Quarta-feira, 29 Novembro, 2006

«MENTE E PEDRA»

Mente ou Pedra
«Esta cidade é conhecida em todos os arredores por possuir as maiores estrebarias para bois, vacas e cavalos, construções que não ficam a dever nada nem sequer aos edifícios públicos; por outro lado contam-se aqui pelos dedos os locais onde se pode rezar ou discursar com total liberdade.
Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitectura, não deveriam as nações fazê-lo pelo poder do seu pensamento abstracto? O Bagavad-Gita é muito mais admirável do que todas as ruínas do oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe. O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem são exclusivos deste, a não ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Com que finalidade, digam-me lá, se talha tanta pedra?
Quando estive na Arcádia, não vi pedras a serem lavradas. As nações são possuídas pela louca ambição de perpetuarem a sua memória com a soma das esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfeiçoar e polir a sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memorável que um momumento da altura da Lua. Prefiro contemplar as pedras no seu local de origem.

Henry David Thoreau, in «Walden»

«Henry David Thoreau
(Concord, 1817 - 1862)
Filósofo transcendentalista norte-americano formado em Letras pela Universidade de Harvard. Discípulo de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), chegou a ser preceptor de sobrinhos deste filósofo, residentes em Staten Island. Defendia o individualismo irrestrito e a busca de cada um do seu próprio caminho. Em 4 de julho de 1845, decidiu morar sozinho numa cabana construída por ele mesmo às margens do lago Walden, em meio à floresta de Concord. Essa temporada durou até 6 de setembro de 1847. Em 1846, numa de suas idas à vila de Concord, foi preso por se negar a pagar impostos a um Estado que mantinha a escravidão e sustentava uma guerra contra o México (entre 1846-1848). Passou uma noite na prisão e logo foi solto. Em 1849, publicou Desobediência Civil, onde conta sua experiência na prisão. A vida na floresta de Concord foi narrada no livro Walden (1854), um marco da consciência ecológica. Tornou-se conferencista engajado contra escravidão e ajudou diversos escravos a conseguir a liberdade. Seu exemplo inspirou vários líderes pacifistas no século XX, como o escritor Tolstoi e o político Gandhi. Pouco antes de morrer, lançou Caminhando (1862), enquanto Journals (Diário) foi publicado em 12 volumes, em 1906.»

“(...)Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável vivê-la. Ser um filósofo não é apenas ter pensamentos sutis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver segundo seus ditames uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar alguns problemas da vida não só na teoria, mas também na prática. O sucesso dos grandes eruditos e pensadores assemelha-se ao dos cortesãos, não é um sucesso de soberano ou de homem. Arranjam meios de viver sempre em conformidade, da mesma forma que o fizeram seus pais, e de modo algum são os genitores de uma raça de homens mais nobres (...).”

Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 03:15 PM
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«VÊ MAIS LONGE A GAIVOTA QUE VOA MAIS ALTO»

Foto da auroria de José Salvado (yossi)

«Vê mais longe a gaivota que voa mais alto.»

Richard Bach

Richard Bach, nascido em 23 de junho de 1936, é um escritor americano.
A principal ocupação de Bach foi como piloto reserva da Força Aérea e praticamente todos os seus livros envolvem o voo de certa maneira, desde suas primeiras histórias sobre voar em aeronaves até suas últimas onde o voo é uma complexa metáfora filosófica. Bach alcançou enorme sucesso com Fernão Capelo Gaivota, sucesso este não igualado por seus livros posteriores; entretanto, seu trabalho continua popular entre os leitores.
Richard Bach usava a internet no princípio dos anos 90 com sua própria seção na Compuserve, aonde respondia e-mails pessoalmente, até que a enorme demanda o obrigou a largar o passatempo. Ele também mantinha um website (http://www.richardbach.com), o qual, agora (Novembro de 2005), só possui um link (em inglês) para a venda do livro “Messiah’s Handbook Reminders for the Advanced Soul” (Manual do Messias - Um guia para a alma avançada).
Obras publicadas
• Stranger to the Ground (Estranho à Terra) - 1963
• Biplane (Biplano) - 1966
• Nothing by Chance (Nada por Acaso) - 1969
• Jonathan Livingston Seagull (Fernão Capelo Gaivota) - 1970
• A Gift of Wings (O Dom de Voar) - 1974
• There’s No Such Place As Far Away (Longe é um Lugar que não Existe) - 1976
• Illusions (Ilusões - as aventuras de um messias indeciso) - 1977
• The Bridge Across Forever (A Ponte para o Sempre) - 1984
• One (Um) - 1988
• Running from Safety (Fugindo do Ninho) - 1994
• Out of My Mind (Fora de Mim - a descoberta de saunders-vixen) - 1999
• The Ferret Chronicles:
o Air Ferrets Aloft - 2002
o Rescue Ferrets at Sea ("Resgate no Mar") - 2002
o Writer Ferrets: Chasing the Muse - 2002
o Rancher Ferrets on the Range - 2003
• The Last War - 2003
• Flying - 2003
• Messiah’s Handbook (Manual do Messias - Um guia para a alma avançada) - 2004

