Domingo, 30 Abril, 2006

A VIDA DO ARTISTA

«Embora o artista em todos os períodos da sua vida permaneça mais próximo da infância, para não dizer mais fiel do que o homem especializado na realidade prática, muito embora se possa afirmar que ele, ao contrário deste último se mantém continuamente no estado sonhador e puramente humano da criança brincalhona, o caminho que transpõe a partir dos primórdios intactos até às fases tardias, jamais imaginadas do seu devir, é infinitamente mais longo, mais aventuroso, mais emocionante para o espectador, do que o do homem burguês, para o qual a reminiscência de também ter sido criança em outros tempos nunca fica tão prenhe de lágrimas.»

Thomas Mann, in ‘Doutor Fausto’


«Thomas Mann (6 de Junho de 1875 - 12 de Agosto de 1955) foi um romancista alemão, considerado por alguns como um dos maiores romancistas do século XX, tendo recebido o prémio Nobel da Literatura em 1929. Foi o irmão mais novo do romancista Heinrich Mann e o pai de Klaus, Erika, Golo (aliás Angelus Gottfried Thomas), Monika, Elisabeth e Michael Mann.
Notas Biográficas
Filho do comerciante Johann Heinrich Mann e da brasileira Júlia da Silva Bruhns, nasceu em Lübeck, uma cidade do norte da Alemanha, onde mais de 90% da população é protestante. A família de Thomas Mann detinha ali um negócio há várias gerações.

Em 1892 (quando tinha 17 anos) morre o seu pai, com o que os negócios da família são abandonados. No ano seguinte, ele escreve alguns textos em prosa e artigos para a revista “Der Frühlingssturm” (a tempestade de Primavera) que ele co-edita. Na mesma época, apaixona-se por Wilri Timppe, filho de um de seus professores. Anos mais tarde, inspiraria-se em Timppe para criar Pribslav Hippe, personagem de “A Montanha Mágica”.
Em 1894 (com 19 anos), junta-se à mãe em Munique, cidade católica do sul da Alemanha. Júlia tinha mudado para Munique com o resto da família um ano antes e se instalado no bairro boêmio de Schwabing. Rapidamente, a Senhora Secretário de Estado Mann tornou-se uma agitadora cultural e oferecia saraus literários e festas em sua casa.
Em Munique, Mann fez um estágio não remunerado numa sociedade de seguros, mas acabou por abandonar esta atividade em 1895, tornando-se escritor livre.
Entre 1896 e 1898, Thomas Mann tem uma longa visita a Palestrina, Itália, de visita ao seu irmão mais velho Heinrich Mann, também ele um romancista e que se tornou famoso mais cedo do que Thomas. Thomas acompanha o irmão nos seus passeios a Roma e por outros lugares da Itália. Thomas Mann começou a trabalhar no manuscrito de “Buddenbrooks” em Itália. De volta a Munique, tornou-se um dos editores do jornal satírico-humorístico “Simplicissimus”.
Por essa época, apaixonou-se por Paul Ehrenberg, um amor conturbado e não correspondido, mas que definiria mais tarde como a “experiência central de seu coração”. Resolve servir o exército, mas se arrepende. A família intervém e corrompe um médico para conseguir afastá-lo por falsos problemas de saúde.
Em 1901 é editado “Buddenbrooks”. Thomas Mann torna-se famoso. Curiosamente, o editor (Fischer Verlag) tentou convencer Thomas Mann a encurtar o livro. Thomas Mann não assentiu e o livro foi publicado na íntegra. Em jeito de retrospectiva, Thomas Mann disse que julgava que o livro iria passar despercebido e seria possivelmente o fim da sua carreira literária. A realidade foi bem diferente, como ele conclui com ironia.
A 11 de Fevereiro de 1905, casou-se com Katia Pringsheim, pertencente a uma proeminente e secular família judia de intelectuais. Katia era neta da activista pelos direitos da mulher Hedwig Dohm. Nos anos seguintes nascem seus filhos Erika, Klaus, Golo (na verdade Angelus Gottfried Thomas), Monika, Elisabeth e Michael.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Mann entra em conflito com o irmão Heinrich Mann. Não se irão encontrar por alguns anos. Thomas acolheu com agrado a entrada da Alemanha na guerra. Tomava-se por patriota. Defendeu a política do Kaiser Guilherme II, em oposição directa a Heinrich Mann, que se via do lado da França e da “Civilization” (termo de Thomas). Thomas Mann chegou mesmo a penhorar a casa que possuia em Bad Tölz em 1917 a favor do esforço de guerra. A mãe, Júlia da Silva Bruhns, escreveu aos irmãos tentando amenizar o conflito. A perspectiva de Thomas Mann ao longo deste período encontra-se sumarizada no romance “A montanha mágica”, escrito entre 1912 e 1924.
Em 1929, Thomas Mann torna-se ainda mais famoso, ganhando o prémio Nobel da Literatura. O juri justifica-se aludindo a Buddenbrooks. Nenhuma menção a “A montanha mágica”, romance em que o escritor revela simpatias democráticas.
Emigrou da Alemanha Nazista para Küsnacht, próximo a Zurique, Suíça, em 1933, o ano da chegada ao poder de Hitler. Durante o regime nazista, o jornal Völkischer Beobachter (Observador Popular) publicava as chamadas listas de expatriados. Os nomes de Thomas Mann, sua mulher e seus filhos mais novos constavam da lista número 7. Dos mais velhos – Erika e Klaus – já havia sido retirada a cidadania alemã.
Após ter perdido a nacionalidade alemã a 2 de dezembro de 1936, Thomas Mann permaneceu na Suíça até 1938, mudando-se então para os Estados Unidos. Inicialmente, trabalha como convidado em Princeton, mas o ambiente acadêmico o entediava. Assim, decide mudar para Pacific Palisades, California, EUA, em 1941. Em 1944, obteve a cidadania americana. Tornou-se uma figura política reconhecida e consta que Roosevelt chegou a cotar seu nome para assumir o governo alemão no pós-Guerra.
Diante da perseguição aos intelectuais emigrados impetrada em meio ao MacCarthismo, Mann retornou à Europa em 1952. Viveu em Kilchberg, próximo a Zurique, na Suíça, até à sua morte, em 1955.

