Sexta-feira, 29 Fevereiro, 2008

DELÍRIO

Imagem ilustrativa de Chrstian Coigny

Desperta,
Surpresa, desnuda e fria.
A cama inundada de
Águas marinhas,
Algas enrugadas,
Limos excluídos por
Vagas impacíficas.

A alcatifa
São areais húmidos, seixos
Lisos e negros, conchas
Devolutas, de ostras,
Búzios nacarados,
Mudos, estilhaçados
Pelas mãos das Fúrias,
E, nas lascas, arestas
Perversas.

Perplexa,
Os dedos pingam
Sangue verde.

Violeta Teixeira, inédito (VASO DE VAZIOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 29/02 às 12:48 PM
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CARÁCTER/AMIZADE

Imagem ilustativa de Connstantin Brancusi

«A vida caminha precipitadamente. Perseguimos alguns esquemas flutuantes ou somos perseguidos por algum medo ou autoridade atrás de nós. Mas, se, de repente, encontramos um amigo, paramos; o nosso calor e a nossa pressa tornam-se ridículos. Ora a pausa, ora o domínio são necessários e também a força para encher o momento dos eflúvios do coração. O momento é tudo, em todas as relações nobres.
Uma pessoa divina é a profecia do espírito; um amigo é a esperança do coração. A nossa ventura espera pela concretização destas duas em uma.
Os séculos estão a dilatar essa força moral. Toda a força é a sombra ou o símbolo daquela. A poesia é alegre e forte quando extrai nessa fonte a sua inspiração. Os homens só inscrevem os seus nomes no mundo quando estão cheios deste. A história tem sido ignóbil; as nossas nações têm sido a gentalha; nunca vimos um homem: essa forma divina que ainda não conhecemos, mas apenas o sonho e a profecia de tal; não conhecemos os modos majestosos que lhe são peculiares e que acalmam e exaltam o observador.

Um dia veremos que a energia mais particular é a mais pública, que a qualidade afina com a quantidade e a grandeza de carácter actua na sombra e socorre aos que nunca a viram. O que de grandeza já apareceu são os princípios e estímulos para que prossigamos nesse sentido. A história daqueles deuses e santos que o meundo tem escrito, e depois adorado, são provas de carácter.»

Ralph Waldo Emerson, in ‘O Carácter’

Publicado por Violeta Teixeira em 29/02 às 01:59 AM
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AMIZADES

Imagem ilustrativa de Giacomo Manzú

«As amizades renovadas exigem mais cuidados do que aquelas que nunca foram interrompidas.»

La Rochefoucauld, François, “Máximas”

Publicado por Violeta Teixeira em 29/02 às 01:43 AM
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Quinta-feira, 28 Fevereiro, 2008

AMIZADE

admirado.wordpress.com/2006/11/14/

«Não há amigos, apenas há momentos de amizade.»

Jules Renard, in « Journal»
Pierre-Jules Renard, escritor francês, nasceu a 22 de Fevereiro de 1864 em Châlons du Maine, Mayenne, faleceu a 22 de Maio de 1910 em Paris.

“Uma palavra tão doce, que a desejaria com rosto, para poder beijá-la.”

Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 01:24 AM
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OFENSA

http://www.apac.org.br/.../artigos/reacao_ofensa.asp

«Com que frequência caminhei no quarto de um lado para o outro, com o desejo inconsciente que alguém me insultasse ou proferisse alguma palavra que eu pudesse interpretar como um insulto, para que eu desabafasse a minha raiva em alguém.
É uma experiência muito simples que acontece quase diáriamente, e ainda para mais quando existe algum outro segredo, uma aflição no coração, para o qual se deseja dar uma expressão verbal mas que não se consegue.»

Fiodor Dostoievski, in ‘Humilhados e Ofendidos’

Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 01:14 AM
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MA POÉSIE

Registo fotográfico de Joaquim Pedro Teixeira Dâmaso

Je ne vous dirai pas
Des silences.
Des voix.
Des masques.

Car je m’assieds
Au bord de n’importe quoi,
Et ce sont eux
Qui se disent.

