Sábado, 30 Agosto, 2008

PORTUGAL

O Futuro de Portugal

O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
— O Quinto Império. O futuro de Portugal — que não calculo, mas sei — está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

Fernando Pessoa, in ‘Portugal entre Passado e Futuro’

Publicado por Violeta Teixeira em 30/08 às 04:48 PM
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NÃO! NÃO INSISTAM!

Trabalho fotográfico de rattus-Olhares.com

Não! Não insistam!
Ausentei-me. Hibernei-me.

Não insistam! Já vos disse
Que não estou! Que me não sou!

Não sei se abri as veias do
Pulso desistente, mas vejo sangue,
Gotejando nas lajes lisas e frias,
E nas vestes que não uso,
Nesta agonizante tarde de cinzas.

Só sei que o vermelho brilha,
Livre e voluptuoso,
Como se se tratasse de um rito,
Com oficiante ausente, mas
Cúmplice dos gestos lúcidos
E nulos, que me vou fazendo .

Não! Não insistam! Merde! Não estou.
Já vos disse que não estou!
Não! Não preciso de nada! De nada vosso!

Não me tragam teses
E dogmas e tábuas de Moisés! Merde!
Nada me consola, nada me nega o NADA!
Não me agridam os braços do não creio
Em nada. Em nada! Basta!

Dispenso-vos do segundo raso
E seco e cínico de silêncio,
Sobre o enfim me durmo.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 30/08 às 01:48 PM
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Domingo, 24 Agosto, 2008

A VISÃO DO UNIVERSO

Trabalho fotográfico de rattus-Olhares.com

«Existem certas pessoas - e eu sou uma delas - que pensam que a coisa mais prática e importante acerca de um homem ainda é a sua visão do universo. Pensamos que, para uma senhoria considerando se deve aceitar um pensionista, é importante saber a sua renda, porém mais importante ainda é conhecer a sua filosofia. Pensamos que, para um general prestes a combater um inimigo, é importante saber os números do inimigo, porém mais importante é conhecer a filosofia do inimigo. Pensamos que a questão não é saber se a teoria do cosmos afecta ou não as coisas, mas se, no longo prazo, qualquer outra coisa as afecta.»

Gilbert Chesterton, in ‘Hereges’

Publicado por Violeta Teixeira em 24/08 às 04:06 PM
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A ARTE

Imagem ilustrativa de Gauguin

«Há o que tem limite e o que é sem-limite. A arte é a forma perfeita da consciência destes opostos.»

Ferreira, Vergílio, in “Pensar”

Publicado por Violeta Teixeira em 24/08 às 03:53 PM
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CREPÚSCULO…

Registo fotográfico da autoria de Paula Alface-Olhares.com

O crepúsculo toma tintas
De letargia amena,
Nas vidraças,
Que dão para as lagunas
Do desassossego
De penas migrantes.

Mergulha os olhos
Nos juncais, alagados
De um desespero
Esbracejante.

Rasga-se as vestes,
De seda,
Tingidas de vermelho,
Descalça-se,
Com gestos esfarelados
De cansaço,

E apressa-se a cumprir
O pacto celebrado,
Na cerimónia solene
Do pórtico branco.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 24/08 às 02:55 PM
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Sábado, 23 Agosto, 2008

AS ARTES

«As artes não teriam história se os limites do mundo conhecido não tivessem recuado e os meios de o conhecer alargado à medida das transformações da vida, tanto na arte como no resto.»
“O Particular como Categoria Central da Estética”

