Terça-feira, 31 Janeiro, 2006

ARTE DRAMÁTICA

«A arte dramática é, realmente, pura estereotipia. O actor fixou o seu papel de uma vez, e limita-se, em cada representação, a tirar nova prova. Em arte alguma pode o artista anunciar uma demonstração de génio e de inspiração, diariamente, à hora do cartaz. O que ele faz é reproduzir a sua criação, como o impressor reproduz uma gravura»

Joaquim Nabuco, in «’Pensées Détachées et Souvenirs»

Publicado por Violeta Teixeira em 31/01 às 01:06 PM
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EVA SEDENTA E PREVERSA

Foto da autoria de Pandora/ violeta Teixeira

Eva sedenta
E perversa,
Desvio-te do
Rumo da terra
Vermelha.

E faço com que
Subas uma encosta,
Onde te demoras,

E onde outro rio
Desagua,

Com margens,
Para ancorares
O barco.

E gemidos
Meigos.
Líquidos.
De gaivota.

Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)

Publicado por Violeta Teixeira em 31/01 às 12:56 PM
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Segunda-feira, 30 Janeiro, 2006

TABUCCHI

«Antonio Tabucchi nasceu em Pisa, Itália, em 1943. É professor de literatura portuguesa do Departamento de Português da Universidade de Pisa e um dos maiores especialistas da actualidade em Fernando Pessoa, sobre quem escreveu vários ensaios e cuja obra traduziu para o italiano. Apreciador também de literatura brasileira, traduziu poemas de Carlos Drummond de Andrade que foram publicados no volume Sentimento del mondo (Turim Einaudi 1987) e o romance Zero, de Ignácio de Loyolla Brandão. Do autor a Rocco já publicou A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, Afirma Pereira, A mulher de Porto Pim, Nocturno indiano, O anjo negro, Os três últimos dias de Fernando Pessoa, Os voláteis do beato Angélico, Requiem , Sonhos de sonhos, Está a fazer-se cada vez mais tarde.»

“Quando as baleias bóiam no meio do oceano parecem submarinos à deriva, atingidos por um torpedo. E, na barriga delas, a gente imagina uma tripulação de muitos Jonas pequeninos, cujo radar já não funciona, que desistiram de fazer contacto com outros Jonas e esperam resignadamente a morte.”
In A Mulher de Porto Pim
«No prólogo, o escritor explica tudo: seria desonesto considerar Mulher de Porto Pim pura ficção. O “livrinho” é resultado de suas andanças nas ilhas dos Açores e também, claro, de sua “disponibilidade à mentira”. O tema principal são as baleias que, eventualmente, são metáforas. O mesmo vale para as histórias de naufrágios, caçadas, sonhos. Mas duas delas, segundo Tabucchi, bem poderiam ser definidas como frutos da imaginação. (…)»

Publicado por Violeta Teixeira em 30/01 às 02:25 PM
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NUNCA SOU A MESMA

Foto da autoria de Pandora/ Violeta Teixeira

Nunca sou
A mesma
A que regressa
A casa.

Mudo-me de casa
Todas as vezes
Que regresso.

E não me sou

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º PRÉMIO LITERÁRIO AFONSO LOPES VIEIRA, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 30/01 às 02:16 PM
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Sábado, 28 Janeiro, 2006

DIA INTERNACIONAL DO HOLOCAUSTO (27 de Janeiro)