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 02:55 PM
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ESCREVO, SEM MIM

Rodin


Saem-me,
Às gotículas,
Dos poros da pele.

São
Ardentes ou cálidos,
Frios ou álgidos.

Corpos que se
Constroem a eles
Mesmos.

Poemas.

Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 29/11 às 01:53 PM
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Terça-feira, 28 Novembro, 2006

DIA DO SEU ANIVERSÁRIO

O TIGRE

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
Fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
Que mão terrível? Que pés?

E que martelo? Que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? Que tenaz
Prò terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põe pardos,
Vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

William Blake ( Inglaterra,1757-1827)

– trad.V.G.Moura

William Blake nasceu às 19:45 do dia 28 de novembro de 1757, no bairro de Soho, Londres, Inglaterra e faleceu em 12 de agosto de 1827. Escreveu poemas românticos. Foi também pintor, sendo sua pintura definida como pintura fantástica, e tipógrafo.

Infância
Blake nasceu na “28ª Broad Street”, em Soho, Londres, numa família de classe média. Seu pai era um fabricante de roupas e sua mãe cuidava da educação de Blake e seus três irmãos. Logo cedo a bíblia teve uma profunda influência sobre Blake, tornando-se uma de suas maiores fontes de inspiração.
Desde muito jovem Blake dizia ter visões. A primeira delas ocorreu quando ele tinha cerca de nove anos, ao declarar ter visto anjos pendurando lantejoulas nos galhos de uma árvore. Mais tarde, num dia em que observava preparadores de feno trabalhando, Blake teve a visão de figuras angelicais caminhando entre eles.
Com pouco mais de dez anos de idade, Blake começou a estampar cópias de desenhos de antigüidades Gregas comprados por seu pai, além de escrever e ilustrar suas próprias poesias.
Aprendizado com Basire
Em 4 de agosto de 1772, Blake tornou-se aprendiz do famoso estampador James Basire. Esse aprendizado, que estendeu-se até seus vinte e um anos, fez de Blake um profissional na arte. Segundo seus biógrafos, sua relação era harmoniosa e tranqüila.
Dentre os trabalhos realizados nesta época, destaca-se a estampagem de imagens de igrejas góticas Londrinas, particulamente da iggreja Westimnster Abbey, onde o estilo próprio de Blake floresceu.
Em 1779, Blake começou seus estudos na The Royal Academy, uma respeitada instituição artística Londrina. Sua bolsa de estudos permitia que não pagasse pelas aulas, contudo, o material requerido nos seis anos de duração do curso deveria ser providenciado pelo aluno.
Este período foi marcado pelo desenvolvimento do caráter e das idéias artísticas de Blake, que iam de encontro às de seus professores e colegas.
Casamento
Em 1782, após um relacionamento infeliz que terminou com uma recusa à sua proposta de casamento, Blake casou-se com Catherine Boucher. Blake ensinou-a a ler e escrever, além de tarefas de tipografia. Catherine retribuiu ajudando Blake devotamente em seus trabalhos, durante toda sua vida.
Trabalhos
Blake escreveu e ilustrou mais de vinte livros, incluindo “O livro de Jó” da Bíblia, “A Divina Comédia” de Dante Alighieri - trabalho interrompido pela sua morte - além de títulos de grandes artistas britânicos de sua época. Muitos de seus trabalhos foram marcados pelos seus fortes ideais libertários, principalmente nos poemas do livro Songs of Innocence and of Experience ("Cancoes da Inocência e da Experiência"), onde ele apontava a igreja da inglaterra e a alta sociedade como exploradores dos fracos.
Apesar de seu talento, o trabalho de gravador era muito concorrido em sua época, e os livros de Blake eram considerados estranhos pela maioria. Devido a isto, Blake nunca alcançou fama significativa, vivendo muito próximo à pobreza.
Morte
No dia de sua morte, Blake trabalhava exaustivamente em A Divina Comédia de Dante Alighieri, apesar da péssima condição física que culminaria no seu fim. Seu funeral, bastante humilde, foi pago pelo responsável pelas ilustrações do livro, e apesar de sua situação financeira constantemente precária, Blake morreu sem dívidas.
Hoje Blake é reconhecido como um santo pela Igreja Gnóstica Católica, e o prêmio Blake Prize for Religious Art (Prêmio Blake para Arte Sacra) é entregue anualmente na Austrália em sua homenagem.
Bibliografia
• Poetical Sketches (1783)
• There is no Natural Religion (1788)
• All Religions Are One (1788)
• Songs of Innocence (1789)
• Book of Thel (1789)
• The French Revolution: A Poem in Seven Books (1791)
• A Song of Liberty (1792)
• The Marriage of Heaven and Hell (1793)
• Visions of the Daughters of Albion (1793)
• America, A Prophecy (1793)
• Songs of Experience (1794)
• Songs of Innocence and of Experience (1794)
• Europe, a Prophecy (1794)
• The Book of Urizen (1794)
• The Song of Los (1794)
• The Book of Ahania (1795)
• The Book of Los (1795)
• Night Thoughts (1797) (ilustrações)
• Milton (1804)
• Grave (1808)
• Everlasting Gospel (1818)
• Jerusalem (1820)
• The Ghost of Abel (1822)
• Dante’s Divine Comedy (1825) (ilustrações)
• O livro de Jó da Bíblia (1826) (ilustrações)
Obras

