Segunda-feira, 31 Outubro, 2005
ESTILHAÇO PEDRA-DO-SOL
Grafito todos
Os muros da noite,
Com cardumes
De escamas acesas,
E cachos de lábios
No oceano do encontro.
Incendeio os olhos
Da Lua, a penugem dos
Pássaros, a polpa dos frutos
E as sombras nómadas,
Do mosto do vinho
E do mistério.
Fantasmo navegações,
Sem norte, queda de astros,
Naufrágios de lumes,
Orgasmos de vagas.
Mas não vislumbro
O teu rosto
Desertor,
No rumo do meu
Navio, a fervilhar
Nas águas visionárias.
Recolho-me, a custo,
Ao fundo do fracasso,
Mutilo-me, cerce,
As raízes do sonho,
Que sobem
Inebriadas,
Os costados das
Embarcações
Lacustres.
E, ao alcance
De dois braços mortos,
Estilhaço, com dor,
Pedra-do-Sol,
Dentro das mãos,
Vendo a volúpia do sangue,
Caindo, pingo a pingo,
Num silêncio de orvalho.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 31/10 às 01:03 AM
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Domingo, 30 Outubro, 2005
DESLIZAM LENTAS
Deslizam. Lentas.
Silentes.
Tecem no rosto liso
Teias de afluentes
Sinuosos.
Meandros de medo.
Desaguam na boca.
Imbeijada. Muda.
Transbordam. Quentes.
Acídulas.
Inundam os seios.
Salinas rosáceas.
Deslizam.
Intérminas.
Lavram no ventre
Crateras cínzeas.
Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQUECIMENTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 30/10 às 12:31 AM
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Sábado, 29 Outubro, 2005
A MENTIRA E A VERDADE
A Verdade e a Mentira
Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade pereceria de desespero e de tédio.
Anatole France, in «A Vida em Flor»
Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 08:28 AM
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A CRIAÇÃO DE DEUS . . .
A Criação de Deus como Travão aos Instintos
Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o «Senhor», «Pai» e «Princípio do mundo», e colocando-se galantemente entre «Deus» e o «Diabo» negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, overdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de «Deus santo, santo, santo», para dar-se meçhor conta da própria indignidade absoluta… Oh, triste e louca besta humana!
A que imaginações contra natura, a que paroxismo de demência, a que a bestialidade de ideia se deixa arrastar, quando se lhe impede ser besta de acção!… Tudo isto é muito interessante, mas quando se olha para o fundo deste abismo, sentem-se vertigens de tristeza enervante. Não há dúvida de que isto é uma doença, a mais terrível que tem havido entre os homens e aquele cujos ouvidos sejam capazes de ouvir, nesta negra noite de tortura e de absurdo, o grito de amor, o grito de êxtase e de desejo, o grito de redenção por amor, será presa de horror invencível… Há tantas coisas no homem que infudem espanto! Foi por tanto tempo a terra um asilo de dementes!
Friedrich Nietzsche, in «A Genealogia da Moral»
Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 01:24 AM
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A HEROÍNA QUE ME INJECTO
PARA DARK PARK
Mergulho nas tintas
Cínzeas do crepúsculo.
Não ouço a batida
Uníssona do meu pêndulo,
E, em vão, me esforço
Por limpar insólitas sombras,
Salpicadas de sangue, sobre
A peça recém concluída.
Seguro-me às traves
Do «atelier», não vá tombar,
Esvaída, sob o peso
Vermelho do tecto.
Mas nada me acontece,
Salvo a amargura trémula dos
Dedos, que me mina,
Como a heroína que me injecto,
No derradeiro degrau
Do desespero.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES (1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira – 1ª edição – 2000), co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 29/10 às 12:57 AM
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Quinta-feira, 27 Outubro, 2005
POETAS E ROMANCISTAS
Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.
Sigmund Freud, in «As Palavras de Freud«
Publicado por Violeta Teixeira em 27/10 às 08:40 AM
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Quarta-feira, 26 Outubro, 2005
ALI, VOLVO O OLHAR
PARA O LOBO DAS ESTEPES
Ali, volvo
O olhar
Para o oceano,
Temeroso
E turvo.
Encosto
A cabeça
Aos joelhos
Do cais.
E, por ali,
Me permaneço.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 26/10 às 11:20 PM
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SAÚDO
Saúdo,
Do alto
Desta insónia,
Os fenos ruivos,
De fogo; a festa das
Regas e dos risos; os
Pêssegos picotados
De insectos; as mangas
Verdes, feridas de
Dentadas frescas: os figos,
Com bicadas expostas,
De melros, na carne
Arroxeada; as lagartixas,
Sem caudas, serpenteando
Paredes, limpas de sangue.
