Sábado, 17 Maio, 2008
A GLÓRIA
Registo fotográfico de NARIAH-Olhares.com
«Nem todos os homens nasceram para os grandes talentos; e não creio que se possa olhar isso como uma desgraça, pois que é necessário conservar todas as condições, e as artes mais necessárias não são as mais engenhosas, nem as mais prestigiadas. Mas o que importa, creio, é que reina em todos esses estados uma glória adequada ao mérito que eles solicitam. É o amor dessa glória que os aperfeiçoa, que torna os homens de todas as condições mais virtuosos, e que faz florescer os impérios, como a experiência de todos os seculos o demonstra.
Essa glória, inferior à dos talentos mais elevados, não é menos justamente fundamentada; porque aquilo que é bom em si mesmo não pode ser anulado por aquilo que é melhor; o que é estimável pode perder a nossa estima, mas não pode sofrer decesso no seu ser; isso é visível.
Se existe então algum erro a esse respeito entre os homens, é quando procuram uma glória superior aos seus talentos, uma glória, por conseguinte, que engana os seus desejos e os faz negligenciar aquilo que realmente lhes cabe por natureza; que mantém, no entanto, o seu espírito acima da sua condição e os salva talvez de numerosas fraquezas.»
Luc de Clapiers Vauvenargues, in ‘Das Leis do Espírito’
Publicado por Violeta Teixeira em 17/05 às 12:38 AM
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SUICÍDIO
Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora.Olhares.com; violetateixeirapandora-fotogenico.net
«Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou de si próprio: as pessoas matam-se sempre para existir.»
Malraux , André
Publicado por Violeta Teixeira em 17/05 às 12:23 AM
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Sexta-feira, 16 Maio, 2008
CANTO A EMBRIAGUEZ LÚCIDA
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Canto a embriaguez de todos os meus sentidos,
Com a extrema lucidez de quem deu por findo
O sentido de levantar voo do solo da aridez
Do desafecto. De quem se não permite o ser
Uma peça de xadrez, num tabuleiro, falsamente,
Verde. Canto a embriaguez dos gestos cínicos
Dos que jogam, eximiamente, e se julgam sempre
Vencedores, iludidos por lances, como se fossem
Homólogos da malvadez dos polvos, convictos
De que todas as águas são turvas, e cegos os olhos
Luzentes de outros, que, lucidamente, se apagam,
Vendo o jogo, com límpida nitidez. Canto o descalabro
Dos recantos obscuros da mente dos fracassados
Ignaros. Canto! Canto, porque não me sento à mesa
Da mesquinhez do jogo de xadrez. Canto, porque me
Sinto ilesa, imune, lúcida, pura e perversa, mas todos
Estes semas, têm, aqui, no poema, como na vida,
Nuances semânticas que vêm da vivência dos que
Navegam na transparência da seda genuína dos bichos
Que a fabricam, sem fios falsos. Canto-me, lúcida.
Canto-me, nesta hora suprema, da despedida do
Palco do teatro, onde sempre fui única e íntegra.
Não se levantem da mesa de xadrez! Façam o vosso
Jogo! Eu nunca me sentei nessa mesa! Dispenso, por isso,
O avesso das vossas vestes de hipócritas. Sou lúcida!
Violeta Teixeira, inédito- 16.05-2008
Publicado por Violeta Teixeira em 16/05 às 10:52 PM
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DÚVIDA
Imagem ilustrativa de Angel Gard
O fraco fica em dúvida antes de tomar uma decisão; o forte, depois
Kraus, Karl, in “Pro Domo et Mundo”
Publicado por Violeta Teixeira em 16/05 às 12:24 AM
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A DÚVIDA
Imagem ilustrativa de Georgian Oaks
«A dúvida é uma homenagem prestada à esperança.»
