Terça-feira, 31 Maio, 2005

«NADA É DRAMA, TUDO É INTRIGA E TRAMA»

«NÃO HÁ DRAMA, TUDO É INTRIGA E TRAMA»

Nesta nesga rectangular da terra hispânica nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», «escreveu alguém ao longo da escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve- na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico.»
Se «nada acontece», se «nada se inscreve», como encontrarei eu um objecto temático de modo a que preencha uma folha virgem com grafemas de imprensa? Melhor. Grafemas, sim. Bastar-me-á ir colhê-los no alfabeto fenício-latino. Mas… Mas como acasalá-los por forma a obter semas plenos de sentido? Mais. E como organizar uma sintagmática narrativa legível, com cerca de 4 mil grafemas?
Não! Impossível desígnio, este! Resta-me tão-só, creio eu, repetir até à exaustão a dimensão daquela página, com as expressões «nada acontece», «nada se inscreve», «não há drama, tudo é intriga e trama». Que me chame o leitor louca, fundamentalista, antipatriótica! Seja. Faça-o! Ou, então… Outra ideia me iluminou neste agora. Qual? «Palavrar» sobre o passado histórico remoto, designado de epopeico, o qual, «de direito, se inscreveu já, de toda a maneira – mas onde?» Porque, curiosamente, aquele «graffiti» tentava inscrever a impossibilidade de inscrever (…)». Na verdade, o Portugal de hoje, o da «não-inscrição prolonga o antigo regime (…). Porque inscrever implica acção, afirmação, decisão com os quais o indivíduo conquista autonomia e sentido de existência. Foi o salazarismo que nos ensinou a irresponsabilidade, reduzindo-nos a crianças, crianças grandes, adultos infantilizados».
«E se tudo se desenrola sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, é porque tudo entra na impunidade do tempo - como se o tempo trouxesse, imediatamente, no presente, o esquecimento do que está à vista, presente.».
Assim sendo, desistirei de concretizar a primeira intenção à qual, acima, me referi, e remontar ao passado histórico. Ao glorioso, obviamente. Não se tenha, contudo, a ilusão de que irei escrever um poema épico.
Começarei por ilustrar este escrito com a imagem do mapa físico e frio deste rectângulo hispânico, o qual (para nosso bem?) começou a ser desenhado por D. Afonso Henriques, a partir do Condado Portucalense, herdado pelo pai, D. Henrique, vindo da Gália para casar com Dª Urraca, acompanhado de várias famílias, entre as quais a família Teixeira, aquela que, como fizeram muitas outras da nobreza, se dividiu, aquando da Batalha de Aljubarrota. Alguns elementos lutaram ao lado dos castelhanos, legítimos herdeiros da coroa portuguesa, de acordo com a lei dinástica em vigor; outros, nas hostes do Beato D. Nuno Álvares Pereira. Aos traidores se refere Camões em «Os Lusíadas» nos versos que se seguem: «(…) no reino escuro de Sumano (inferno)/ Dizei-lhe que também dos portugueses/ alguns tredores houve alguãs vezes/». Não me importo de confessar que esta escrevente, segundo investigações genealógicas feitas pelo pai e, posteriormente, por ela, descende de um daqueles traidores a que se refere Camões, embora, séculos depois, um seu descendente tenha sido um dos (re) descobridores da Madeira, tendo sido donatário de metade da ilha, passando a residir em Machico, vila onde nasceu o meu avô materno. Já que falo do Tristão Vaz Teixeira (este último apelido pertencia à mulher), faço questão de dizer que ele ou o filho (tinham o mesmo nome) fez parte da chamada Escola Poética da Madeira, tendo poemas galantes no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Ocorre-me, por isso, perguntar: não terei herdado um genes poético deste meu ascendente? Se assim foi, devo agradecer às maravilhas insondáveis da genética.
Como o leitor já verificou, remontando ao passado, acabei por organizar esta narrativa. Mal estruturada? Talvez. Além do mais, sem intencionalidade prévia, incluí-me, orgulhosamente, nela. Por que não? Dado que neste país da «não-inscrição» quem demonstra talento em vida, só, depois de bem morto, vem a ser reconhecido, talvez me suceda o mesmo. No meu caso concreto, vir a fazer parte da História da Literatura Portuguesa, como o meu antepassado. Pretensiosa, eu? E se for?
Concluo, lamentando que, por falta de espaço, não me foi possível inserir, no mapa, a bandeira da Pátria Lusa. Assim, poderia «nuancer» o meu antipatriotismo evidenciado, com limpidez sincera, neste texto. Dir-lhe-ei, caro leitor, para terminar, que aquele sentimento talvez se deva à Genética ( por vezes cruel):  não fluí, nas minhas veias, uma única gota de sangue português. Sim. Sei. Não o convenci. Lamento.

