Sábado, 30 Julho, 2005
«ON EST CE QU’ON DESIRE»
"on est ce qu’on désire.
Mais ce qu’on désire, on l’ignore. Et ce désir, dont nous ignorons en quoi il consiste, mais que nous subissons comme la frappe la plus singulière de notre “moi”, nul d’entre nous n’a choisi qu’il nous habite. Il est “écrit”. Il nous précède. Nous entrons dans son champ par le biais du langage.
Avant même de naître, nous sommes voués, heur ou malheur, à en devenir un jour le gestionnaire. D’où la faille. Car ce désir qui nous structure n’est pas nôtre. Il est, par le biais du discours, désir de l’Autre, désire d’un Autre désirant.
C’est pourquoi, êtres de désir, notre destin est de ne pouvoir accéder qu’au manque-à-être”
LACAN
Publicado por Violeta Teixeira em 30/07 às 11:53 PM
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INVENTO A DOSE DE ÓPIO
Não te debruces
Para
Dentro de mim.
Invento jogos
De sangue,
Com misturas
Sórdidas de cinzas,
Máscaras que sugam
A saliva dos ossos.
Invento olhos
E bocas e sexos
Sem fluídos,
Sem sucos de pêra,
Sem babas de mangas,
Sem espumas.
Invento desejos
De veneno
E de espelhos
Rachados no rosto
Do outro.
Invento corpos
Soçobrados pelo
Quarto, como larvas
Ou vermes. Bichos
Medonhos.
Invento metamorfoses
De búzios, de raízes,
De parasitas, na garganta,
Com contornos
De nervos.
Invento serpentes
Letais nas veias vazias
Dos pulsos, e lagoas
De sangue nos
Espaços vazios
Da sanidade ambígua.
Invento a dose de ópio
Que me baste, para a violência
E para a volúpia.
In Violeta Teixeira, LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 30/07 às 11:32 PM
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SEM MIM!
Hoje, tudo
Me acontece.
Sem mim!
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 30/07 às 12:14 AM
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Sexta-feira, 29 Julho, 2005
DESEJO SÚBITO
Assalta-me, por vezes,
O desejo súbito
De roçar certos corpos
Com que vou cruzando,
Quando a noite vai
Descendo, assustada,
Sobre as artérias da cidade.
Consinto-me, sem
O mínimo pudor, esta
Animalidade. Consinto-me
O gozo das imagens que
Convoco para a descida
Da noite: olhos luzentes,
Corpos de felinos fulvos
E macios, mios lúbricos de
Fêmeas, nos corredores lunares.
Despenho-me do alto
Do desejo.
Despedaço-me, depois,
Na noite infecunda:
Poeira estelar,
Cinza absurda e nula.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 29/07 às 08:23 AM
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CRÓNICA TRANSGÉNICA XIII
CRÓNICA TRANSGÉNICA XIII
Lamento. Os meus dedos recusam-se, soberanos, a remexer na lixeira a céu aberto deste país, que fora um jardim à beira-mar plantado. Recusam-se, com idêntica tirania, a molharem-se no sangue humano derramado, quotidianamente, em imensos palcos de violência, nas mais variadas partes do mundo, quer longe, quer perto da nossa congénita lixeira. «Basta!», dizem-me. E acrescentam: « Por que não ficcionamos a sórdida realidade? Por que não nos deixamos ficar aqui, no escritório?» Terão razões consistentes os meus dedos? Não precisarão eles de gozar umas férias? Meras perguntas retóricas, estas! Sim! Não tenho modo de lhes desobedecer, ainda que, neste espaço, férias signifique fechar a porta do pensamento, ou, mais explicitamente, a porta que dá para a lixeira e para as poças de sangue, supra referidas.
Não podendo, portanto, agir de outro modo, aqui permaneço. Se o leitor lhe apetecer, poderá visionar o local das originais férias dos meus dedos. Comecemos a descrição: as persianas do meu escritório são, quer nasça, quer não nasça o Sol, pálpebras cerradas. Prefiro a iluminação artificial no meu universo, ora constelado de emoções feéricas, ora, talvez mais recorrentemente, nublado de novelos negros, pingando grossas gotas de apelos de fuga.
