Quinta-feira, 30 Outubro, 2008

PALAVRAS GASTAS PELO USO

«Diz-me se essa palavra aí não está singularmente vestida e poderás ver todas as minhas nuas antes das coisas que medito as terem coberto com uma libré. É uma vergonha que a maior parte das nossas palavras sejam instrumentos de que se fez, outrora, mau uso e que, muitas vezes, conservem o cheiro da imundície em que as emporcalharam os anteriores proprietários. Quero trabalhar com palavras novas ou então - tenho necessidade para isso de menor ar do que uma ave exala nos seus cantos - nunca mais falar, a não ser de mim para mim, por toda a eternidade. «

Georg Lichtenberg, in ‘Aforismos’

Georg Christoph Lichtenberg (1 de julho de 1742, em Ober-Ramstadt, Alemanha - 24 de fevereiro de 1799, em Göttingen, Alemanha), filósofo e escritor alemão.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 30/10 às 12:39 AM
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JIA LU

Obra pictórica de Jia Lu

Jia Lu
Nascida na China em 1954, Jia Lu cresceu em uma família de artistas. Ela aprendeu muito cedo a apreciar a beleza e o poder da figura humana através de seus pais, ambos artistas profissionais. Ela trabalhou como enfermeira, atriz de cinema e TV, oficial da Marinha, editora de arte de uma revista e treinadora de basquete antes de se matricular na Academia Central de Arte e Design para começar seu treinamento profissional como artista.

“As idéias para minhas pinturas vêm de minhas leituras em filosofia, poesia e de outras artes visuais, como o cinema e o teatro. Eu gostaria de ter mais tempo para assistir a ópera e dança, porque eu adoro a iluminação dramática e os sets elaborados. Algumas idéias vêm de sonhos, outras são inspiradas por esboços antigos que eu fiz de modelos. Algumas vezes, sou impactada por uma linda fotografia ou pintura de outro artista e eu simplesmente quero algo parecido em meu trabalho. Normalmente, as idéias para pinturas vêm em enxurrada em alguma hora após a meia-noite. Infelizmente, eu tenho muito mais idéias do que tempo para pintar”.

(Fonte: http:/www.jialu.com)

Publicado por Violeta Teixeira em 30/10 às 12:18 AM
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DESNUDA-ME!

Obra pictórica de Jia Lu


Desnuda-me!
Deixa-me, de seguida, adormecer
No mar!

Não me digas
Nada! Basta-me uma
Pétala de uma rosa vermelha,
A flutuar.

E o musicar triunfal
Das vagas, para aceitar, sem mágoa,
O berço matricial das algas.

Afasta-te
Da borda da esplanada.
Já me aqueceste do efémero. Basta-me!
Nunca soube o que seja
Ser amada.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 30/10 às 12:01 AM
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Quarta-feira, 29 Outubro, 2008

ESCREVO

Obra pictórica de Jia Lu

Escrevo soterrada numa solidão,
Cuja lucidez felina fere-me as veias
Do universo do silêncio frutificante.
Não deste silêncio murmurando,
Verso a verso, sílabas, sem nexo,
E, de quando em quando, um grito
Tão uivante, que enlouquece o léxico,
Deixando-o à solta, como se fosse
Um cavalo selvagem a galope, numa
Montanha de fogo deslumbrante.
Escrevo, mas não me atrevo a dar
Um passo, na direcção da nascente
Ou da fonte da respiração da floresta
Fluente de lexemas, situada ao cimo
Dos penhascos do desejo de degolar
O corpo indolente de uma serpente,
A hibernar, com contornos falsos,
Espelhados num regato narcísico.
Digo-vos que escrevo o desespero
Da perda de nem vislumbrar o mágico
Nascimento das palavras magnéticas,
Acasaladas sob a forma de um poema.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 04:03 PM
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SEPARAÇÃO

Obra pictórica de Jia Lu

Tudo consiste em reduzir a dependência das coisas.
Partes amanhã. Não mais nos veremos. Um pouco o
desertor a cada passagem da nossa alma ou
quem espera para morrer.

A aquisição de todos estes bens
as espécies de tristeza são o que
acompanha quem espera — quais as pretendidas
vantagens? a juventude ou o mar?