Violeta Teixeira

Publicado por Violeta Teixeira em 31/05 às 12:23 AM
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Segunda-feira, 30 Maio, 2005

ALUCINACIÓN

Tremolan, suspensas,
Sonámbulas, esculturas
Espectrales, «en papier mâché».

Una revolada de aves nocturnas
Astillan las vidrieras duplas,
Y si lanza en la caza de los insectos,
Que defecan en las bocas absortas
De les seis piezas excéntricas.

Artista maníaca, cruzo mías piernas
Bellas, extendidas en lo marmóreo
Bermejo de la vieja galería de arte.

Enciendo, con «charme», uno cigarrillo
De «cannabis», y fumo, con furores
Sádicos, las delicias encolerizadas
De les eximias aves «ravisseuses».

Trad : Violeta Teixeira

Violeta Teixeira, in Antologia Internacional, REGALOS DEL ALMA, 2005

Tremulam, suspensas,
Sonâmbulas, esculturas
Espectrais, «en papier mâché».

Uma revoada de aves nocturnas
Estilhaça as vidraças duplas,
E lança-se na caça aos insectos
Que dejectam nas bocas absortas
Das seis peças excêntricas.

Artista maníaca, cruzo as belas
Pernas, estendidas no mármore
Vermelho da antiga galeria de arte.

Acendo, com requinte, um «charro»
De «cannabis», e fumo, com furores
Sádicos, as delícias enraivecidas
Das exímias aves «ravisseuses».

Violeta Teixeira ( poema na sua versão original)

Publicado por Violeta Teixeira em 30/05 às 11:48 PM
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ESCREVER

Escrever é um modo falsamente inofensivo de nos suicidarmos.

Al Berto

Publicado por Violeta Teixeira em 30/05 às 12:49 AM
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Domingo, 29 Maio, 2005

APAGO AS PÁLPEBRAS

Apago as pálpebras
Para ver melhor a
Combustão.

Erecto,
Na polpa da mão.

Orvalhado,
Na boca.

Violeta Teixeira, in Antologia Internacional, AGRESTE UTOPIA, São Paulo, Brasil, 2005

Publicado por Violeta Teixeira em 29/05 às 11:55 PM
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SOU

Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente.Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.

Bernardo Soares, in LIVRO DO DESASSOSSEGO

Publicado por Violeta Teixeira em 29/05 às 12:09 AM
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Sábado, 28 Maio, 2005

CIO E ÓPIO


Flúem
De um ventre
De orvalho.

São águas.
Jorram
Fluentes,

Com
Silêncios que
Pontuo
De metafórica
Vulva.

Com
Secretos fonemas
De um
«Phallós» na
Boca.

Com
Anáforas eróticas,
De
Róseas
Madrugadas.

Com
Cio e ópio nas
Células
Dos
Poemas.