Saúdo
Sobretudo
E, saudosamente,
A criança, com folhos
De organdi, mordendo,
Com avidez, maçãs
Encarnadas, amoras
E morangos.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES (1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira – 1ª edição – 2000), co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 26/10 às 12:17 AM
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Terça-feira, 25 Outubro, 2005
ADEJAR NOCTÍVAGO DE ASAS
Uma luz,
Vagamente dolente
E vacilante,
Atravessa-me as veias,
Engelhadas de
Medo.
A tua voz,
Que não ouço,
Soa-me nebulosa.
O Sol cegou-se.
Tomba-me, retumbante,
Quase morto,
Sobre os ombros
Do preâmbulo
Do luto.
Embalde
Gesticulo, para afastar
Destas estrofes
Um adejar noctívago,
De asas.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 25/10 às 12:09 AM
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Domingo, 23 Outubro, 2005
PLENITUDE DE SENTIDO
A ti, sim! Reconheço-te. Sim!
Sei quem me foste, nos longes
Do me lembro, mas falta-me o acesso
Ao todo do poço dos afectos, se
Os houve alguma vez, pois nem, no fundo,
Vislumbro um seixo redondo e terno,
Rolando, macio, na garganta do tempo.
Sobe-me, tão- somente, à lembrança,
Uma escada de pedra, sempre molhada
De uma mágoa impotente, cuja razão não
Conheço, e laranjas azedas, transmudadas
Em compota, barrando triângulos de bolachas.
Se grasnavam rãs ou sapos, já me não sabem
A nada. No agora, o vento que faz, só me soa
A um uivo de ressentimento. Não roça o vinhedo,
Não embala as folhas ásperas da cana de açúcar,
Nem lambe o aroma dos lábios de ananás,
Embora toda essa fruta houvesse, já não a há,
Devorada pelos esqueletos dos armários, os que
Tu mesma me penduraste nos cabides da psique,
Subtilmente indeléveis, e inacessíveis ao hoje.
Sim! Não posso negá-lo. Reconheço-te pelo rosto,
Porque a tua voz, essa, ficou soterrada na areia
Seca que, sempre, me escorre pelos dedos do te recordo.
Nada me peço, porém, que, por ti, sinta o suposto. Ainda
Que me fira o que não sinto, tudo, nesse nada, me faz
Uma plenitude acre de sentido.
Violeta Teixeira, inédito (ORGIAS DE ESQUECIMENTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 23/10 às 11:28 PM
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Auto-conhecimento
O conhecimento do próximo tem isto de especial: passa necessariamente pelo conhecimento de si mesmo
Italo Calvino, in “Palomar”
Nota: mês do seu nascimento
Publicado por Violeta Teixeira em 23/10 às 12:59 PM
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Sábado, 22 Outubro, 2005
AS PALAVRAS
PARA O RICARDO
São pesadelos
De gaivotas,
Neste porto
De brumas,
De bestas,
De brados,
Onde, mudas,
Se me desaguam
Seus voos
Quebrados,
Definitivas,
Alucinadas,
As palavras.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES (1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira – 1ª edição- 2000), co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 22/10 às 11:20 PM
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Sexta-feira, 21 Outubro, 2005
CARDUME DE BARBATANAS
“ Seguramente Sei Onde Estou”.
Fique sabendo que, de si, sinto
Uma inconcebível inveja, ainda
Que não ame o seu estilo e os
Tons de júbilo das suas telas.
Invejo-o! Repito. Mas nem o conheço.
Invejo-o, sim! Porque não sinto que
Esteja em sítio algum, nem sei
Minimamente quem me seja.
Precipício? Labirinto? Vazio?
Belíssimo zero babilónico?
Nada? Ninguém? Como o saberei?
Ou, por que não, um arquipélago
Submerso num abismo marinho,
Orlado de um cardume de barbatanas
Bárbaras, sem lumes nos olhos?
Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)
Publicado por Violeta Teixeira em 21/10 às 11:24 PM
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CONVOCO, SONHANDO O ONTEM
PARA O MEU AMANTE INEXISTENTE
Convoco, sonhando o ontem,
O silêncio molhado
E quente do teu corpo.
Violeta Teixeira, inédito ( ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 21/10 às 12:06 AM
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Quarta-feira, 19 Outubro, 2005
FI-LA PARA TI
PARA O LOBO DAS ESTEPES
Fi-la
Para ti,
Esta colheita.
São pomos
Da terra.
São brancos, ocres,
Baunilhas,
Castanhos,
Lilases.
Queimam-me
As mãos.
Beijaram-nos
Os astros.
Violeta Teixeira, inédito ( ROSAS DE JRICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 19/10 às 11:58 PM
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