A obra de Thomas Mann


Thomas Mann ganhou repercussão internacional, aos 26 anos, com sua primeira obra, Os Buddenbrooks (Buddenbrooks), um romance que conta a história de uma família protestante de comerciantes de cereais de Lübeck ao longo de três gerações. Fortemente inspirado na história sua própria família, o romance foi lido com especial interesse pelos leitores de Lübeck que descobriram ali muitos traços de personalidades conhecidas. A publicação deste livro valeu a Thomas Mann uma reprimenda de um tio, que o acusou de ser um “pássaro que emporcalhou o próprio ninho”.
Thomas Mann é também um romancista analítico, que descreve como poucos a tensão entre o carácter nórdico, protestante, frio e ascético (características típicas da sua Lübeck natal) e os personagens mais rústicos, simples, bonacheirões, das zonas católicas, de onde se destaca o senhor “Permaneder”, o paradigma do Bávaro de Munique, em “Os Buddenbrooks”. Esta tensão interior tornou-se-lhe patente durante a sua estadia em Palestrina, Itália, onde visitava o irmão, e onde começou a escrever os “Buddenbrooks”. Thomas Mann viveu entre estes dois mundos, tal como o irmão. Por um lado a origem familiar e o ambiente da ética protestante de Lübeck, por outro lado a voz interior e a influência de sua mãe brasileira, que o faziam interessar-se menos pelos negócios e mais pela literatura. A influência da mãe acabou por levar a melhor. Thomas Mann via na família Buddenbrook um exemplo de uma família em decadência, onde os descendentes não saberiam levar avante o negócio que herdaram. Não sabia, no entanto, que, ao publicar “Os Buddenbrooks” estava, não só a enterrar definitivamente a linha “comerciante” da sua família mas, também, a estabelecer-se como um escritor de renome. Ironicamente, os seus filhos iriam manter esta nova tradição (literária) da família, em especial Klaus e Erika.
No romance A Montanha Mágica ("Der Zauberberg"), publicado pela primeira vez em 1924, Thomas Mann faz um retrato de uma Europa em ebulição, no eclodir da Primeira Guerra Mundial.
Escreveu romances, ensaios e contos. Psicólogo penetrante e estilista consumado, sua extensa obra abrange desde contos até escritos políticos, passando por novelas e ensaios. Nobel de Literatura (atribuído pel’ Os Buddenbrooks), em 1929, Thomas Mann é autor de clássicos da literatura como Morte em Veneza & Tonio Kröger, Confissões do impostor Felix Krull, As cabeças trocadas e José e seus irmãos.
Muitos dos seus romances lidam com a tensão entre a veia artística, rebelde e funesta por um lado, e a boa-cidadania, cumpridora da lei, das tradições e bons costumes.»
Sinopse Bibliográfica
• Der kleine Herr Friedemann (1898)
• Os Buddenbrooks (1901) = Buddenbrooks - Verfall einer Familie
• Tonio Kröger (1903)
• Sua Alteza Real (1909) = Königliche Hoheit
• Morte em Veneza (1912) = Der Tod in Venedig
• Betrachtungen eines Unpolitischen (1918)
• The German Republic (1922) = Von deutscher Republik
• A Montanha Mágica (1924) = Der Zauberberg
• Disorder and Early Sorrow (1926) = Unordnung und frühes Leid
• Mario und der Zauberer (1930)
• José e seus Irmãos (1933-43) = Joseph und seine Brüder
o As Histórias de Jacó (1933)
o O Jovem José (1934)
o José no Egito (1936)
o José, o Provedor (1943)
• Das Problem der Freiheit (1937)
• Lotte in Weimar or The Beloved Returns (1939)
• As Cabeças Trocadas (1940) = Die vertauschten Köpfe - Eine indische Legende
• Doutor Fausto (1947) = Doktor Faustus
• Der Erwählte (1951)
• Confissões do Impostor Félix Krull (1922/1954) = Bekenntnisse des Hochstaplers Felix Krull. Der Memoiren erster Teil (não terminado)

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 30/04 às 02:59 PM
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CÂNTICO DOS CÂNTICOS

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«Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.»