Violeta Teixeira, in Antologia internacional AGRESTE UTOPIA, São Paulo, Brasil, 2005

Publicado por Violeta Teixeira em 28/05 às 11:41 PM
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PESADELO POÉTICO

(...)preciso de me contaminar
para suavizar esta solidão…

CARLO LUCARELLI

PESADELO POÉTICO

I

Acorda, às cinco e trinta da manhã, colada às costas de um corpo gélido. Assustada, com arrepios de frio, apesar do quarto aquecido, salta da cama, e, num gesto instintivo, empurra-o para o chão. Tomba. Hirto. Arroxeado. Não ousa, a escritora, cerrar-lhe as pálpebras, nem cobri-lo. Num rasgo lúcido, passados que foram uns segundos estupe -factos, reconhece a identidade do corpo, com um grito de surpresa.
- Não! Não! Não é possível!
Estivera a escrever um conto até às duas, mas não o havia concluído, como era sua intenção, dado que o protagonista silenciou-lhe o desfecho.
- Mal consigo manter os olhos abertos! «Merde! Merde»! - Grita, enraivecida, enquanto veste um «robe de chambre», em seda vermelha.
Corre até o escritório, e liga, apressada, o computador. Busca o ficheiro do conto inacabado, e vai se dirigindo àquele corpo, com palavras de uma ironia embebida de amargura.
- Que pintor maldito! Por que escolheste a minha cama para dormires? Não te deixei, ontem, de madrugada, no teu atelier? Sim! Não vale a pena me enganares! Acabavas de pintar um tela plagiada de Salvador Dali! Não gostaste dela, e a retalhaste, porque nenhum «marchand» ta compraria, para a revender como autêntica. Julgarás que ignoro o teu talento de plagiador?! Enfim! Mudemos de assunto. De acordo? Sim! Achas delicado, seu terrorista emocional, o me teres acordado a esta hora lavada da manhã, nesse estado assustador? Estás à espera, com certeza, que seja eu, a tua criadora, a cerrar-te essas pálpebras visionárias? Olha para mim, seu pintor maldito? Fechá-las-ias se fossem dois sóis cegos. Julgas que sou eu o médico que te vai passar a certidão de óbito? Ou o legista que te há-de fazer a autopsia? Fica sabendo que é o teu amigo Luís quem vai tratar de todos esses pormenores macabros. Vou levar-te, daqui a pouco, ao teu atelier, e é lá que ele te vai encontrar. Interessante! Dá uma gargalhada, e acrescenta, sarcástica: 
- Sabes, é lá que vou encenar uma «overdose» poética. No «décor» haverá uma lagoa de sangue, pista falsa, obviamente, para intrigar a polícia judiciária. Um pintor maldito, como tu, merecia uma perversidade com mais requinte, não achas? Mas, vá, não te lamentes! Colocarei sobre o teu peito jovem e «sexy», com um prazer elegíaco, um búzio rosáceo, que terás trazido, creio, da fundura do mar, e um fio de sangue, serpenteando o teu corpo, fio, esse, que vai desaguar no teu sexo, « phallós» idêntico ao que vês nas estátuas gregas. Não! Não tomes esta analogia como um elogio! Ouviste? Ah! Já me esquecia de te dizer que vou orquestrar uma sonata marítima. Querias algo de mais artístico, seu elitista?! Falta, eu sei, um grande coroa de anémonas, seu Adónis! Não achas? Não te preocupes! Vou colocá-la sobre o teu corpo, quando estiveres adormecido no caixão. Bem! Vamos para o «atelier»! Não vá chegar antes de nós o Luís… Vamos!