Lukács, György

«Autor de numerosos ensaios e obras polémicas sobre temas filosóficos, políticos e literários, Lukács foi chamado de “o Marx da estética”, por ter elaborado uma teoria estética marxista, com base nos pontos de vista de Marx e Engels sobre arte e literatura.
György Lukács nasceu em Budapest, Hungria, em 13 de abril de 1885. Estudou nas universidades de Budapest, Berlim e Heidelberg e aos 17 anos começou a escrever crítica teatral. Sua primeira obra de repercussão foi Die Seele und die Formen (1911; A alma e as formas), de perspectiva neokantiana. Com Die Theorie des Romans (1916; A teoria do romance) evoluiu de Kant para Hegel e seu pensamento se abriu à história.
Marxista a partir de 1917, no governo de Bela Kun (1919), com quem depois rompeu, Lukács foi comissário do povo para a educação. Exilado em Viena, publicou Geschichte und Klassenbewusstsein (1923; História e consciência de classe), obra principal do marxismo heterodoxo. Com o advento do nazismo, transferiu-se para a União Soviética, mas voltou para a Hungria após a derrota de Hitler. Manteve então memorável polêmica com os existencialistas Karl Jaspers, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty. Em 1956, após a denúncia dos crimes de Stalin, retomou por um tempo a atividade política, mas com a intervenção soviética na Hungria exilou-se por cinco meses na Romênia. De volta a seu país, dedicou-se à análise das deformações sofridas pelo marxismo-leninismo na época stalinista e à elaboração de Die Eigenart des Ästhetischen (1963; A particularidade do estético).
Nos últimos anos de vida sua preocupação central foi elaborar uma ontologia do marxismo, ligada a sua disposição de esclarecer os pressupostos da teoria do conhecimento-reflexo e das deformações ideológicas. Essa preocupação marca seu reencontro com o tema da alienação, que redescobrira em 1923 e que o levou a perceber um aspecto do pensamento marxista que só seria mais bem compreendido com a publicação, em 1931, dos Manuscritos de 1844, de Karl Marx.
Defensor do realismo, inimigo do naturalismo e do romantismo, dedicou-se a escrever sobre os grandes autores clássicos, que tinha na conta de superiores, esteticamente, aos experimentalismos de vanguarda. Lukács morreu em Budapest em 4 de junho de 1971.»

Publicado por Violeta Teixeira em 23/08 às 03:46 PM
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LEITURA

Imagem ilustrativa de Miscroseakj

«Muitos autores são ao mesmo tempo os seus próprios leitores - à medida que escrevem -, e é por isso que tantos vestígios do leitor aparecem nos seus escritos - tantas observações críticas - tanto que pertence à província do leitor e não à do autor. Travessões - palavras em maiúsculas - passagens grifadas - tudo isso pertence à esfera do leitor. O leitor põe a ênfase como tem vontade - ele de facto faz de um livro o que deseja. Não é todo o leitor um filólogo? Não existe uma única leitura válida somente, no sentido usual. A leitura é uma operação livre. Ninguém me pode prescrever como e o que lerei.»

Friedrich von Novalis, in “Fragmentos”

Publicado por Violeta Teixeira em 23/08 às 03:13 PM
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NÃO TE DEBRUCES…

Trabalho fotográfico da autoria de Jou Elan-Olhares.com

Não te debruces
Para
Dentro de mim.

Invento jogos
De sangue,
Com misturas
Sórdidas de cinzas,
Máscaras que sugam
A saliva dos ossos.

Invento olhos
E bocas e sexos
Sem fluídos,
Sem sucos de pêra,
Sem babas de mangas,
Sem espumas.

Invento desejos
De veneno
E de espelhos
Rachados no rosto
Do outro.

Invento corpos
Soçobrados pelo
Quarto, como larvas
Ou vermes. Bichos
Medonhos.

Invento metamorfoses
De búzios, de raízes,
De parasitas, na garganta,
Com contornos
De nervos.

Invento serpentes
Letais nas veias vazias
Dos pulsos, e lagoas
De sangue nos
Espaços vazios
Da sanidade ambígua.