In Salomão, «Cântico dos Cânticos»

«Salomão sucedeu a seu pai, Davi, no trono de Israel, em cerca de 997 a. C.. Filho de uma das mulheres de Davi, Salomão não era o herdeiro natural ao trono, o que levou a intrigas e inimizades, e um golpe de estado organizado por sua mãe Bate-Seba, o sacerdote Zadoque e o profeta Natã, com o consentimento de Davi, levou Salomão a tomar o poder de seu irmão Adonias. Ao tomar o poder, Salomão eliminou drasticamente seus opositores, ordenando a morte dos que antes apoiavam seu irmão.
Salomão organizou uma corte dispendiosa, cuja manutenção exigia pesados impostos ao povo. Também organizou uma nova estrutura administrativa, dividindo as terras em províncias governadas por administradores eleitos, e não mais pelos líderes tribais. Também contruiu o Templo de Jerusalém, eliminando o uso do Tabernáculo. Diferente de seu pai, Salomão não era um líder guerreiro. Mostrou, de acordo com a tradição, uma grande habilidade no desenvolvimento do comércio e da indústria, o que levou à um progresso considerável das cidades israelitas, mas que à cada dia aumentavam a carga tributária sobre a população e aumentou o uso de trabalho escravo. Além disto, o uso de mão de obra estrangeira passou a conflitar dentro do reino contra a religião javista. A tradição imputa aos casamentos mistos de Salomão a decadência moral do reino de Israel, mas a diferenciação de classes cada dia mais evidente, acabavam por explodir em revoltas e disputas de poder.
Salomão reinou por quarenta anos. Com a morte de Salomão, seu filho Roboão sucedeu-o ao trono. Em vez de ouvir o conselho dos anciãos de Israel e aliviar a carga tributária imposta por seu pai, ele a aumentou, o que levou à divisão da nação de Israel em dois Reinos, o Setentrional (tendo por capital Samaria e por rei Jeroboão), e o Meridional (tendo por capital Jerusalém, e por rei Roboão).

A tradição posterior imputaria à Salomão grande sabedoria e ao seu reinado o status de época áurea. Salomão incentivou as artes e a literatura em seu reinado, e é considerado autor de diversos cânticos, de vários provérbios (alguns catalogados no Livro de Provérbios), obras de botânica e peças diversas (como o Cântico dos Cânticos e a obra de cunho filosófico Eclesiastes). Por isto é considerado dentro da tradição judaico-cristã como o homem mais sábio que já viveu. Diz-se que em seu reinado diversos reis e governantes vinham à Israel fazer perguntas à Salomão, incluindo a rainha de Sabá, que teria engravidado de Salomão, e dado à luz ao primeiro rei etíope Menelik
Durante os séculos posteriores, diversas obras de outros autores eram imputados a Salomão, para dar-lhes valor. Dentro da corrente mística, Salomão é considerado um dos grandes iniciados.

O livro de Cantares, também chamado de Cântico dos Cânticos, Cântico Superlativo, ou Cântico de Salomão, faz parte dos livros poéticos do Antigo Testamento da Bíblia cristã.
Segundo a tradição, foi escrito pelo Rei Salomão.
O livro consiste em um poema escrito em linguagem sensual, por esta razão sua validade como texto bíblico já foi questionada ao longo dos tempos. O poema fala do amor, entre o noivo e sua noiva.
Alguns atribuem essa a relação um sentido metafórico, sendo o noivo Cristo e a noiva sua igreja.

“http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2ntico_dos_C%C3%A2nticos”

Salomão no Islão
Salomão aparece no Corão com o nome de Sulayman (Sulaiman ou Suleiman). O islão considera Salomão como um profeta e um grande legislador da parte de Alá.

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 30/04 às 10:21 AM
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NO SEU PULSAR DE PEDRA

Fotografia da autoria de Fernando Nascimento

Contorço-me,
Meus braços
De polvo, nas
Tuas águas turvas.

Recolho-me,
E lanço-te,
Na pele, respingos,
Negros de apelos.

Nada te move.

As águas, em que
Navega o teu olhar,
Turvas permanecem,
No seu curso
De silêncio.

No seu pulsar de pedra.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 30/04 às 09:58 AM
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Sábado, 29 Abril, 2006