Satã observando o amor de Adão e Eva, Mus. de Belas-Artes - Boston
A criação de Adão, Tate Gallery - Londres
O Eterno, Whitworth Art Gallery - Univ. de Manchester
Isaac Newton

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 28/11 às 05:17 PM
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«ESQUECIMENTO ESVAZIANTE»

Malangatana

«A variedade das nossas emoções torna claro que cada homem guarda dentro de si os celeiros do contentamento e do descontentamento: os jarros das coisas boas e más não estão depositados «na soleira de Zeus», mas na alma. O néscio negligencia e desdenha as coisas boas que lá estão porque a sua imaginação acha-se sempre voltada para o futuro; o sensato, porém, torna os factos pregressos vividamente presentes com recordá-los. O presente oferece-se ao toque da nossa mão apenas por um instante e logo nos ilude os sentidos; os tolos julgam que ele não é mais nosso, que não mais nos pertence.
Há a pintura de um cordoeiro no inferno, com um asno a engolir toda a corda feita por ele, à medida que ele a entretece; assim é a multidão acometida e dominada pelo esquecimento insensato e ingrato, que apaga cada acto, cada sucesso, cada experiência aprazível de bem-estar, de camaradagem e de deleite.

O esquecimento não consente à vida desenvolver-se unitariamente, o passado entretecido com o presente, mas separa o ontem do hoje, como se fossem de diferente substância, e o hoje do amanhã, como se não fossem o mesmo; transforma toda a ocorrência em não-ocorrência. A lógica do sofista, que nega o princípio do desenvolvimento fundado em que o estar-se em fluxo constante transformaria cada um de nós num outro homem, faz lembrar os que não retêm nem acalentam o passado na memória, mas permitem que ele se esvaia, tornando-se dessarte vazios e empobrecidos, dia por dia, e dependentes do amanhã, como se tudo quanto ocorreu ontem e anteontem não tivesse ocorrido ou fosse destituído de importância para eles.»

Plutarco, in «Do Contentamento»

Nota: já se publicou a sua biobibliografia.



Publicado por Violeta Teixeira em 28/11 às 01:37 PM
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«A PALAVRA E A LÁGRIMA SÃO GÉMEAS»

Já não molho
Os dedos na tinta,
Mas nas lágrimas
Que não choro.

Todas as palavras
Sabem ao sal
Que me coalha a alma.

Saiba que aprendi com
Nizzar kabbani, poeta
Sírio,« que a palavra e a
Lágrima são gémeas».

