Terça-feira, 30 Setembro, 2008

«A MENTIRA AGRADA MAIS QUE A VERDADE»

Trabalho fotográfico de _M_ , Olhares. com

«O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções.
Como é fácil essa felicidade! Os conhecimentos mais fúteis, como a gramática por exemplo, adquirem-se à custa de grande esforço, enquanto a opinião se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho rançoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambrósia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contrário, o esturjão causa náuseas a outro, que temos nós com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a Vénus, para o marido é o mesmo do que se ela fosse bela. Se o dono de um mau quadro, besuntado de cinábrio e açafrão, o contempla e admira, convencido de que está a ver uma obra de Apeles ou de Zêuxis, não será mais feliz do que aquele que comprou por elevado preço uma obra destes pintores e que olhará para ela talvez com menos prazer?»

Erasmo de Roterdão, in “Elogio da Loucura” (fala a Loucura)

Publicado por Violeta Teixeira em 30/09 às 09:42 AM
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A ARTE

Trabalho fotográfico de Miguel Figueiredo-Olhares.com

«A arte não é um espelho que mostra a realidade ‘como ela é’. A arte mostra-nos um mundo reflectido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata.»

Kaufmann, Walter

Walter Arnold Kaufmann (Freiburg, 1 de julho de 1921 - Princeton, New Jersey, 4 de setembro de 1980) foi um filósofo, poeta e um renomado tradutor alemão. Nasceu na Alemanhã e veio para América em 1939. Traduziu as obras de do filosofo Nietzsche e deu-lhe uma interpretação mais psicológica do filósofo de Röcken.
“A idéia de que somente é belo o que é jovem e novo envenena nossas relações com o passado e com o nosso próprio futuro. A idéia de que somente é belo o que é jovem e novo nos impede de compreender as nossas raízes e as maiores obras de nossa cultura e das outras culturas. A idéia de que somente é belo o que é jovem e novo nos faz recear o que está à nossa frente e não entendemos, e leva muita gente a fugir da realidade”.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 30/09 às 09:22 AM
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Segunda-feira, 29 Setembro, 2008

PÁLIDA

Imagem ilustrativa de Georges Braque

Pálida, parte, com pedras
De raiva incontida, todos
Os vidros espelhados;
Turva, com terra negra
E lama a água dos riachos,
Regatos, rios, regos exíguos;
Levanta muralhas, derruba
Pontes, seca fontes, não abre
Alguma torneira, salvo
As dos pulsos túmidos
E azulados, mas a banheira
Torna-se um campo vasto
De papoilas rubras, com
Reflexos de searas secas,
Sem nexo, dentro das pupilas
Quase cegas, com pestanas,
Sem movimento de asas,
Molhadas de cansaço,
Rasgadas pelo vento adverso,
No cume das montanhas
De desânimos e cansaços.
O dito campo, de súbito,
Áspero, torna-se um lago
Vermelho, com espuma
E espasmos bravos. Mudos,
Os pulsos, esses, levam-nos,
O sono, para o leito longo,
Aveludado, do sossego roxo.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 29/09 às 09:39 PM
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Segunda-feira, 22 Setembro, 2008

«PSICANÁLISE E ARTE»

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/PANDORA- Olhares.com

«As criações, obras de arte, são imaginárias satisfações de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, são, no fundo, compromissos, dado que se vêem forçadas a evitar um conflito aberto com as forças de repressão. Todavia, diferem dos conteúdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que são destinadas a despertar o inteesse noutras pessoas e são capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes. À parte isto, fazem uso do prazer perceptivo da beleza formal, aquilo a que chamei um prémio-estímulo. Aquilo que a psicanálise foi capaz de fazer consistiu em captar as relações entre as impressões da vida do artista, as suas experiências causais e as suas obras e, a partir delas, reconstruir a sua constituição e os impulsos que se movem dentro dele. Não se deve julgar que o salaz que procura uma obra de arte se anule pelo conhecimento obtido pela análise. A este respeito é possível que o profano espere acaso demasiado da análise, mas deve advertir-se que ela não esclarece os dois problemas que são, provavelmente, os mais interessantes para ele: não esclarece quanto à natureza dos dotes do artista, nem pode explicar os meios de que o artista se serve para trabalhar a técnica artística.»