Lautréamont, Isidore
Publicado por Violeta Teixeira em 16/05 às 12:06 AM
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Quinta-feira, 15 Maio, 2008
EM RITMOS DE VIOLINO
Imagem ilustrativa de Amadeo de Souza Cardoso
Todas as nascentes
Se silenciam,
Mal as nossas
Águas se conjugam
Em ritmos de violino.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 15/05 às 11:54 PM
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OS GOSTOS
Registo fotográfico de Rodrigo Bela Vista-Olhares.com
«A palavra «gosto» tem vários significados e é fácil o engano. Há uma diferença entre aquele gosto que nos leva a escolher coisas e aquele que nos leva a conhecer e discernir as qualidades quando se segue as regras. Podemos gostar de comédias sem ter um gosto tão apurado e delicado que nos permita ajuizar do seu valor, como podemos ter o bom gosto para emitir juízos sobre as comédias, sem gostar desse género dramático. Existe um tipo de gosto que nos aproxima imperceptivelmente do que temos à nossa frente, há outros que nos prendem pela sua força e duração.
Também há pessoas que têm mau gosto em tudo, outras só nalgumas coisas, mas ambos os casos têm esse direito, no que toca ao alcance que cada um tem. Outros ainda têm gostos particulares, que sabem que são maus, sem deixarem de segui-los. Há aqueles que têm gostos imprecisos e estes deixam que o acaso decida por eles. Mudam com ligeireza e ficam contentes ou maçam-se com o que os seus amigos dizem. Outros são sempre previstos, sendo escravos de todos os seus gostos, respeitando-os em todas as matérias. Há quem seja sensível ao bem e que se choque com o que é mau. Os pontos de vista destas pessoas são claros e justos e encontram a razão de ser dos seus gostos no seu espírito e no seu discernimento.
Há também aqueles que, por uma espécie de instinto, cuja causa lhes é desconhecida, decidem sobre quem lhes aparece e tomam sempre o bom partido. Estes terão mais gosto do que encanto, porque o seu amor-próprio e temperamento não prevalecem sobre as suas qualidades inatas. Nestas pessoas tudo está em sintonia, o que as faz julgar ponderadamente sobre os assuntos, formando nelas ideias firmes. Porém, se falarmos de um modo geral, há poucas pessoas com um gosto firme e independente do gosto dos outros, seguindo o exemplo e os hábitos da moda, copiando quase tudo o que diz respeito ao gosto.
Em todas estas diferenças de gosto que relatámos, é raríssimo, quase impossível, encontrar aquele bom gosto que sabe avaliar o preço de cada coisa, que conhece todo o seu valor e que aprecia todo o género. Os nossos conhecimentos são demasiado limitados e o equilíbrio das qualidades que são necessárias para bem ajuizar das coisas não ultrapassa normalmente o que não nos diz directamente respeito. Quando se trata de nós, o nosso gosto não tem esse equilíbrio tão necessário, porque as nossas preocupações intervêm. Tudo o que nos diz respeito aparece-nos de outra forma. Ninguém é capaz de ver com os mesmos olhos aquilo que o toca e aquilo que não lhe diz respeito. No primeiro caso, o nosso gosto é guiado então pelo peso do amor-próprio e do temperamento, os quais nos fornecem novos pontos de vista e sujeitam-nos a um número quase infinito de mudanças e de incertezas. Então, nesse caso, o nosso gosto já não nos pertence, não temos poder sobre ele, muda sem que queiramos e os mesmos objectos aparecem-nos de tantas formas diferentes que chegamos a desconhecer o que já vimos e o que já sentimos.»
La Rochefoucauld, in ‘Reflexões’
Publicado por Violeta Teixeira em 15/05 às 11:29 AM
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A NATUREZA
«A natureza não faz nada bruscamente.»
Jean-Baptiste Lamarck)
Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (Bazentin, 1 de agosto de 1744 — Paris, 28 de dezembro de 1829) foi um naturalista francês que desenvolveu a teoria dos caracteres adquiridos, uma teoria da evolução agora desacreditada. Lamarck personificou as idéias pré-darwinistas sobre a evolução. Foi ele que, de fato, introduziu o termo biologia.