Invento a dose de ópio
Que me baste, para a violência
E para a volúpia.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Edições Magno, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 23/08 às 02:57 PM
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Quarta-feira, 20 Agosto, 2008

HOMEM/ANIMAIS

Registo fotográfico de Carlos Vicente- Olhares.com

«Há tão diversas espécies de homens como há diversas espécies de animais, e os homens são, em relação aos outros homens, o que as diferentes espécies de animais são entre si e em relação umas às outras. Quantos homens não vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cruéis, outros como leões, mantendo alguma aparência de generosidade, outros como ursos grosseiros e ávidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo ofício é enganar!
Quantos homens não se parecem com os cães! Destroem a sua espécie; caçam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atrás do dono; outros guardam-lhes a casa. Há lebréus de trela que vivem do seu mérito, que se destinam à guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas há também dogues irascíveis, cuja única qualidade é a fúria; há cães mais ou menos inúteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e há até cães de jardineiro. Há macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que têm espírito e que fazem sempre mal. Há pavões que só têm beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

Há pássaros que não se recomendam senão pela sua plumagem ou pelas suas cores. Quantos papagaios falam sem cessar, sem nunca compreender o que dizem; quantas pegas e gralhas são domesticadas para roubar; quantas aves predadoras vivem da rapina; quantas espécies de animais agradáveis e tranquilas servem apenas para alimentar outros animais!
Há gatos, sempre à espreita, maliciosos e infiéis, que deslizam com patas de veludo; há víboras de língua venenosa, sendo o resto útil; há aranhas, moscas, percevejos e pulgas, que são sempre incómodos e insuportáveis; há sapos, que nos horrorizam e que têm peçonha; há mochos, que temem a luz. Quantos animais não vivem sob a terra para se manter! Quantos cavalos, que utilizamos para tantos fins, não abandonamos quando já não servem mais; quantos bois não trabalham uma vida inteira para enriquecer aqueles que lhes impõem o jugo: as cigarras, que passam a vida a cantar; as lebres, que têm medo de tudo; coelhos, que se espantam e acalmam num instante; porcos, que vivem na crápula e na imundície; patos mansos, que atraiçoam os seus congéneres, atraindo-os a armadilhas, corvos e abutres, que vivem apenas de podridão e de cadáveres! Quantas aves migratórias não voam tantas vezes de um extremo ao outro do mundo e se expõem a tantos perigos para sobreviver! Quantas andorinhas, sempre atrás do bom tempo; quantos escaravelhos, inadvertidos e sem objectivo; quantas borboletas à procura do logo que as queima! Quantas abelhas, que respeitam o seu chefe e vivem com tanta ordem e trabalho! Quantos zangãos, vagabundos e mandriões, não procuram estabelecer-se à custa das abelhas! Quantas formigas, cuja previdência e economia provêem a todas as suas necessidades! Quantos crocodilos fingem queixar-se para melhor devorar aqueles que são sensíveis às suas queixas! E quantos animais se submetem porque ignoram a sua força!
Todas estas qualidades se encontram no homem e ele procede, em relação aos outros homens, como os animais de que acabamos de falar procedem entre si. »

La Rochefoucauld, in ‘Reflexões’

Publicado por Violeta Teixeira em 20/08 às 10:52 PM
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A ARTE

Trabalho fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora.Olhares.com

«A arte começa onde a imitação acaba»

Wilde , Oscar

Publicado por Violeta Teixeira em 20/08 às 10:37 PM
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SEDENTA DE SANGUE

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com

Sedenta de sangue
Apanho-as,
A todas as rosas rubras,
A todas
A papoilas bravas dos campos
Sem ceifa, a todas as pétalas,
Sumarentas,
De um vermelho,
Uivantemente
Vivo.