II

A narradora deixa o pintor no seu atelier, e regressa, rápida, a casa. Mete-se na cama, depois de ter fumado um cigarro, e adormece. Ás nove horas, desperta, carregando o peso bruto de um pesadelo, paradoxalmente, poético.
Levanta-se, com um poema «tout fait» digno da excentricidade de Pedro de Almeida, o que prova, pensa, que algumas personagens colam-se como as lapas, aos rochedos, à mente dos contadores das suas histórias, mesmo depois da sua morte.
- Que personagem esta! O poema já saiu da impressora, mas não julgues que irei to dedicar. Vou rasgá-lo, e lançar, solenemente, pétala a pétala, sobre o teu féretro. Não estás à espera que alguém o vá envolver, como derradeiro abraço, a bandeira da pátria, que, aliás, não tens? Ou a da Associação De Artistas, à qual nunca quiseste aderir? Vês o que te valeu a tua tenaz marginalidade «snob»?! Não desesperes? Terás, apesar de tudo, um elogio fúnebre. Quem o proferirá? Não me perguntas? Ora, seu pretensioso, não adivinhas quem o fará? Não me importo de to dizer. É o teu amigo Luís, o que só pinta trechos de paisagens « popularuxas », termo que não utilizavas, é certo, mas nele pensavas, não é verdade? Não mereces qualquer elogio, mas… Olha, além do mais, só assistirão ao teu enterro o coveiro, o Luís, e esta escrevente que, se bem que seja mais marginal, mais rebelde e perversa do que tu, costuma acompanhar as personagens que mata ou lhe aparecem mortas, à terra de que são feitas. - Descasca o silêncio, como se o pintor ainda lá estivesse.
Aqui, se silencia a escritora. Saiba, o leitor, que vai hibernar, debaixo do linho bordado a prata, do seu «édredon» de penas de ganso. Já tomou, há meia hora, a dose adequada a esse fim. Não lhe pergunte de que psicofármaco se trata. Dir-lhe- á, tão- somente, que se considera uma serpente em vias de extinção. Uma vipera seoanei. Assustou-se? Não vale a pena, é um réptil tranquilo e tímido que apenas morde em casos de legítima defesa. Tenha cuidado, sempre que dela se aproximar, com vis desígnios, como fazem alguns bruxos, que utilizam as cabeças desta espécie para as suas bruxarias. Não deixa, por esse motivo de o informar que, apesar de tranquila e tímida, como lhe disse, há pouco, é uma víbora venenosa.

III

O seu relógio biológico, se bem que o seu corpo tivesse permanecido vinte e quatro horas em estado de letargia, alerta-a para o facto de ter que se tornar activa. O funeral de Pedro de Almeida terá lugar dentro de uma hora, o tempo suficiente para se arranjar e fazer, de táxi, o trajecto até o cemitério, situado na parte mais elevada da cidade, de onde se pode beber o mar, com olhos ávidos de água.
- Boa tarde, Sr.Luís Nogueira!
- Boa tarde! Desculpe, é familiar do Pedro?
- Não. Nenhum laço sanguíneo nos liga… Dormiu comigo na noite da sua morte Apenas. Soube, por ele, do seu nome e da vossa amizade.
- Ah! Agora, começo a perceber… - Cala-se, comovido.
- O quê, Sr.Luís?
- Depois, podemos falar disso, se não se importa? Como se chama a senhora?
- Desculpe! Digo-lhe, simplesmente que sou escritora.
Coloco em cima do peito do Pedro uma cora de anémonas, como lhe havia prome- tido. O Luís faz, com uma voz verde e pastosa, o elogio fúnebre, e, fechado o caixão, espalho as pétalas do poema rasgado, na parte onde a cabeça do pintor repousa, olhando, ao mesmo tempo para a expressão do seu único amigo. Perplexo? Escandaliza- do? Chocado? Talvez uma mistura de tudo isso, perante aquele gesto insólito - quem sabe? - excêntrico e herético, para os olhos simples e cândidos do pintor de paisagens.
Despeço-me do Luís. Não suporto os sons brutos da queda das pás de terra.
- Bom! Já cumpri a minha missão, vou dizendo, entrando no táxi, que ficara à minha espera, junto do portão do cemitério.
- Achas que sim, sua serpente perversa? - Pergunta-me, agressivo, o satânico pintor.
- Sim! Que mais deveria eu ter feito? Sê, ao menos, delicado! Deves-me um agradecimento, não sabes?
- Não! Não te devo nada. Queres que te agradeça a morte que me deste?
- Eu? És louco! Por que faria isso, eu, que adoro efebos belos, como tu?! Não me digas mais nada, ouviste? Não ouses invadir, de novo, os meus domínios privados, a não ser que…
- A não ser o quê? Diz lá?
- Se não supões o que seja…
- Não! Mas, neste momento, o que apetece é fumar. Tens um «charro» que me ofereças?
- Sim! Fumemos, se quiseres, os dois. E damos, assim, viciosamente, por finda a nossa relação? De acordo?
- Nunca faço promessas, e, se as fizesse, nunca as cumpriria. Já devias saber…
- Bem! Fumemos! Depois, verei o que fazer para que cumpras o que te pedi. Fume- mos! «Charro» e vida. E morte. Afinal, tudo é fumo…
Acabado o «charro», um silêncio feito de incontáveis camadas, cai, retumbante, sobre os meus ombros. Como descascá-lo? Não sei. Começo a sentir algo que rasteja por baixo da pele de todo o corpo, como se fosse um animal, deslizando veloz.

