Quarta-feira, 28 Setembro, 2005

OUTONO MADURO

Exibem recortes
Excêntricos.
São brasas. Labaredas,
Faiscando cobres vermelhos.
Lascivos.

Outono maduro, este!

Folhas de plátanos…
Não! Não as piso. Acaricio-as.
Recolho-as nas mãos
Ávidas de mãos.

Excitam-me os olhos…
Olhos sedentos de Sol,
Contra o muro da exclusão da
Fêmea, que me sou, com cio.

Sucumbo-me…

Maduro brasido de
Outono!

Apaguem-se-me
As pálpebras!

Sobram-me cinzas
Cínzeo - violáceas,
Esparsas no poema
Inconcluso…

Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQUECINEBTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 28/09 às 11:13 PM
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A ESCRITA

«A escrita é a minha primeira morada do silêncio»
AL BERTO

Publicado por Violeta Teixeira em 28/09 às 08:26 AM
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Fantasio-te

Fantasio-te.
Dentro do meu dentro.

Apocalipse,
De círculos perfeitos.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira ( 1ª edição),
Co-edição Magno Edições e Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 28/09 às 12:40 AM
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Terça-feira, 27 Setembro, 2005

PIRÓMANA

Fico, por aqui, a cismar…
Descerro as mãos. Sorvo
O silêncio do lugar.

Imagens bivalves
Abrem-se-me
Nas veias ferventes.

Saem das valvas feixes
de fenos, de trevos,
De carqueja, secos,
Incendiados pela mão
Pirómana de um moça,
Absorta nas chamas.

Evolam-se, leves, no ar,
Miríades de fagulhas,
Entontecidas
De luz de laranjas.

O vento brando lavra
O fogo numa faixa extensa,
De forma alongada.

Como lhe cheira a terra
Queimada! A fenos, a trevos,
A carqueja, secos.
A moça delicia-se. Delira.

O incêndio extingue-se…
Como lavrar em pedras?
Bela, a Lua derrama sobre
As figueiras-da-Índia,
Uma luz de leite cremoso.

Lava-se as mãos, a pirómana
Da moça, inclinada à porta
De uma gruta, donde saem
Bandos de morcegos, para
A peregrinação da noite.

Regressa a casa, às escuras,
Com olhos luzentes, como
Gatas com cio, pingando
Sangue nos regos, moles
E frescos, de cultivo.

Só adormece tarde,
Enrolada no medo de
Assaltos, roubos, criados.

Sonha com fenos e trevos
E carqueja, secos, devorados
Pelas labaredas. E sonha também…
Morcegos cegos, com óculos.

Lava-se as mãos no leite
Da Lua e aprisiona-a,
Numa rede, dentro de um poço.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 27/09 às 02:41 AM
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Segunda-feira, 26 Setembro, 2005

ESTRANGEIRA E TRISTE


PARA O LOBO DAS ESTEPES

A Lua ajoelha-se,
Diante dos braços,
Decepados,
De um abrunheiro-bravo.

Aqui, me detenho.

Daqui,
Observo
O sublime rito.

E, daqui,
Me observo,
Enlaçada ao corpo
Daquela árvore.

Estrangeira
E triste.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 26/09 às 12:09 AM
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Sábado, 24 Setembro, 2005

BRASIDO DE CINCO DEDOS

Escrevo-me.
Queimo-me.

Queimo-me no
Brasido de cinco dedos,
No lume de sete luas.

Vivo e morro
E ardo-me na pira
Da poesia.

Acendam-se-me
Os círios ímpios dos
Ardores lunares.

Acendam-se, nos olhos
Dos leitores, os fachos
De luz da fantasia.

