Sexta-feira, 30 Junho, 2006
A MORTE
morte (museo di potocari)
“O que dizer da morte? Sua aparição foi especialmente espetacular neste meu século.”
Czeslaw Milosz
Olhei pela janela ao raiar do dia e vi
uma jovem macieira, diáfana em meio à luz.
Quando olhei de novo ao raiar do dia
lá estava uma grande macieira carregada
de fruto.
Passaram-se decerto muitos anos, mas
não me lembro do que aconteceu neste
sonho.
Czeslaw Milosz
Nota: a biobibliografia deste Nobel da Literatura já foi publicada em REFLEXÕES.
Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 06:47 PM
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«A ERA DO DESAMPARO»
“É importante ponderar a dificuldade de classificar a si próprio como cristão”, escreveu Czeslaw Milosz (1911-2004); “os obstáculos que encontro derivam da vergonha”. Durante os noventa anos de vida do poeta, a linguagem dos catequistas foi substituída pela fala rigorosa e impessoal da civilização científica, o céu e o inferno desapareceram e o universo se desinteressou. “A era do desamparo”, segundo Milosz. “O que dizer da morte? Sua aparição foi especialmente espetacular neste meu século.” Ele faz a pergunta essencial: Como justificar a fé diante do sofrimento dos inocentes? “Pode Deus existir se Ele é responsável, se consente naquilo que nossos valores condenam como monstruoso? Camus dizia que não. Estamos sozinhos no universo.”
Czeslaw Milosz (1911-2004) romancista e poeta polaco, foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1980. Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se o romance político “A Tomada do Poder”, sobre as tentações e os perigos do totalitarismo, um livro que foi editado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote. “Alguns gostam de Poesia”, uma antologia de poesia polaca contemporânea que reúne dois escritores polacos galardoados com o Nobel da Literatura, juntando-o a Wislava Szymborska (1996), foi outras das obras do poeta apresentadas no mercado português numa edição da Cavalo de Ferro. A sua obra, um dos quatro autores do seu país vencedores do Nobel da Literatura até ao momento, foi sempre distinguida pela abordagem intelectual e emotiva dos piores momentos históricos do século XX. Considerado um dos nomes mais importantes da literatura da Polónia, também era conhecido pelas suas declarações polémicas. Em 1998, ano em que José Saramago foi distinguido com o Nobel da Literatura, o poeta foi um dos poucos antigos galardoados que assumiu não gostar da obra do escritor português. “É uma escrita da moda, cheia de humor, mas esse humor é plano. Confesso que não o suporto”, declarou na altura à PAP. Nascido na Lituânia, no seio de uma família de origem nobre, seguiu uma formação académica ligada ao Direito. Em 1951, iniciou um período de exílio em França, onde foi adido cultural na embaixada polaca em Paris. Assumiu a mesma função em Washington quando, em 1958, emigra para os Estados Unidos, onde anos mais tarde ingressa na Universidade de Berkeley, na Califórnia, para leccionar Línguas e Literaturas Eslavas. Ali permaneceu até 1989, ano em que regressou à Polónia. Faleceu em Agosto de 2004 na sua casa, em Cracóvia.»
Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 06:19 PM
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SEDENTA DE SANGUE
John Germeson
Sedenta de sangue
Apanho-as,
A todas as rosas rubras,
A todas
A papoulas bravas dos campos
Sem ceifa, a todas as pétalas,
Sumarentas,
De um vermelho,
Uivantemente
Vivo.
A todas,
As esmago, com acentos
De silêncio
E de feroz euforia,
E trago-as líquidas,
Para o dentro das veias,
Obsessivamente
Assassinas,
Da minha amantíssima
Poesia.
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 03:38 PM
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Quinta-feira, 29 Junho, 2006
O VALOR DE UM HOMEM
"É curioso notar que quase todos os homens que valem muito têm maneiras simples, e quase sempre as maneiras simples são tomadas por indício de pouco valor.”
Giacomo Leopardi
«Recanati, Marcas, 1798 - Nápoles, 1837
Poeta italiano. De família nobre, educa-se principalmente na biblioteca familiar, onde aprende idiomas antigos e modernos e começa a escrever desde muito jovem. Cerca de 1816 passa da erudição à criação literária. Escreve poesias amorosas e patrióticas cheias de fogo. Pouco a pouco, diversos problemas íntimos e familiares inclinam-no para o pessimismo, presente em Miscelâneas. O seu singular anti-academismo condu-lo a uma recuperação do classicismo. Cerca de 1820 desemboca na verificação da impossibilidade de realizar, nos tempos que correm, uma poesia imaginativa (de criação de imagens), pelo que na sua opinião é apenas possível uma poesia sentimental. A estas reflexões teóricas correspondem as realizações poéticas daqueles anos: os primeiros idílios, um conjunto de poesias em que os objectos e as paisagens adquirem amplas ressonâncias sentimentais com predomínio da evocação e da recordação, da dor pela perda das doces esperanças e pelo passar do tempo: Canti, Idilli, Operette Morali.
