Quinta-feira, 30 Junho, 2005

NECRÓPOLE PAGÃ

Asas mutiladas, tombam, abruptos, desbussolados, bandos
De pássaros, no lajedo tosco do poema inconcluso: necrópole
Pagã em ruínas. Pouso, debalde, a caneta, olhos aprisionados
Pela surpresa sangrenta. O escrito faz-se a si mesmo, ou, dito
De outro modo, os dedos grafam o insólito, gravam no lajedo
Basáltico do corpo nunca concluído do poema. A custo, me
Levanto. Apanho, cuidadosa e candidamente, o que resta dos
Mortos e dos moribundos: asas esbranquiçadas murchas, bicos
Retorcidos, patas, sem penugens, curvadas, debitando fios
Grossos de sangue, vívido ainda, quilhas quebradas; olhos
Negros, se bem que abertos, cegos e mudos e absortos.

De súbito, decido-me pelo óbvio: adorno o guardanapo
Branco do escrevo, sem que me escreva, a mim, com
Coágulos excêntricos de sangue carmesim. O poema, esse,
O se faz só, prossegue o seu curso, alheio à vontade da
Poeta sádica, e, no agora, ao mesmo tempo, extasiada,
Lagrimando, embora, a bizarra e sórdida mortandade.

Violeta Teixeira (inédito- ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 09:11 AM
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«LA PAROLE»

“La parole est cette dimension par où le désir du sujet est authentiquement intégré sur le plan symbolique.”

Freud

Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 12:33 AM
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Quarta-feira, 29 Junho, 2005

«PENSAR DÓI»?

“ce qui donne le plus à penser dans notre temps qui donne à penser est que nous ne pensons pas encore”

Heidegger

Publicado por Violeta Teixeira em 29/06 às 12:21 AM
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Terça-feira, 28 Junho, 2005

SEPARACIÓN

Para o meu amigo S.

En balde, te bañas
En lagos límpidos.

Nada te lava de lo que
Hemos vivido, porque,
Después de partidas las
Ramas, yo respiro en
La raíz de tuyos tejidos. 

Violeta Teixeira, in Antologia Internacional, SUEÑOS SECRETOS, 2005
( Trad: Violeta Teixeira)

Debalde, te banhas
Em lagos límpidos.
Nada te lava do havido,
Porque, partidos os galhos,
Eu respiro-me na raiz
Dos teus tecidos.

Violeta Teixeira ( poema original)

Publicado por Violeta Teixeira em 28/06 às 11:50 PM
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Segunda-feira, 27 Junho, 2005

«DOUTE/CERTITUDE»

“ ce n’est pas le doute qui rend fou, c’est la certitude”

Nietzsche


Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 11:20 PM
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ÍNTEGRA ME DOU

Desnuda,
Aqui,
Íntegra me dou.

Que venha a crítica,
Mas
Não se atreva
A julgar impudica a sincera
E solitária nudez da artista,
Que se entrega,
Sem moral, sem ética,
Ao sacrifício solene
E sacro da escrita,
Onde derrama o sangue
E se morre,
Em cada
Parto. 

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições,

Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 11:10 PM
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DESIR

“on est ce qu’on désire.
Mais ce qu’on désire, on l’ignore. Et ce désir, dont nous ignorons en quoi il consiste, mais que nous subissons comme la frappe la plus singulière de notre “moi”, nul d’entre nous n’a choisi qu’il nous habite. Il est “écrit”. Il nous précède. Nous entrons dans son champ par le biais du langage.
Avant même de naître, nous sommes voués, heur ou malheur, à en devenir un jour le gestionnaire. D’où la faille. Car ce désir qui nous structure n’est pas nôtre. Il est, par le biais du discours, désir de l’Autre, désire d’un Autre désirant.
C’est pourquoi, êtres de désir, notre destin est de ne pouvoir accéder qu’au manque-à-être”


LACAN

Publicado por Violeta Teixeira em 27/06 às 12:11 AM
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Domingo, 26 Junho, 2005

DESNUDEI-O

PARA O MEU AMIGO BLOGUISTA « CISNE FEIO»

Com tanta peça se veste o poema! Desnudei-o,
Porém. Retirei, com ritos erótico- poéticos,
Uma a uma, até à medula recheada de aromas
«Exquis», de excitantes sabores, de tons
Eufónicos. Despi-lo, ao teu poema movente,
Foi a descoberta extasiada de todo um corpo
Que se entrega à posse do outro, e, embora
Ocluso, na entrada, ostenta, narcísico, no depois,
Ritualmente, o acesso: meandros sinuosos de mistério.
Entrego-to, vestido, novamente, com os mesmos
Ritos, mas os tons, esses, ressoam ainda no meu
Dentro. Não de cisne feio, caro poeta, mas de cisnes
Róseos, no lago calmo e azulado do me relembro.

Violeta Teixeira, inédito (ARKHIPÉLAGOS EROTIKÓS)

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 11:37 PM
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MISTÉRIO

«O mistério em que envolvemos os nossos desígnios revela muitas vezes mais fraqueza do que discrição, e com frequência prejudica-nos mais.»