Originário da baixa nobreza (daí o título de ‘chevalier’
, Lamarck pertenceu ao exército, interessou-se por história natural e escreveu uma obra de vários volumes sobre a flora da França. Isto chamou a atenção do Conde de Buffon que o indicou para o Museu de História Natural de Paris. Depois de ter trabalhado durante vários anos com plantas, Lamarck foi nomeado curador dos invertebrados (mais um termo introduzido por ele), e começou uma série de conferências públicas. Antes de 1800, ele era um essencialista que acreditava que as espécies eram imutáveis. Mas graças ao seu trabalho sobre os moluscos da Bacia de Paris, ficou convencido da transmutação das espécies ao longo do tempo, e desenvolveu a sua teoria da evolução (apresentada ao público em 1809 na sua Philosophie Zoologique).
Teoria dos caracteres adquiridos
A teoria de Lamarck baseou-se em duas observações que, inicialmente, foram recusadas pela sociedade, como todas mais teorias revolucionárias da época. Foram apenas aceites ao fim de algum tempo, e nelas a sociedade acreditou até que Charles Darwin as contradisse. As seguintes eram as observações:
1. Uso e desuso - Os indivíduos perdem as características de que não precisam e desenvolvem as que utilizam. O uso contínuo de um orgão ou parte do corpo faz com que este se desenvolva e seja apto para o correto funcionamento, e o desuso de um orgão ou parte do corpo faz com que este atrofie e com o tempo perca totalmente sua função no corpo do indivíduo.
2. Transmissão das características adquiridas - O uso e desuso de partes do corpo provocam alterações no organismo do indivíduo, essas alterações podem ser transmitidas às gerações seguintes. Por exemplo as crias das girafas herdam o pescoço comprido dos pais que supostamente o desenvolvem quando comem folhas das árvores mais altas.
Com estas observações em mente, Lamarck chegou a duas leis:
1. Lei do uso ou desuso - “Nos animais que não passaram o limite do seu desenvolvimento, o uso mais frequente e contínuo de um órgão fortalece, desenvolve e aumenta gradualmente esse órgão, e dá-lhe um poder proporcional ao tempo durante o qual foi usado; enquanto que a não utilização permanente de qualquer órgão causa o seu enfraquecimento e deterioração e diminui progressivamente a sua capacidade para funcionar, até que finalmente desaparece”;
2. Lei das características adquiridas - “Todas as características são adquiridas ou perdidas por imposição da natureza aos indivíduos, através da influência do ambiente no qual a espécie vive há muito, e por isso através da influência do uso predominante ou desuso permanente de qualquer órgão; todas são preservadas pela reprodução e transferidas para os novos indivíduos, desde que as modificações adquiridas sejam comuns a ambos os sexos, ou pelo menos tenham ocorrido no indivíduo que produz os novos”.
Lamarck acreditava que, como o ambiente terrestre sofre modificações constantes, as suas alterações estruturais forçam os seres que nele vivem a se transformarem para se adaptarem ao novo meio. Ao longo de muitas gerações (milhões de anos), o acúmulo de alterações pode levar ao surgimento de novos grupos de seres vivos. Assim, modificações no ambiente causam alterações nas “necessidades”, no comportamento, na utilização e desenvolvimento dos órgãos, na forma das espécies ao longo do tempo - e por isso causam a transmutação das espécies.
Lamarck defendia a geração espontânea contínua das espécies, com os organismos mais simples a serem depois transmutados com o tempo (pelo seu mecanismo) tornando-se mais complexos e próximos da perfeição ideal. Acreditava portanto num processo teleológico (orientado para um fim) em que os organismos se tornam mais perfeitos à medida que evoluem.
As teorias e os pensamentos de Lamarck podem ser considerados Transformistas, pois propõem a transformação e a evolução dos organismos. Suas idéias também evoluíram ao longo de seus estudos, e formaram um panorama que muito contribuiu para a biologia moderna. Seus estudos serviram de base a formulação da Teoria Sintética da Evolução de Charles Darwin.