OS REIS CATÓLICOS

«Reis católicos é o nome pelo qual ficou conhecido o casal composto pela rainha Isabel I de Castela e o rei Fernando II de Aragão, que unificaram os reinos ibéricos no país que se tornou Espanha. O seu símbolo conjunto era el yugo y las flechas, numa alusão aos nomes próprios de ambos: Ysabel (grafia antiga) e Fernando. Os reis católicos ficaram tristemente conhecidos pela perseguição implacável que fizeram aos muçulmanos e judeus (ver Decreto de Alhambra) na Península.
O casamento de Isabel I de Castela com Fernando II de Aragão não antevia o sucesso do casal no governo de Espanha. Com efeito, apesar do contributo para a unificação da actual Espanha, a nobreza não era consensual no que respeita à decisão sobre quem deveria ascender ao trono do país: houvera quem preferisse a infanta Joana, prometida a Afonso V de Portugal (que, por isso, também concorria ao trono). Porém, D. Joana era tida como filha ilegítima de Henrique IV de Castela, fruto de uma polémica relação da esposa do rei com um fidalgo.
Assim, Isabel I, meia-irmã do rei, faz-se proclamar rainha de Castela nas Cortes de Valladolid de 1473. Em 1479, Fernando II torna-se rei de Aragão e consuma-se a união dos dois reinos que, porém, ainda não era suficientemente forte, já que era cercado por Portugal, em plena expansão, a França dos Valois, a pequena Navarra e o reino de Granada.
Apesar de aspirações diferentes dos dois reinos — Aragão dedicava-se ao comércio graças aos seus portos dinâmicos, como Barcelona e as suas possessões em Itália, e Castela aspirava afirmar-se na Europa — souberam estes reinos, através de frutuosa diplomacia e propaganda, construir um sólido Estado que, com a sua determinação, soube financiar a odisseia marítima de Cristóvão Colombo, e preparar-se para a grande cruzada iniciada em 722: a expulsão dos muçulmanos do território ibérico.
Para este feito, recorrem a uma rígida fiscalidade que, em 1482 atinge 70% das receitas; recebem o apoio do Papa que lhes permite dispor das somas recolhidas dos fiéis e das ordens militares, e oferece recompensas e indulgências aos cruzados.
Após quatro anos de tréguas, a guerra entre Granada e Castela reacende-se em 1481, embora não passe de breve escaramuças, ofensivas e cercos. Sabe-se que em 1487 se travaram perto de Málaga duros combates, na consequência dos quais cairia a cidade nas mãos dos cristãos. Depois, ao fim de seis meses de cerco, cede Barza e, por fim, na viragem para o ano de 1492, dá-se a rendição de Granada. Cessava assim o domínio árabe na Península Ibérica, com promessas de preservação de direitos aos muçulmanos (que não viriam a ser cumpridas) e a Espanha podia agora concentrar-se na colonização das Américas.
Note-se que, desde então, os Monarcas de Espanha são conhecidos pelo título de Sua Magestade Católica, pelo que, com propriedade, todos os reis que se seguiram a Fernando e Isabel poderiam também ser conhecidos por este título.»

In WIKIPÉDIA

Publicado por Violeta Teixeira em 29/04 às 01:58 PM
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GRANADA

Trabalho fotográfico da autoria de Violeta Teixeira/Pandora
( Palácio de Alhambra)

