deixa que respire a voz dos peixes
o murmúrio exacto das águas
sob as arcadas do teu peito
tu que reges o mundo das sombras
sem seres o anjo negro da morte
tu que sustentas o leito das estrelas
e não és Arquímedes ou Galileo
tu que nasceste homem e sabes ser
pela palavra um acólito de Deus
tu que carregas música no ventre
e como Medeia te alimentas de silêncio
e de filhos inocentes
tu que só existes porque eu te sei
pulsar na memória do meu sangue
ergue-te como estátua forte e imponente
e erege em palavras o poema mais
translúcido de sempre à superfície
imprecisa de um amor qualquer
a que a raiz ainda te prende
pois é sabido que a morte sobrevem
quando o sonho deixa de morder
as nuvens ocasionais do horizonte