Segunda-feira, 31 Dezembro, 2007
«O AMOR NÃO EXISTE SEM CIÚME»
Nan Goldin
«Se o ciúme nasce do intenso amor, quem não sente ciúmes pela amada não é amante, ou ama de coração ligeiro, de modo que se sabe de amantes os quais, temendo que o seu amor se atenue, o alimentam procurando a todo o custo razões de ciúme.
Portanto o ciumento (que porém quer ou queria a amada casta e fiel) não quer nem pode pensá-la senão como digna de ciúme, e portanto culpada de traição, atiçando assim no sofrimento presente o prazer do amor ausente. Até porque pensar em nós que possuímos a amada longe - bem sabendo que não é verdade - não nos pode tornar tão vico o pensamento dela, do seu calor, dos seus rubores, do seu perfume, como o pensar que desses mesmos dons esteja afinal a gozar um Outro: enquanto da nossa ausência estamos seguros, da presença daquele inimigo estamos, se não certos, pelo menos não necessariamente inseguros. O contacto amoroso, que o ciumento imagina, é o único modo em que pode representar-se com verosimilhança um conúbio de outrem que, se não indubitável, é pelo menos possível, enquanto o seu próprio é impossível.
Assim o ciumento não é capaz, nem tem vontade, de imaginar o oposto do que teme, aliás só pode obter o prazer ampliando a sua própria dor, e sofrer pelo ampliado prazer de que se sabe excluído. Os prazeres do amor são males que se fazem desejar, onde coincidem a doçura e o martírio, e o amor é involuntária insânia, paraíso infernal e inferno celeste - em resumo, concórdia de ambicionados contrários, riso doloroso e friável diamante.»
Umberto Eco, in ‘A Ilha do Dia Antes’
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 02:32 AM
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O AMOR
Autor?
«Muitas vezes o amado desencadeia a força lentamente acumulada no coração daquele que ama. O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.»
McCullers , Carson, in “A Balada do Café Triste”
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 02:22 AM
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SUCUMBO AO SONO
Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora- Olhares.com
Sucumbo ao sono.
Somos três corpos,
Tatuados de acentos
Conturbados.
Acordo-me. Devaneio?
Deliro?
Levantam-se e partem,
Envoltos num silêncio
Gélido.
Agasalho-me no fogo
De um cigarro:
Frémito de um pulso
Fissurado.
Não se conhecem.
Não se vêem um ao outro.
Enlouqueço?
Sorvo o sabor de
Cinzas, no rebordo
Íngreme de um reaceso
Malogro.
A um entrego o corpo
«Tout cout». Ao outro
Desaguo, debalde, o coração,
Fantasmando
O navegado no gozo
Efémero, e sem retorno.
Fumo. Fumo. E sofro.
Olhos amornados
Por um Outono absurdo.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 02:06 AM
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Domingo, 30 Dezembro, 2007
«RECOLHE EM TI A AMARGURA»
Registo fotográfico de Pedro GoniO-Olhares.com
«Não te queixes. Recolhe em ti a amargura, não a disperses, não a esbanjes com os outros. Ela é tua, nasceu de ti, da tua miséria, pertence-te como os ossos e as vísceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque só se é grande pelo sofrimento, não pela futilidade do prazer. As pedras não sofrem, Cristo esteve «triste até à morte». Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes «não reza a história». Só a dor pode medir o teu tamanho de excepção, só ela pode medir o que tu vales. O sofrimento medíocre não dá mais do que a comédia, mas a grandeza da tragédia só pode atribuir-se aos grandes. Não te aconselho a que vás ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. Não sucumbas aos seus golpes, aguenta-os até onde puderes. E se és homem de verdade, tu a aguentarás.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti, se sofres com o que é ridículo? Não sofras. As grandes tempestades, a grande luz solar são a medida da Natureza. Que tu tentes contrariar a alegria que te rodeia na nova Primavera e não o conseguirás. A Terra cumpre-se igual em flores e renovação. Não te queixes. Recolhe-te a ti. E o destino do homem que te sagrou será a tua perfeição.»
Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente IV’
Publicado por Violeta Teixeira em 30/12 às 03:32 AM
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DESESPERO
Edward Hopper
«A minha única esperança está no meu desespero.»
