Segunda-feira, 30 Junho, 2008

SUBITAMENTE…

Registo fotográfico de Daniel-Olhares.com

Subitamente, começa a aquecer
Por dentro. Febre? Delírio?
Espessa camada de sangue
Cobre-lhe as mãos, e, no átrio,
Há gotas coaguladas. Dispersas.
Algumas ainda estremecem,
Como asas feridas.

Tensa e triste, a noite aprisiona-a
Nas suas tramas. A Terra arrefece.
Talvez as feridas sarem…Talvez…
Mas a tecedeira olha, vazia, alheia,
Para a peça tecida, e sente-se engolida
Por um silêncio frio, seco. Dir-se-ia
Que, de todo, resignado.

O tear retira-se de cena. Presença
Incómoda. Esgarça-se a peça
Inconcluída. É a hora! Mude-se de cenário!
Sem lágrimas. Sem luto. Sem demora.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 01:33 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

ABSURDO

Imagem ilustrativa de Palmen TemelKov

«Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.»

Friedrich Nietzsche, in ‘A Vontade de Poder’

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 01:26 AM
Categoria • Reflexões • (0) Comentários

A ARTE

«A arte não é uma tentativa de reconciliar a existência com a sua própria visão; não passa de uma tentativa de criar o seu próprio universo neste mundo.»

Mansfield, Katherine, in “Diário”

Katherine Mansfield, pseudônimo de Kathleen Mansfield Beauchamp (Wellington, Nova Zelândia; 14 de outubro de 1888 - Fontainebleau, França, 9 de janeiro de 1923) foi uma escritora neozelandesa.
Katherine Mansfield, nascida na Nova Zelândia, filha de pais ingleses e que abandonou o clima agradável, a vida abastada na bela ilha para entregar-se com paixão a seu intuito de tornar-se escritora, seguiu para Londres aos 20 anos com a ajuda paterna de 100 libras anuais. Contribuiu para jornais e revistas e iniciou uma vida social intensa. Em 1909 casou-se com um professor de canto para se separar dele após a noite de núpcias. O divórcio ocorre em 1918 quando se casa com J. M. Murry, jovem editor e ensaísta.
Poucas foram as traduções de sua obra no Brasil. A partir de 1992, a editora Revan começou a traduzi-las. Hoje, temos em português os principais dos 88 contos de Mansfield, incluindo Prelude (Prelúdio), At the bay (Na praia ) e The doll’s house (A casa de bonecas). Estes três contos fazem parte de uma novela inacabada. Demonstram a transição da obra de Katherine Mansfield para o romance. Os personagens, baseados na sua vida na terra natal, pedem mais que uma novela. Várias são as tramas e a saída só poderia ser encontrada na estrutura de um belo romance cuja semelhança poderíamos enxergar na obra de Virginia Woolf, no livro To the lighthouse (Passeio ao farol). O inverso também poderia ser dito, To the lighthouse possui a atmosfera de alguns contos de Mansfield. Elementos da natureza, a vida íntima de um casal e suas crianças são influências recíprocas entre autoras que tiveram contato intenso. No entanto, Katherine Mansfield nunca escreveu um romance.
Todos sabem da grandeza da obra de Virginia Woolf e esta reconhecia o talento de Mansfield, uma das mais promissoras escritoras daquela época e admirada pelo Clube 17, que foi uma espécie de sucessor ao Bloomsbury. Assim, ao lado de Virginia Woolf, T.S. Eliot, Ezra Pound, James Joyce e Marcel Proust é que era lida e comentada.
Desde 1915, os Woolf planejavam ter sua própria impressora. Alimentado o sonho, compraram em 1917 a máquina e a instalaram em Hogarth House. Seria a Hogarth Press. Através dela, publicaram seus próprios contos e, em seguida, Prelude, de Katherine Mansfield. Mais tarde, receberam a incumbência de editar Ulysses, de Joyce. Não puderam aceitar, pois a pequena Hoghart Press não possuía condições técnicas. Secretamente, Virginia só não se negou de pronto a publicar a grande obra de Joyce porque não saberia o que dizer. Reconhecia o talento do escritor, mas achava que sua obra era infame. Leve-se em conta a sensibilidade da romancista e uma identidade com Joyce que Quentin Bell define da seguinte forma: “Parecia-lhe ter uma espécie de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e alguém rabiscasse com ela a palavra foda no assento do vaso sanitário. Também sentia que Joyce escrevia para um pequeno grupo…”, e por aí vai.
Víctor ChabSe mergulhamos assim em Virginia é para mostrar que tipo de relação a autora de Orlando poderia manter com os seus pares. Com respeito a Mansfield, foram alimentados sempre os sentimentos de animosidade e admiração. Ao que parece, cotejando fragmentos dos diários das duas autoras, Woolf preocupou-se com e admirou Mansfield mais do que esta última o fez em relação a V.W.. Mansfield, à época em que se relacionaram, estava gravemente doente (aproximadamente, a partir de 1917). Woolf, como dizem em psiquiatria, estava compensada. Ou seja, as crises de loucura haviam se abrandado. Mansfield, por sua vez, preocupava-se com um jeito de curar-se da tuberculose e com a falta de Murry, que não foi um exemplo de marido. Ela só se queixou disso a ele quando lhe fez um poema onde desposava a Morte, pois esta não lhe abandonava nunca.
Murry foi incapaz de deixar seus compromissos como editor e acompanhar a esposa nas idas aos lugares mais salutares para seu estado. Analisando as cartas, pode-se supor que não se tratava de uma má pessoa, mas que talvez não agüentasse o sofrimento e nem tivesse grandeza suficiente para ser solidário. Assim, na maior parte do desenvolvimento da doença, Mansfield só não esteve totalmente sozinha porque sua amiga Ida Baker a acompanhou.
Alguns de seus contos são quase transcrições literais do diário que manteve. Um exemplo disso é o encontro com Francis Carco - com quem estava tendo uma aventura amorosa - em pleno front de guerra que está narrado em: An indiscret journey (Uma Viagem imprudente). Seu talento conseguia transformar realidade em ficção a ponto de tirar todo o realismo das cenas e dar um caráter de sonho ao que se passou. Este talento espargia-se tanto nos contos como nos diários e cartas. Também sua condição de inválida e a relação com o marido estão presentes no conto A man without a temperament (Um homem indiferente).
Víctor ChabPara não se entregar ao desespero, foi a Paris submeter-se a um tratamento à base de bombardeamento de raios X no baço com o Dr. Manoukhin. Não viu resultados. Como única alternativa para manter um fio de esperança, entregou-se ao guru Georgei Ivanovitch Gurdijeff. Internando-se em seu instituto (1922), a uma hora de Paris, seguiu sua filosofia como uma religiosa carmelita. Dedicou-se a estudar russo, além de ralar as mãos descascando legumes, sofrer com o frio estúpido e com as regras absurdas do lugar. Murry se separou de Mansfield nesse período, pois achou insano o seu gesto. Lá, apesar das humilhações, relatadas em Os Anos Loucos: Paris na década de 20 (William Wiser, José Olympio Editora, 3.ª edição,1995), que precisava sofrer para desprezar o corpo e elevar a alma, aparentava melhoras. Talvez isso se deva ao fato de que a solidão lhe foi abrandada pelo guru e seus amigos. Em 9 de janeiro de 1923, Murry a visita a pedido dela. Fica feliz em vê-la e reatam. Katherine Mansfield morre, neste mesmo dia, aos 34 anos.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 12:27 AM
Categoria • Citações • (0) Comentários