Em 1822 parte para Roma, cidade que o desilude. Volta para Recanati e continua engrossando as suas Miscelâneas. Em 1825 muda-se para Milão para preparar uma colecção editorial de clássicos. Depois vai para Bolonha, Florença, Pisa, etc. Prepara uma excelente edição do Cancioneiro de Petrarca. Entre 1828 e 1830 compõe, em Recanati, novos idílios.
Giacomo Leopardi é um dos maiores poetas italianos. A sua obra lírica é muito extensa. Os Canti caracterizam-se por uma atitude pessimista expressa com grandeza de ânimo e uma impecável forma clássica. Na poesia de Leopardi convivem um lirismo romântico e uma visão materialista. O poeta propõe que o homem, ao verificar a fugacidade das coisas, recuse toda a solução consoladora e assuma com lucidez a sua condição.»
Giacomo Leopardi nos leva a visitar abismos
Rodrigo Gurgel
Talvez nenhum outro poeta, em toda a literatura universal, tenha experimentado com igual intensidade, durante a sua existência, a solidão. Essa é a experiência dolorosamente concreta que mais caracteriza a vida e a obra de Giacomo Leopardi, poeta italiano nascido aos 29 de junho de 1798, em Recanati, no então Estado Pontifício das Marcas, cidade sob todos os aspectos atrasada, apartada de qualquer movimento que representasse o progresso, em cujo ambiente semi-rural ainda prevaleciam regras feudais. A completar o quadro de desolação, Leopardi nasceria numa família de aristocratas beatos, reacionária sob todos os aspectos, na qual os menores sinais de sensibilidade ou calor humano eram logo sufocados por uma excepcional frieza.
Aos 10 anos, aquele menino sombrio descobriria a biblioteca paterna e ali se isolaria do mundo nos sete anos seguintes, dispensando mestres e qualquer outra forma de companhia, estudando sozinho até transformar-se num latinista e helenista requintado, autor de sugestivos trabalhos filológicos. Estavam dados, então, os primeiros passos na direção de uma das poesias mais fecundas de toda a literatura.
Da filologia à poesia, e da poesia à filosofia, assim o próprio Leopardi resumiria sua curta - 39 anos - existência: “Da erudição para o belo e do belo para o verdadeiro”.
Morto aos 14 de junho de 1837, sua vida - se a restringíssemos ao que os olhos de seus contemporâneos, assistiram - nada mais foi do que “som e fúria”: a luta para libertar-se de Recanati, a luta para livrar-se na nociva influência paterna, a luta para conseguir empregos, constantes problemas de saúde e uma absoluta solidão. Sua obra - poesia e prosa - é mais do que a sublimação de um drama pessoal. Como bem afirma Marius Pantaloni, da Universidade de Picardia, “o sofrimento de Leopardi, fator incontestável de segregação em relação ao mundo, não é, certamente, a matéria da sua poesia, mas foi para ele um instrumento de conhecimento. No centro de sua personalidade, extremamente sensível, há um núcleo de estoicismo, que recusa todo e qualquer comprometimento com um pensamento espiritualista e consolador”.
A edição brasileira
É a poesia completa e grande parte da prosa de Leopardi que a Editora Nova Aguilar publica agora, em sua Biblioteca Universal, numa luxuosa edição a cargo de Marco Lucchesi, que em sua Introdução Geral - “Carta para Um Jovem do Século XX” - presta uma bela homenagem ao poeta.
Os poemas foram traduzidos por José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Álvares Antunes, Alexei Bueno e Affonso Félix de Souza. A prosa selecionada teve a tradução a cargo de Ana Theresa Vieria, Maurício Dias, Vera Horn e Vilma Barreto de Souza.
A organização da obra foi cuidadosa. Há uma pormenorizada cronologia da vida e obra de Leopardi, e razoável fortuna crítica, de autores europeus e brasileiros, foi reunida. Os textos em prosa - cujas idéias, também segundo Pantaloni, não se apresentam, originalmente, num todo orgânico e coerente, mas que acabam por reafirmar um pessimismo sistemático e radical -, “foram preparados e anotados (todos integrais, menos o ‘Zibaldone’ e as cartas, que comparecem criteriosamente selecionados), não eliminando, sob qualquer pretexto, as notas do punho de Leopardi, quer na edição final, quer do próprio manuscrito”, de acordo com Marco Lucchesi. A bibliografia - de e sobre Leopardi - revela, igualmente, um trabalho de fôlego.