Que te importa o que posso ou não fazer? Se
estamos tão perto quando nas ruas cruzamos e dizemos
o herói de toda a circunstância — a tua vida
precede a minha a tua morte ao abrigo das paixões
mas nada disto é dito
animal que repousa sob o erro.

Pela última vez
põe os teus sapatos novos
tão contrários à fonte dos actos e à moral
e vem, mesmo que tenhas andado para lá do som,
lavadinho, para que eu possa passar a minha mão
pelo pêlo
pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.

João Miguel Fernandes Jorge, in “Direito de Mentir”

João Miguel Fernandes Jorge Bombarral, 1943 Licenciado em Filosofia, é autor de uma vasta obra de ficção, poesia e ensaios sobre arte, colaborador de “O Independente” e co-director da revista “As escadas não têm Degraus”. Recebeu os prémios José Régio de poesia da Feira do Livro do Porto (1975) e Nicola de poesia (1985). Obra: Sob Sobre Voz (1971), Porto Batel (1972), Turvos Dizeres (1973), Alguns Círculos (1975), Meridional (1976), Crónica (1977), Vinte e Nove Poemas e Direito de Mentir (1978), Actus Tragicus (1979), O Roubador de Água (1981), O Regresso dos Remadores e À Beira do Mar de Junho (1982), Um Nome Distante (1984), Tronos e Dominações (1985), A Jornada de Cristóvão de Távora (1986 a 1990), Pelo Fim da Tarde (1989), Terra Nostra (1992), O Barco Vazio (1994), Não é Certo Este Dizer e O Lugar do Poço (1997), Bellis Azorica (1999).
________________________________________Bibliografia ASA

Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 03:36 PM
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JOEL KASS

Infrontofthefurnace(1992)In_front_of_the_furnace_(1992)_(Holocausto).

Joel Kass
“Um artista que retrata trivialidades do cotidiano, da mesma forma que retrata a dor, a violência: com personagens geometrizados, como personagens do teatro da vida real. Ele consegue, de forma bela e bem-humorada, descrever cenas felizes e tristes do ser humano, vagando entre a luz e as trevas de suas lembranças. Nesta galeria dividimos uma amostra de sua obra em duas partes: ‘O Holocausto: dor, sofrimento e memória de uma testemunha’ e “A alegria e a trivialidade do cotidiano”. Géssica Hellmann.
“Quando vi suas obras, levei um choque. Se eu tentar descrever esta emoção, de uma só vez, estética e espiritualmente, eu penso que posso encontrar duas explicações. Primeiramente, como um professor da filosofia na ordem Dominicana em Jerusalém, eu fiquei impressionado pelo aspecto formal do trabalho do artista. A violência que se percebe na alma do pintor é mantida encoberta por um estilo rigoroso e por um sentido altamente rítmico da composição. As figuras fantásticas são integradas em uma geometria de volumes habilmente construídos, e o jogo das cores, cuja variedade e arranjo merecem ser observados com cuidado, confirma e, às vezes, transfigura - quando a visão do pintor é por demais severa - o significado poético da mensagem.
Mas não sou somente um filósofo: Eu sou, antes de tudo, um religioso Dominicano, responsável por uma pequena comunidade, “Maison Saint Isaie”, cuja a finalidade essencial é servir como um centro cristão de estudos judeus em Jerusalém. Como conselheiro da Comissão do Vaticano sobre relações com Judaísmo, eu descobri no curso de meu estudo e reflexão a realidade terrível do destino judeu e do Shoah. Eu me senti diretamente desafiado pelo trabalho de Joel Kass.
Todas as expressões e cenas descritas por ele em suas pinturas parecem ter sido extraídas diretamente de sua memória. Ainda, se for verdadeiro dizer que seu estilo é extremamente original, é não somente por expressar suas memórias pessoais, mas a memória do povo judeu. Ele o cantor do destino de Israel.
Sua mensagem tem um alcance universal. Neste respeito, Joel Kass testemunha a qualidade representativa do destino do povo judeu, na escuridão e na luz, no amor e no desespero. Expressa, por seu grito, o sentimento que todo o homem de nosso tempo deve ter, no meio dos horrores que o cercam e ameaçam. Nós vivemos em um mundo despedaçado, em uma humanidade despedaçada. O homem nunca se sentiu tão ameaçado. Joel Kass foi o intérprete da humanidade buscando sobreviver a estas calamidades.
Eu diria que ele é o pintor das vicissitudes da vida cotidiana, cuja profundidade e urgência escondidas nos faz perceber: Amor, solidão, dor, lágrimas.” Marcel Dubois.