Atente, por isso, no alerta
Que lhe lanço: não me roce
A língua nos lábios
Destes poemas.

Violeta Teixeira, inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 28/11 às 01:24 PM
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Domingo, 26 Novembro, 2006

«O ESPAÇO PÚBLICO»

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal).
O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.

José Gil, in ‘Portugal Hoje - O Medo de Existir’
José Gil (Muecate, Moçambique 1939) é um filósofo e ensaista português. Os seus trabalhos são em língua francesa e portuguesa. Estudou em França, nomeadamente com o filósofo Gilles Deleuze. Leciona filosofia na Universidade Nova de Lisboa e no Colégio International de Filosofia (Collège international de Philosophie) em Paris.
Obras
• 1983: La Crucifiée, Éditions La Différence.
• 1984, 1991 pour la deuxième édition: La Corse entre liberté et terreur - Étude sur la dynamique des systèmes politiques corses, Éditions La Différence.
• 1985: Métamorphoses du corps [As Metamorfoses do corpo, 1980], Éditions La Différence.
• 1988: Fernando Pessoa ou la métaphysique des sensations [Fernando Pessoa ou A Metafisica das Sensações, 1988], Éditions la Différence.
• 1988: Corpo,Espaço e Poder, Litoral Edições
• 1990: Cimetière des Plaisirs [Cemitério dos Desejos, 1990], Éditions La Différence.
• 1994: O Espaço Interior, Presença
• 1994: Os Monstros, Quetzal
• 1995: Salazar: a Retórica da Invisibilidade, Relógio D’Água Editores
• 2001: Movimento Total - O Corpo e a Dança, Relógio D’Água Editores
• 2003: A Profundidade e a Superfície - Ensaio sobre o Principezinho de Saint-Exupéry, Relógio D’Água Editores
• 2004: Portugal, Hoje: O Medo de Existir, Relógio D’Água Editores
• 2005: Sem Título-escritos sobre Arte e Artistas, Relógio D’Água Editores

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 26/11 às 08:16 PM
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FALECEU MÁRIO DE CESARINY

"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda”, afirmou em “Autografia”.

Poeta e pintor tinha 83 anos( nasceu a 9 de Agosto de 1923, em Liboa)
Morreu, hoje, Mário Cesariny de Vasconcelos
26.11.2006 - 11h53 Lusa, PUBLICO.PT

O poeta e pintor Mário Cesariny, principal representante do surrealismo português, morreu esta madrugada em sua casa, em Lisboa, aos 83 anos.
O corpo do escritor, falecido cerca das 05h30, deverá seguir para a Igreja de Santo Condestável e o funeral realiza-se amanhã, pelas 14h00, informou à Lusa a sua governanta.

Cesariny destacou-se pela produção artística variada. Pela pintura, colagem, poesia, humor e música passaram as mãos irrequietas e experimentalistas do artista.

“Mário Cesariny é antes de tudo um ser superior, o ser mais admirável que eu conheci”, comentou, comovido, o amigo Carlos Cabral Nunes, galerista, em declarações à rádio TSF.

Carlos Cabral Nunes salientou que, apesar da perda, “fica uma obra admirável de todos os pontos de vista”. “Não tenho memória de alguém que tivesse, em tantas áreas, tanta qualidade e tanta genialidade”.

O editor do poeta e pintor Mário Cesariny, Manuel Rosa, realçou hoje que “ele ocupa um lugar central na poesia portuguesa do século XX”, mas “foi mais que um poeta”.

“Cesariny foi o maior representante do surrealismo em Portugal e tem também um trabalho muito importante ao nível das artes plásticas, tendo ganho há dois anos o Grande Prémio de Pintura EDP”, lembrou.

Expoente do surrealismo

Mário Cesariny nasceu em1923 em Lisboa e começou o seu percurso na área do neo-realismo. Pintor e poeta, frequentou o Liceu Gil Vicente, o primeiro ano de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e a Escola de Artes Decorativas António Arroio, além de ter estudado música com Fernando Lopes Graça.

Quando partiu para Paris, onde estudou na Academia de La Grande Chaumière, teve um encontro que marcaria a sua vida e obra. André Breton, fundador do movimento surrealista francês, entrou na vida de Cesariny em 1947 e com ele o surrealismo. Quando regressou a Lisboa, Mário Cesariny já integrava o Grupo Surrealista de Lisboa e o movimento tê-lo-ia daí em diante como um dos seus principais embaixadores portugueses.