Sigmund Freud, in ‘O Pensamento Vivo de Freud’

Publicado por Violeta Teixeira em 22/09 às 02:12 PM
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ARTE

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

«Em arte, agradar a muitos é mau»

Schiller, Friedrich

Publicado por Violeta Teixeira em 22/09 às 02:00 PM
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SOU

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

Sou uma intérmina
Veia aberta, que rega
As areias áridas da vida
Invivida. Nunca germina
Nas dunas alguma raiz
De uma promessa ou
Cigarras que façam, ali,
Num cacho de alfarrobas,
Uma dulcíssima orquestra.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 22/09 às 12:26 AM
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Sexta-feira, 19 Setembro, 2008

TALVEZ…

Registo fotográfico de Joaquim Pedro Teixeira Dâmaso

Talvez este mesmo pudesse ser
O último verso. Talvez.
Do último poema de um parto
Sangrento, cuja placenta era uma
Papoila vermelha despetelada
Pelo vento, numa madrugada
Desmaiada nos braços de uma lua,
De uma palidez seráfica. Talvez.
Talvez, no último verso, pudesse
Permanecer uma pétala pálida,
«Tombée morte» sobre o Nada.
Talvez. Ou «une feuille fanée»,
Na mancha gráfica do último
Poema dos meus dedos de poeta,
Que se anoiteceu, na busca absurda
Do SER. Talvez. Talvez…

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 19/09 às 05:21 PM
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Quinta-feira, 18 Setembro, 2008

EN HOMENAJE A FERNANDO PESSOA

EN HOMENAJE A FERNANDO PESSOA

Sigo uno hombre vestido
De negro, sutilmente ridículo.
Cuando de él mi acerco,
El evaporase en le espacio,
Dejando uno rastro
De fumo grisáceo
Y en el solo, unas lunetas
Dentro de uno bolsillo,
Con olor de opio
Y de aguardiente,

Pienso que el evaporase
Pera non ser apañado
«em flagrante de litro»
Y pera no ser obligado
A confesar que la dosis
De opio que tiene en el bolsillo
Ha sido Álvaro de Campos
Quien ha traído,
De la suya viaje al Oriente.

Violeta Teixeira, in Antologia Internacional «PALABRAS INDISCRETAS», Madrid, 2008

Publicado por Violeta Teixeira em 18/09 às 12:09 AM
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Segunda-feira, 15 Setembro, 2008

SEM TÍTULO

Imagem ilustrativa de Georges Braque

A bordo de uma jangada de lascas frágeis,
Do tronco de um castanheiro
Corcunda,
Finjo que remo, ferida de morte,
Rente às margens
Dos afluentes lunares,
Sangrando, nas águas indóceis,
Todas as negações
Solares
Do Universo.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 15/09 às 05:50 PM
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ARTE

Imagem ilustrativa de Georges Braque

«Na arte só uma coisa importa: aquilo que não se pode explicar.»

Braque, Georges

Publicado por Violeta Teixeira em 15/09 às 05:40 PM
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«AMIZADE SEM TABUS»

Imagem ilustrativa de Francis Picabia (1879-1953), Alfred Stieglitz Collection, 1949


«Se a todos nós fosse concedido o poder, como num passe de mágica, de ler a mente uns dos outros, suponho que o primeiro efeito seria que quase todas as amizades se desfariam. O segundo efeito, entretanto, poderia ser excelente, pois um mundo sem amigos seria sentido como intolerável, e nós teríamos de aprender a gostar uns dos outros sem a necessidade de um véu de ilusão para esconder de nós mesmos que não nos consideramos uns aos outros pessoas absolutamente perfeitas. Sabemos que os nossos amigos têm as suas falhas, e que apesar disso são pessoas de um modo geral aprazíveis das quais gostamos. Consideramos intolerável, no entanto, que tenham a mesma atitude conosco. Esperamos que pensem que, ao contrário do resto da humanidade, nós não temos falhas. Quando somos compelidos a reconhecer que temos falhas, tomamos esse facto óbvio com demasiada seriedade.»

Bertrand Russell, in “A Conquista da Felicidade”

Publicado por Violeta Teixeira em 15/09 às 05:07 PM
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Quinta-feira, 11 Setembro, 2008

SEM TÍTULO

Trabalho fotográfica de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

Tão cheio de tudo! Tão cheio
De nada! Não! Não fui! Não fui
Eu quem foi o que fui! O tudo
E o nada foram. Foram, sem mim.
Vendaval sobre areais acesos?
Ciclone? Furacão? Que sei eu
Do que não sei? Ouço-as, às pétalas
E pétalas e pétalas tombando
No chão. É uma necrópole o chão.
Estarei dentro? Ou fora? Onde dou
Um passo que se não enterre?
Onde ponho os braços?
Que me faço das mãos? Quem
Me abre os olhos sobre os desvãos
Onde se demoram? E, secos,
Se demoram. Quem me vive hoje?
Quem me fui hoje? Este hoje
Cheio de tudo? Tão cheio de nada?
Quem me leva para um sono?
Um sono perfeito. Um sono sólido.
De lama seca. De terra. De pedra.

Violeta Teixeira,in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 11/09 às 03:39 PM
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LIBERDADE

«A liberdade é, antes de tudo, o direito à desigualdade.»
Berdiaev, N. A.