A todas,
As esmago, com acentos
De silêncio
E de feroz euforia,
E trago-as líquidas,
Para o dentro das veias,
Obsessivamente
Assassinas,
Da minha amantíssima
Poesia.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 20/08 às 10:20 PM
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Sábado, 16 Agosto, 2008

ENALTEÇO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora.Olhares.com

Enalteço os fiéis autopatas, com olhos
De um sujo esplêndido, dedos lisos,
Exactos, falas frescas, fluentes,
Evidentes, sem o mínimo recuo ou desvio;
O tédio das veias, irrigadas de fumos tóxicos,
Latejando em chagas recônditas,
Côncavas e oblíquas, isentas do dispêndio
Químico do fútil sofrimento. Enalteço o esterco
Retórico, os lexemas vazios de sentido,
As sílabas ferrugentas, os fonemas tatuados
De resíduos malignos; os espólios
Melancólicos de pergaminho ou de papiro,
Preservados em museus invisitados;
Os restos de ossos dos membros
Do pasmo néscio, e dos crânios belíssimos,
Esfacelados por coevos afáveis.
Enalteço as orgias de Calígula e dos seus
Crimes lícitos; os vandalismos gratuitos,
Perpetrados sob céus de lumes cetinosos;
As sinfonias excêntricas, tenebrosas
E satânicas dos oceanos, contra
Os rochedos da persistência; o pavor
Compulsivo do apocalipse dos neurónios
Sapientes; a luz pertinaz, vomitada
Das crateras extintas dos cérebros;
O bafo do negrume benéfico da ignorância;
O lixo filosófico, metafísico, teológico
E poético, coroado de labaredas
Magníficas, exalando aromas libertários;
Enalteço as folhas putrefactas,
Disformes, enlameadas de respirações
Poéticas e de heresias lascivas.
Enalteço a ruína das falésias,
Das ravinas da memória histórica e do
Património cartográfico das sensações;
A perdição definitiva do semblante
Rútilo da felicidade do coração humano;
Os despojos estonteantes dos fracos,
Dados à costa da vida, sem vida.
Enalteço a estranheza absurda
Da rebelião de um corpo castrado,
Ruminando raiva convulsa; as névoas
Benévolas de todas as crenças;
A claridade álacre dos nobres ascetas
E místicos da carne; as vindimas pérfidas
De sangue nos rubros campos de batalha.
Enalteço as roturas de todos os canos
Dee esgoto da cultura e das vias desviantes
Do ensino; a transgressão das regras
Da aprendizagem kúcida e aliciante
Dos fardos de palha, distribuídos aos
Discentes, atados dee arames, para deleite
De equídeos. Enalteço a morte da ética
E da moralidade, em nome da suprema
Liberdade da natural- natureza humana.

Aqui, sentada na minha cátedra da sanidade
Ignorante, enalteço, enfim, a beleza do zero babilónico,
Como único suporte heróico da humanidade.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 16/08 às 11:30 PM
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CARTA DE UM POETA A UM SENHOR

http://www.tomwhalen.com/art/art.html

CARTA DE UM POETA A UM SENHOR

Meu mui prezado senhor, com respeito à sua carta, que eu encontrei hoje à noite sobre a mesa, por meio da qual o senhor me solicita que lhe indique hora e lugar em que possa conhecer-me, devo responder que não sei exactamente o que lhe dizer. Acodem-me este e aquele pensamento, pois sou uma pessoa, o senhor precisa sabê-lo, com a qual não vale a pena travar conhecimento. Sou extraordinariamente descortês e, quanto a bons modos, tenho-os tanto quanto nada. Conceder-lhe a oportunidade de me ver significa fazê-lo conhecido de alguém que corta a aba de seu chapéu de feltro com a tesoura, de forma a emprestar-lhe uma aparência selvagem. O senhor gostaria de ter diante de seus olhos um tipo assim esquisito? A sua amável carta alegrou-me sobremaneira. O senhor, contudo, errou no endereço. Não sou aquele que merece receber esse tipo de cortesia. Peço-lhe: abandone imediatamente o desejo de me conhecer. A gentileza não combina comigo. Eu teria de retribuí-la; e exactamente isso eu gostaria de evitar, pois sei que a conduta cortês e bem-educada não me cabem. E também não gosto de ser gentil; isso me entedia. Suponho que o senhor tenha uma mulher, que sua mulher seja elegante, e que na casa dos senhores haja algo como um salão. Alguém que se utiliza de expressões tão finas e tão belas quanto as suas tem um salão. Eu, contudo, somente sou alguém na rua, no mato e no campo, na taberna e em meu próprio quarto; num salão, eu me apresentaria como um parvo. Jamais estive num salão -tenho medo de salões; e, como homem em pleno uso da razão, devo evitar o que me atemoriza.