OS MIL PERFIS DE GRANADA

«Vaga remota da grande inundação árabe, as areias do ocidente varridas pelos ventos da tormenta soprando do sul e do nascente, só o vasto oceano impediu Oqba Ben Nasi de oferecer a Alá as longínquas regiões que poderiam esconder-se por detrás das suas ondas. E o Islão, recentemente revelado, não necessitava ainda de branqueamentos colonais, de “purificações ultramarinas”.
Na maré alta de oito séculos, estabelecidos os fundamentos do poder, os muçulmanos criaram em Espanha um império sem par na terra cristã e ergueram no sopé da Sierra Nevada, na Colina Roja, ou Cerro de la Sabika, barca altiva e eterna rumando a oeste, a cidadela aristocrática de Madina al – Hamra, muralhas altaneiras, fortalezas inexpugnáveis, fronteiras de sensualidade e de opulência, palácios e jardins perfeitos de califas, de sultanas e de odaliscas, convergência de artistas do Norte e dos amantes da poesia e da música do Oriente, assimetria harmoniosa, alternância de luz e de sombras, perspectivas amplas do céu, da serra e da planura, “contemplação de um ambiente de vozes difíceis numa atmosfera que é quase pensamento, onde a poesia da meseta de San Juan de la Cruz se povoa de cedros e de fontes, e se torna possível na mística espanhola esse ar oriental, cervo vulnerado que assoma, ferido de amor, pelo outeiro”.
Na veiga, o velho bairro muçulmano de Hara Alchama apertando-se de encontro à Mezquita Mayor e subindo a colina suave do Albayzín, Granada emergente, mundo de vidas duras de suor, de esterco e de miséria, amanhando a terra dos outros, os olhos sempre postos no chão. Em reverência nascida do medo.
Fronteira avançada do Islão, mas isolada da grande nação árabe por montanhas, mares e desertos, a Granada muçulmana sossobrou ao antiquíssimo projecto cristão de reconquista da terra ao crescente ímpio, fortalecido pela ideia renascentista de que ser mais poderoso é o único método para um povo se proteger face à razão de outro Estado.
Isabel e Fernando, os Católicos, vertebraram a Espanha, unificando-a, a partilha do mar oceano, a raia vaticana de Tordesilhas, tornando possível o périplo do mundo perfeito, o Paraíso das Américas ficando a um passo dali. O reino onde o sol nunca iria esconder-se assumia-se como a maior potência da Terra, e Granada, símbolo da vitória cristã sobre Mafoma, aceitou ser a sua cabeça, a cidade enchendo-se de artistas de toda a parte, levantando obras grandiosas, produto da troca espúria da fé dos conquistadores pelo ouro e pela prata dos índios do paraíso – a catedral massiva, feita quase fortaleza, a Capilla Real, sepulcro belíssimo de suas magestades, os templos de Santa Ana, São Mateus, São Miguel, a Universidade, entre mais, marcas do domínio do hemisfério, mensagens de força expressiva aprofundando o poder do poder.
Belos, mas mortais, os dois mundos de Granada, ideologias invioláveis, a religião construindo molduras imóveis de comportamentos, o alfanje e a fogueira sempre à mão, não curaram da prepotência, da arbitrariedade, da injustiça e do profundo desequilíbrio do ter. De tanto orarem a deus, perderam a dimensão da vida, e a cidade, desaparecido o fausto muçulmano e emurchecido o fanatismo católico, permaneceu encerrada, “túmulo de neve e mortalha ao sol, esqueleto gigante de sultana gloriosa”, entre a veiga – searas e vergéis, olivais de prata, álamos chorosos e lânguidos, ciprestes negros e esguios que se agitam docemente na brisa, a névoa apagando os fundos indefinidos e sonolentos, o dorso de réptil dos montes no horizonte – e os cumes da Sierra, turquesa imensa beijada pela lua, com alma de inverno eterno que uma névoa quase transparente agiganta, “procissões de pinheiros despenhando-se no abismo”, as folhas bailando ao sopro de um vento forte de lendas e de contos de lobos; rios de neve, infância descuidada, juventude inquieta, rugindo nos precipícios, corrida de vertigem em busca da horizontalidade da planura, tristezas antigas do Darro mourisco “onde remam os suspiros”, águas que já não ouvem as harmonias árabes do Allahu akbar do muecin chamando à oração e da guzla dos pátios da Alhambra contorcendo-se ao compasso da flauta, rio de romance, de lírios e de violetas que agora chora no túnel absurdo em que o esconderam, águas do Genil, guardadas por choupos, “rio cristão e trabalhador”, valente e guerreiro, corrente de sangue, a alma hoje parada para regar as rosas, os cravos e os jasmins.
Na curva tranquila de um seio enorme que a Sierra desprendeu dos cumes nevados, a cidade mourisca, morena e quente, a cidade das fontes, magnífica, Albayzín, casario branco aconchegando-se como se um remoinho o tivesse aspirado assim; ruas de “conventos de clausura perpétua”, brancos e ingénuos, torres e cúpulas estriadas, verticais, campanários chãos, cármenes orientais, casa, horta e jardim; vielas tenebrosas, “aqui e ali os ecos de lendas de defuntos e de fantasmas invernais”, o Albayzín fantástico da superstição, dos amuletos, dos signos cabalísticos, das almas penadas, de nigromantes e de bruxas, de prostitutas velhas em maus olhados entendidas, braços caídos, cabelos desgrenhados, abandono à sorte, “crença antiga num destino verdadeiramente muçulmano”; ruas de serenatas e de procissões que sentem as melodias prateadas do Darro e da folhagem sussurrante dos bosques distantes da Alhambra, e sempre ... sempre, o ar prenhe de ritmos ciganos, canções desesperadas, gargantas e guitarras dolentes, blasfémias eternas, orações permanentes.
Vindo não se sabe donde, procela urgente de Maio bético, “um grito que divide a paisagem em dois hemisférios ideais, mais fundo que todos os mares que rodeiam o mundo e que o coração que o cria e a voz que o canta, trino quase de pássaro e de galo na madrugada”. Depois ... o silêncio, impressionante e medido, de onde, quase imperceptível, brota uma melodia tímida e frágil, balbuceio perfeito, ondulação de encanto que se adensa e se perde na linearidade do tempo, que se escapa das mãos e se afasta “até um ponto de aspiração comum e paixão perfeita onde a alma mais dionisíaca não logra desembarcar”, siguiriya gitana, de cor espiritual, poemas de amor e morte, sem paisagem, nascidos da noite, melodia de povos orientais, a pureza primitiva na boca da Pena, a cantadeira, tez morena, que quer e não quer porque pode querer,” sapatos verdes que lhe apertam o coração”, e na guitarra, madeira de barca grega e crinas de mula africana que à noite se transforma em manancial, acordes de fundo comentando a lírica das coplas.
Solitária e pura, Granada não pode sair da sua casa como as cidades do mar e dos grandes rios que viajam e regressam enriquecidas com o que viram. E os ecos da voz que mantém erecto o tronco do cantaor do flamenco, “um falar de coisas de gente espigada e morena, da vida que se abre e se esgota num momento”, só podem erguer-se livres no seu porto natural de estrelas, com eles levando a imagem de fogo da bailadora, “carne toda em carne viva, floresta densa de gestos que são vida e agonia, os dedos pisando a terra com muscular inteireza”, o silêncio da guitarra subitamente devolvendo-a à imobilidade de estátua. Como começara.»

VASCO OLIVEIRA E CUNHA- Professor - Coordenador da ESEV

Publicado por Violeta Teixeira em 29/04 às 01:44 PM
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BELEZA BEBIDA A SÓS

Trabalho fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora
(Catedral em Granada)

Amo as medievas catedrais,
Mas sem um único olhar
Humano fito no divino.

Embebeda-me, a mim, apenas,
A beleza bebida a sós.

E vós, dizei-me, dizei-me
O que sentis, quando lá estais,
Entre rezas e cânticos rituais,
Ou imersos nos silêncios azuis,
Lilases, vermelhos sensuais,
Verdes e rosáceos dos vitrais?

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 29/04 às 01:24 PM
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Sábado, 22 Abril, 2006

SUSPEITO


Marc Chagall

Suspeito.
Trago-o, no choco
Das mãos,
O que me não
Trago.

Apertado,
Contudo,
Com todo o esforço,
Que me não concedo.

