Terça-feira, 28 Fevereiro, 2006
«A INDIVIDUALIDADE DAS NOSSAS SENSAÇÕES»
Fernando Pessoa
Serigrafia do Mestre Luis Badosa, Bilbao
«Nesta era metálica dos bárbaros só um culto metodicamente excessivo das nossas faculdades de sonhar, de analisar e de atrair pode servir de salvaguarda à nossa personalidade, para que se não desfaça ou para nula ou para idêntica às outras.
O que as nossas sensações têm de real é precisamente o que têm de não nossas. O que há de comum nas sensações é que forma a realidade. Por isso a nossa individualidade nas nossas sensações está só na parte errónea delas. A alegria que eu teria se visse um dia o sol escarlate. Seria tão meu aquele sol, só meu!»
Bernardo Soares/Fernando Pessoa, in «Livro do Desassossego»
Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 06:03 AM
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A PROSTITUTA
Arturo Martini, La prostituta
http://www.initonline.it
Tombou pela vida abaixo,
Da desgraça, rota
E miseranda, a prostituta.
Gastou-se o corpo e a alma,
Na cama de imundos,
Sado - masoquistas,
Assassinos, evadidos
Das prisões, com armas
Nos bolsos das calças,
Unhas enormes, sujas, que lhe
Faziam arranhões nos lábios
E na vagina, como meio vil
Dissuasor para a porem na rua, sem
O pagamento do serviço do desamor.
Levanta-se, a custo, de manhã
Muito cedo, das escadas, onde desdorme
As noites, para não ser vista
Naquele estado medonho, de desmazelo.
Afasta-se, cosida aos muros,
E oculta-se no meio da névoa
Da multidão do Metro,
Onde mastiga o nada das horas,
Como mendiga, com a cabeça
Curvada, não lhe vão ver o rosto,
Pôr-se dentro dos olhos,
E violá-la, à sua alma.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 28/02 às 05:24 AM
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Segunda-feira, 27 Fevereiro, 2006
UM CORO DE CIGARRAS



Um coro de cigarras
Ancora-se,
Todas as tardes,
Num retalho de verde
Sobrante, por detrás
Do muro de um beco
Obsoleto, nesta urbe
De betão
E de trânsito feroz.
Como me soa inquieto,
Este coro!
Que desperdício
De hinos, neste inferno
De emparedados!
Enganaram-se, por certo,
As cigarras, na ancoragem.
Se buscassem outro cais?
Estas notas desagregam-me
A linguagem das artérias.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 2000, co-edição Magno Edições / Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 03:16 AM
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AVÓ A HAVER. JÁ!
« Não há famílias adoptivas e famílias naturais, mas famílias verdadeiras e falsas.»
Eduardo Sá
Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 02:57 AM
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PAIS! JÁ!

«De acordo com os livrinhos que tenho lido, dedicados a explicar a adopção às crianças adoptadas, a resposta dessa mãe não podia ter sido melhor…
Entretanto, graças a vocês todos, o João Guilherme e eu, inicialmente um pouco receosos de uma adopção inter-racial pelo facto de vivermos numa aldeia muito “daltónica” e muito monocromática nos arredores de Leiria, amadurecemos e crescemos convosco e, ainda esta semana, vamos contactar a SS para incluirmos a opção da adopção internacional (via Cabo-Verde ou Brasil). Queremos muito ser pais e, se há a possibilidade de termos o nosso filho no prazo de 1/2 anos, mesmo que o tenhamos de ir buscar a CV ou ao Brasil, assim será! Entretanto, a nossa família contribuirá para a construção de um “arco-íris cultural” em plena Ortigosa city!!!!
Um abraço a todos e obrigada por nos ajudarem a crescer enquanto cidadãoa e enquanto pais!»
Publicado por Violeta Teixeira em 27/02 às 02:48 AM
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Domingo, 26 Fevereiro, 2006
POESIA
Van Gogh -www.itaer.it/tesine/ poeti_romani/poesia-mic.jpg
«Emílio Guimarães Moura nasceu em Dores do Indaiá (MG), em 1902. Faleceu em 1971. Foi um dos nomes mais representativos da Literatura Brasileira da fase modernista. Em 1949 ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Mineira de Letras. Em 1969 recebeu o prêmio do Pen Club do Brasil, e o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro.»
In JORNAL DE POESIA
«Podem exilar a poesia: exilada ainda será mais límpida.»
Publicado por Violeta Teixeira em 26/02 às 01:05 AM
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ACARÍCIO-OS
Henri Matisse
Macios, os teus
Cabelos.
Aprisiono-os, pretos,
Nos dedos.
Guardo-os nas covas
Das mãos.
Não volto
A acariciá-los.
