fotógrafo; 3) a exponenciação da imagem, seja através das superfícies reflectidas, seja no tratamento dos elementos sígnicos como imagem (e não como escrita), seja ainda na evocação de outras autorias próximas do seu imaginário, também como revitalização da própria história da fotografia.
Como não reconhecer, na vasta obra que Nozolino desenvolveu nas últimas duas décadas, a influência primeira e decisiva da perspicácia de um Robert Frank ou a intimidade crua, ainda assim encenada, de um Larry Clark? E também a vitalidade das cidades de William Klein, a sensualidade gráfica de um Bill Brandt e a coragem arrojada de um Eugene Smith, sem esquecer a simplicidade eterna de um Walker Evans? E outros nomes se seguiriam, embora as imagens que lhes associamos nunca se cheguem realmente a confundir com as de Nozolino, sendo antes cúmplices de uma visão singular, mas tangencial, de olhar e dar a ver o mundo.
Daí o carácter incisivo e algo visionário de um depoimento do próprio Nozolino, ainda em 1980: “Viajar tem sido sempre a minha maldição, ver a minha alegria, fotografar a minha sorte. Para sempre rasgado entre ficar demasiado tempo e partir cedo demais, decido-me pelo instante. Sou uma permanente testemunha em fuga.”
Apontado por unanimidade como o mais influente dos fotógrafos portugueses, particularmente nos anos 80, Paulo Nozolino (n. Lisboa, 1955) é autor de uma obra construída em viagens recorrentes pelas estradas, pelas cidades, pelas pessoas, até aos territórios mais inacessíveis e desconcertantes da humanidade (do Grande Deserto à devastação deixada pela guerra da Bósnia).
LÚCIA MARQUES
Publicado por Violeta Teixeira em 20/01 às 07:07 PM
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GÉLIDA BELEZA
Registo fotográfico de Sílvia Greche-Olhares.com
A Lua banha-se num lago
De lótus brancos.
Desmaiada, afoga-se.
Pousado na borda,
Um pato bravo, desviado
Do rumo do bando,
Com certeza, logo mergulha,
E traz a Lua à tona, acesa
De vermelho, de uma
Gélida beleza.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 20/01 às 06:44 PM
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