Não venha
Algum picanço vermelho
Barulhar-me o bolbo
Embrião
Ingerminado.

Tardam-lhe
A pulsar as veias dos
Pulsos, que não
Ouço.

Mas, no fundo,
Do não sei onde, receio
Que
Um coração bata,
Em silêncio,
Numa espécie de soluço
Leve.

Ténue,
Parece-me
O de um pássaro soterrado.

Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)

Publicado por Violeta Teixeira em 22/04 às 12:03 AM
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Sexta-feira, 21 Abril, 2006

A VIDA

Alexandre de Riquer (1856-1920)

«A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias»

Bertrand Russel

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 04:37 PM
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O CONHECIMENTO E A CERTEZA

«Aquilo que os homens de facto querem não é o conhecimento, mas a certeza.»

«Bertrand Russel nasceu em Walles, Inglaterra, em 1872, produziu uma obra capital em seus 97 anos de vida. Publicou mais de 40 livros, a respeito de temas tão variados como educação, política, história, religião, ética, casamento e ciência. Sua grande contribuição, no entanto, deu-se no campo da lógica matemática e da filosofia analítica, de que foi um dos fundadores. Foi o vencedor, em 1950, do Premio Nobl de Literatura. Russel foi também um pacifista e em 1958 fundou a Campanha pelo Desarmamento Nuclear, chegando a ser preso por suas atividades anti-bélicas. Faleceu em 1970, em Wales. Bertran Russel
Nascido em Walles, Inglaterra, em 1872, produziu uma obra capital em seus 97 anos de vida. Publicou mais de 40 livros, a respeito de temas tão variados como educação, política, história, religião, ética, casamento e ciência. Sua grande contribuição, no entanto, deu-se no campo da lógica matemática e da filosofia analítica, de que foi um dos fundadores. Foi o vencedor, em 1950, do Premio Nobl de Literatura. Russel foi também um pacifista e em 1958 fundou a Campanha pelo Desarmamento Nuclear, chegando a ser preso por suas atividades anti-bélicas. Faleceu em 1970, em Wales.»

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 01:42 AM
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OBRA DE ARTE

«Cartas a um jovem poeta
(Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,»

«Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas.

Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.

Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.

Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça).

Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América.

Texto extraído do livro “Cartas a um jovem poeta”, tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.»

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 12:43 AM
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SÃO…

Jacques Muller («Passants»)

São cerejas, são nêsperas,
São pêssegos silvestres
Pisados nas bordas dos passeios:

Vulvas violadas, pequenos
E grandes lábios mutilados,
Clitóris excisados.

O tudo supura fluídos
Mórbidos, maculando
Os olhos puros do passante.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 21/04 às 12:31 AM
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Quinta-feira, 20 Abril, 2006

« IMPOSSIBILIDADE DE RENUNCIAR»

«Eu decido correr a uma provável desilusão: e uma manhã recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!… Há na minha vida um bem lamnetável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu, se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E, coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros...»

Mário de Sá-Carneiro, in ‘Cartas a Fernando Pessoa’

Mário de Sá-Carneiro
Nascimento: 1890
Morte: 1916
Época: Modernismo

«Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como actor, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911.
Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objectivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espectáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projectar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra.
Depois de algum tempo passado na Quinta da Victória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num Hotel de Nice, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse.
Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte.

Para além das obras já referidas, foi autor da colectânea de contos Princípio (1912), de que se destaca O Incesto, e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959.»

Publicado por Violeta Teixeira em 20/04 às 04:17 PM
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ROMANCISTA E DEUS

«O romancista é, de todos os homens, aquele que mais se parece com Deus: ele é o imitador de Deus.»

Mauriac , François


«Mauriac, François (1885 - 1970) novelista, ensaísta, poeta, dramaturgo, jornalista e prêmio Nobel de literatura em 1952. Ele pertenceu à corrente de escritores católicos franceses e suas novelas, austeras e algo sombrias, são dramas psicológicos na análise da realidade da vida moderna. Seus personagens lutam com dilemas do pecado, graça e salvação.
Mauriac pertenceu a uma família de classe média católica. Estudou na Universidade de Bordeaux e entrou na École Nationale des Chartes em Paris em 1906, que logo deixou para dedicar-se a escrever. Seu primeiro trabalho publicado foi um volume de versos, Les Mains jointes (1909; “Mãos postas"). Seus primeiros romances foram L’Enfant chargé de chaînes ("Um jovem carregado de ferros") de 1913, e La Robe prétexte (""),de 1914.
Le Noeud de vipères ("O ninho das vespas"), de 1932, é geralmente considerado a obra prima de Mauriac. É um drama matrimonial narrando o rancor de um velho advogado contra sua família, sua paixão por dinheiro, e sua conversão final. Neste, como em outros romances de Mauriac, o amor que seus personagens procuram em vão nas relações humanas é preenchido somente no amor de Deus.
Em 1933 Mauriac foi eleito para a Academia Francesa. Em 1938 Mauriac passou a escrever peças teatrais, começando com o sucesso Asmodée, levada ao palco em 1937, na qual o herói é um mau caráter que controla indivíduos mais fracos, um tema repetido em Les Mal Aimés,("Os mal amados"), de 1945.
Mauriac foi também um escritor polêmico. Protestou vigorosamente em 1930, condenando o totalitarismo em todas as suas formas, e denunciando o fascismo na Itália e na Espanha. Durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou com os escritores da Resistance. Após a guerra discutiu temas políticos com vigor, apoiando o General De Gaulle em 1962. Escreveu De Gaulle, em 1964. Na França é considerado o maior novelista francês depois de Marcel Proust.»

