poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sexta-feira, Novembro 10, 2006

TernasSãoAsMadrugadas

Ternas são as madrugadas, bordadas a seda de carícias,
corpos que se buscam como rosas ressequidas,
em manhãs de linho na suspensão das horas e sentidos.
E nesse gesto sem tempo, pára o mundo,
cessa o sonho com sentido, procura-se o infinito,
e no cabo de um braço assim estendido,
nesse promontório ébrio, há uma trémula ilha,
arquipélago vasto desenhado nos teus dedos,
como paisagem pintada de fresco,
a magenta a luz opalina dos gemidos,
um rumor de águas, um latejar de incenso…
Na flor dessas indefesas madrugadas,
em concha nos fechamos a um mundo adormecido
onde a voz dos homens se desfaz em sonho líquido
e o pensamento erra por campos outros florIdos.
E no arco do desejo se desfaz enfim
essa tensa nota de violino, esse rubor meu como carmim
esse rio imenso sem foz nem moinho
essa dor sofrida dos sentidos, apenas fogo,
apenas sustenido, respiração (sopro ferido?)
terna sendo a remissão do desejo solto em riso.
E os meus olhos dançam nos teus dedos
em cada novo afago e terno beijo,
em cada palavra assim esvaída
da queda de nós nos campos verdes
nas cascatas e demais lugares acesos
nos caminhos bordados a palavras e certezas
nos poemas entrelaçados de promessas
na certeza do “nunca” ser demasiado cedo
para tanto amor tanto pássaro desfeito
tanta sede semeada, tanta incursão no medo…
Porque na voz da bruma, meu amor,
teu nome esmorece em queda febril
e o meu gesto de afago queda-se suspenso
despertando em lençóis de neblina,
quando a voz dos teus olhos seca de penumbra
e eu apenas e uma madrugada peregrina
e nada mais do que o barro do silêncio,
um quartzo iluminado na memória, essa
viajante sombria em rendas de menina…
E tu e eu apenas prólogo de uma história
antiga.

9 de Setembro
de 2003

publicado por deSaraComAmor • às 10:54 PM • categoria: poesia



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