Du limpide
Et pervers jeu…
Je ne fais que de mouiller,
Dans l’encre,
Mes doigts.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 01:04 AM
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Quarta-feira, 27 Fevereiro, 2008

POSSE

Registo fotográfico de Robert Doisneau (Jacques Prévert)

«Todos os homens são proprietários, mas na realidade nenhum possui. Não são proprietários apenas porque até o último dos pedintes tem sempre alguma coisa além do que traz em cima, mas porque cada um de nós é, a seu modo, um capitalista.
Além dos proprietários de terras, de mercadorias, de máquinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os proprietários de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. São os proprietários e locadores de força física - camponeses, operários, soldados - e proprietários e prestadores de forças intelectuais - médicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus músculos, o seu saber ou o seu engenho obtém um rendimento, que pressupõe um património.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milhões de homens estão dispostos a obedecer a uma palavra sua, é, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milhões de liras, possui milhões de vontades. O talento visual de um pintor, a eloquência de um advogado, o espírito inventivo de um mecânico são verdadeiros capitais e medem-se pelo preço que deve pagar, para obter os seus produtos, quem não os possui e carece deles. E não existe ninguém, a menos que seja paralítico ou néscio, que não possua uma porção de capitais da segunda espécie, ainda que seja a sua capacidade de trabalho físico, vendível, como qualquer outro bem, com um contrato verdadeiro e apropriado.

Dir-se-á que os possuidores dos capitais pessoais são forçados, para viver, a cedê-los, dia a dia, aos capitalistas que dispõem dos bens visíveis e estão, por isso, ao seu serviço. Mas essa dependência, para quem vê claro, é recíproca: um proprietário de terras, mesmo que possua meio país, é como se não tivesse nada, se não encontra camponeses que façam frutificar os seus latifúndios; o grande fabricante tem de vender como sucata as suas excelentes máquinas, se não conta com operários que as façam funcionar e produzir lucros; o político está às ordens do especulador, mas este não poderá efectuar os seus negócios, se não dominar, por meio daquele, a opinião pública e o Estado; e se médicos, advogados e professores não poderiam viver sem doentes, culpados e ignorantes, é igualmente verdade que os segundos, em determinados momentos, não podem prescindir dos primeiros. Até o aleijado, o cego e o leproso obtêm um certo rendimento das suas muletas, da sua escuridão e das suas chagas.
Por conseguinte, aqueles a que os instigadores da plebe chamam «possuidores de nada», «destituídos» ou «deserdados» não existem.»

Giovanni Papini, in ‘Relatório Sobre os Homens’

Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 12:51 AM
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POVO BÁRBARO

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Povo bárbaro

Bárbaros era como eram conhecidos pelos romanos os povos que viviam à margem de seu império, com língua, religião e costumes distintos dos considerados civilizados.

Origem do termo
A palavra “bárbaro” provem do grego antigo, βάρβαρος, e significa “não grego”. Era como os gregos designavam os estrangeiros, as pessoas que não eram gregas e aqueles povos cuja língua materna não era a língua grega. Principiou por ser uma alusão aos persas, cujo idioma gutural os gregos entendiam como “bar-bar-bar"[1]. Os romanos também passaram a ser chamados de bárbaros pelos gregos.
Porém, foi no Império Romano que a expressão passou a ser usada com a conotação de “não-romano” ou “incivilizado”. O preconceito perante os povos que não compartilhavam os mesmos hábitos e costumes é natural dos habitantes dos grandes centros econômicos, sociais e culturais, e caracteriza-se pelo etnocentrismo. Atualmente, a expressão “bárbaro” significa não civilizado, brutal ou cruel. Era um termo pejorativo que não condizia com a realidade pois, apesar de não compartilharem de alguns aspectos da cultura romana e não falarem o latim, tais povos tinham cultura e costumes próprios.
Cada um dos povos chamados “bárbaros” era bastante distinto e esta designação abrangia tanto os hunos, de origem oriental, como povos germânicos, como os godos, e celtas, como os gauleses.
Particularmente foram chamados de bárbaros os povos de origem germânica que, entre 409 e 711, nas migrações dos povos bárbaros, invadiram o Império Romano do Ocidente, causando sua queda em 476 d.C.
As invasões se deram em duas ondas principais. A primeira com penetração dos bárbaros e a assimilação cultural romana. Os bárbaros tiveram uma certa “receptividade” a ponto de receber pequenas áreas de terra. Com o passar do tempo, seus costumes foram mesclando-se com os costumes romanos.
Uma segunda leva foi mais vagarosa, não teve os mesmos benefícios dos ganhos de terra e teve seu contingente de pessoas aumentado devido à proximidade das terras ocupadas com as fronteiras internas do Império Romano.
Os chamados bárbaros também foram responsáveis por algumas mudanças físicas e culturais da própria Grécia, já que, ao haver algumas “invasões concedidas” pelo próprio comando da Grécia, alguns povos não-gregos foram à cidade e lá estabeleceram estadia e, de lá, promoveram construções importantes e contribuíram de forma nem tão importante assim com a cultura do local.
Os Bárbaros eram um povo nomade, porque não viviam sempre no mesmo sítio.
Os bárbaros na Península Ibérica
Na Península Ibérica os bárbaros (principalmente os suevos e os visigodos) absorveram rapidamente a cultura e língua romanas; contudo, como deixaram de existir escolas romanas e os contatos com Roma tornaram-se menos freqüentes, o latim passou a evoluir de forma distinta da de Roma. Assim rompeu-se a uniformidade líguística (se é que um dia chegou a existir), e formaram-se línguas diferentes: espanhol, catalão e galaico-português, que depois originou o galego e o português. Acredita-se, em particular, que os suevos sejam responsáveis pela diferenciação linguística dos portugueses e galegos quando comparados com os castelhanos. As línguas germânicas influenciaram particularmente o português em palavras ligadas à vida militar, tal como a palavra “guerra”.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 12:43 AM
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NA NUDEZ DA NOITE