«A palavra Holocausto, que em grego significa uma oferenda sacrificial completamente (holos) queimada (kaustos), foi cunhada no fim do século XX para designar a tentativa de extermínio de grupos de pessoas consideradas “inconvenientes e indesejadas” pelos Nazistas alemães.
Quando escrito na forma capitalizada, o termo Holocausto refere-se ao extermínio sistemático pelos Nazis, de vários grupos que eles consideraram indesejáveis, durante a Segunda Guerra Mundial: principalmente os Judeus, mas também comunistas, homossexuais, ciganos, deficientes motores, deficientes mentais, prisioneiros de guerra soviéticos, membros da elite intelectual polaca, russa e de outros grupos eslavos, activistas políticos, Testemunhas de Jeová, alguns sacerdotes católicos e protestantes, sindicalistas, pacientes psiquiátricos e criminosos de delito comum. Todos eles pereceram lado a lado nos campos de concentração e de extermínio, de acordo com extensa documentação deixada pelos próprios nazistas (textos e fotografias), testemunhos de sobreviventes, perpetradores e de espectadores, e com registros estatísticos de vários países sob ocupação. O número exacto de mortes durante o Holocausto é desconhecido (ver Extensão do Holocausto mais abaixo). Estima-se que o número de Judeus assassinados no Holocausto atingiu cerca de 6 Milhões.
Hoje em dia, o termo aparece por vezes utilizado para descrever outras tentativas de genocídio, quer antes como depois da Segunda Guerra Mundial. Muitas vezes a palavra holocausto é usada para qualquer perda de vida preponderantemente massiva e deliberada, como na que resultaria de uma guerra nuclear, falando-se por vezes de “holocausto nuclear”.
Shoa (השואהwink, também escrito da forma Shoah, Sho’ah e Shoá, Língua Hebraica para “Calamidade”, é o termo hebraico para o Holocausto. É usado por muitos Judeus e por um número crescente de Cristãos devido ao desconforto teológico com o significado literal da palavra Holocausto; estes grupos acreditam que é teologicamente ofensivo sugerir que os Judeus da Europa foram um sacrifício a Deus. É no entanto reconhecido que a maioria das pessoas que usam o termo Holocausto, não o fazem com essa intenção.
Similarmente, muitas pessoas ciganas usam a palavra Porajmos, significando “Devorar”, para descrever a tentativa Nazi do extermínio do grupo»

Publicado por Violeta Teixeira em 28/01 às 01:43 AM
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Sexta-feira, 27 Janeiro, 2006

AMOR

Foto da autoria de Joaquim Teixeira Dâmaso


Dia do seu aniversário

Para o meu filho Joaquim Pedro Teixeira Dâmaso

Eclode,
Da nossa
Boca, um vulcão
De silêncio,
Espelhando tons
De um azul infeliz,
Nas veias
Do que
Não nos dizemos.

Por que tem de ser
Tão triste, por vezes,
O nosso amor?

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º PRÉMIO LITERÁRIO AFONSO LOPES VIEIRA, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 27/01 às 11:59 PM
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MOZART

HUMÍLIMA HOMENAGEM

27 de Janeiro-5 de Dezembro de 1891

Publicado por Violeta Teixeira em 27/01 às 11:46 AM
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ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE MOZART

SÃO PASSADOS 250 anos sobre o dia do nascimento de Mozart (1756-1791)

«Nasceu em Salzburgo, actualmente pertencente à Áustria, a 27 de Janeiro de 1756. Foi uma criança prodígio de uma família musical, que começou a compor minuetos para cravo com a idade de cinco anos. O seu pai foi Leopold Mozart, também compositor. Algumas das primeiras obras que Mozart escreveu enquanto criança foram duetos e pequenas composições para dois pianos, destinadas a serem interpretadas conjuntamente com sua irmã.
Mozart menino (1763)
Em 1763 seu pai o levou, junto com a sua irmã Nannerl, então com 12 anos, por uma turnée pela França e Inglaterra. Em Londres, Mozart conheceu Johann Christian Bach, último filho de Johann Sebastian Bach, que exerceria grande influência em suas primeiras obras.
Entre 1770 e 1773 visitou a Itália por três vezes. Lá, compôs a ópera Mitridate que obteve um êxito apreciável. A eleição, em 1772, do conde Hieronymus Colloredo como arcebispo de Salzburgo mudaria esta situação. Colloredo não via com bons olhos que um de seus músicos, considerado por ele um mero serviçal, passasse tanto tempo em viagens fora da corte. A maior parte do restante dessa década foi passada em Salzburgo, onde cumpriu com os seus deveres de Konzertmeister (mestre de concerto), compondo missas, sonatas de igreja, serenatas e outras obras. Mas o ambiente de Salzburgo, cada vez mais sem perspectivas, levava a uma constante insatisfação de Mozart com a sua situação.
Wolfgang Amadeus Mozart - imagem do compositor considerada uma das mais autênticas
Em 1781, Colloredo ordena a Mozart que se junte a ele e sua comitiva em Viena. Insatisfeito por ser colocado entre os criados, pediu a demissão. A partir daí passa a viver da renda de concertos, da publicação de suas obras e de aulas particulares. Inicialmente tem sucesso, e o período entre 1781 e 1786 é um dos mais prolíficos de sua carreira, com óperas (Idomeneo - 1781, O Rapto do Serralho - 1782), sonatas para piano, música de câmara (especialmente os seis quartetos de cordas dedicados a Haydn) e principalmente com uma deslumbrante seqüência de concertos para piano. Em 1782 casa, contra a vontade do pai, com Constanze Weber.
Em 1786, compõe a primeira ópera em que contou com a colaboração de Lorenzo da Ponte: As bodas de Fígaro. A ópera fracassa em Viena, mas faz um sucesso tão grande em Praga que Mozart recebe a encomenda de uma nova ópera. Esta seria Don Giovanni, considerada por muitos a sua obra-prima. Mais uma vez, a obra não foi bem recebida em Viena. Mozart ainda escreveria Così fan tutte, com libreto de Da Ponte, em 1789.
A partir de 1786 sua popularidade começou a diminuir junto do público vienense, o que agravaria a sua condição financeira. Isso não o impediu de continuar compondo obras-primas como quintetos de cordas (K.515 em Dó maior, K.516 em Sol menor em 1787), sinfonias (K.543 em Mi bemol maior, K.550 em Sol menor, K.551 em Dó maior em 1788) e um divertimento para trio de cordas (K.563 em 1788), mas nos seus últimos anos a sua produção declinou devido a problemas financeiros e à precariedade da sua saúde e da sua esposa Constanze.
Em 1791 compõe suas duas últimas óperas: A clemência de Tito e A flauta mágica, seu último concerto para piano (K.595 em si bemol maior) e o belo Concerto para clarinete em lá maior (K.622). Na primavera desse ano, recebe a encomenda de um Requiem (K.626). Contudo, trabalhando em outros projetos e com a saúde cada vez mais enfraquecida, morre a 5 de Dezembro, deixando a obra inacabada (há uma lenda que diz que o requiem estaria sendo composto para tocar em sua própria missa de sétimo dia). Será completada por Franz Süssmayr, seu discípulo. É enterrado numa vala comum de Viena.»

