Terça-feira, 30 Agosto, 2005
MORRE-SE SÓ
Nos subúrbios insalubres
Onde se habita
Uma subcave de cimento
E de pedra, a temperatura
Do sangue
Desce assustadoramente.
Não se ouve
A respiração do outro,
Defronte ou atrás
Da nossa porta. Sufoca-se…
Morre-se só.
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 30/08 às 11:25 PM
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Segunda-feira, 29 Agosto, 2005
DESEO SÚBITO
Mi asalta, a veces, el deseo súbito
De rozar ciertos cuerpos con que voy
Cruzando, cuando la noche hay desciendo
Asustada sobre las arterias de la ciudad.
Me consiento, sen el mínimo pudor, en esta
Animalidad. Me consiento lo gozo de las
Imagines que convoco pera el descenso de la noche:
Ojos lucientes, cuerpos de felinos fulvos y suaves,
Mayidos lascivos de hembras en los pasadizos lunares.
Me despeño del alto del deseo. Me despedazo,
Después, en la noche infecunda: polvareda
Cósmica, ceniza negra, absurda e nula.
Violeta Teixeira, in Antologia internacional SENTIMIENTOS ENFRENTADOS, Madrid, 2005
(Tradução: Violeta Teixeira)
ASSALTA-ME, POR VEZES
Assalta-me, por vezes, o desejo súbito
De roçar certos corpos com que vou
Cruzando, quando a noite vai descendo,
Assustada, sobre as artérias da cidade.
Consinto-me, sem o mínimo pudor, esta
Animalidade. Consinto-me o gozo das
Imagens que convoco para a descida da noite:
Olhos luzentes, corpos de felinos fulvos e macios,
Mios lúbricos de fêmeas, nos corredores lunares.
Despenho-me do alto do desejo.
Despedaço-me, depois, na noite infecunda:
Poeira estelar, cinza absurda e nula
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 29/08 às 11:24 PM
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Domingo, 28 Agosto, 2005
HOMENAGEM A GOETHE
Todos os dias deveríamos ler um
bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.
Pensar é mais interessante
que saber, mas é menos
interessante que olhar.
(Johann W. Von Goethe)
Publicado por Violeta Teixeira em 28/08 às 12:57 PM
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EM HOMENAGEM A GOETHE
1749 ( 28 de Agosto) – 1832
Os signos de um crepúsculo
Arroxeado cristalizam-se
No meu espaço, quando, de súbito,
Por breves minutos infindos,
Surge-me, em cima da mesa,
Um rosto cujos olhos
Me fitam com frieza,
Sobre um volume enorme
Do «Fausto» de Goethe.
Em vão, tento uma fuga,
Mas os pés, tenho-os atados,
E não sei das mãos
Para pegar numa tela
Estranhíssima, e, com ela,
Cobrir o rosto, este rosto,
Cujos olhos insistem
Em fixar-me, como dois censores.
Nem uma gota de sangue,
Pingando nas páginas de Goethe!
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 28/08 às 08:32 AM
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Sábado, 27 Agosto, 2005
ESCULTURAS ENIGMÁTICAS
Levanta-se, a custo, a escultora,
Para se naufragar na névoa do fumo.
Move-se, a custo, pelo quarto esconso,
Envolta numa écharpe, com franjas ouriçadas
De raiva. Medíocre. Nula. Lixo. Soluça.
Consome-se o cigarro, consome-se a lembrança
Do último abraço, compadecido, sem élan.
A luz feroz do farol estilhaça-lhe os cacos
Da nenhuma esperança.
Debruça-se, de vez, no novelo da vertigem,
Que dá para o seu mar, cuja voz lhe segrega
Sossegos líquidos, sem epitáfios.
Violeta Teixeira, in LÂGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 27/08 às 11:13 PM
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Sexta-feira, 26 Agosto, 2005
É DEFINITIVA A NOITE
Oblíquo, o sol enegrece
Sobre as areias. Barcaças
Viúvas, musicando contra
As rochas, convidam a fugas
Sem margens e sem retornos.