Registo fotográfico de Wilhelm Leisten

Sou o cão rafeiro
Auto-excluído do meu clã.
Todas as portas por onde,
Furtivo, entro na nudez da noite,
Só dão para saídas:
Espaços ásperos de silêncios,
Céus com mil luas, cujos rostos
Se eclipsam dentro dos meus olhos.
Todas as portas só dão
Para saídas, sem saída.
Sem um horto com árvores e aves,
Sem uma chama, ardendo devagar,
Sem uma lágrima lunar,
Dulcíssima e leve,
Sem uma mão que se ofereça
Ao meu cansaço.

Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999

Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 12:34 AM
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Terça-feira, 26 Fevereiro, 2008

LOUCURA

Trabalho fotográfico de claudia-Olhares.com

Às vezes não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria das pessoas o encara quando o faz.

William Faulkner, in ‘Na Minha Morte’

Publicado por Violeta Teixeira em 26/02 às 01:30 PM
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ALUCINAÇÃO

http://www.calirezo.com/blog/index.php?2006/10

«Alucinação em nosso Dicionário
Em nosso Dicionário de Psiquiatria a Alucinação é a percepção sensorial sem estímulo do órgão sensorial correspondente. A pessoa com alucinação tem o senso imediato de que a sua percepção é verdadeira; em alguns casos, a alucinação provém de dentro do corpo. Algumas vezes, a pessoa com alucinação consegue ter o entendimento de que está com uma alteração de registro sensorial . Outras vezes, a intensidade do delírio (que normalmente ocorre junto com alucinação) concede ao indivíduo o peso de que o que percebe é a verdade absoluta. Em um sentido mais restrito, as alucinação indicam um distúrbio psicótico quando associadas a deficiência de prova da realidade.
O termo “alucinação” não se aplica a falsas percepções que ocorrem durante o sonho. Alucinações manifestas em ritos religiosos não têm necessariamente significado patológico. Alucinações transitórias são freqüentes em indivíduo sem distúrbio mental quando submetido à privação física ou psíquica. (veja
o dicionário).»

Publicado por Violeta Teixeira em 26/02 às 01:21 PM
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ALUCINACIÓN

http://www.calirezo.com/blog/index.php?2006/10

Tremolan, suspensas,
Sonámbulas, esculturas
Espectrales, «en papier mâché».

Una revolada de aves nocturnas
Astillan las vidrieras duplas,
Y si lanza en la caza de los insectos,
Que defecan en las bocas absortas
De les seis piezas excéntricas.

Artista maníaca, cruzo mías piernas
Bellas, extendidas en lo marmóreo
Bermejo de la vieja galería de arte.

Enciendo, con «charme», uno cigarrillo
De «cannabis», y fumo, con furores
Sádicos, las delicias encolerizadas
De les eximias aves «ravisseuses».

Violeta Teixeira, in Antologia Internacional, REGALOS DEL ALMA, 2005

Tremulam, suspensas,
Sonâmbulas, esculturas
Espectrais, en papier mâché.

Uma revoada de aves nocturnas
Estilhaça as vidraças duplas,
E lança-se na caça aos insectos
Que dejectam nas bocas absortas
Das seis peças excêntricas.

Artista maníaca, cruzo as belas
Pernas, estendidas no mármore
Vermelho da antiga galeria de arte.

Acendo, com requinte, um charro
De cannabis, e fumo, com furores
Sádicos, as delícias enraivecidas
Das exímias aves ravisseuses.