Fonte:http://www.joelkass.com

Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 03:13 PM
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Terça-feira, 28 Outubro, 2008

MORTE ERECTA

Trabalho fotográfico de AMÉRICO-Olhares-com


Nada pedirá. Nada!
Poderá ficar desnuda a única
Árvore, que fora, a de todas as esperas,
Nunca desabrochadas; tombarem
Os galhos das promessas, na rua
Deserta de passos; a Lua
Afogar-se dentro
De um poço de sapos,
Sem água.

Nada pedirá. Nada!
Raízes presas por fios ténues
De revolta. Podres, parecem-me.
O rio continua a fluir fúrias. Talvez
De resistência insana.

Nada pedirá. Nada!
Bem pouco tempo faltará,
Para o desenlace trágico. Modo não há
De adiamentos, no mundo ilógico
Das Parcas. Esvoaçam as Erínias,
Sobre o tronco desnudo, sem seiva
Nos pulsos. Só lhe resta
O orgulho de uma
Morte erecta.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 28/10 às 06:14 PM
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«O AMARGO DESTINO DO SONHO»

Imagem ilustrativa de Francesca Wooman

Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino.
Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais íntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertinácia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem é benéfico. O que começava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino. O homem do poder destói-se pelo poder, o homem do dinheiro, pelo dinheiro, o subserviente pelo servir, o sequioso de prazer pela luxúria.

Hermann Hesse, in “O Lobo das Estepes”

Publicado por Violeta Teixeira em 28/10 às 06:02 PM
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MOIRAS

Alegoria, por Strudwick (1885)

Moiras

Na mitologia grega, as Moiras eram as três irmãs Cloto, Láquesis e Átropos que determinavam o destino, tanto dos Deuses, quanto dos seres humanos, eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as Moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios, as voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. Conta-se que o deus Ares foi o único ser capaz de submeter as Moiras à vontade dele; fora esta exceção, elas jamais foram manipuladas, e nada se pode fazer para detê-las, ou ganhar-lhes o favor (até porque as Moiras entendem que o trabalho delas está mesmo acima delas próprias).
As três deusas decidiam o destino individual dos antigos gregos, e criaram Têmis, Nêmesis e as Erínias. Pertenciam à primeira geração divina (os deuses primordiais), e assim como Nix, eram domadoras de deusas e homens.
As moiras eram filhas de Nix. Moira, no singular, era inicialmente o destino. Na Ilíada, representava uma lei que pairava sobre deuses e homens, pois nem Zeus estava autorizado a transgredi-la sem interferir na harmonia cósmica. Na Odisséia aparecem as fiandeiras.
O mito grego predominou entre os romanos a tal ponto que os nomes das divindades caíram em desuso. Entre eles eram conhecidas por Parcas chamadas Nona, Décima e Morta, que tinham respectivamente as funções de presidir a gestação e o nascimento, o crescimento e desenvolvimento, e o final da vida; a morte; notar entretanto, que essa regência era apenas sobre os humanos.
Os poetas da antiguidade descreviam as moiras como donzelas de aspecto sinistro, de grandes dentes e longas unhas. Nas artes plásticas, ao contrário, aparecem representadas como lindas donzelas. As Moiras eram:
Cloto
Cloto em grego significa “fiar”, segurava o fuso e tecia o fio da vida. Junto de Ilítia, Ártemis e Hécata, Cloto atuava como deusa dos nascimentos e partos.
Láquesis
Láquesis grego significa “sortear” puxava e enrolava o fio tecido, Láquesis atuava junto com Tyche, Pluto, Moros e outros, sorteando o quinhão de atribuições que se ganhava em vida.
Átropos
Átropos em grego significa “afastar”, ela cortava o fio da vida, Átropos juntamente a Tânatos, Queres e Moros, determinava o fim da vida.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 28/10 às 05:49 PM
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Domingo, 26 Outubro, 2008