R.Q.Cobra

Publicado por Violeta Teixeira em 20/04 às 04:10 PM
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FANTASIO-TE

Fantasio-te.
Dentro do meu dentro.

Apocalipse,
De círculos perfeitos.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co- edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 20/04 às 12:47 AM
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Quarta-feira, 19 Abril, 2006

POESIA

«Não reclamo para mim qualquer privilégio de solidão: só a tive quando ma impuseram como condição terrível da minha vida. E escrevi então os meus livros como os escrevi, rodeado pela adorável multidão, pela infinita e rica multidão do homem. Nem a solidão nem a sociedade podem alterar os requisitos do poeta, e os que se reclamam de uma ou de outra exclusivamente falseiam a sua condição de abelhas que constroem há séculos a mesma célula fragrante, com o mesmo alimento de que o coração humano necessita. Mas não condeno os poetas da solidão nem os altifalantes do grito colectivo: o silêncio, o som, a separação e integração dos homens, todo este material para que as sílabas da poesia se juntem, precipitando a combustão de um fogo indelével, de uma comunicação inerente, de uma herança sagrada que há mil anos se traduz na palavra e se eleva no canto.»

Pablo Neruda, in ‘Nasci para Nascer’

«Pablo Neruda, nascido Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, (Parral, Chile, 12 de Julho de 1904 - Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno, um dos mais importantes poetas na língua espanhola do século XX, e cônsul do Chile na Espanha (1934-1938) e no México.»

Biografia
Pablo Neruda nasceu na cidade chilena de Parral em 12 de julho de 1904. Filho de José del Carmen Reyes Morales, operário ferroviário, e dona Rosa Basoalto Opazo, professora primária, falecida poucos anos depois de seu nascimento. Em 1906 a família se muda para Temuco onde seu pai se casa com Trinidad Candia Marverde, a quem o poeta menciona em diversos textos como “Confesso que vivi” e “Memorial de Ilha Negra” como o nome de Mamadre. Realiza seus estudos no Liceu de Homens dessa cidade, onde também publica seus primeiros poemas no periódico regional A Manhã. Em 1919 obtém o terceiro lugar nos Jogos Florais de Maule com seu poema Noturno Ideal. Em 1921 radica-se em Santiago e estuda pedagogia em francês na Universidade do Chile, onde obtêm o primeiro prêmio da feta da primavera com o poema “A Canção de Festa”, publicado posteriormente na revista Juventude. Em 1923 publica Crespusculário, que é reconhecido por escritores como Alone, Raul Silva Castro e Pedro Prado. No ano seguinte aparece pela Editorial Nascimento seus “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, no que ainda se nota uma influência do modernismo. Posteriormente se manifesta um propósito de renovação formal de intenção vanguardista em três breves livros publicados em 1936: O habitante e sua esperança; Anéis (em colaboração com Tomás Lagos) e Tentativa do homem infinito.
Em 1927 começa sua longa carreira diplomática quando é nomeado cônsul em Rangum, Birmânia. Em suas múltiplas viagens conhece em Buenos Aires a Federico Garcia Lorca e em Barcelo a Rafael Alberti. Em 1935, Manuel Altolaguirre entrega a Neruda a direção da revista “Cavalo verde para a poesia” na qual é companheiro dos poetas da geração de 27. Nesse mesmo ano aparece a edição madrilenha de “Residência na terra”.
Em 1936, eclode a Guerra Civil espanhola, Neruda é destituído de seu cargo consular, e escreve “Espanha no coração”
Em 1945 é eleito senador e obtém o Prêmio Nacional de Literatura.
Em 1950 publica “Canto Geral”, texto em que sua poesia adota uma intenção social, ética e política. Em 1952 publica Os Versos do Capitão e em 1954 As luvas e o vento e Odes Elementares.
Em 1958 aparece Estravagario com uma nova mudança em sua poesia.
Em 1965 lhe é outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã Bretanha.
Em outubro de 1971 recebe o Prêmio Nobel de Literatura.
Morre em Santiago em 23 de setembro de 1973, de câncer na próstata. Postumamente foram publicadas suas memórias em 1974, com o título “Confesso que vivi”
Em 1994um filme chamado O Carteiro e O Poeta conta sua história numa ilha ná Itália