Oiço, dizendo-me, neste instante, num tom cálido, saboreando um cigarro, introduzido numa longa boquilha prateada, que, amante da beleza, gosto mais de extasiar os olhos na contemplação das flores de vasos, colocados sobre uma laje de granito, do que ver a luz do Sol banhar uma floresta de cimento armado e o tapete do meu bairro esburacado, com remendos negros, aos quais tenho acesso, se fizer abrir os olhos das persianas ou se me debruçar em qualquer uma das três varandas do meu apartamento.
Agora, em férias, os dedos acariciam a escultura floral que exibo sobre a mesa da escrita, como se fosse o peito perfumado de um amante. Deslizam, divagam, sensuais. O xisto luzente e a rocha magmática pingam feixes de luz rosácea e arroxeada das flores exóticas, respingando-me as mãos. A ponta dos dedos são dez luas redondas e púrpuras «nuancées» de gotículas policromas, reluzindo como minerais preciosos.
De súbito, o meu olhar é uma ausência e, em vão, me esforço por estrangular um grito insurrecto, espetado na garganta do tempo. Deixo cair, pesada, a cabeça, sobre a mesa. Os dedos imobilizam-se, e a solidão invade, galopante, este meu espaço de reclusa voluntária. Findo, por consequência, esta crónica transgénica, com um poema inédito, há séculos, em perfeita conformidade com o clima emocional que, neste agora, se respira. Oiça-o o leitor, porque a poesia deve ser sempre lida em voz alta:
A solidão
São impresenças
Nos espelhos;
São passos de sombras
Sinistras nos
Corredores; são uivos nas veias
Vermelhas do desejo;
São bolbos de bolores de ausências;
São bisturis gélidos de silêncios;
São musgos nos
Muros de todos os medos;
São coágulos de babas
De lesmas, nas paredes da mágoa;
São feixes de lumes
Salgados da salivas dos astros,
Que não vejo,
Ou numa colecção da pedras
Fantasmadas,
Num não sei onde, aquecendo
O sono dos pássaros,
Ou pulsando
No plasma das palavras,
Sussurradas,
Em vão, aos ouvidos
Do silêncio.
Violeta Teixeira, crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE
Publicado por Violeta Teixeira em 29/07 às 07:57 AM
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Quarta-feira, 27 Julho, 2005
DIZER-TE…
Dizer-me…
Não o disse,
De todo,
Ao teu corpo.
Brevíssimo,
O tempo!
Para tanto
De desconhecido!
Para tão pouco
De infinito!
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES ( 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000), Co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 27/07 às 11:59 PM
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Terça-feira, 26 Julho, 2005
O SILÊNCIO
«O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura.»
Aldous Huxley, in «contraponto»
Publicado por Violeta Teixeira em 26/07 às 11:58 PM
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BUSCO, NUM DESCAMPADO
Busco, num descampado
Insone, um signo humano,
Seja um marco de pedra,
Um artefacto, um poço
Artesiano ou uma pegada.
Nem o simulacro
Da marca ténue de um passo.
Prossigo, mas busco, agora,
Os signos rósea-azulados
De uma aurora, com que
Lavrar os sentidos.
Tardam! Como tudo me tarda.
Tardam os signos, a raiar,
Nos costados da noite.
Sento-me, por fim,
Na soleira do desconforto,
Com vertigens nas veias,
De vinho gelado.
Cega-me, de súbito,
Uma luz solar,
Vindo dos olhos
De dois lobos.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 26/07 às 11:10 PM
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Segunda-feira, 25 Julho, 2005
EI-LA!
Ei-la! Pisa, com leveza,
Os regos de água
De um extenso campo
De cenouras. Belíssimo!
Debruça-se. Vêem-se-lhe
Os seios! Colhe uma cenoura
Vívida, e, com dedos
De viúva jovem,
Acaricia aquela pele
Lisa, macia, apetecível.
Ei-la! Brilham-lhe os olhos
De gata. As faces empurpurecem.