MULHER

Imagem ilustrativa de Valery Kosorukov

«O homem deve à mulher tudo quanto fez de belo, de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela é o ser que exalta. Quantos moços imberbes, tocadores de flauta, não celebraram já o tema? E quantas pastoras ingénuas não o ouviram também? Confesso a verdade quando digo que a minha alma está isenta de inveja e cheia de gratidão para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher - grandeza imensurável, que encontra a sua felicidade na ilusão. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significação precisa, do que ser uma abstracção susceptível de todas as interpretações. É, pois, bem verdade: graças à mulher é que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser génios, heróis, e outros santos, graças às mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser génio por graça da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser herói pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai; nenhum homem chegou a ser santo pela mulher que lhe foi destinada, porque esse viveu e morreu celibatário. Os homens que chegaram a ser génios, heróis, poetas e santos cumpriram a sua missão inspirados pelas mulheres que nunca chegaram a ser deles.

Se a idealidade da mulher fosse positivamente, e não negativamente, um factor de entusiasmo, inspiratriz seria a mulher à qual o homem, casando, se unisse para toda a vida. A realidade fala-nos, porém, outra linguagem. Quero dizer que a mulher desperta, sim, o homem para a idealidade, mas só o torna criador na relação negativa que mantém com ele. Compreendidas assim as coisas, poderá efectivamente dizer-se que a mulher é inspiradora, mas a afirmação directa não passa de um paralogismo em que só a mulher casada pode acreditar. Quem ouviu alguma vez dizer que uma mulher casada tivesse conseguido fazer do marido um poeta? A mulher inspira o homem, sim, mas durante o tempo que for vivendo até a possuir. Tal é a verdade que está escondida na ilusão da poesia e da mulher.
Que o homem não possua a mulher, isso é o que pode ser entendido de várias maneiras. Ou está ainda na luta para a conquistar, e assim se disse que a donzela entusiasmou o amante a ponto de fazer dele um cavaleiro, mas nunca se ouviu dizer que um homem se tornasse valente por influência da mulher com quem casou. Ou está convencido de que nunca lhe será possível casar com ela, e assim se diz que a donzela entusiasmou e despertou a idealidade do amante que se manifestou capaz de cultivar os dons espirituais de que porventura era portador. Mas uma esposa, uma dona de casa, tem tantas coisas prosaicas com que se preocupar, que nunca desperta no marido a idealidade.»

Soren Kierkegaard, in ‘O Banquete’ (Discurso de Vitor Eremita)

Publicado por Violeta Teixeira em 26/10 às 12:22 AM
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MULHER IMPOSSUÍDA

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

«A mulher que se beijou e não se teve, que se adivinhou e não se possuiu, transforma-se para nós numa obsessão, numa preocupação doentia. »

Dantas , Júlio

Publicado por Violeta Teixeira em 26/10 às 12:08 AM
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Sábado, 25 Outubro, 2008

POESIA DE TABERNA

Pintura a óleo de José Bardasano (1910-1979)-«En la Taberna»