Por fim, num sugestivo apêndice - “Variações Leopardianas” - o editor reúne outras traduções feitas por autores brasileiros, como Vinícius de Moraes e Haroldo de Campos, e textos sobre Leopardi, nos quais se revezam, por exemplo, Raul Pompéia e Murilo Mendes.
Faltou, contudo, explicar melhor ao leitor brasileiro, em geral desconhecedor de Leopardi, o processo de formação da sua poesia, que não nasce pronta, mas atravessa diferentes fases, até alcançar a plenitude.
Do civismo a Aspásia
Para alguns críticos, a poesia leopardiana pode ser divida em períodos, partindo dos anos de 1816 a 1822, quando, em seus primeiros poemas, Leopardi deixa sobressair temas multiformes, que vão desde as canções cívicas - ‘Sobre o monumento de Dante que se preparava em Florença’ -, passando por peças em defesa da virtude - ‘A um vencedor, nos jogos’ - e chegando ao tema da infelicidade dos homens - ‘A última canção de Safo’. Nesse mesmo período, o poeta começaria a se exercitar no que ele chamou de “Idílios”, entre os quais se sobressaem ‘À Lua’ e ‘O Infinito’. Exatamente os dois poemas mais curtos, no entanto os mais perfeitos, frutos de uma “passagem interior, pura poesia da imaginação onde o contato com o real é reduzido ao mínimo”, nos afirma Pantaloni.
A esse período se seguiria o de 1822 a 1828, quando, lutando para sair de Recanati, Giacomo escreveria pouquíssima poesia, dedicando-se aos “Opúsculos Morais”. Foi o tempo que ele chamou de “descoberta da árida verdade”.
A poesia renasceria entre 1828 e 1830, tempo de profundo desespero, no qual os idílios voltam imbuídos de reflexão filosófica, mas nunca destituídos de um lirismo que cultua a juventude, a ternura e o amor, este último sempre experimentado em sonho. ‘À Sílvia’, ‘As lembranças’, ‘A calma depois da tempestade’, ‘Sábado na aldeia’ e ‘Canto noturno de um pastor errante da Ásia’ são os textos marcantes dessa época.
O “ciclo de Aspásia”, formado por poemas inspirados pela florentina Fanny Targini-Tozzetti - ‘O pensamento dominante’, ‘Amor e morte’, ‘Aspásia’ e ‘A si mesmo’ -, representaria a sua fase final, cujo verdadeiro epílogo é ‘A Giesta’ ou ‘A flor do deserto’, poema no qual Leopradi se mostra trágico, opondo a força da natureza à fragilidade do homem, não sem um chamado heroísmo.
Abismos
Poeta da emoção em plenitude, Leopardi não permite que nos aproximemos dele com meias medidas. Sua poesia é feita de extremos e ele nos leva a uma peregrinação inusitada, de abismo a abismo, em, por vezes, sufocantes e extraordinárias quedas, quando sentimos o que pode fazer a opressiva solidão contra o gênio de quem se nega qualquer possível condescendência. Giuseppe Ungaretti, um dos maiores poetas da Itália contemporânea, assim definiu Leopardi: “Por aquele privilégio que torna o homem tanto mais infeliz quanto maior seja ele, vinha-lhe contemporaneamente de sua natureza a capacidade de devassar a alma humana em toda a sua assustadora obscuridade. Somente um Blaise Pascal teve uma dolorosa agudeza similar”.
25.agosto.1996
Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 01:07 PM
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BAGOS GROSSOS DE MAR
Salvador Dali
Donde virá este sopro
De vento salgado?
Bagos grossos de mar
Molham-me os olhos.
Que pássaro me enche
O cérebro de seixos, de
Conchas, de búzios cínzeos?
Que bando de asas
Me faz carícias
De sonatas marítimas?
Que barco me lança
A âncora no cais
Das lembranças esvaídas?
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 07:13 AM
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Quarta-feira, 28 Junho, 2006
ALARGAR HORIZONTES
Retrato por Columbano Bordalo Pinheiro
«Alarga os Teus Horizontes
Por que cidade, e nem há vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!»
«Tal é o vosso ardor é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas
Sobre um só ponto, e a ânsia, o ardente vórtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra à vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-á que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus há dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, vão e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-á que o mar da vida é gota d’água
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais, temendo que não chegue!