Casa velha

Como o senhor vê, sou sincero. O senhor é provavelmente um homem de posses e se expressa com palavras opulentas. Eu, ao contrário, sou pobre e tudo o que digo soa a pobreza. Das duas uma: ou o senhor iria me aborrecer com os seus modos, ou eu iria aborrecê-lo com os meus. O senhor não faz ideia do quão sinceramente eu aprecio e prefiro a situação em que vivo. Mesmo pobre como sou, até hoje não me ocorreu de me queixar da vida; pelo contrário: valorizo a tal ponto o que está à minha volta que sempre me esforço zelosamente por protegê-lo. Moro numa casa velha e desordenada, numa espécie de ruína. Ela, no entanto, me faz feliz. A visão da gente pobre e de casas depauperadas torna-me feliz. Fico a pensar em quão poucos motivos o senhor tem para compreender isto. Preciso ter à minha volta um determinado peso e uma certa quantidade de abandono, degradação e desunião. Caso contrário, a respiração se me torna penosa.

Sou o que sou

A vida seria uma tortura se eu tivesse de ser fino, esmerado e elegante. A elegância é minha inimiga, e eu prefiro passar três dias sem nada comer a me enredar na temerária operação de fazer uma vénia. Prezado senhor, desse modo fala não o orgulho, mas uma pronunciada sensibilidade para a harmonia e a comodidade. Por que eu deveria ser o que não sou e não ser o que sou? Isso seria estúpido. Quando sou o que sou, estou contente comigo mesmo; e então tudo reverbera, tudo está bem à minha volta. Veja o senhor, tudo se passa assim: um casaco novo é o bastante para tornar-me descontente e infeliz; compreenda, portanto, que eu odeio tudo aquilo que é belo, novo e refinado, e aprecio tudo o que é velho, surrado e gasto. Não gosto de parasitas em particular; não gostaria de comer os bichos assim de repente, mas eles não me perturbam. Na casa em que moro, há uma porção de parasitas, e no entanto eu gosto de morar aqui. A casa tem o aspecto de uma casa de ladrões. Quando tudo no mundo for novo e estiver em ordem, então eu não vou querer viver, eu vou me matar. Tenho um receio semelhante quando tenho de pensar que preciso conhecer um homem distinto e instruído. Ao temer que eu vá apenas perturbá-lo e não venha a representar-lhe nenhuma utilidade nem entretenimento, um outro temor se aviva, qual seja (para falar aberta e francamente), o de que o senhor venha a me perturbar e não possa ser simpático e agradável comigo. Há uma alma na condição de cada pessoa; o senhor deve sabê-lo imediatamente, e eu devo imediatamente informá-lo: prezo muito o que eu sou, tão insuficiente e pobre quanto eu possa ser. Tomo toda inveja por estupidez. A inveja é uma espécie de loucura. Respeite cada um a situação em que se encontra: assim cada um estará servido. Temo ainda a influência que o senhor poderia exercer sobre mim, ou seja, receio o supérfluo trabalho interior que haveria de ser realizado para defender-me de sua influência.