Publicado por Violeta Teixeira em 27/01 às 11:29 AM
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Quinta-feira, 26 Janeiro, 2006

INTUIÇÃO

«A Intuição é mais Forte que a Razão»

«Devemos sempre dominar a nossa impressão perante o que é presente e intuitivo. Tal impressão, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, é incomparavelmente mais forte; não devido à sua matéria e ao seu conteúdo, amiúde bastante limitados, mas à sua forma, ou seja, à sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus propósitos. Pois o que é presente e intuitivo, enquanto facilmente apreensível pelo olhar, faz efeito sempre de um só golpe e com todo o seu vigor. Ao contrário, pensamentos e razões requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, não se pode tê-los a todo o momento e integralmente diante de nós. Em virtude disso, deve-se notar que a visão de uma coisa agradável, à qual renunciamos pela ponderação, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um juízo cuja inteira incompetência conhecemos; somos irritados por uma ofensa de carácter reconhecidamente desprezível; e, do mesmo modo, dez razões contra a existência de um perigo caem por terra perante a falsa aparência da sua presença real, e assim por diante. Em tudo se faz valer a irracionalidade originária do nosso ser.»

Arthur Schopenhauer, in «Aforismos para a Sabedoria de Vida»

Publicado por Violeta Teixeira em 26/01 às 06:52 PM
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CANTO

Fotografia da autoria de Violeta Teixeira

Poeta, renasço e canto.

São tenros, verdes-alvos,
Os rebentos…

Túmida e terna,
A seiva dos braços…

Excita-se, ao som
Do vento, o tronco,
Com rachas róseas,
Resinando uma espécie
De leite espesso…

Deixemo-los
Aos rebentos,
Pulsando em consonância,
Com a aurora de sangue
Renascente…

Deixemo-la, à árvore,
Ser um coração de amante,
Um corpo de «Eros»…

Carne, cálice, «cármen»,
Casa da ressurreição
Do verbo e do ventre…

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 26/01 às 11:52 AM
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«A PEDRA DE TOQUE DE UM LIVRO»

«A pedra de toque de um livro (para um escritor) é o momento em que o livro oferece enfim um espaço onde, com toda a naturalidade, se pode dizer o que se quer dizer. Como esta manhã, em que pude dizer o que Rhoda disse. Isto vem provar que o livro tem uma vida própria: porque não esmagou o que eu queria dizer, antes me permitiu intrduzi-lo mansamente, sem uma tensão, sem uma alteração.»