Homens! para quem passa, arrebatado
Na corrente da vida, nessas águas
Sem limites, sem fundo - há mais perigo
De se afogar, que de morrer à sede!
De que vale disputar o espaço estreito,
Que cobre a sombra da árvore da pátria,
Quando são vossos cinco continentes?
De que vale apinhar-se junto à fonte
Que - fininha - brotou por entre as urzes,
Quando há sete mil ondas por cada homem?
De que vale digladiar por uma fita,
Que mal cobre um botão, quando estendida
Deus pôs sobre a cabeça de seus filhos
A tenda, de ouro e azul, do firmamento?
De que vale concentrar-se a vida toda
Numa paixão apenas, quando o peito
É tão rico, que basta dar-lhe um toque
Por que brotem, aos mil, os sentimentos?!
Oh! a vida é um abismo! mas fecundo!
Mas imenso! tem luz - e luz que cegue.
Inda a águia de Patmos - e tem sombras
E tem negrumes, como o antigo Caos:
Tem harmonias, que parecem sonhos
De algum anjo dormido; e tem horrores
Que os nem sonha o delírio!
É imensa a vida,
Homens! não disputeis um raio escasso
Que vem daquele sol; a ténue nota,
Que vos chega daquelas harmonias;
a penumbra, que escapa àquelas sombras;
O tremor, que vos vem desses horrores.
Sol e sombras, horror e harmonias
De quem é isto, se não é do homem?!
Não disputeis, curvado o corpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar á mesa…
Que há lugar no banquete para todos:
Que a vida não é átomo tenuíssimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Deserdados, invejam - é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma - a terra firma.
Onde pomos os pés, e o céu profundo
Aonde o olhar erguemos - é o imenso,
Que se infiltra do átomo ao colosso;
Que se ocultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva às paixões, e unge os seios
Com o bálsamo do amor; que ao vício, ao crime,
Agita, impele, anima, e que à virtude
Lá dá consolações - que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lágrimas,
E está na bacanal como na prece!...»
Antero de Quental, in ‘Odes Modernas - Vida’
«Antero Tarquínio de Quental era originário dos Açores, tendo nascido em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842. É possível que a tradição familiar tenha contribuído para a sua inclinação humanística, dado que entre os seus antepassados havia um pregador de mérito, P. Bartolomeu de Quental, e um poeta amigo de Bocage, o avô André Ponte de Quental. Recebeu da família, principalmente de sua mãe, uma educação religiosa e tradicional, que viria a abandonar mais tarde, nos seus aspectos mais visíveis, se bem que tenha conservado até ao fim um fundo de religiosidade.
Frequentou, em 1852, o Colégio do Pórtico, em Ponta delgado, na altura em que Castilho era o seu director. Veio para o continente em 1855, matriculando-se inicialmente no Colégio de S. Bento, em Coimbra, frequentando depois o curso de direito, entre 1858 e 1864. Durante a juventude publicou diversos textos nos jornais “Prelúdios Literários”, “O Académico” e “O Instituto”.
Em 1861 publicou a primeira obra em livro, Sonetos, seguida nos anos seguintes por Beatrice (1863), Fiat Lux! (1863) e Odes Modernas (1865). Em Coimbra foi presidente de uma organização secreta, de contestação à tradição académica, a “Sociedade do Raio”. É também desta época o seu interesse pelas ideias socialistas e pela filosofia. Torna-se um leitor atento de Proudhon e Hegel.»
Bibliografia:
Sonetos, 1861
Beatrice, 1863
Fiat Lux!, 1863
Odes Modernas, 1865
Bom Senso e Bom Gosto, 1865
A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865
Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX, 1865
Portugal perante a Revolução de Espanha, 1868
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, 1871
Primaveras Românticas, 1872
Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa, 1872
A Poesia na Actualidade, 1881
Sonetos Completos, 1886
A Filosofia da Natureza dos Naturalistas, 1887
Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, 1890
Raios de Extinta Luz, 1892
Em 1865 desencadeou uma acirrada polémica com os escritores românticos, ao reagir à carta-prefácio de Castilho que apresentava o livro Poema da Mocidade, de Manuel Pinheiro Chagas. Na sua carta, Castilho criticava os jovens escritores de Coimbra, tendo Antero reagido com o famoso folheto Bom Sendo e Bom Gosto. Num segundo texto, A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, defendia a ideia de que a literatura deveria ter uma função social, por oposição ao lirismo ultra-romântico. Ramalho Ortigão envolveu-se também na polémica ao lado de Castilho, tendo mesmo travado um duelo com Antero. A “Questão Coimbrã” marca a entrada em cena de uma nova geração literária, que pretendia demarcar-se da escola romântica — a Geração de 70.