Marulham vagas sucessivas!
Não há saudades de nada
Para sepultar
No obscuro mar!
Um luz azul de prata
Encha as barcaças.
Não há como não vê-la!
O sinal soou!
Sou só! Sigo a estrela,
Cuja luz
Nunca se me mostrou!
A luz apagou-se…
É infinita
E definitiva a noite!
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 26/08 às 11:21 PM
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BELÍSSIMO BOLBO DE FUNCHO
O funcho floresce.
O aroma doce extasia-me
E entristece-me.
Não descodifique
A antítese.
Caruncho estilístico.
Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)
Publicado por Violeta Teixeira em 26/08 às 09:19 AM
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Quinta-feira, 25 Agosto, 2005
SERPENTE E FLORES
Publicado por Violeta Teixeira em 25/08 às 07:47 AM
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Quarta-feira, 24 Agosto, 2005
FLANAMOS FELIZES
Mãos cheias de maresia
Esmeralda, flanamos felizes,
Nas areias rosáceas de uma praia,
Algures, intemporal.
Cresce-nos nos braços,
Abertos, contra os ventos,
Um crepúsculo musical e macio,
E a nossas línguas são
Serpentes com cio, enroladas
Num brasido húmido.
Asas de gaivotas
Agitam-se, vermelhas,
Dentro dos nossos olhos.
O mar, que não vemos,
É um murmúrio dulcíssimo,
A semear gemidos de sereias.
Somos um roçar de escamas,
Bravio de cintilações sacrílegas.
Toca-nos, cúmplice, a noite,
Mas não nos anoitecemos.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 24/08 às 01:31 AM
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Terça-feira, 23 Agosto, 2005
BELEZA
«A beleza não é um desejo, mas um êxtase.»
KHABIL GIBRAN
Publicado por Violeta Teixeira em 23/08 às 01:50 AM
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O TEU SILÊNCIO
PARA O MEU AMANTE INEXISTENTE
Gritantemente
Gélido, de um branco
Árctico, cega-me
As pálpebras do tempo,
O teu silêncio.
Violeta Teixeira, inédito (DÉDALOS DE AFECTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 23/08 às 12:37 AM
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Domingo, 21 Agosto, 2005
COBRA CASCAVEL
Publicado por Violeta Teixeira em 21/08 às 11:45 PM
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AURORA ÉBRIA E EFÉMERA
Um astro
Aninhou-se, ardente
E clandestino,
No forro do imprevisível.
Deixá-lo cintilante,
Febril e fascinado
Pelo impossível.
Deixá-lo ser a voz
Do sangue, risco e perigo.
Deixá-lo ser subtil
E obstinado,
Na epiderme das palavras
Que não digo.
Deixá-lo abrasar-me:
Lenha, vinho, odor sacrílego
E límpido, fluindo
Nas veias do gozo e do gemido.
Deixá-lo pulsar-me,
No seu nicho rosáceo:
Aurora ébria e efémera.
Deixá-lo…
Deixará de ser
Chuva de luz,
Chuva de sémen,
Quando deixar
Um travo feliz e acídulo na boca.
Falará, então, o corpo da poesia,
De um cálice pleno
De uma memória louca,
De um astro ou de um coração,
Que já não luzia.
Deixá-lo ser-me o amor da vida.
Deixá-lo ser-me o amor da morte.
Violeta Teixeira, inédito (ROSAS DE JERICHÓ)
Publicado por Violeta Teixeira em 21/08 às 12:26 AM
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Sexta-feira, 19 Agosto, 2005
NA PAZ DESESPERADA DA LUZ DA MANHÃ
Gasta-se-me
O gosto,
Pela noite fora.
Quebram-se-me
As palavras,
Nos fusos
Dos dedos.
A baba da aranha
As refaz,
Nos bastidores
Lunares, e
Mas devolve,
Na paz desesperada
Da luz da manhã.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, primeiro Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, Co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 19/08 às 02:50 AM
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Quinta-feira, 18 Agosto, 2005
ARANHA
Publicado por Violeta Teixeira em 18/08 às 01:59 AM
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