Luc de Clapiers Vaunegardes

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 12:25 AM
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«VOYEURS»

PARA O BLOGUISTA DARKPARK, O «VOYEUR» PIRATA

Sem efeito de fecho,
A vós, «voyeurs» do «pathós»
Do Outro, digo-vos tão só
Que sou um bicho ferozmente ferido,
Tão ferido, que sacio a fome de verde,
A sede dos sonhos, que não sonho,
O cio de um corpo proibido,
Sem que, da pastagem, se solte
O frémito das crinas de um afecto,
Salvo no lençol freático do escrito.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 26/06 às 12:10 AM
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Sábado, 25 Junho, 2005

«O EROTISMO»

Os homens mais novos não entendem o… como é que vocês dizem?… o erotismo. Até aos quarenta, caímos sempre no mesmo erro, não sabemos libertar-nos do amor: um homem que, em vez de pensar numa mulher como complemento de um sexo, pensa no sexo como complemento de uma mulher, está pronto para o amor: tanto pior para ele.

André Malraux, in ‘A Estrada Real’

Publicado por Violeta Teixeira em 25/06 às 01:35 AM
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ALVOROÇO ARDENTE DE SEIOS

A cerca de pedra da
Minha quinta veste-se,
Neste outono precoce,
Do vermelho - acobreado
Da vinha - virgem.

Flanam, com vagares
De babas, lesmas e caracóis,
Nas raízes aéreas, que, ineptas,
Não se agarram às pedras.

Roxos, inúmeros maracujás
Balançam-se, pendurados
No perigo da queda, sobre
Brincos -de-princesa bicolores,
Murchos, no fundo de vasos
Vazios, e na grama molhada.

Curvam-se os cedros, os pinhos,
Os abetos, as acácias da Austrália;
E os pássaros bicam-me o alvoroço
Ardente dos seios, as pernas trémulas,
Os braços ausentes que te enlaçam.

Abraço-me ao tronco esbelto de
Um loureiro maduro. Excita-me
O aroma. Entrego a boca a bagas
Cálidas de chuva. Fantasio-o. Exulto.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 25/06 às 01:16 AM
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Quinta-feira, 23 Junho, 2005

POESIA

Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira

Bernardo Soares/Fernando Pessoa(s), in «Livro do Desassossego»

Publicado por Violeta Teixeira em 23/06 às 11:46 PM
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REBANHO ALOIRADO DE ASTROS

PARA O BLOGUISTA DARKPARK

Vertigens incrivelmente brancas
Eriçam-lhe as crinas de uma
Demência indomável.

Novelos cinzentos de nuvens
Galopam velozes os penhascos
Da sua psicose impositiva.

A lua cheia, emergente, afoga-se
No açude dos seus olhos, donde
Desagua, moribundo, um cardume
De escamas de um rubro arrogante.

Sucumbe contra a sebe de pedra
De uma pastagem de luzerna, sem
Se dar conta que, na sua presença,
Ali, ao lado, a noite apascenta
Um rebanho aloirado de astros.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 23/06 às 11:34 PM
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CONGÉNITA INSATISFAÇÃO

Para a minha nora Sofia.

Aprendi que depois do horizonte,
Há mais horizonte. 
Aprendi que não existe limite,
A não ser o nosso próprio limite.

In Antologia da Nova Poesia Brasileira, Biafra, 1992

Remonto a um tempo antiquíssimo, ferida pelas furtivas
Feras, ébria de um fascínio, dulcíssimo e feroz. Busco
Um primevo e congénito, creio, gosto humano de ser
Pássaro, com asas velozes e olhos vorazes de
Espaços estelares, plenos de um mistério, forrado
De medo e de hipnótico chamamento. Imperativo.
Urgente convite a voos, sem retorno, talvez, ao chão
Seguro, mas, ao mesmo tempo, assustador, como o
Escuro das noites, sem searas louras, semeadas nos
Céus nevoentos. Ser terreno e erecto, caminhante em
Chão conhecido, remador em águas fluviais e oceânicas,
A abóbada celeste, semeada de fogos fulvos reluzentes,
Fascinam-no profundamente, como se Dédalo ou Ícaro
Fosse, aprisionado no Labirinto de Creta, do déspota
Minos. Sensato e aventureiro intrépido, projecta asas
Voantes, mecanismos e engenhos, como quilhas
Aerodinâmicas de aves de grande porte, com desígnios
De cobiça interdita e lícita, corpo livre no berço terreno,
Mas preso ao sonho obsessivo de esgarçar o limite infinito,
Com garras afiadíssimas de tigres ou de linces. Viajante
Entre a terra e os céus, vime frágil e rijo, efémero e eterno,
O « homo Sapiens» inventa o fogo, amanha o chão que pisa,
Cozinha a caça e a pesca, aquece a gruta ou a caverna, mas
A liberdade aprisiona-o na rotina aracnídea dos dias.
Sossego precário, provisório, o da sua mente, num
Desassossego permanente! Mergulha nas águas
Glaucas de um tanque, e, pescador nato, lança a rede
E aprisiona a Lua na sua trama. Embala-a, como quem
Dança, mas, embora exultante, insatisfeito, logo projecta
O como exercer o domínio de todo o Cosmos.

Tamanha ambição assusta-o e incita-o
A ser o senhor supremo do Universo. A Lua, essa, já é sua.
Exulta o astronauta: fiapo, fragilíssimo, este,
De feno, e corda de cânhamo, a tudo resistente!

Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQUECIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 23/06 às 07:52 AM
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