Decisiva e inusitada mudança, esta!
Mesa da escrita, numa taberna,
Onde a poetisa se embriaga
Da esperança do haver espaço,
Para o sossego sacro do inferno,
Para a heroína da euforia
Efémera. Para rostos de névoas.
E sonhos, com raízes de nenúfares
Roxos, acariciados de lamas,
No fundo do poço do desafecto,
Sem fundo. Enchem-se copos.
Esvaziam-se copos, com sabores
A mosto dos lagares de outrora.
Fuma-se fumos e fumos. Cigarros
Baratos, cigarros acesos ou mal
Apagados, em cinzeiros de barro,
Com lascas de raiva incontidas,
De quedas, num soalho de madeira
Velha, manchado de pegadas de terra,
De patas de gatos, saídos de contentores
De lixo, de cortiça azulada de rolhas
Esfareladas por dedos ineptos. A comida,
Cheira a incêndio de fenos, a pedras
Em brasa, a lenha de oliveira verde,
A petróleo, a cinzas húmidas, a óleo
Usado em fritos sem conta, comidos
Por bêbados embevecidos, parece
Que assim seja à poetisa. Sim! Que sabe
Ela dos seus gostos? Nada. Bebe e bebe
Alabastro da colheita de dois mil e dois.
A boquilha da «Belle Époque» fumega,
Com «charme» perfumado de «Hypnose».
Senta-se, no mesmo banco tosco, Toulouse
Lautrec, e pinta as suas «cocottes»
Do «Moulin Rouge». A artista escreve,
Num guardanapo, maculado de heresias
Semânticas. Enfim, masoquista, esvazia
A náusea da taberna que escolhera, sem
Falsos pudores, se bem que fora sempre
Elitista, desde o berço, melhor diria,
Desde o quente sangue da placenta,
No que, à falta de outro lexema, tem
A ousadia artística de designar por poesia.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 25/10 às 11:10 PM
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LUTO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com


Tenho todo o tempo
Que não tenho.

Vivo-me ou
Me desvivo,

Não no presente,
Que não há,
Mas tão-só
No momento a
Momento.

Em cada ensaio
De voo
Quebrado,

Enluta-se-me
Todo
O Universo.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 25/10 às 12:03 AM
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Sexta-feira, 24 Outubro, 2008

MORTE

Como realiza o corpo este exercício
da queda no súbito conhecimento
do espanto, quando os olhos estão vencidos,
cerrados pela transparência e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, amáveis
dons, se ensombram os ossos, míseras as mãos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo fôlego das águas, aumenta
o assombro da claridade. Só a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a não ser o profundo
bando do grito terrível de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os músculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao núcleo da luz deslumbrante?
Ó mar de que futuro, rumor volúvel,
sopro claro, envolve-nos de compaixão!

Orlando Neves, in “Mar de que Futuro”

«Orlando Neves é autor de 16 livros de poesia, alguns deles premiados.
Licenciado em Direito, exerceu as seguintes profissões: director de publicidade e relações públicas, tradutor, locutor e produtor radiofónico, director literário do Círculo de Leitores e de outras editoras portuguesas, autor e apresentador de televisão, jornalista profissional durante 30 anos, crítico de teatro, televisão e rádio, encenador premiado no Teatro D. Maria II e na Fundação Gulbenkian.
Além de poesia, tem publicados 3 romances, 8 livros de contos, 6 peças de teatro para crianças, 7 peças de teatro para adultos, 3 dicionários temáticos. Organizou várias Antologias de Poesia. Está incluído em muitas colectâneas e antologias de poesia, ficção e literatura infantil. Dirigiu, entre outras, a revista literária trimestral Sol XXI, até ao N.º 17.
Os seus títulos mais significativos são: Morte minuciosa, Trovas da infância na aldeia, Regresso de Orfeu, Odes de Mitilene, Noema, Decomposição - A casa, Mar de que futuro, Organon para a decifração da poesia, Poesia, Louca obscura, (poesia), A condecoração, Morte em Campo de Ourique, Morta em Vila Viçosa, Rua do Sol, Histórias de Espanto e Exemplo e Fabulário (ficção), Humor próprio, 30 anos de teatro, Os brinquedos do Tozé fizeram banzé, Aventuras de animais e outros que tais, O Tio Maravilhas e O Mosquito Zzzz… Zzzz (teatro), Lisboa em Crónica, Diário de uma revolução, Pão com manteiga, O castelo medieval e a cultura coeva, De longe à China, Dicionário de Frases Feitas, Dicionário da origem das frases feitas, Dicionário obsceno da Língua Portuguesa, Trovas medievais obscenas, Aristóteles e Akhenaton nos géneros de crónica, ensaio, dicionarística e biografia.»

Publicado por Violeta Teixeira em 24/10 às 11:32 PM
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SUICÍDIO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora, inédito

«A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.»

Nietzsche , Friedrich, in “Para Além do Bem e do Mal”

Publicado por Violeta Teixeira em 24/10 às 11:12 PM
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