Nunca ouviram falar de revoluções que ocorrem mesmo em cima do nosso nariz e nós não as vemos? Pois, eu às vezes também me distraio por uns tempos… E desta vez fui-me deixando levar por uma espécie de ataraxia residual, como se tudo em mim funcionasse em modo de segurança e limitei-me a cumprir-me rigorosamente sem vacilar no menor gesto. Ao fim destas semanas comecei a sentir-me como uma máquina de aparar relva no automático e resolvi dar um saltinho ao mundo, só mesmo para ver. Mas ver como veria um turista ou um alienígena acabado de chegar ao Terreiro do Paço. Sim, só aí. Portugal… Pouco sei do mundo. É demasiado complexo e nada se faz sem guerra. E aqui, no país, tudo se faz com conversa, muita conversa, uma espécie de tira teimas estrutural em que cada um anda a ver se é mais teimoso do que o outro, ou se consegue arregimentar mais almas para a sua causa. E a cisão de opiniões é como uma racha tectónica a atravessar as pessoas, como se a liberdade de expressão permitisse antes do mais que cada um se pronuncie em causa alheia, como se fosse sua.
Chamaram-me a atenção para certo fórum do Jornal Expresso. Tinha de ir ver. Dois ou três professores aguentavam estoicamente as chibatadas de uma chusma de gente a opinar sem hesitações sobre a vida dos profissionais da classe. E a proferir insutos. As coisas que aprendi sobre mim! Ronha matinal, por exemplo, uma coisa que deve ter a ver com a rasteira que se passa ao tempo, no turno da manhã. Deve ser por isso que os professores são os únicos funcionários públicos que levam falta ao 1º minuto do segundo toque. Ronha matinal… E ainda outra: temos os filhos sempre no mês de Março. 90 dias de licença de parto e pimba, ganda pontaria, já não trabalhamos nesse ano lectivo! Fantástico como só agora me ocorreu esta virtude programática da classe. Preparar aulas? Qual quê, e como podíamos comparecer no cabeleireiro se o fizéssemos? Nada. Ensina-se a olho. Ia para me inscrever e coadjuvar os meus colegas que lhes iam aparando o fado. Mas, num Jornal como O Expresso em linha? Inacreditável. O anonimato na net dá cobertura às maiores enormidades. Aparecem transvestidos de filhos de professoras traumatizados pelas mães ociosas, chefes de secretaria que as sabem todas, jovens a recibo verde que querem baixar a fasquia da precariedade a toda a gente, dignos senhores reformados a falarem do tempo do outro senhor. Mas todos se contradizem mais tarde ou mais cedo. E os meus colegas lá, com muita calma… ainda lá estarão, na liça? Fechei.
... para me dar conta de outra cena de injúrias, estas mais civilizadas e a atingir os píncaros da sofisticada manipulação de opinião. A guerra da TLEBS. O queeeê? Quem ainda não sabe o que é a TLEBS, o novo papão que vem aí traumatizar as crianças em idade escolar? A guerra entre os linguistas e os literatos. Valha-me Deus, o que este país se consome em polémicas, rios de tinta só para se sobressair na cena cultural, a intelectualidade disputada, o direito a ditar a cultura no rabo de uma cátedra! Que a Maria Alzira Seixas e o Saramago e outros assim como eles se envolvam na parada, é coisa que me interessa como cor local, a ver o que isto dá… pessoalmente investi todo um ano de trabalho na piiiiiii da Terminologia Linguística e já que a encaixei e lhe vejo o mérito, custa-me que quem nunca deu uma aula no Básico ou Secundário venha mais uma vez opinar sobre o que é que é bom para os alunos. Mas quando vejo a causa nas mãos de um Graça Moura a servir de seta envenenada sua ao Ministério da Educação, e logo no dia seguinte também na boca peluda do Eduardo Prado Coelho que muito oportunamente, como lhe é característico a lança como seta simultaneamente ao Vasco, ao Ministério e ainda a Maria do Carmo Carmona, então percebo que não serve de nada a ataraxia, este mundo quer-me mesmo na liça. E lá terei de ir. Voltei. meus amigos. A polémica é tlebicamente desgastante. Não tolero desinformação, oportunismo, muito menos o espezinhamento do trabalho honesto e transpirado por parte de ninguém, quanto mais dos Graças Mouras deste mundo em busca de protagonisto malgré tout…
E os efeitos destas cascatas conservadoristas são tais, que se teme já uma autópsia linguística ao cadáver de Camões, uma desumanização do ensino, um crime de lesa majestade à língua portuguesa. Uma mãe numa livraria andava ansiosa à procura de uma nova gramática adaptada ao novo programa, receando saber menos do que o filho. Alguns professores aprendem o que podem, outros rejeitam a mudança recusam a imposição, e todos falam e ninguém sabe quem tem razão. Por mim, uma mudança de designações no domínio da disciplina de Língua Portuguesa não me assusta, sobretudo se melhorar as minhas práticas e puser os alunos a pensar e a perceber a língua materna, mas não me lembro de ter opinado acaloradamente quando ocorreram outras modificações igualmente radicais, noutros domínios do saber. Porque será que neste campo a mudança incomoda e indispõe tanta gente?
Até breve!