Faz um calor de «lingerie»,
De seda, desfolhada.
Abrem-se-lhe os lábios
Vermelhos, trémulos,
Húmidos. Lambe e lambe…
E, docemente, a beija,
À lasciva cenoura.
Gesto de raro
Sortilégio!
A sua boca, ávida,
Devora-a.
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 25/07 às 11:27 PM
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Domingo, 24 Julho, 2005
HOMENAGEM A CARLOS PAREDES
(volvido um ano sobre a sua morte)
A palavra por dentro da guitarra
A guitarra por dentro da palavra
(…)
Manuel Alegre
Humilde.
Celebérrimo e sublime,
Sem o saberes.
Andante,
Puseste a cabeça
No peito amante da
Guitarra,
E adormeceste,
Eterno,
Carlos
Paredes.
Violeta Teixeira (inédito)
Publicado por Violeta Teixeira em 24/07 às 11:41 PM
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Sábado, 23 Julho, 2005
SÓ MOLHO NA TINTA AS MÃOS
Não vos digo
Dos silêncios.
Das vozes.
Das máscaras.
Porque me sento
Nas bordas
Do onde calha,
E são eles
Que se dizem
Do límpido
E perverso jogo…
Só molho, na tinta,
As mãos!
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 23/07 às 11:04 PM
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Sexta-feira, 22 Julho, 2005
HÁ-DE HAVER
Há-de haver, algures,
No espaço estelar,
Uma mão
Com dedos ígneos
Que desembacie o
Sol,
Que azule o Céu,
Quando os meus
Olhos
Amanhecem
Afogados no medo.
Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999
Publicado por Violeta Teixeira em 22/07 às 11:10 PM
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ENLOUQUEÇO?
Não sei saber
Quem me fui.
Não sei saber
Quem me sou
Enlouqueço?
«Só o Nada se é
Antes do Ser.
De que te serve o me?
De que te serve o se saber?
Esquece o quem
Me sou.
Somos múltiplos
E ninguém o sabe.
Vive-se ou não se vive.»
Em que consiste?
«Faz silêncio.
E finge. Finge que
Sabes, finge que vives.
A vida
É um sério e sincero
Fingimento.
Ou, talvez,
Sono, loucura, sonho,
Esquecimento.»
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, Co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 22/07 às 12:38 AM
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Quinta-feira, 21 Julho, 2005
A BELEZA É EFÉMERA
A beleza é efémera. Eu sei.
Dolorosamente.
Angustiadamente. Eu sei.
Por isso, finda que for,
No olhar do outro,
A aranha, que me sou,
Tecerá, negríssima,
A derradeira teia.
Faça silêncio, o leitor,
E, antes que a tecedeira
Se despeça das babas, dos fios,
Dos fusos, dê-me a boca a beijar,
Como um amante.
Abrace-me. Faça-me amor,
Como se o tempo a haver não
Houvera, nem fora efémera
A Primavera.
Mas, por favor, não me traga
Flores, nesse Inverno a vir,
Que eu o adorno de orvalhos
Azulinos e de um vago rumor
De galhos, se partindo.
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 21/07 às 01:27 AM
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Quarta-feira, 20 Julho, 2005
A SOLIDÃO
A solidão
São impresenças
Nos espelhos;
São passos de sombras
Sinistras nos
Corredores; são uivos nas veias
Vermelhas do desejo;
São bolbos de bolores de ausências;
São bisturis gélidos de silêncios;
São musgos nos
Muros de todos os medos;
São coágulos de babas
De lesmas, nas paredes da mágoa;
São feixes de lumes
Salgados da salivas dos astros,
Que não vejo,
Ou numa colecção da pedras
Fantasmadas,
Num não sei onde, aquecendo
O sono dos pássaros,
Ou pulsando
No plasma das palavras,
Sussurradas,
Em vão, aos ouvidos
Do silêncio.
Violeta Teixeira, inédito (BOLORES DE AUSÊNCIAS)
Publicado por Violeta Teixeira em 20/07 às 12:32 AM
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