Concluído o curso, Antero voltou aos Açores por pouco tempo, instalando-se depois em Lisboa (1866). Viveu durante alguns meses em Paris, onde trabalhou como tipógrafo. A sua intenção era conhecer de perto o modo de vida das classes trabalhadoras, movido pelos ideais socialistas que então defendia.
Novamente em Lisboa, colaborou com José Fontana na organização de associações operárias e na divulgação das ideias revolucionárias. Nesta fase publicou regularmente textos de carácter político e literário nos jornais “Diário Popular”, “Jornal do Comércio” e “O Primeiro de Janeiro”. Foi na casa que partilhava com Jaime Batalha Reis que nasceu o chamado grupo do “Cenáculo”, espécie de tertúlia onde se discutiam as novas ideias que chegavam de França.
Entre 1870 e 1872, integrou a redacção de jornais de orientação socialista: “A República” e o Pensamento Social”. Em 1872 ajudou a fundar a Associação Fraternidade Operária, que era a representante em Portugal da 1ª Internacional Operária.
Dentro do mesmo espírito de intervenção, participou em 1871 na organização das “Conferências do Casino”, tendo sido o autor de um dos textos mais célebres dessa série — Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos.
Em 1973 o pai faleceu e a herança permitiu a Antero viver nos anos seguintes em desafogo económico. Em 1876 faleceu a mãe. Por essa altura já ele era afectado por crises de depressão que ajudam a explicar o abrandamento da sua actividade política e literária. Em 1875 encontramo-lo a dirigir com Batalha Reis a “Revista Ocidental”. Os anos seguintes são de pessimismo e desilusão, bem evidentes nos Sonetos Completos (1886).
Em 1881 instalou-se em Vila do Conde e procurou assegurar a educação das filhas de Germano Meireles, após o falecimento do amigo. Os anos seguintes foram de relativa calma, depois da agitação que a depressão lhe trouxe.
Em 1890 presidiu à Liga patriótica do Norte, um dos movimentos nacionais de reacção ao ultimato inglês, que obrigava Portugal a renunciar à ocupação das terras situadas entre Angola e Moçambique. É provável que a constatação do estado de decadência a que o país chegara tenha contribuído para agravar a sua tendência crónica para a depressão. Foi neste ano que publicou na “Revista de Portugal”, dirigida por Eça de Queirós, um dos textos mais importantes da filosofia portuguesa — Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX.
No ano seguinte, regressou aos Açores, suicidando-se a 11 de Setembro (1891).»
Obras consultadas:
Breve História da Literatura Portuguesa, Texto Editora, Lisboa, 1999
«Está ligado à poesia realista e simbolista com as Odes Modernas, 1865, que se integram no programa de modernização da sociedade portuguesa desenvolvido pela Geração de 70, à qual pertence, mas é nos Sonetos Completos, 1886, que o melhor da sua poesia emerge, cruzando o simbolismo de timbre ainda romântico com a poesia de ideias e com a reflexão filosófica, na expressão de conflitos íntimos e sociais que pessoalmente o levarão ao suicídio.»
A tristeza do tempo! O espectro mudo
Que pela mão conduz… não sei aonde!
- Quanto pode sorrir, tudo se esconde…
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -
Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!
«Odes Modernas»
Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 06:32 PM
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A LOUCURA
A loucura é o sonho de uma única pessoa. A razão, é sem dúvida, a loucura de todos
André Suarés
André Suarès, poète français né à Marseille en 1868 et mort en 1948. Il a, entre autres, écrit un ouvrage du nom de Marsiho à Paris en 1931. Il y confie ses sentiments pour sa ville natale.
Il fut, à partir de 1912, l’un des quatre “piliers” de la NRF (avec Gide, Claudel et Val
Bibliographie
• Images de la Grandeur, 1901
• Sur la mort de mon frère, 1904
• Marsiho, Jeanne Laffitte, 1999, ISBN 2734807092
• Voyage du condottiere, LGF - Livre de Poche, 1996, ISBN 2253932590
• Andre Gide - André Suarès. Correspondance. 1908-1920, Gallimard, 2003.
Récupérée de « http://fr.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Suar%C3%A8s »
Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 12:39 AM
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SOU UMA LOUCA
Courbet
Levem-me daqui! Levem-me
Para um serviço de urgências!
Entreguem-me a um psiquiatra
Tão lúcido e tão louco, como quem
Vos grita que a levem daqui.
Merde! Não suporto a vossa suposta
Normalidade. Hipócrita! A vossa lágrima
Insípida, a vossa postura seríssima!