E entrego-os
Ao coração,
Destes versos,
Se bem que
Breves,
Se bem que
Efémeros.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 26/02 às 12:31 AM
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Sábado, 25 Fevereiro, 2006
EUTANÁSIA
Miguel Ângelo
«Nos apoyamos en el derecho de escoger. Cada ser humano tiene un interés
legítimo en su propia muerte y su manera de morir. Creemos que debemos
ofrecerle al individuo opciones para arreglar ese período tan personal.
Para algunos, esa opción será aceptar todos los tratamientos posibles
que la tecnología moderna pueda ofrecer; para otros, proteger la calidad
de vida antes que la longitud puede ser el elemento más importante; para
otros, podría ser morir en una manera que refleje su vida y retener
algún control sobre el proceso agonizante y la hora y circunstancias de
la muerte y, aun cuando nunca se usa, llevar uno mismo la llave de la
puerta llamada “Salida."»
Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 10:01 AM
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«LE POÈTE»
«Magicien de l’insécurité, le poète n’a que des satisfactions adoptives. Cendre toujours inachevée.»
RENÉ CHAR
Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 02:14 AM
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«MISE EN SCENE»
Matisse
Na corola da sua mão
De esteta, exibe,
Sobre o pénis, um
Peixe argênteo.
Rodopiam, em torno,
Pernas e sexos e bocas,
No ritmo, líquido
E lascivo,
Do vinho boémio.
Não espere, porém,
O «voyeur», que lhe revele,
O quanto exulta o artista
Desta «mise en scène».
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 25/02 às 01:09 AM
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Quinta-feira, 23 Fevereiro, 2006
DEUS
«Se a ideia de Deus não é conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma invenção humana… Mas não me olheis como se eu não tivesse sãos princípios e não fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro filósofo não pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. Só pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, é uma sorte que existam papas e bispos para reter as multidões da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religião é necessária ao povo e o sábio deve sacrificar parte da sua independência para que a sociedade se mantenha firme.»
Umberto Eco, in «A Ilha do Dia Antes»
In O CITADOR
«Umberto Eco (Alexandria, Itália, 5 de janeiro de 1932) é um escritor mundialmente reputado de diversos ensaios universitários sobre a semiótica, a estética medieval, a comunicação de massa, a lingüística e a filosofia. Ele é conhecido do grande público principalmente pelos seus romances.
Umberto Eco iniciou a sua carreira como filósofo sob a orientação de Luigi Pareyson, na Itália. Seus primeiros trabalhos dedicaram-se ao estudo da estética medieval, sobretudo nos textos de Santo Tomás de Aquino. A idéia principal defendida por Eco, nesses trabalhos, gira em torno da idéia de que mesmos os grandes filósofos medievais, que são acusados de não possuirem uma reflexão estética, dedicam-se ao tema, de um modo particular.
A partir da década de 1960, Eco se lança ao estudo das relações existentes entre a poética contemporânea e a pluralidade de significados. Seu principal estudo, nesse sentido, é A obra aberta (1962), que fundamenta o conceito de obra aberta, segundo o qual uma obra de arte amplia o universo semântico provável, lançando mão de jogos semióticos. Ainda na década de 1960, Eco notabilizou-se pelos seus estudos acerca da cultura de massa, em especial os ensaios contidos no livro Apocalíticos e integrados (1964), em que ele defende uma nova orientação nos estudos dos fenômenos da cultura de massa, criticando a postura apocalíptica daqueles que acreditam que a cultura de massa é a ruína dos “altos valores” artísticos, e, também, a postura dos integrados, para quem a cultura de massa é resultado da integração democrática das massas na sociedade.
A partir da década de 1970, Eco passa a tratar quase que exclusivamente da semiótica. Ao longo da década, e atravessando a década de 1980, Eco escreve importantes textos nos quais procura definir os limites da pesquisa semiótica, bem como fornecer uma nova comprerensão da disciplina, segundo pressupostos buscados em filósofos como Kant e Peirce. São notáveis a coletânea de ensaios As formas do conteúdo (1971) e o livro de grande fôlego Tratado geral de semiótica (1975).
Como conseqüência de seu interesse pela semiótica e em decorrência do seu anterior interesse pela estética, Eco, a partir de então, orienta seus trabalhos para o tema da cooperação interpretativa dos textos por parte dos leitores. Lector in fabula (1979) e Os limites da interpretação (1990) são marcos dessa produção, que tem como principal característica sustentar a idéia de que os textos são máquinas preguiçosas que necessitam a todo o momento da cooperação dos leitores. Dessa forma, Eco procura compreender quais são os aspectos mais relevantes que atuam durante a atividade interpretativa dos leitores.