Virginia Woolf, in «Diário»

Publicado por Violeta Teixeira em 26/01 às 12:07 AM
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Quarta-feira, 25 Janeiro, 2006

VIRGÍNIA WOOLF

SERIA HOHE O DIA DO SEU ANIVERSÁRIO

«Virginia Woolf (25 de Janeiro de 1882 - 28 de Março de 1941) - Nasceu em Londres. Estreou-se na literatura em 1915, com uma novela. Posteriormente, realizou obras notáveis, que lhe valeram o título de “a Proust inglêsa”. Suicidou-se em 1941.
Seu mais importante trabalho, “Mrs. Dalloway” (abordado no filme As Horas), iria revolucionar a literatura da época. O “fluxo de consciência” e o formato empregado por Virgínia a classificam como uma modernista por excelência.
Virginia Woolf teria sido, segundo registros em diários pessoais, vítima de abuso sexual na infância. Lutou durante anos contra uma doença mental e fora submetida diversas vezes à enclausuramentos e retiros devido à violentas crises depressivas. Tentara o suicídio por duas vezes.
Em 1941, Virginia deixa um bilhete para seu marido, Leonard Woolf, e para a irmã, Vanessa. Neste bilhete, ela despede-se das pessoas que mais amara na vida, e dá fim à sua existência, sem jamais imaginar que esta seria eternizada na história da literatura mundial.»


«O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.»

Virginia Woolf, in «Orlando»

«Todos têm os seus momentos de êxtase, o seu secreto sentido da morte, qualquer coisa que lhes serve de apoio. Visitei cada um dos meus amigos, tentando com os dedos inseguros abrir os seus pequenos cofres fechados. Expus-lhes a minha dor - não, não a dor, mas o sentimento de incompreensível mistério da vida- e pedi-lhes que a examinassem comigo. Alguns procuram os sacerdotes; outros a poesia. Eu refugio-me junto dos meus amigos, vou procurar o meu próprio coração, busco qualquer coisa intacta entre frases e fragmentos, eu a quem não basta a beleza que existe na lua e nas árvores e para quem o contacto de uma pessoa com outra é tudo, mas que nem sequer isso consigo estabelecer, permanentemente imperfeito, frágil e indizivelmente solitário.»

Vírginia Woolf, in AS ONDAS

Publicado por Violeta Teixeira em 25/01 às 07:12 PM
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CREPÚSCULO LETÁRGICO

Humílima homenagem a Virgínia Woolf: data do dia seu aniversário ( 1882-1941)

O crepúsculo toma tintas
De letargia amena,
Nas vidraças,
Que dão para as lagunas
Do desassossego
De penas migrantes.

Mergulha os olhos
Nos juncais, alagados
De um desespero
Esbracejante.

Rasga-se as vestes,
De seda,
Tingidas de vermelho,
Descalça-se,
Com gestos esfarelados
De cansaço,

E apressa-se a cumprir
O pacto celebrado,
Na cerimónia solene
Do pórtico branco.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 25/01 às 06:46 PM
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Segunda-feira, 23 Janeiro, 2006

MEMÓRIA

«Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.
Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si.
O que será, pois, a memória? Nada mais do que a sensação das impressões do cérebro junto com o pensamento de uma determinada duração da sensação; o que também a reminiscência mostra. Realmente, nesta a alma pensa nessa sensação, mas não sob uma contínua duração; e assim a ideia desta sensação não é a própria duração da sensação, quer dizer, a própria memória. Se, porém, as próprias ideias sofrem alguma corrupção, veremos na filosofia. E se isso parece a alguém muito absurdo, bastará para o nosso propósito que pense ser tanto mais facilmente retida uma coisa quanto mais for singular, como se vê do exemplo da novela que acabamos de dar. Além disso, quanto mais uma coisa é inteligível, mais facilmente é retida. Logo, não podemos deixar de reter uma coisa sumamente singular e somente inteligível.»

Baruch Espinoza, in «Tratado da Correcção do Intelecto»

Publicado por Violeta Teixeira em 23/01 às 12:43 AM
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PRIVAÇÃO

Picasso


Bagas
Acídulas
Caem-me na nudez
Da fala.

Turvam-me
A rebentação fluida,
Que,
No antes, fora
A do poema,
Como
A água.

Falo-vos
De uma extrema
Privação,
No curso óbvio
Do corpo.

Acérrimo,
O leito.
O texto.

Violeta Teixeira, inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 23/01 às 12:22 AM
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