O Grupo Surrealista de Lisboa era formado por António Pedro, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Marcelino Vespeira, João Moniz Pereira e Alexandre O’Neill e servia para protestar contra o regime político vigente em Portugal e contra o neo-realismo.

Mas as cisões no seio do grupo levaram Cesariny a abandoná-lo e a fundar mais tarde o “anti-grupo” Os Surrealistas, com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário-Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom, entre outros.

Em 1949, redigiu, com o grupo, o seu manifesto colectivo, “A Afixação Proibida” e promoveu as sessões “O Surrealismo e o seu Público em 1949” e a I Exposição dos Surrealistas.
Quando terminaram as experiências colectivas do que foi quase “um movimento (mais ou menos) organizado” - 1947/1953 e 1958/1963 - Cesariny prosseguiu sozinho, como fariam alguns dos seus outros companheiros que sobreviveram à aventura surrealista, com uma actividade inesgotável e orientada em várias direcções.

Nas suas obras, adoptava uma atitude estética caracterizada pela constante experimentação e praticou uma técnica de escrita e de pintura muito divulgada entre os surrealistas, designada como “cadáver esquisito”, que consistia na elaboração de uma obra por três ou quatro pessoas, num processo em cadeia criativa , em que cada um dava seguimento, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas uma parte do que aquele fizera.

Primeiro, dedicou-se à pintura de forma ocasional e, a partir de certa altura, de uma forma quase exclusiva, tendo deixando de lado algumas facetas do seu talento: primeiro, deixou de tocar piano, depois, foi a vez da escrita - “secou”, dizia. Quando lhe perguntaram uma vez se não sentia necessidade de escrever, respondeu: “Nenhuma. Para quê? A quem?”.

“A poesia foi um fogo muito grande que ardeu. Depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim. Acabou”, declarou, no documentário “A utografia” (nome de um poema seu), realizado por Miguel Gonçalves Mendes em 2004, o único feito sobre a sua vida e obra.

“Sou um poeta bastante sofrível, um grande poeta numa época em que o te cto está muito baixo”, “sem Anteros, Pessanhas ou Pessoas”, e em que “o surrealismo foi transformado em museu”, afirmou.

Da sua extensa obra literária, destaca-se o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.

Uma poesia primeiro de intervenção contra as poéticas dominantes, no Portugal da década de 1940, através da paródia e do pastiche sarcásticos, uma poesia da tentativa fracassada de reabilitação da realidade quotidiana e depois, sobretudo, uma poesia do amor louco, desejado, vivido ou mal vivido, abandonado ou traído, cantado ou recordado e reinventado de forma elegíaca.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era “um desmesurado desejo de amizade”, em que “o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos”, e “a única coisa que há para acreditar”.
“[É] o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado”, defendia.

Da sua obra, fazem parte títulos como “Corpo Visível” (1950), “Manual de Prestidigitação” (1956), “Pena Capital”, “Nobilíssima Visão” (1959), “Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito” (1961), “A Cidade Queimada” (com arranjo gráfico e ilustrações de Cruzeiro Seixas, 1965), “Burlescas, Teóricas e Sentimentais” (1972), “Primavera Autónoma das Estradas” (1980), “O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Nacionais & Estrangeiras por M.C.V.” (1989) e “Titânia” (1994).

Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: “Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa”.

Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.

Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou “redenção” do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.

“Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda”, afirmou em “Autografia”.

Voz numa pedra

Não adoro o passado

não sou três vezes mestre

não combinei nada com as furnas

não é para isso que eu cá ando

decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz

decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João

nenhuma nenhuma palavra está completa

nem mesmo em alemão que as tem tão grandes

assim também eu nunca te direi o que sei

a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada

sei muito bem que soube sempre umas coisas

que isso pesa

que lanço os turbilhões e vejo o arco íris

acreditando ser ele o agente supremo

do coração do mundo

vaso de liberdade expurgada do menstruo

rosa viva diante dos nossos olhos

Ainda longe longe essa cidade futura

onde «a poesia não mais ritmará a acção

porque caminhará adiante dela»

Os pregadores de morte vão acabar?