IV

Na parte baixa da cidade, tomo um café bem forte. Fumo outro charro, e regresso a casa. Ao vazio. Ao vazio absoluto. Branco. Ao vazio, de onde nasce, perversamente pura a minha escrita poética e a narrativa, escrita da serpente e, sobretudo da aranha, que me sou, una e múltipla, de tal modo constelar, que desconheço três das vozes que se dizem, sem que me escrevam. Dizem-se, consoante a temperatura do sangue das luas, do ritmo das marés ou das dunas esvaídas. Serão serpentes? Aranhas? Como saber algo dessas desconhecidas?

V

- Que fazes aqui, no meu atelier? Não nos despedimos para sempre, fumando um delicioso cigarro de «cannabis» Responde! Não olhes para esta tela. Queres saber que continuo a plagiar Salvador Dali ou Vieira da Silva
Emudece.
A escritora tem a impressão que está na presença de um ausente, de um ser, roçando a órbita de um planeta-outro. Para estilhaçar o gelo que se amontoa, começa a dar voltas naquele espaço, batendo, com força, os saltos altos no pavimento de madeira, que geme, sinistro, até aos confins do insustentável. Falta-lhe o ar. E a respiração do suposto ausente é o gotejar de uma torneira lassa.
- Estás a sentir-te mal? Pega num espelho. Que palidez, a tua? Não me vês, é isso? Não reconheces a minha voz? Vais desmaiar? Fala? Além da vista, também perdeste a voz? Chegaste carregada de energia cósmica, bombardeaste-me com uma série de perguntas, e, agora, estas a ficar reduzida a uma ausência. Vá! O que te provocou esse choque ou pânico? Eu? A tela? Invadiste o meu atelier, julgando que eu não estaria… não poderia estar?… Terei desmaiado. Durante quanto tempo? Nunca o saberei.
- Onde estou? Por onde orbitei? Estou a regressar de onde? Do passado? Do futuro? Do presente?
- Tanta panóplia de saberes! Afinal, para nada. Para o Nada. - oiço uma voz, vinda do infinito, filtrada por centenas da anos-luz.
Movo, com esforço hercúleo, os lábios secos e frios, mas não consigo que deles saia, senão frases ou palavras, pelo menos sons, ainda que descosidos. Avulsos. Sem sentido. Nada! O olfacto, recupero-o. Cheira-me a óleos acrílicos, a diluentes, a suor, a perfume e a esperma. Concerto excitante de odores lascivos.
- Então, estás melhor, sua réptil tímida e tranquila?! Continuas a crer que a minha voz vem do infinito? Mudaste de ideias?!
- Não… não… - articula, num tom ténue.
- O que me aconteceu..., sabes?
- Saíste do teu planeta, e andaste a viajar pelo cosmos…
- Eu? Estás mitómano? Ou queres te vingar de mim?
- Ah! Ainda bem! Já estás com os pés na Terra! E a voz te veio. A que propósito falas de vingança? Tens algum remorso te roendo essas entranhas de víbora?!
- Por que motivo?…
- Tanta inocência, a tua! Estás patética! Foi divertida a tua viagem?!
- Chega! Cala-te! Não me aborreças com a tua ironia! Irritas-me! Diz-me apenas durante quanto tempo viajei, como dizes, pelo cosmos infinito.
- Sim! Faço-te a vontade, com uma condição inócua. Se a aceitares, responderei à tua pergunta.
- Diz lá!
- Apetece-me «sniffar». Tens cocaína?
- Sim! Estás a querer me contaminar com mais um vício?!
- Não te faças de ingénua! Já estás contaminada há séculos. Por favor, dá-me uma dose da cocaína que trazes no forro de um dos teus bolsos!
- Estiveste a investigar o meu «blazer» na minha ausência? Claro!
- Mas esperei que regressasses…
- Façamos, então, pela segunda vez, um despedida, comungando um vício! 
Saboreamos os dois as delícias do éden. Cúmplices. Solidários, como todos os viciados no que quer que seja. Inocentemente, fugindo ao tempo que os tiraniza. Fuga efémera. Ilusória. Somos lúcidos. Não nos dêem lições de um moralismo de sacristia bafienta!
- Bem! Que pergunta me queres fazer?
- Tem a ver com o que chamaste, há pouco, cosmos infinito…
- Fá-la, então! Estou a ficar cansada, e com vontade de hibernar…
- Olha! Não aprendeste, nas centenas de obras que já leste, que «o finito é o infinito, e o infinito o finito.» E que «o presente é a eternidade.»?