Além dessa carreira universitária, Eco ainda escreveu cinco romances, aclamados pela crítica e que o colocaram numa posição sui generis, na medida em que é um dos poucos autores que conciliam o trabalho teórico-crítico com produções artísticas, exercendo influência considerável nos dois âmbitos. Ver, abaixo, a relação completa de seus romances. Eco descobriu o termo “Semiótica” nos parágrafos finais do Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), de John Locke, ficando ligado à tradição anglo-saxónica da semiótica, e não à tradição da semiologia relacionada com o modelo linguístico de Saussure. A teoria de Eco da obra aberta está dependente, em termos teóricos, da noção peirceana de semiose ilimitada. Nesta concepção do “sentido”, um texto será inteligível se o conjunto dos seus enunciados respeitar o saber associativo
Ele é também titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha.»
In WIKIPÉDIA
Publicado por Violeta Teixeira em 23/02 às 02:24 AM
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SOU UMA SEM-ABRIGO
Henri Matisse
Desmoronou-se-me,
De súbito, a morada.
Soterradas as palavras,
Sou, no agora,
Uma sem-abrigo.
Sem êxito, pelas ruas
Enlameadas de mágoas,
Mendigo uma migalha
De afecto. Uma gota
De néctar poético.
Pleno, o vazio estético.
Violeta Teixeira, inédito (DÉDALOS DE AFECTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 23/02 às 12:43 AM
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Quarta-feira, 22 Fevereiro, 2006
SYLVIA PLATH
Mera homenagem à escritora e à mulher suícida
:« Sylvia Plath e a sua obra têm sido encaradas sob diferentes perpectivas, todas parcelares e quiçá erróneas. Há quem veja nela a mártir romântica, autora de uma obra vivida intensamente até à exaustão e com ela se diluindo. Há quem veja nela a precursora do feminismo, da revolta contra um universo normativo masculino. Há quem veja nela, o discurso político, pacifista, participando das movimentações ideológicas contra o sistema que atingirão o auge nos finais da década seguinte. Há quem veja na sua obra um espaço priviligeado para explicações edipianas ou reflexões sobre esquizofrenia. Há ainda quem, cioso de saudáveis costumes pedagógicos, alerte para os perigos decorrentes da leitura e de ensino de textos constantemente enunciando experiências de limite. Talvez muito disso lá se encontre, mas não só (...)
“Como é frágil o coração humano- um latejar, um frêmito, luzente instrumento de cristal que chora ou canta.”
Publicado por Violeta Teixeira em 22/02 às 03:55 AM
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SYLVIA PLATH
Sylvia Plath (Jamaica Plain, Massachusetts, 27 de Outubro de 1932 – 11 de Fevereiro de 1963) foi uma importante novelista e poetisa, casada com o famoso poeta Ted Hughes. Estado-unidense, mudou-se para a Inglaterra para estudar, onde conheceu seu grande amor, Edward Hughes. Casaram-se, mudaram-se para a América, e novamente para a Europa. A vida dos dois foi sempre muito conturbada, fugidia, por conta das repetidas traições do poeta, que a deixavam cada dia mais deprimida (ela já havia tentado o suicídio em outras ocasiões, antes de conhecê-lo). Tiveram 2 filhos. Ele se tornou um respeitado e premiado poeta, enquanto que ela sempre teve dificuldades para se estabelecer como escritora, ofuscada pelo sucesso do marido. Entretanto, nos últimos meses de vida, ela soltou toda sua verve poética, produzindo poemas ricos, inteligentes, mas mórbidos e fortes. Separados, ela se suicidou algum tempo depois, aos 30 anos. “A Redoma de Vidro” (The Bell Jar), um romance, foi escrito dias antes de sua morte, sob pseudônimo. “Ariel”, uma coletânea de poemas, também é desse período conturbado, mas só foi publicado após sua morte. “The Collected Poems”, publicado por Ted Hughes, também após sua morte, ganhou o Pullitzer na categoria poesia. Sua vida é retratada no filme “Sylvia - Paixão Além das Palavras”, de 2003, com Gwyneth Paltrow como Sylvia e Daniel Craig como Ted Hughes.
in VIKIPÉDIA
Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?
Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada queima.
E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da boca.
Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!
Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?
Tradução deMaria de Lourdes Guimarães
Publicado por Violeta Teixeira em 22/02 às 03:08 AM
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TRAZES-ME O SOL

Trazes-me o Sol,
Que não faz, na alva
Manhã
Da tua voz.
Claridade doce e pura,
A tua…
Longínqua, roça-me
O rosto. Toca-me.
Acaricia-me.
Escala-me a Muralha
Da China e da
Chuva.
Bebo, bêbada de luz,
O sumo do céu.
E sou tua. Nos braços
Que me enlaçam, sem
Que me enlacem…
Salvo no miolo do desejo
Do teu corpo,
Que fantasmo, no forro
Da noite, e me aqueço
No «phallós» que te beijo.
Enquanto o tempo se alonga,
Onde te demoras...e me tardas…
O vento, esse, sopra,
De madrugada, silvos
De medo e um anúncio de perda,
Que finjo que não ouço.
Agasalho-me no último
Abraço. E entranço, um a um,
Os segundos que não passam,
Quando se passam.
Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 22/02 às 02:06 AM
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