Os segadores do amor vão acabar?

A tortura dos olhos vai acabar?

Passa-me então aquele canivete

porque há imenso que começar a podar

passa não me olhas como se olha um bruxo

detentor do milagre da verdade

a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

Mário Cesariny

Publicado por Violeta Teixeira em 26/11 às 02:56 PM
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Sábado, 25 Novembro, 2006

A BELEZA

«- Hoje, durante o meu passeio matinal, vi uma linda mulher… Meu Deus, que linda que ela era! (...)
- Sério, sr. Spinell? Descreva-ma então.
- Não, não posso! Dar-lhe-ia uma imagem imperfeita dela. Ao passar, mal a vi; na verdade, não a vi. Apercebi-me, porém, da sua sombra esfumada, e isso bastou para me excitar a imaginação e guardar dela uma imagem de beleza. Meu Deus, que linda imagem!
A mulher do sr. Klöterjahn sorriu.
- É essa a sua maneira de olhar para as mulheres bonitas, senhor Spinell?
- Sim, minha senhora, é; é muito melhor do que olhá-las fixamente na cara, com uma grosseira avidez da realidade, para no fim ficarmos com uma impressão falsa… »

Thomas Mann, in «Tristão»

Nota: já se publicou a sua biobibliografia.

Publicado por Violeta Teixeira em 25/11 às 04:06 PM
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A BELEZA

Foto da autoria de Fernando Figueiredo (olhares.com)

«As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão.»

André Gide

Nota: já se publicou a sua biobibliografia. 

Publicado por Violeta Teixeira em 25/11 às 10:59 AM
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AS PALAVRAS

São pesadelos
De gaivotas,

Neste porto
De brumas,
De bestas,
De brados,

Onde, mudas,
Se me desaguam
Seus voos
Quebrados,

Definitivas,
Alucinadas,

As palavras.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES (1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira – 1ª edição- 2000), co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 25/11 às 10:52 AM
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Sexta-feira, 24 Novembro, 2006

TOCO-ME. LOGO EXISTO

Edgar Degas

Toco-me, logo existo.
É, por isso, que, quando
A solidão lavra
A acta da desistência,
Ainda aperto com força
Inusitada
As minhas próprias mãos,
E lanço em redor
Dos dedos um olhar
Seco e surpreso.
Mas, ao desapertar, depois,
As mãos, dentro
De cada cova arroxeada,
Em rigor não há nada,
Salvo uma voz cósmica,
Elegíaca e fria,
Ecoando
Nas veias do poema.

Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999

Publicado por Violeta Teixeira em 24/11 às 08:14 PM
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HUMÍLIMA HOMENAGEM

Rómulo de Carvalho ( pseudónimo: António Gedeão) nasceu a 24 de Novembro de 1906 e faleceu a 19 de Fevereiro de 1997

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

Nota: já se publicou a sua biobibliografia.

Publicado por Violeta Teixeira em 24/11 às 07:46 PM
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Quinta-feira, 23 Novembro, 2006

«MILAGRE» DO AMOR

Henry Moore

Para a Sofia e João Guilherme


Aproxima-se o parto.
Nas pernas tremulam águas
Cálidas. Desacerta-se,
Com dor, o pêndulo
Do sangue.

A gestante geme.
Aperta o ventre convulso
Do amor. O rosto, esse, é um
Astro rútilo, no Universo
Expectante e
Cúmplice.

Consuma-se, finalmente,
O parto. Acesos são três rostos,
Colados às vidraças do
Tempo, numa espécie
De rito místico:
Terreno e
Transcendente.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 23/11 às 03:34 PM
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Quarta-feira, 22 Novembro, 2006

TRABALHO/LAZER

Juan Miró

«Agostinho da Silva era um grande filósofo, mas enganou-se - o que não tem rigorosamente mal nenhum, posto que era filósofo. É que não caminhamos para as sociedades do pouco trabalho e do muito lazer (...) a carne para canhão em que assentam os pilares do crescimento económico é constituída pelo conjunto dos indivíduos que vão tendo trabalho mas nunca têm emprego, uma série de operários formiga que carregam o fardo sem descanso nem intervalo e que têm no migrante clandestino o seu espécime mais acabado.»

Luís Fernandes

Fonte: Público

Publicado por Violeta Teixeira em 22/11 às 07:16 PM
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