Cansei das vossas fúrias mansas, feitas
De indulgência conformada e confortante.
Basta! Basta! Sou, socialmente, uma louca
Perversíssima. Levem-me daqui! Levem-me,
Sem demoras complacentes! Internem-me numa
Clínica, de cujas janelas não veja o vosso Sol sensato!
Exijo um Sol de sangue, um Sol que me prive do frio
Gélido do vosso comportamento de rebanho dócil!
Sim! Já vos disse! Basta! Merde! Não me peçam
Que não grite! Que não provoque escândalos!
Levem-me daqui! Urgentemente! Não me toquem!
Não sou quem suporte a domesticação do seu
Pretenso mal. Grito! E grito! Grito até que me não
Apeteça! Grito o ódio à vossa imbecil urbanidade!
Antes, me faça ser um caranguejo, com bom senso,
Alisando areais enlouquecidos pela fúria do vento.
In Violeta Teixeira, LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 12:01 AM
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Terça-feira, 27 Junho, 2006
PRAZER EM SER ESQUECIDO
Mira Reisberg
“Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar”
Ernesto Sampaio
Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 06:52 PM
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OFENSA
«Quanto mais gosto de quem ofende, mais sinto a ofensa.»
Jean Racine
«Jean Racine naît le 22 décembre en 1639 à La Ferté-Milon (Aisne), issu d’une famille, de petits notables provinciaux, liée aux Jansénistes de Port-Royal. En 1641, après le décès de leurs parents, Jean et sa sœur sont pris en charge par leurs grands-parents
Le jeune garçon est éduqué à titre gracieux par les maîtres des Petites Écoles dans les collèges jansénistes de Beauvais et d’Harcourt à Paris. Cette formation intellectuelle lui assurera Port-Royal. Il noue certaines relations qui lui seront utiles dans sa carrière.
En 1659, il rencontre Jean de La Fontaine. L ‘année suivante son Ode à la nymphe de la Seine à la reine remporte un véritable succès. En 1663, il se trouve à Paris sous la protection de son cousin. Passionné pour la littérature, il songe déjà au théâtre. Il s’établit donc à Paris et décide de devenir auteur. Il compose une Ode sur la convalescence du roi qui lui fait obtenir l’année suivante une pension qu’il conservera jusqu’à sa mort.
Racine réussit à faire accepter par Molière sa tragédie La Thébaïde ou Les Frères ennemis (1664). L’année suivante, Alexandre le Grand connaît une meilleure fortune qui encourage sans doute le poète à enlever sa tragédie à Molière pour la confier aux « grands comédiens ». En rappelant la condamnation traditionnelle du théâtre par l’Église et le peu d’estime pour les auteurs dramatiques, Racine se brouille avec Port Royal, se positionnant ainsi en défenseur du théâtre.
Andromaque est représentée à l’hôtel de Bourgogne en 1667. Douze années durant, Racine connaît une suite ininterrompue de succès C’est une véritable gloire. Avec Britannicus en 1669 et Bérénice (1670), c’est à Corneille cette fois que Racine oppose une formule renouvelée de tragédie à sujet romain.
En 1673, il entre à l’Académie Française et devient l’ami de Boileau. À 37 ans, Racine renonce au théâtre pour occuper la charge d’historiographe du roi. En 1677, il épouse Catherine de Romanet. Réconcilié avec ses anciens maîtres de Port-Royal, il mène dès lors une vie dévote, en grande partie consacrée à l’éducation de ses sept enfants. Toutefois, sur la demande de Mme de Maintenon, il écrit encore deux pièces à thèmes bibliques pour les jeunes filles de l’école de Saint-Cyr: Esther (1689) puis Athalie (1691). Mais le parti dévot parvint à dissuader Mme de Maintenon de faire jouer Athalie hors de Saint-Cyr.
Durant les dernières années de sa vie, il se tourne de plus en plus vers Port-Royal, persécuté, rédigeant dans le secret son Abrégé de l’histoire de Port-Royal. En 1690, Il reçoit la charge de gentilhomme ordinaire de la chambre du Roi, ce qui lui donne ainsi un rang important à la cour. En 1696, il devient conseiller-secrétaire du Roi. C’est la consécration d’une carrière exceptionnelle.
Le 21 avril 1699 il meurt, et est enterré à Port Royal. Ses restes sont transférés en 1711 à Saint-Étienne du Mont.