Domingo, 29 Junho, 2008

«A CONSTRUÇÃO DA PERSONALIDADE CRIADORA»

Obra escultórica de Constantin Brancuse

«A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio. Excessiva comunicação, debates exagerados de assuntos que requerem meditação e peso moral, avesso muitas vezes à cordialidade natural das afinidades electivas, não enriquecem o património de uma sociedade. Antes embotam e alteram o terreno imparcial da sabedoria.
A solidão favorece a intensidade do pensamento; por outro lado, torna de certo modo celerado o homem que lida com a força material, com a técnica, com os outros homens. O impulso é a força que actualiza estas duas atitudes. Os ricos de impulso que se prontificam a uma reacção agressiva ou escandalosa, esses são associais especialmente difíceis. Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio.
«A felicidade máxima do filho da terra há-de ser a personalidade» - disse Goethe. Personalidade criadora, obtida à custa do ajustamento das nossas próprias leis interiores, que não serão mais, no futuro, forças repelidas ou encobertas, mas sim valiosas contribuições para o tempo do homem. Quando tudo for analisado e conhecido, só o justo há-de prevalecer. »

Agustina Bessa-Luís, in ‘Alegria do Mundo’

Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 12:56 AM
Categoria • Reflexões • (0) Comentários

ARTE

Imagem ilustrativa de Salvador Dali

«Toda a arte começa na insatisfação física (ou na tortura) da solidão e da parcialidade.»

Pound, Ezra, in “I Essay”

Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 12:50 AM
Categoria • Citações • (0) Comentários

SIM! CONHEÇO-AS

Registo fotográfico da autoria de Vítor Silva-Olhares.com

Sim! Conheço-as.
Vi-as. Às definitivas trevas,
Cálidas e serenas.

Madrugadas de um branco
Primevo, asas alvas de um
Veleiro, ancoradas num cais
De pedra, à espera de nada.

Sim. Conheço-as,
Às definitivas trevas.
Primeiro berço,
Com almofadas brancas.