Violeta Teixeira, inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIA)

Publicado por Violeta Teixeira em 24/09 às 11:32 PM
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A CULTURA EM PORTUGAL

« A cultura voltou ao seu arrastado estatuto marginal e ornamental, reduzida a algumas «personalidades» integráveis em comitivas, a algumas identidades retoricamente referidas e algumas «obras» circunstancialmente apreciadas …»

Manuel Maria Carrilho

EXPRESSO -13-12-2003

Publicado por Violeta Teixeira em 24/09 às 12:08 AM
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Sexta-feira, 23 Setembro, 2005

NO DEGRAU ZERO DA ESPERANÇA

PARA O MEU AMANTE INEXISTENTE

Desculpa! Mudei-me, ontem, à noite,
De morada. Não me batas, pois,
À porta do ninguém lá mora.

Desculpa! Fiquei aquém da porta, na
Mudança. Errei na chave da entrada.

Desculpa! Não há modo de te dar o endereço.
Moro, agora, no degrau zero da esperança.

Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)

Publicado por Violeta Teixeira em 23/09 às 11:45 PM
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NÃO SEI SE ME ESTOU ONDE ESTOU


Não sei
Se me estou onde estou.
Não sei
Se sou o eu
Que me desteço, no desassossego
Do
Centro
Do tudo sabe
Ao me não saber a nada.

Se a luz
Me toca, me roça, me força,
Sem a ver,
A me situar ao
Centro
Do já me não teço,
Enrosco-me
No casulo
Do me não existo,
Do, logo, me não sou.

Como
Me digo
Do não onde
Me
Não digo?

Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 23/09 às 01:09 AM
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Quarta-feira, 21 Setembro, 2005

POESIA

«A poesia nasce da dor».

Jorge Luís Borges

Publicado por Violeta Teixeira em 21/09 às 11:59 PM
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OCEANO IMPACÍFICO DO POEMA

Escalam, vândalos,
As falésias das expectativas
Que, lúcida e céptica,
Enfeito de cactos mexicanos,
Com pétalas policromas,
De um fascínio «énivrant.»

Escalam-nas, vândalos,
E, cerce, despetelam
As belas corolas.

Desabam-se-me, ocres,
Esfareladas, as falésias, no
Oceano impacífico do poema.

Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 21/09 às 11:47 PM
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A FOZ DO NOSSO GOZO

PARA O LOBO DAS ESTEPES

Escrevemos,
Até as palavras
Serem carne,

E o poema
A foz
Do nosso gozo.

Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 21/09 às 12:46 AM
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Segunda-feira, 19 Setembro, 2005

«FILLE DU BORD DE LA RUE»

PARA O DARKPARK

Recusa, com fúria rubra,
A senda infrutífera e néscia
Da renúncia à embriaguez lúcida
Da posse do que quer que
Seja, lícita ou ilícita.

Nada! Nada! Nem ninguém
Se atreva a travar a sua avidez,
Cujos braços alcança os ramos
Mais elevados, porque não hesita
Na apanha de toda a fruta alheia,
No pomar esplêndido da vida.

Falta de ética, a sua? Insanidade
Perversa? Pouco lhe importa o
Juízo que se possa fazer. Tudo
Quanto conquista lhe cabe na boca
Voraz, e, além disso, antes comer
Do que ser devorada. Sim! Haverá
Grandeza mais nobre do que, assim,
Abraçar todo o Universo, esse,
Sim, de uma perversidade atroz?

Não ousem lançar mão a discursos
Retóricos de pureza! Despreza-os.
São vasos d’ordure, para esta fille
Du bord de la rue que se banha em lagos
De sangue, como se foram campos de papoulas.

Violeta Teixeira, inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 19/09 às 11:59 PM
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Domingo, 18 Setembro, 2005

DE TUDO EXPOLIADA

De tudo. De tudo
Espoliada.

Sobram-me
A revolta
E estes amargos
Versos de águas.

Violeta Teixeira, inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIAS)

Publicado por Violeta Teixeira em 18/09 às 11:54 PM
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NÃO! NÃO ME VISITES.

Não! Não me visites.
Sou triste como um
Cão vadio, sujo e feio,
Com feridas a latejar
Em cada mão, e todos
Os astros mortos no olhar.

Violeta Teixeira, inédito ( DÉDALOS DE AFECTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 18/09 às 12:58 AM
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