É provável que a visão que os teóricos contemporâneos têm de Lamarck seja injusta. As contribuições dele para a biologia são muito importantes. Ele acreditava na evolução numa época em que não existiam muitos conhecimentos para sustentar essa teoria. Defendeu ainda que a função precede a forma, uma ideia controversa na sua época. No entanto, a herança dos caracteres adquiridos foi quase completamente refutada. August Weismann provou que a teoria era falsa em experiências em que a cauda de ratos era cortada para verificar se as crias nasciam com a cauda cortada. Algumas culturas humanas, como os Judeus, têm por hábito circuncidar os homens, mas após várias gerações os homens continuam a precisar de ser circuncidados. Mas Lamarck não considerava as mutilações como uma forma de adquirir novas características. Ele achava que só eram adquiridas novas características quando o animal se esforçava para satisfazer as suas próprias necessidades.
Charles Darwin elogiou Lamarck na terceira edição da A Origem das Espécies por ele apoiar o conceito da evolução e por ter contribuído para o divulgar. Darwin aceitava a ideia do uso e do desuso, e desenvolveu a sua teoria da pangenese em parte para explicar esse fenômeno. Não foi Darwin que refutou a teoria dos caracteres adquiridos, mas sim a descoberta dos mecanismos celulares da hereditariedade e da genética (ideias que Darwin reconheceu que precisava para completar a sua teoria).
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Publicado por Violeta Teixeira em 15/05 às 02:21 AM
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FAZ-ME AMOR!
Registo fotográfico de nuno gonçalves soeiro borges-Olhares.com
Faz-me amor!
Fá-lo,
Seja como for!
Ortodoxo. Desviante.
Alternativo.
Fá-lo!
Fá-lo, sem demora!
Não me respiro
Fora do incêndio
Das tuas águas.
Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 15/05 às 01:32 AM
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Quarta-feira, 14 Maio, 2008
«A CORROSÃO DA EXPOSIÇÃO PÚBLICA»
Registo fotográfico de Violeta Teixeira
«A vida de todas as nascentes profundas decorre com vagar; têm de esperar muito tempo antes de saber o que caiu nas suas profundezas. Tudo o que é grande foge da praça pública e da fama: é longe da praça e da fama que sempre viveram os inventores de novos valores.
Foge, meu amigo, refugia-te na tua solidão! Vejo-te aguilhoado pelas moscas venenosas. Refugia-te onde sopre um vento rijo e forte!
Refugia-te na tua solidão! Viveste muito perto dos pequenos e dos miseráveis. Foge da sua vingança invisível! A teu respeito só têm um sentimento, o rancor.
Não levantes mais a mão contra eles! São inumeráveis; o teu destino não é ser enxota-moscas!
São inumeráveis, esses pequenos, esses miseráveis; e já se viram altivos edifícios reduzidos a escombros pela acção das gotas da chuva e das ervas daninhas.»
Friedrich Nietzsche, in ‘Assim Falava Zaratustra’
Publicado por Violeta Teixeira em 14/05 às 02:58 AM
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POESIA
«Fazer poesia é confessar-se.»
Klopstock, Friedrich
«Friedrich Gottlieb Klopstock foi um poeta alemão (Quedlinburg, 2 de Julho de 1724 - Hamburgo, 14 de Março de 1803).
Antigo aluno da escola de Schulpforta, estudou teologia nas universidades de Jena e Leipzig. Discípulo de Johann Jakob Bodmer e da escola suíça, descobriu com entusiasmo a obra de John Milton. Decidiu escrever uma epopéia religiosa chamada Messias, à qual se dedicou durantes vinte anos (1748/68). Com esta obra em vinte cantos, Klopstock tornou-se o poeta mais admirado da jovem geração. Antes de publicá-la, já se consagrara com suas primeiras odes (An Meine Freund, de 1747).
Dedicou-se também ao teatro. Escreveu inicialmente tragédias: A morte de Adão, de 1757 e Salomão, de 1763. No entanto, destacou-se com o teatro patriótico, representado pela trilogia centralizada na personagem Hermann, herói da resistência da velha Germânia aos romanos.