E véus de uma brancura
Imaculada, sobre
Um sossego de cinzas,
E pétalas de luas d’águas.

Segundos? Minutos?
Mas de que tempo me falo?
Quanto me estou fora do tempo!
Quanto me estou fora do ser,
Ainda que regresse, sem
Saber o como, nem o porquê?

Desejo frustrado? Sim.
Até quando, porém, me falho
O me não me ser?

Não o sei. Sei, tão-somente,
De facto, que de tudo me esqueço,
Salvo do branco-branco árctico,
Puríssimo, é certo, mas sem fio,
Atado a nada de sagrado ou de divino.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 12:33 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sábado, 28 Junho, 2008

PALAVRAS

«As palavras são parte da imaginação, isto é, tal como fingimos muitos conceitos na medida em que, vagamente, por alguma disposição do corpo, são compostos na memória, não se deve duvidar de que também as palavras, como a imaginação, podem ser a causa de muitos e grandes erros, se com elas não tivermos muita precaução. Acrescente-se que são formadas de acordo com o arbítrio e a compreensão do vulgo, de modo que não são senão sinais das coisas como se acham na imaginação, mas não como estão no intelecto.
O que claramente se vê pelo facto de que a todas as coisas que estão só no intelecto e não na imaginação puseram muitas vezes nomes negativos, como sejam, incorpóreo, infinito, etc., e também muitas coisas que são realmente afirmativas exprimem negativamente, e vice-versa, como são incriado, independente, infinito, imortal, etc., porque, sem dúvida, muito mais facilmente imaginamos o contrário disso, motivo pelo qual ocorreram antes aos primeiros homens e usaram nomes positivos. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das palavras leva a afirmá-lo ou negá-lo, mas não a natureza das coisas; por isso, ignorando-a, facilmente tomaríamos algo falso por verdadeiro.»

Baruch Espinoza, in ‘Tratado da Correcção do Intelecto’

Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 01:44 AM
Categoria • Reflexões • (0) Comentários

A ARTE

Trabalho fotográfico de Rosário soares-Olhares.com

«A arte dos loucos pode tocar-nos; enriquece-nos porque encontramos em nós essas estranhezas.»

Jouve, Pierre, in «Comentários»

Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 01:30 AM
Categoria • Citações • (0) Comentários

O TEJO, ÀQUELA HORA…

olhares.aeiou.pt/rio_tejo/foto1490792.html

O Tejo, àquela hora
Vespertina, era um telhado de zinco,
Salpicado de bagas de ouro.

O pintor deixa a vista
Da vidraça, e aproxima-se
De uma tela, virgem,
Na véspera. Tomba pelas
Escadas abaixo da demência.

Quem, na sua ausência,
Havia pintado
Aquela gaivota?

Das asas, penduradas
Num cabide, na base
De uma duna erosada,
Pingam gotas de mazoute.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 12:48 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Sexta-feira, 27 Junho, 2008

A ARTE

«A arte é o mel da alma amassado nas asas da infelicidade e do trabalho»

Dreiser, Theodore, in “A Vida, a Arte e a América”

«Theodore Herman Albert Dreiser ( Terre Haute, Indiana, 27 de agosto, de 1871 – 28 de dezembro de 1945) foi um escritor americano. Sucedeu Frank Norris como o escritor mais representativo do naturalismo nos Estados Unidos.
Seu pai era um imigrante alemão católico, enquanto a mãe pertencia a uma comunidade menonita de agricultores estabelecidos em Dayton, Ohio, tendo sido repudiada após seu casamento e conversão ao catolicismo. Theodore era o 12º. de 13 filhos - o nono de dez sobreviventes.
De 1889–1890, Theodore freqüentou a Universidade de Indiana, antes de ser reprovado. Por vários anos, escreveu para o jornal Chicago Globe and depois para o St. Louis Globe-Democrat.

O seu primeiro romance, Sister Carrie (1900), conta a história de uma mulher que troca a vida do campo por uma vida fútil na cidade de (Chicago, Illinois). O segundo romance, Jennie Gerhardt, foi publicado no ano seguinte. Grande parte da obra subseqüente de Dreiser trata de injustiças sociais.
Seu primeiro sucesso comercial, Uma Tragédia Americana (1925), é a história de um jovem de caráter instável surpreendido por acontecimentos que o levam à execução por assassinato. O romance deu origem a um filme em 1931 e novamente em 1951.
Dreiser não é tão apreciado por seu estilo mas sobretudo pelo realismo de seu trabalho, pela construção dos personagens e por seus pontos de vista sobre o estilo de vida americano. Teve grande influência sobre a geração de escritores americanos que se seguiu à sua.
Politicamente , Dreiser envolveu-se com várias campanhas contraq a injustiça social, incluindo o linchamento do sindicalista Frank Little, um dos líderes da Industrial Workers of the World, o caso Sacco and Vanzetti, a deportação de Emma Goldman e a condenação do líder sindical Thomas Mooney.
Em 1935 a associação das bibliotecas de Warsaw, Indiana ordenou a queima de todos os trabalhos de Dreiser existentes nos acervos.
Dreiser, um militante socialista ou antes, comunista, escreveu vários livros de não-ficção sobre quetões políticas, dentre os quais Dreiser Looks at Russia (1928), sobre sua viagem à União Soviética, em 1927, Tragic America (1931) e America is Worth Saving (1941). Elogiou a União Soviética sob Stalin durante o Grande Terror e a alinça com Hitler.
Filiou-se ao Partido Comunista Americano em agosto de 1945. Em dezembro, faleceu em Hollywood, de ataque cardíaco, aos 74 anos.»

