As crianças dormem
serenas em seus sonhos
A noite arrefece sem gritar;
abre-se algures um luar
transido de betão
e no silêncio crepitam luzes
de uma outra margem por alcançar.
Somos pontes
e o mundo abeira-se de nós pelos seus arcos,
nas cidades ou nos campos
somos frágeis como barcos
Esquece os gemidos do vento
hoje gelado
as brumas amortalhadas
os véus rasgados
a serra que destila os seus mistérios
que eu vivo na penumbra dos teus olhos
com as estrelas sonolentas
e as velhas oliveiras centenárias
Não partas ainda do tempo
em que a solidão se consome lentamente
inclina o coração para a noite e sente
como é profundo o olhar do universo
a grandeza das coisas que não vemos
e verás que a noite cresce
e as luzes das cidades perdem brilho
e a cidade ao pé das estrelas
desfalece
verás que eu suspendo
a nitidez de cada gesto antigo
guardo Pégasos e prantos
para voar entre as histórias
que invento e nunca conto
mas te mando nas crinas do vento
escritas por magia e em tropel
por um qualquer cavaleiro da esperança
feito em dobras de papel
verás que resistir é apenas
uma questão de levar o fogo do poema
ao ponto onde ruíram as pontes
e em vez das luzes do mundo
visar as estrelas como dantes