Violeta Teixeira (inédito – CAVALO DE FOGO-CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 28/05 às 01:37 PM
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Sexta-feira, 27 Maio, 2005

SUCUMBI NOS BRAÇOS GÉLIDOS DO SILÊNCIO

Para o meu amigo «bloguista» Ricardo

Entrei, furtiva, no clima cálido da tua atmosfera,
E não te deste conta da minha presença esfíngica.
Coloquei numa mesa duas velas, lagrimando gotas
Grossas de um vermelho vulcânico. Cego, a tua
Objectiva não aprisionou o peso flagrante do efémero.
Sentei-me, com «charme», mas não me ofereceste
Um copo de absinto verdíssimo, que me matasse a
Sede do interdito. Triste, desfraldei as asas da fantasia
E, com um sopro ténue, apaguei a luz do tecto e as
Brasas rubras da lareira; desactivei o alarme e nenhum
Sinal de alerta soou. Ouvi tão-somente o fluir inexorável
Da água na clepsidra e o roçar de uma brisa cetinosa
E lasciva nas pernas cruzadas na cadeira do tempo.
Fora do tempo. Cerrei as pálpebras e, num ápice, adormeci,
Mergulhada nas águas oníricas. Ainda me recordo
De ter acordado, gritando para dentro do fundo
Do meu poço, sem fundo, que me fizesses e me
Desses, na boca seca, uma infusão de beladona. Em vão.
Sucumbi, porém, os braços de um silêncio gélido.
Ressuscitei ao terceiro dia, sem que me tivesses visto,
Mas não me reconheci. No chão jaziam, esparsos, cacos
Nítidos multicolores. Inepta, tentei encaixá-los.
Sobravam sempre, todavia, mais cacos. Sempre
Mais cacos. Esquivos. Amorfos. Desisti da vanidade do
Esforço, e, em verdade, te digo que não sei saber,
Neste agora, onde estou, nem quem me sou. Quem me
Molda um ser uno e múltiplo? Quem me traz
De volta ao cais de embarque, onde, debalde, uma
Eu-outra-mesma me espera, ou finge fazê-lo, sentada
Na esteira do nada vale a pena que se faça,
Neste universo mudo e autista e absurdo. 

Por que segura, com dedos hirtos, o amarelado
Mapa geográfico de um Dédalo? Como sabê-lo?