Racine , Jean
Publicado por Violeta Teixeira em 30/12 às 03:17 AM
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O NAVIO
Registo fotográfico de jomagope-Olhares.com
Os céus, espicaçados
De medos, são chorões
Pingantes de ferrugens verdes,
Enchendo-me as barragens dos
Olhos, que te não vêem.
Náufragos «fanés»,
Bóiam-me nenúfares,
Nas bacias inavegáveis.
Esgarçam-se velas, esmigalham-se
Mastros, desfazem-se cordames.
Despedaçado o navio,
Diluiu-se o sonho
Do me navegas,
E velo, neste triste agora,
O destroço que me resto,
Deste dilúvio.
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 30/12 às 02:53 AM
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Sábado, 29 Dezembro, 2007
NÃO SOU NADA
«Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu.
Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu.
Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ?
(...) Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de o ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.»
Bernardo Soares (Fernando Pessoa), in ‘Livro do Desassossego’
Publicado por Violeta Teixeira em 29/12 às 12:03 PM
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EXPERIÊNCIA
Van Gogh
«Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.»
Camus, Albert
Publicado por Violeta Teixeira em 29/12 às 11:49 AM
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SOU O LIXO
Registo fotográfico de rattus-Olhares.com
Sou o lixo
Que me sobro
Da hecatombe
Do Ego.
VIOLETA TEIXEIRA, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 29/12 às 11:30 AM
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Sexta-feira, 28 Dezembro, 2007
UM ROMANCE
Amadeo de Sousa Cardoso
Um romance é como um arco de violino, a caixa que produz os sons é a alma do leitor
Stendhal, in “A Vida de Henry Brulard”
Publicado por Violeta Teixeira em 28/12 às 08:46 PM
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TEXTO LITERÁRIO
«Não há verdadeiro sentido de um texto. Não há autoridade do autor. Quisesse dizer o que quisesse, escreveu o que escreveu. Uma vez publicado, um texto é como um aparelho de que cada um se pode servir à sua maneira e segundo os seus meios: não é certo que o construtor o use melhor do que outro qualquer.»
Paul Valéry, in ‘A Propósito do Cemitério Marinho’
Publicado por Violeta Teixeira em 28/12 às 08:34 PM
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PENSO-TE
Penso-te.
Dedos doces,
Límpidos,
Macios.
Carícias rútilas
Nos
Lábios.
Testículos túmidos,
Salivas,
Fluidos líricos.
Violeta Teixeira, inédito ( ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 28/12 às 08:23 PM
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Quinta-feira, 27 Dezembro, 2007
FAZ-ME AMOR!
Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora- Olhares.com
Faz-me amor!
Fá-lo,
Seja como for!
Ortodoxo. Desviante.
Alternativo.
Fá-lo!
Fá-lo, sem demora!
Não me respiro
Fora do incêndio
Das tuas águas.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 27/12 às 03:15 PM
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Quarta-feira, 26 Dezembro, 2007
«DESTINO, ACASO OU COINCIDÊNCIA»
Imagem ilustrativa de Modigliani
«Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.
Na verdade, porém, não se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferença. O que se passa - como, de resto, em qualquer confronto de opiniões - é o mesmo que sucede com certos pratos culinários: são conhecidos por nomes diferentes mas, na prática, o resultado não varia.»
Haruki Murakami, in ‘Em Busca do Carneiro Selvagem’
Publicado por Violeta Teixeira em 26/12 às 02:54 PM
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Terça-feira, 25 Dezembro, 2007
AMOR
Registo fotográfico de Bruno M. Ramos- Olhares.com
«Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, dum amor contrariado por obstáculos invencíveis:
A vista de tudo o que é extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recordação do que amamos, com a rapidez de um relâmpago. É que, pelo processo do ramo de árvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo é belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta visão imprevista da felicidade enche-nos os olhos de lágrimas num instante. É assim que o amor do belo e o amor se dão vida um ao outro.
Uma das infelicidades da vida é que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar não deixa recordações distintas. Aparentemente, a alma está demasiado perturbada pelas suas emoções para poder prestar atenção ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na própria sensação. É talvez porque estes prazeres não se podem renovar sempre que queremos, por simples força de vontade, que se renovam com tanta força, desde que um objecto qualquer nos venha tirar da meditação consagrada à mulher que amamos, e lembrar-no-la mais vivamente por meio de uma nova sugestão (o perfume dela, por exemplo).»
Stendhal, in “Do Amor”
Publicado por Violeta Teixeira em 25/12 às 05:52 PM
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