Embora tivesse passado grande parte da sua vida na Dinamarca, onde recebia um pensão do rei Frederik V, foi um dos precursores do movimento nacional na Alemanha. Saudou com entusiasmo as revoluções americana e francesa. Porém, quando a República Francesa quis torná-lo cidadão honorário, Klopstock recusou em sinal de protesto contra os excessos da revolução na França. Contribuiu ainda nos campos da filologia e da história da literatura.»
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Publicado por Violeta Teixeira em 14/05 às 02:50 AM
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É DEFINITIVA A NOITE
Registo fotográfico de Artur Lopes( candidato a um concurso).
Oblíquo, o sol enegrece
Sobre as areias. Barcaças
Viúvas, musicando contra
As rochas, convidam a fugas
Sem margens e sem retornos.
Marulham vagas sucessivas!
Não há saudades de nada
Para sepultar
No obscuro mar!
Um luz azul de prata
Enche as barcaças.
Não há como não vê-la!
O sinal soou!
Sou só! Sigo a estrela,
Cuja luz
Nunca se me mostrou!
A luz apagou-se…
É infinita
E definitiva a noite!
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 14/05 às 01:32 AM
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Terça-feira, 13 Maio, 2008
OS ARTISTAS
Imagem ilustrativa de Miró
«Os artistas têm o direito de serem modestos e o dever de serem vaidosos.»
Kraus, Karl, in “Do Artista”
Publicado por Violeta Teixeira em 13/05 às 04:32 PM
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LITERATURA
Imagem ilustrativa de Fuentetaja
«Que é que eu procuro na literatura? Que é que me arrasta para este combate interminável e sempre votado ao fracasso? Como é imbecil pensar-se que se escreve para se «ter nome» e as vantagens que nisso vêm. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas só porque sempre se falhou. Assim se sabe também que se vai falhar de novo. Não se escreve para ninguém, o problema decide-se apenas entre nós e nós. Mas há um lugar inatingível e cada nova tentativa é uma tentativa para o alcançar.
O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.
O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer.
Recaído de cada vez no mais baixo, na grossa naturalidade de que sou feito, de nada me vale a experiência conquistada, porque se começa sempre no zero. Então se luta de novo, se pensa que «agora é que é», nos abeiramos com humildade e terror, na esperança irrisória de que tocaremos enfim o lume que nos fascina. E quase se toca e nos queimamos na sua chama, nos transcendemos ao seu limite, no ápice desse máximo que nunca é. Luta absurda e vã, esforço inútil que recolhe apenas as sobras do milagre, nessa intérmina procura se consome a vida inteira. Mas que a ilusão nos iluda e uma vida não chega para a pagar. Que é que eu procuro na literatura? O breve nada que é tudo, o breve fulgor de um Deus que morreu. Ou que nunca existiu. Ou que nunca pôde existir…
E no entanto - como o esquecer? - toda esta alegria feita de amargura, todo este esforço que te preencheu a vida será em breve um amontoado de papéis apodrecidos, lixeira para venda ao quilo ou para criação de um «posto de trabalho» municipal. Mas não sofras. Foste um momento a reinvenção do Deus que inventaste.
E «mais vale reinar uma hora do que servir toda a vida». Disse-o uma senhora histórica que andava nos livros da instrução primária, ou seja, primeira. E a História é ainda a «mestra da vida». Vou ser discípulo a sério.»
Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 3’
Publicado por Violeta Teixeira em 13/05 às 04:14 PM
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A LUA CHEIA…
mineirasuai.wordpress.com/.../
Vertigens incrivelmente brancas
Eriçam-lhe as crinas de uma
Demência indomável.
Novelos cinzentos de nuvens
Galopam velozes os penhascos
Da sua psicose impositiva.
A lua cheia, emergente, afoga-se
No açude dos seus olhos, donde
Desagua, moribundo, um cardume
De escamas de um rubro arrogante.
Sucumbe contra a sebe de pedra
De uma pastagem de luzerna, sem
Se dar conta que, na sua presença,
Ali, ao lado, a noite apascenta
Um rebanho aloirado de astros.
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 13/05 às 04:06 PM
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