Violeta Teixeira ( Inédito – ORGIAS DE ESQUIMENTO)

Publicado por Violeta Teixeira em 27/05 às 11:46 PM
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Quinta-feira, 26 Maio, 2005

O SEXO COMO FACTOR DE GÉNIO

O facto de o sexo desempenhar um maior ou menor papel na vida de alguém parece relativamente irrelevante. Algumas das maiores realizações de que temos notícia foram empreendidas por indivíduos cuja vida sexual foi reduzida ou nula. Em contrapartida, sabemos pela biografia de certos artistas - figuras de primeira grandeza - que as suas obras imponentes nunca teriam sido realizadas se eles não tivessem vivido mergulhados em sexo. No caso de alguns poucos, os períodos de criatividade excepcional coincidiram com períodos de extrema licença sexual. Nem a abstinência nem a licença explicam seja o que for.
No campo do sexo como noutros campos, costumamos referir-nos a uma norma - mas a norma indica apenas o que é estatisticamente verdade para a grande massa dos homens e das mulheres. Aquilo que pode ser normal, razoável, salutar, para a grande maioria, não nos fornece um critério de comportamento no caso do indivíduo excepcional. O homem de génio, quer pela sua obra, quer pelo seu exemplo pessoal, parece estar sempre a proclamar a verdade segundo a qual cada um é a sua própria lei, e o caminho para a realização passa pelo reconhecimento e pela compreensão do facto de que todos somos únicos.

Henry Miller, in ‘O Mundo do Sexo’

Publicado por Violeta Teixeira em 26/05 às 11:35 PM
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SOU APENAS UMA BOCA VULVAR


Sou apenas uma boca vulvar. Não! De nada te vale a pena
Mo negares. Sob uma aura vermelha da Lua, fá-la
Lagar. Mosto. Vinho branco. De Creta.

Vinho perfumado de resina. Ou, então, de aromas
De noz-moscada, gengibre, mostarda ou açafrão,
De acordo com a temperatura e a cor
Da nossa combustão.






Violeta Teixeira ( inédito- ROSAS DE JERICHÓ)

Publicado por Violeta Teixeira em 26/05 às 11:25 PM
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Quarta-feira, 25 Maio, 2005

SEXO

Quanto a sexos, apenas conheço dois: um que se diz sensato, o outro que nos prova que isso não é verdade

Pierre Marivaux

Publicado por Violeta Teixeira em 25/05 às 11:56 PM
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FAZ-ME, DA BOCA, UMA FOZ!

Para o meu amante Inexistente

Faz-me, da boca,
Uma foz!

Fá-lo!

Desagua seiva,
Lava. Espuma.

Nasça-me
Uma lagoa, onde
Floresça uma lua-d’água
Que me saiba a ser tua.

Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003

Publicado por Violeta Teixeira em 25/05 às 11:14 PM
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«PROGRESSO CONTÍNUO DO PASSADO»

Não existe [...] matéria mais resistente nem mais substancial (o tempo). Porque a nossa duração não é apenas um instante a seguir ao outro; se fosse, nunca haveria mais nada além do presente - nenhum prolongamento do passado na actualidade, nenhuma evolução, nenhuma duração concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que morde o futuro e vai inchando à medida que avança. E, como o passado cresce sem parar, não há nenhum limite à sua preservação. A memória [...] não é uma faculdade de arrumar recordações numa gaveta, ou de inscrevê-las num registo [...] Na realidade, o passado preserva-se a si mesmo, automaticamente. Provavelmente acompanha-nos na sua totalidade a cada instante [...]

Henri Bergson, in «A Evolução Criadora»

Publicado por Violeta Teixeira em 25/05 às 07:11 AM
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«O INFERNO»

O inferno é darmo-nos conta de que não existimos e não nos conformamos com isso

Simone Weil

Publicado por Violeta Teixeira em 25/05 às 12:41 AM
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AROMAS OPIÁCEOS

Falo-vos de um festim
De aromas genuínos,
Com centenas
De belíssimas e brancas
Papoilas opiáceas,
Colhidas, candidamente,
Numa noite esbranquiçada
Por um luar de leite.

Não fossem estes
Aromas genuínos,
Como saboriaríamos
Os Baudelaire,
Os Rimbaud,
Os Pessanha
Ou os Walt Whitman?

Não fossem
Os sofisticados
Aromas opiáceos,
Como suportaríamos
A náusea deste
Hospital de alienados?

Violeta Teixeira, in FALO-VOS DO SILÊNCIO, Magno Edições, 1999

Publicado por Violeta Teixeira em 25/05 às 12:25 AM
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