Obra
• Crepusculario. Santiago, Ediciones Claridad, 1923.
• Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Santiago, Nascimento, 1924.
• Tentativa del hombre infinito. Santiago, Nascimento, 1926.
• El habitante y su esperanza. Novela. Santiago, Nascimento, 1926. (prosa)
• Residencia en la tierra (1925-1931). Madrid, Ediciones del Arbol, 1935.
• España en el corazón. Himno a las glorias del pueblo en la guerra: (1936- 1937). Santiago, Ediciones Ercilla, 1937.
• Tercera residencia (1935-1945). Buenos Aires, Losada, 1947.
• Canto general. México, Talleres Gráficos de la Nación, 1950.
• Todo el amor. Santiago, Nascimento, 1953.
• Las uvas y el viento. Santiago, Nascimento, 1954.
• Odas elementales. Buenos Aires, Losada, 1954.
• Nuevas odas elementales. Buenos Aires, Losada, 1955.
• Tercer libro de las odas. Buenos Aires, Losada, 1957.
• Estravagario. Buenos Aires, Losada, 1958.
• Cien sonetos de amor (Cem Sonetos de Amor). Santiago, Ed. Universitaria, 1959.
• Navegaciones y regresos. Buenos Aires, Losada, 1959.
• Poesías: Las piedras de Chile. Buenos Aires, Losada, 1960.
• Cantos ceremoniales. Buenos Aires, Losada, 1961.
• Memorial de Isla Negra. Buenos Aires, Losada, 1964. 5 vols.
• Arte de pájaros. Santiago, Ediciones Sociedad de Amigos del Arte Contemporáneo, 1966.
• Fulgor y muerte de Joaquín Murieta. Bandido chileno injusticiado en California el 23 de julio de 1853. Santiago, Zig-Zag, 1967. (obra teatral)
• La Barcaola. Buenos Aires, Losada, 1967.
• Las manos del día. Buenos Aires, Losada, 1968.
• Fin del mundo. Santiago, Edición de la Sociedad de Arte Contemporáneo, 1969.
• Maremoto. Santiago, Sociedad de Arte Contemporáneo, 1970.
• La espada encendida. Buenos Aires, Losada, 1970.
• Discurso de Stockholm. Alpigrano, Italia, A. Tallone, 1972.
• Invitación al Nixonicidio y alabanza de la revolución chilena. Santiago, Empresa Editora Nacional Quimantú, 1973.
• Libro de las preguntas. Buenos Aires, Losada, 1974.
• Jardín de invierno. Buenos Aires, Losada, 1974.
• Confieso que he vivido. Memorias. Barcelona, Seix Barral, 1974. (autobiografía)
• Para nacer he nacido. Barcelona, Seix Barral, 1977.
• El río invisible. Poesía y prosa de juventud. Barcelona, Seix Barral, 1980.
• Obras completas. 3a. ed. aum. Buenos Aires, Losada, 1967. 2 vols.

«As uvas e o vento é o livro de poesia mais otimista de Pablo Neruda. Quando de seu surgimento, em 1954, a obra levantou uma polêmica não apenas poética, mas política: nela, o autor, um militante comunista, presta uma homenagem ao socialismo e ao tenso momento histórico do pós-guerra, pintando com sensibilidade e sonoridade painéis sobre homens, cidades e paisagens da Europa e da Ásia. Neruda canta o futuro do mundo novo surgido da Segunda Guerra Mundial, que cura suas feridas e reconstrói suas sociedades. Neste livro, o mais célebre e lido poeta do século XX – mensageiro de um profundo senso de irmandade entre os homens – faz, à sua maneira, um testemunho sobre a sua geração e dá boas vindas à alegria de viver.»

«Pablo Neruda obteve o Prêmio Nobel de Literatura de 1971 “por sua poesia, cuja ação e força elementar oferecem uma perspectiva vital aos sonhos e destino de todo um continente”.

«Em 1927, com apenas 23 anos, foi nomeado cônsul honorário do Chile em Rangún (Birmania). Em 1933 passou a desempenhar idêntico posto em Buenos Aires, cidade na qual conheceu a Federico García Lorca. Depois seria sucessivamente destinado a Batavia, Java, Espanha (onde coincidiu com o desenvolvimento da Guerra Civil), França e México. Foi Senador pelo partido comunista em 1944. Em 1948 a ruptura do comunismo chileno com o governo de Gabriel González Videla lhe obrigou a viver oculto durante um ano e depois exiliar-se. Em 1949 visitou a União Soviética com motivo do sexto centenário de Pushkin.
Emancipado cedo do modernismo, sua poesia de maturidade, de grande conteúdo social, é ponto de partida de uma tendência nova que os críticos chegaram a qualificar como “nerudismo”. Entre suas obras destacam: La canción de la fiesta (com a qual ganhou o prêmio do certame poético dos estudantes chilenos, em outubro de 1921), Crepusculario (publicado em 1923 por sua conta), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924, para o qual já encontrou editor), Tentativa del hombre infinito (1925), Residencia en la tierra (primero volume, 1933), El hondero entusiasta (1933), Residencia en la tierra (segundo volume em 1935), España en el corazón (1937), Canto de amor a Stalingrado (1942), Tercera residencia (1947) Canto general (México, 1950), Que despierte el leñador (Prêmio Stalin da Paz, 1950), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Odas elementales (1954; o quarto tomo, Navegaciones y regresos é de 1959), Canción de gesta (1960) e Cantos ceremoniales (10 poemas inéditos, 1962).
Neruda estabeleceu, nos seus últimos anos, residência em Ilha Negra, ainda que continuou viajando freqüentemente, e foi nomeado embaixador em França pelo governo de Salvador Allende. Enfermo de leucemia, Pablo Neruda morreu em Santiago de Chile em 23 de setembro de 1973, algumas semanas depois do golpe de estado de Pinochet.»

Publicado por Violeta Teixeira em 19/04 às 01:10 AM
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