Nicolai Berdiaev, pensador religioso russo, nasceu em 1874 e morreu em 1948. Como alguns dos nobres de seu tempo, associou-se à causa revolucionária, no início do século, lutando contra a tirania czarista. Com a vitória da revolução soviética, Berdiaev foi nomeado professor de filo da Universidade de Moscou, mas foi exilado para Paris em 1922, diante da sua rebeldia em aceitar totalmente a doutrina marxista. Preocupou-se muito com a questão da liberdade individual. Escreveu “A Nova Idade Média”, “Solidão e Sociedade” e “Escravidão e Liberdade”, de onde foi adaptado este texto (capítulo II).
Publicado na Folha de S. Paulo,
sexta-feira, 09 de dezembro de 1977

Nicolai Berdiaev, pensador religioso russo, nasceu em 1874 e morreu em 1948. Como alguns dos nobres de seu tempo, associou-se à causa revolucionária, no início do século, lutando contra a tirania czarista. Com a vitória da revolução soviética, Berdiaev foi nomeado professor de filo da Universidade de Moscou, mas foi exilado para Paris em 1922, diante da sua rebeldia em aceitar totalmente a doutrina marxista. Preocupou-se muito com a questão da liberdade individual. Escreveu “A Nova Idade Média”, “Solidão e Sociedade” e “Escravidão e Liberdade”, de onde foi adaptado este texto (capítulo II).

Publicado por Violeta Teixeira em 11/09 às 01:32 PM
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Segunda-feira, 08 Setembro, 2008

NÃO TENHO TEMPO, PARA ESSE TEMPO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

Dir-me-ão que disponho de
Tempo para a frutificação da frase
Verde. De todo o tempo.

E, todavia, não tenho tempo para
Esse tempo. Resta-me tão-somente
A fluência fugidia de uma concha vazia,
Nas águas da rebentação do poema.

Não escrevo para dizer seja o que for,
Até porque inúmeros outros, antes de mim,
Já tudo disseram. Escrevo o que me vem,
Sem um ínfimo indício, à tona do silêncio,
Fendendo, por certo, a crosta de um vazio
Que, de todo, desconheço.

Nunca escrevi, por exemplo, a palavra
Amor, embora o erotismo alague
De sémen o leito de muitos dos meus
Poemas: a boca seja foz ou lagar;
A vulva, cratera ou orquídea
Ávida de chuva; testículos, pêssegos
Róseos; phallós, dilúvio cálido.

Semas recorrentes, descobertos
Por olhos alheios.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 08/09 às 11:41 PM
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RELAÇÕES HUMANAS

Por:Isabel Faria

«A dificuldade de estabelecer e firmar relações. Há uma técnica para isso, conheço-a. Nunca pude meter-me nela. Ser «simpático». É realmente fácil: prestabilidade, autodomínio. Mas. Ser sociável exige um esforço enorme — físico. Quem se habituou, já se não cansa. Tudo se passa à superfície do esforço. Ter «personalidade»: não descer um milímetro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a importância de nós sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E então reponto. O fim. Ser prestável, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Colóquios, conferências, organizações de. Ah, ser-se um «inútil» (um «parasita»...). Razões profundas — um complexo duplo que vem da juventude: incompreensão do irmão corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo tão pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas «gastar» faz parte da «personalidade». Saúde — mais difícil. Este ar apeuré que vem logo ao de cima. A única defesa, obviamente, é o resguardo, o isolamento, a medida.
É fácil ser «simpático», difícil é perseverar, assumir o artifício da facilidade. Conservar os amigos. «Não és capaz de dar nada», disseram-me. Oh, sou mesmo capaz de dar tudo. Do que não sou capaz é de me enfiar na técnica da «generosidade» — normalmente, aliás, avara. Dar tudo — mas de uma só vez ou de cada vez, e não fazer da generosidade governada um meio simpático e coercivo de atrair uma corte. Nos intervalos, regresso. Agora, mais do que nunca, se exige a técnica da sociabilidade. Sou irremediavelmente de um tempo passado. Ninguém dos que convivem comigo me acusam de. O que me é difícil é ser sociável por automatismo. Os sociáveis são-no com toda a gente e ninguém. Criaram esse modo de ser por fora. Como o pentearem-se e fazer a barba. E governam-no como lhes interessa. De qualquer modo o que me aflige é a facilidade do impulso, o primarismo dos máximos (para cima e para baixo), a incapacidade de controlo, de frieza exterior, a fácil emotividade, o «entrar em pânico» (Regina), a falta — que diabo, digamos tudo — de coragem. Aguentar as contrariedades. Tenho o dom de as tornar mais calamitosas. Acabou-se: é difícil aprender a viver. Ou ter oportunidade de. Um sempre instável equilíbrio. O viver por metade. Bom. Lamúria, já assentámos que não.»

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 1’

Publicado por Violeta Teixeira em 08/09 às 10:23 PM
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