Bibliographie :
• 1657-1658 : Odes sur Port-Royal et Poésies latines
• 1660 : Ode à la nymphe de la Seine à la reine
• 1663 : Ode sur la convalescence du roi et La Renommée aux Muses
• 1664 : La Thébaïde ou Les Frères ennemis
• 1665 : Alexandre le Grand
• 1667 : Andromaque
• 1668 : Les Plaideurs
• 1669 : Britannicus
• 1670 : Bérénice
• 1672 : Bajazet
• 1673 : Mithridate
• 1674 : Iphigénie
• 1677 : Phèdre
• 1684 : Éloge historique du roi
• 1688 : Hymnes du bréviaire romain
• 1689 : Esther
• 1691 : Athalie
• 1692 : La Relation du siège de Namur
• 1694 : Les Cantiques spirituels
• 1694-1698 : Abrégé de l’histoire de Port-Royal
Bio-bibliographie écrite par Carole Garcia.»
Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 02:56 PM
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SOU A RAIVA
Matisse
Sou a raiva,
A garganta rouca do vento.
Trago, no ventre, corpos
De sereias estranguladas,
E respiro o frémito
Das grandes ressacas
Na crista do ressentimento.
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 02:03 PM
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Segunda-feira, 26 Junho, 2006
AS PALAVRAS
«sem as palavras não existiria nada; só elas dão sentido completo à essência das coisas.»
(in ideias lebres, fenda)
IN MEMORIAM
Ernesto Sampaio
(10/12/35 - 5/12/01)
Tudo existe na sombra
“(...) Em Lisboa, sua terra natal. Sombria e solitária. Ernesto Sampaio, poeta, tradutor, pensador, bibliotecário, jornalista, morreu esta semana, junto dos seus livros e das suas memórias. Em sua casa. A casa que, para este poeta, passou a ser “lá longe onde nascem os lobos”. (...)
A morte arrancou-o subitamente, assim como o fizera, no ano passado, à actriz Fernanda Alves, sua mulher. O seu último livro, “Fernanda” (Fenda, 2000) , a que ele chamava “o seu coração empalhado”, é o testemunho dessa morte e de um amor decisivo que foi, do lado dos grandes afectos, o sustentáculo de uma vida: “Estar vivo é acordar todas as manhãs no inferno (...) A recordação de um só dia contigo torna inúteis o labor e o prazer de todos os dias que me restam viver”. A morte dela não pode deixar de estar associada a este final de vida de Ernesto. (...)
Ernesto Sampaio foi um dos grandes teóricos do surrealismo, embora a sua obra seja curta e o seu temperamento tenha sido discreto. Disse ele, numa entrevista ao PÚBLICO (12-10-93): “Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar”.
Este desejo de estar à parte, numa espécie de não visibilidade, tornou-o pouco conhecido dos leitores, mas um nome indispensável para o conhecimento das margens da literatura portuguesa contemporânea, ao lado, por exemplo, de Cesariny, Herberto Helder, Ângelo de Lima ou António Maria Lisboa. O próprio Herberto antologiou-o na sua obra “Edoi Lelia Douro” ("Assírio e Alvim”, 1985) e escreveu sobre ele: “As reflexões sensíveis deste autor, os seus poemas - meditações ou como se lhes queira chamar - são dos textos mais agudos e corajosos que entre nós se escreveram, na modernidade, dentro da e sobre a ‘experiência poética’”.
(...) O que disse Ernesto, de Fernanda, pode ser dito agora dele, pela suas próprias palavras: “É uma planta que continua a florescer depois de ter sido arrancada”. [ Ernesto Sampaio: A morte solitária de um poeta - Texto de Rui Ferreira e Sousa, in Público 07/12/2001
“Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar”
“O amor não admite a menor restrição: tudo ou nada, sendo o tudo a vida e o nada a morte"
“Ernesto Sampaio nasceu em Lisboa em 1935. Considera a sua terra natal horrível, infestada de provincianos, de bimbos criminosos, mas mesmo assim, pelo menos a Ocidente, nunca viu outra melhor.
Infância e adolescência um tanto pasmadas: foi quase sempre último da classe até que de repente passou a ser o primeiro. Nesse mesmo ano abandonou os estudos e partiu à aventura. Voltou arrependido.
Depois como toda a gente, aceitou a canga do trabalho e deixou-se esticar pela roda infatigável do hábito e da rotina: foi actor, bibliotecário, jornalista [&ETC, DN, DL, Público], professor do ensino secundário, entre outras desvairadas profissões [foi tradutor de Artaud, Breton, Péret, Arrabal, Ionesco, Thomas Bernhard, Arthur Adamov, Walter Benjamin, Oscar Wilde, Eliot, etc] mas agora deixou-se disso. Ninguém sabe de que vive, nem sequer ele próprio, embora viva bem …” [in Feriados Nacionais, Fenda, 1999]
[Bibliografia: Luz Central (1957); Para uma Cultura Fascinante (1958); Antologia do Humor Português (1964); A Procura do Silêncio (1986); O Sal Vertido (1988); Fourier (1996); Feriados Nacionais (1999); Ideias Lebres (1999); Fernanda (2000)]
"Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar"
©2002 Bibliomanias/In Memoriam de Ernesto Sampaio
Deitados lado a lado, envoltos nas fadigas do dia.