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 04:18 PM
Categoria • Citações • (0) Comentários

PROGRESSO

static.flickr.com/24/99262944_dc46f6f8a5_o.jpg

«Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre, mas enfim mais livres, algumas consciências se erguerão dos destroços e pacientemente, com todas as modificações que houver a fazer, converterão o bárbaro ao antigo e sempre eterno ideal de «vida conversável»; nos outros, a não sobrevir uma revolução causada pelo tédio ou pelo próprio desabar da outra metade do mundo, o trabalho será mais difícil porque se terá de arrancar os homens, no seu conjunto, à ideia de que o que vale é a segurança material, o conforto técnico e, se for possível, nenhum rumor de pensamento dialogado.
Esta não já invasão mas explosão de bárbaros terminará a nossa Idade Média, aquela que veio ininterruptamente, só superficialmente mudando de aspecto, desde o século III ou IV até nossos dias, e que se caracterizará talvez pelo esforço de fazer regressar o homem de uma vida social a uma vida natural.»

Agostinho da Silva, in ‘Textos e Ensaios Filosóficos’

________________________________________

Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 04:07 PM
Categoria • Reflexões • (0) Comentários

CANTO O DESENCANTO

Obra pictórica da autoria de Van Dongen

Remonto, num inopinado
Frémito de pulsos, que sangram,
Ao poço fundo do pretérito perfeito

Perfeito? Ou, antes, perverso?

Pássaros noctívagos,
Num alvoroço enlouquecido
De asas, dento dos meus olhos
Áridos, depositam insectos,
Conchas bivalves devolutas,
Areias sujas, calhaus
Tresmalhados, despojos
De presas, mutiladas de desprezo,
Braços de cactos decepados,
Algas e limos e musgos,
Asfixiados de crudes, de dejectos,
De detritos e de resíduos tóxicos.

A custo, me seguro à garupa
Do agora,sem sela, sem estribos,
Sem cabeçada, sem freio, mas,
Num rasgo rápido, realizo o trágico,
Conhecido, embora, de que só o pretérito
Existe, se bem que todo o instante
Instaure o fluir do tempo, como o silêncio
Transgride e funda o discurso,
Que, não tarda, concluo.

Porque, como o sei, não acho modo
De montar o cavalo descarnado
Do futuro, que não havendo, há.
Há, para quem, feliz, apesar de tudo,
Semeia campos, para ceifar no devir,
Com azevém, trevo e luzerna de luar.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 01:12 PM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Quinta-feira, 26 Junho, 2008

«A NOSSA CRISE MENTAL»

«Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos — político, moral e intelectual?
A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico. Todo o povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente. A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita — como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova — o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima).
Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si-próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.
As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 — fim da Renascença em nós e de nós na Renascença — deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.
Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.»

Fernando Pessoa, in ‘Portugal entre Passado e Futuro’

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 12:22 AM
Categoria • Reflexões • (0) Comentários

A ARTE

«A arte não é outra coisa senão a força de sugestão de um detalhe.»

Alvaro, Corrado

Corrado Alvaro (1895 - 1956) foi um escritor italiano. Observador da realidade psicológica e social, produziu obras de denúcia política. Suas obras foram: homem é forte (1938) e Quase uma vida (1950).
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 12:17 AM
Categoria • Citações • (0) Comentários

E, DOCEMENTE, SE ADORMECEU

olugarqueimporta.blogspot.com/2008/05/formao-…

Hoje, de manhã, muito cedo,
Acendeu lenha na lareira,
Fez digressões de fogo,
Sem faúlhas de estrelas,
Sem lágrimas de luas.

Vestiu uma saia , franzida
De frieza. Retirou algo da mala,
Quase vazia, e desceu os degraus
Chuviscados do pequeno alpendre.

Caminhou, sem pressa, entre filas
De tílias lacrimejantes. Despediu-se
Das suas rosa-de-toucar
E, docemente, se adormeceu.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 12:02 AM
Categoria • Poesia • (0) Comentários

Página 1 de 6 páginas  1 2 3 >  Último »