Trad. de Violeta Teixeira

Publicado por Violeta Teixeira em 26/02 às 01:09 PM
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Segunda-feira, 25 Fevereiro, 2008

MORTE

Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.
É assim o homem, caro senhor, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espectáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer?, é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.
É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!

Albert Camus, in ‘A Queda’

Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 07:32 PM
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VIDA/MORTE

“Matar-se é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos. O suicídio é uma confissão de que a existência não vale a pena. Assim, morrer voluntariamente implica em reconhecermos, mesmo que instintivamente, a ausência de qualquer razão profunda de viver e a inutilidade do sofrimento.”

«1- Introdução: da questão do sentido ao sentido da questão
O século XVII foi o século das matemáticas, o século XVIII o das ciências e o século XIX o da biologia. O nosso século XX é o século do medo…o que mais efectivamente nos chama a atenção neste mundo em que vivemos é, em geral e em primeiro lugar, que a maioria dos homens (…) não tem futuro algum. Nenhuma vida é válida sem projecção no futuro10. O medo e a angústia não são invenções dos filósofos, mas algo constitutivo da condição humana enquanto tal.
De entre os acontecimentos que assolaram a nossa época, surgiu um que, de facto, não tem paralelo na história: o sentimento do absurdo, sentimento este, profundamente analisado em O Mito de Sísifo por Albert Camus, como sendo o verdadeiro mal da nossa época. Viver tem um sentido que é a própria condição de ser esse mesmo sentido, mas existe, todavia, um inalienável sentimento que abala: trata-se da consciência e da necessidade de uma certa familiaridade que exige que o mundo seja explicado. A ciência, essa, de nada aqui pode servir porque os seus aperfeiçoamentos práticos ameaçam de destruição a Terra inteira11 e só o olhar e o sentimento de acordo profundo com o mundo podem trazer qualquer certeza. Este mundo não pode ser reduzido nem a um princípio racional, nem a um absoluto que lhe confira unidade. Num mundo conduzido por forças cegas e surdas, incapazes de ouvir os gritos de alerta…as súplicas12, num universo assim privado de sentido, o homem sente-se um estrangeiro. Esta fractura entre o mundo e o seu espírito deve ser mantida, já que é ela a sua verdadeira condição humana. Abolir tal fractura mais não seria do que adormecê-la voluntariamente na ilusão de uma significação para além da condição limitada do homem. Num universo onde reinam a contradição, a antinomia, a angústia, o impoder entre o sim e o não, o homem não deve tentar concluir, uma vez que isso afirmar-se-ia como uma traição à vida. A consciência da gratuitidade é feita da própria recusa de esperar e de uma vida sem consolação. O sentimento de se ser estrangeiro à sua própria vida torna equivalentes todas as experiências. Tal sentimento de divórcio entre o homem e a vida é o sentimento do absurdo. Viver este absurdo é permanecer clarividente para que seja possível aos homens “purgarem-se” de todo um conjunto de emoções, em ordem a uma autenticidade, ou seja, à lucidez e à disponibilidade.
Para um sentimento como o do absurdo, a única verdade de que se dispõe é, justamente, o absurdo, não restando outra solução que não seja a de o manter na mais plena lucidez; ele é o limite dentro do qual se tem de organizar a vida, a única coerência de que se dispõe. Renunciar ao absurdo é abster-se de ver claro e recusar a única evidência que se dá ao nível do humano. Qualquer renúncia ao absurdo é um suicídio que pode ser físico- a morte- ou espiritual- apelar a princípios transcendentes ao absurdo e à própria vida. Neste sentido, a única solução possível é a obstinação desesperada de manter o absurdo, a lucidez, por mais amarga e irremediável que esta possa ser. Até aqui tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. A partir daqui, pelo contrário, impõe-se-nos que ela será vivida até melhor por não ter sentido (…) viver é fazer viver o absurdo13, diz-nos Camus em O Mito de Sísifo. (...)»

Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 07:09 PM
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MORRE-SÓ

Registo fotogáfico de Man Ray

Desvanecidas
Todas as referências do rumo
Do regresso, busco,
Gélida de medo, um indicio,
Um signo mínimo,
Uma ferida rubra e ocre
No tronco forte de uma árvore,
Fixa na retina
Da
Partida.

Debalde, a busca! Certo, todavia,
Recordo-me de haver lido, algures, que «nunca
Nos sentimos tão vivos como às
Portas da morte.»

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 04:34 PM
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