Paisagem fresca e calma onde passam histórias irrealizáveis, o sono
repousava sobre nós.
Nenhuma espada precisava de nos separar.
Um peso delicioso, pesando na minha perna, despertou-me.
Reconheci o teu pé.
Soube então, por um homem e uma mulher que se conhecem, o que
era estar deitado lado a lado.
Ernesto Sampaio - in «Fernanda»
Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 10:18 AM
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ABISMO-ME
http://www.momgallery.com/.../ MENASSA%202002.htm
Abre-se-me, súbito, um abismo
Aspérrimo. Abismo-me na vertigem,
De um branco árctico, e oiço o grito
Imperativo do heroísmo. Sonhos não os há,
Para serem esquecidos. Um astro furtivo
Acende a queda. Aquece. Resplandece.
O sangue veste os seixos dóceis
Do leito. Sapos saltam de pedra em pedra,
Emudecidos. Têm, nas patas, respingos
Purpurinos, e a água é uma alva ausência,
O que faz, no absurdo, todo o sentido.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 02:27 AM
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Domingo, 25 Junho, 2006
A POESIA
La poésie se fait dans un lit comme l’amour
Ses draps défaits sont l’aurore des choses
La poésie se fait dans les bois
Cela ne se crie pas sur les toits
Il est inconvenat de laisser la porte ouverte
Ou d’appeler des témoins
L’acte d’amour et l’acte de poésie
Sont incompatibles
Avec la lecture du jounal à haute voix
La chambre aux prestiges
Non messieurs ce n’est pas la huitième chambre
Ni les vapeurs de la chambrée un dimanche soir
L’étreinte poétique comme l’étreinte de chair
Tant qu’elle dure
Défend tout échappée sur la misère du monde
A poesia como o amor faz-se na cama
Seus lençóis desfeitos são a aurora das coisas
A poesia faz-se nas matas
Isto não se apregoa aos quatro ventos
Não é conveniente deixar a porta aberta
Ou chamar testemunhas
Acto de amor e acto de poesia
São incompatíveis
Com a leitura do jornal em voz alta
A câmara dos sortilégios
Não cavalheiros não é a oitava Câmara
Nem os vapores da camarata ao domingo à noite
O abraço poético como o abraço carnal
Enquanto dura
Impede toda a fugida sobre a miséria do mundo
(trad. Ernesto Sampaio)
Publicado por Violeta Teixeira em 25/06 às 11:26 PM
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ARTISTA
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O Mundo Nunca Se Vê de Modo Objectivo
O que a arte nos ensina não é puro discernimento, é a relação mais profunda de nós próprios com o mundo, é verdadeiramente o «ver». Se dizemos que um Eça nos reinventou tal mundo, dizemos que outros artistas eram antes dele responsáveis pelo modo como o víamos. E há sempre um modo de ver, que é sempre um mundo estético. Porque o mundo se não vê numa estrita e impossível dimensão «objectiva»: um objecto não nos é nunca neutro, puramente indiferente. O «novo realismo» francês (de um Butor, Robbe-Grillet, de outros) por mais que se pretenda confinado ao «objecto» (como em Robbe-Grillet) não anula a presença do «sujeito». Uma visão estritamente «objectiva» seria ainda sentida como tal… Mas acontece que uma forma «nova» de ver acaba por assimilar-se àquilo mesmo que somos, tendendo a identificar-se com o que julgamos a nossa «natureza».
A presença do artista esquece-se, como se o artista fôssemos nós - e um artista inconsciente. E é só ao choque de uma visão original que nós despertamos para uma visão diferente e sentimos que é diferente essa visão: consubstanciada connosco, ela será de novo nossa.
A mesma recuperação de uma visão original se opera na própria recuperação de uma obra de arte: a visão do mundo realizada pode passar-nos despercebida. É a recuperação dessa visão que define a descoberta de um artista esquecido - e, através dele, do mundo que nos reinventara.
Vergílio Ferreira, in ‘Espaço do Invisível I (Vida, Arte)’
in O CITADOR
Nota: a biobibliografia de Virgílio Ferreira já foi, aqui, publicada.
Publicado por Violeta Teixeira em 25/06 às 10:11 AM
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