Sobre mim paira o céu
Por isso, não corro atrás de novas relações pessoais, não posso correr atrás delas. Conhecer uma nova pessoa: isso demanda no mínimo um quê de trabalho, e eu acabo de me permitir dizer-lhe que eu aprecio o conforto. O que o senhor há de pensar de mim? E no entanto a questão me é indiferente. Eu quero que isso me seja indiferente. Não desejo tampouco pedir-lhe desculpas por estas palavras. Isso seria retórico. Sempre se é indelicado quando se diz a verdade. Amo as estrelas, e a Lua é minha amiga secreta. Sobre mim paira o céu. Tanto tempo quanto eu viva, não desaprenderei jamais de olhar para ele. Encontro-me na Terra: este é o meu ponto de vista. As horas troçam de mim e eu troço delas. Não posso imaginar um colóquio mais aprazível. O dia e a noite são a minha companhia. Privo da confiança do entardecer e do amanhecer. E com isso saúda-o cordialmente o pobre jovem poeta.


Robert Walser (suíço de expressão alemã)
Tradução de Tércio Redondo

Robert Walser (Biel, 15 de Abril de 1878 – Herisau, 25 de Dezembro de 1956) foi um escritor suíço de língua alemã. Escreveu nove romances, dos quais restam quatro, além de mais de mil contos.
Bibliografia em português
• Gata Borralheira; Branca de Neve; A Bela Adormecida. Lisboa: & etc, 2000.
• O passeio e outras histórias. Porto: Granito, 2001.
• O salteador. Lisboa: Relógio d’Água, 2003.
• A rosa. Lisboa: Relógio d’Água, 2004.
• Jakob van Gunten: um diário. Lisboa: Relógio d´Água, 2005.
• O ajudante. Lisboa: Relógio d´Água, 2006.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 16/08 às 10:07 PM
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DIA DO SEU NASCIMENTO

Fim

Somos como rosas que nunca se deram ao trabalho de
desabrochar quando deviam ter desabrochado e
é como se
o sol estivesse farto de
esperar.
Charles Bukovski
(versão de Manuel A.  Domingos)

Charles Bukowski
Henry Charles Bukowski (16 de Agosto de 1920, Andernach – ± 9 de Março de 1994, Los Angeles) foi um poeta, contista e romancista americano. Sua obra obscena e estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinaram gerações de jovens à procura de uma obra com a qual pudessem se identificar. Biografia
Nascido na Alemanha, filho de um soldado americano, se mudou ainda criança para os EUA com seus pais. Foram primeiro para Baltimore em 1923, mas depois disso se mudaram para o subúrbio de Los Angeles. Foi uma criança atormentada por um pai extremamente autoritário e frustrado, que descontava os seus problemas o espancando pelos motivos mais fúteis. Quando atingiu a adolescência, somou-se a este problema o fato de ter o rosto e toda a parte superior do corpo literalmente tomada por inflamações que o obrigaram a submeter-se a tratamentos médicos no hospital público de sua cidade. Na escola, a situação também não é das melhores, tendo poucos amigos e sendo sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol.
A falta de carinho familiar e a humilhação de ter um rosto deformado obrigam-no a fugir. Abandonou a escola para só voltar um ano depois. Neste meio tempo descobriu duas coisas que o ajudaram a tornar a sua vida suportável: o álcool e os livros. Teve problemas com alcoolismo e trabalhou em empregos temporários em várias cidades americanas, como carteiro, frentista e motorista de caminhão apesar de ter estudado jornalismo sem nunca se formar. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos mas seu primeiro livro somente foi publicado 20 anos depois em 1955. Em 1962 estreou na prosa caracterizada pela descrição de sua vida pessoal. Escreveu, entre outros livros, “Mulheres”, “Hollywood” e “Cartas na Rua”.
Iniciou assim uma vida errante, bebendo em excesso e escrevendo alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de trabalho eram enviados para as mais diversas publicações literárias independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. A editora da revista Harlequin, Barbara Frye, no entanto, estava convencida de que Bukowski era um gênio. Começaram a se corresponder e, em determinado momento, Frye declarou que nenhum homem nunca se casaria com ela. Bukowski respondeu simplesmente: “Eu me casarei”. Casaram-se logo depois de se conhecerem pessoalmente. Mas tão rápido quanto se conheceram, separaram-se.
Até este momento, Charles Bukowski era apenas um poeta iniciante - apesar de ter quase quarenta anos. Mas foi a partir de sua separação que começou a surgir a imagem de Bukowski que o tornaria famoso, seu alter ego Henry Chinaski. Jim Christy, autor do livro The Buk Book, disse em uma vez que “ele havia sido um vagabundo, um imprestável, um proletário, um bêbado; bem, que fosse. Claro, outros trabalharam o mesmo território, mas o que diferenciava Bukowski do resto deles - os Knut Hamsuns, Jack Londons, Maxim Gorkys e Jim Tullys - era que Bukowski era engraçado.” Trabalhando esta imagem, Bukowski conseguiu criar um mito ao seu redor.
Tendo Ernest Hemingway e Fiódor Dostoiévski como principais influências. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transforma-las em arte é a mágica de Bukowski.
Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles Bukowski, alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua obra. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do “Velho Safado”, como ficou conhecido no mundo inteiro. E Howard Sounes é prova disso. O jornalista inglês assina “Charles Bukowski - Vida e loucuras de um Velho Safado” (Ed. Conrad); biografia considerada uma das mais completas e sérias do gênero.
Funcionário dos Correios até os 49 anos, Bukowski sonhou a vida inteira em ser reconhecido pelo seu trabalho como escritor. Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos mais rotineiros e transformava o cotidiano em obra de arte. Inconformado e, sempre, com uma garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma. Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens “nada fictícios” ficavam sabendo das peripécias do poeta bêbado após a publicação dos textos.
Sua obra surtiu tanto efeito que alguns de seus contos e romances acabaram sendo adaptados para o cinema por alguns diretores. Inclusive, o próprio Bukowski recebeu diversos convites para escrever argumentos, apesar de assumir que nunca gostou muito de filmes.
Bukowski tem sido erroneamente identificado com a Geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra nunca mostraram essa inclinação. A cidade de Los Angeles, suas ruas e atmosfera, foram sua principal influência, tratando de histórias com temas simples, misturando por exemplo corridas de cavalo, prostitutas e música clássica. Ele escreveu mais de 50 livros, sem contar milhares de publicações baratas.
Uma de suas principais atividades durante anos foi a leitura de suas poesias em universidades e eventos culturais. Sua leitura debochada às vezes provocava escândalos e brigas com a platéia, algumas delas registradas em áudio. Já nos anos 1980, Bukowski desfrutou de certa fama, convivendo com artistas e tornando-se uma celebridade. Ele morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de Março de 1994, e em seu túmulo se lê “Don’t Try”, “Nem Tente” em português.
Com o tempo, apareceram alguns herdeiros seus na literatura, principalmente na questão do estilo violento e despudorado de sua linguagem, e que acabou inclusive tendo desdobramentos no cinema. Mas poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sargeta, fazendo dela, sua fonte de inspiração. Bukowski fez de todo aquele inferno imundo e fedido, o seu paraíso.
Está presente em albuns, músicas, letras, entre outros de muitas bandas, entre as quais: Anthrax, Apollo 440, Leftover Crack, Bad Radio (uma das bandas de começo de carreira de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam), Red Hot Chili Peppers, entre muitas outras. O vocalista Ville Valo da banda Finlandesa HIM, tem uma imagem de Bukowski tatuada no seu braço.
Livros publicados no Brasil
• Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea. Porto Alegre: L&PM, 2008.
• O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.
• Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006.
• Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
• Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
• Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
• Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
• O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
• A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
• Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995.
• Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
• N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
• Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
• Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990.
• Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
• Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985.
• Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
• Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984.
• Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.
• Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984.
• Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 16/08 às 10:55 AM
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Sexta-feira, 15 Agosto, 2008

AMIGO


Registo fotográfico de Paulo Loriente-Ollhares.com

«Porque não me fio nele, somos amigos.»


Bertolt Brecht
Alemanha
[1898-1956]
Escritor/Dramaturgo

Publicado por Violeta Teixeira em 15/08 às 03:29 PM
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