Lá fora o frio, a fuga, a fúria da noite
Lá fora um dilúvio de sombras a derrocada
enlameada das árvores e dos homens
que ficaram sozinhos no coração do vento.
Lá fora a chuva em diapasão de gotas
um fustigar das almas soltas, a chuva
que alaga a terra e as sepulturas,
a chuva que limpa as sarjetas, lava o
gasóleo das estradas, e dilui a terra
em lama urbanizada, a lava industrial
das cidades cercadas de betão.
Lá fora chuva, ventania e lodaçal.
Cá dentro cítaras acesas e círios serenos
ardendo na mansidão dos druidas.
Cá dentro a placidez da noite no fogo
ameno das vestais. Cá dentro a roda,
a pedra, o círculo e uma brisa de
auroras boreais. Cá dentro a inclinação
do sono, a visitação dos medos e desejos,
a fúria das bacantes em volta do sopro de Orfeu
os ventos que sopram pela mente, as paisagens
do sonho reciclado, as crateras da memória,
fundas, lacunais, transbordantes de novas
intemporais histórias. Mas o sono desliza
mansamente pela cadência da chuva e os
cabelos espalham-se pela alva almofada
e tudo apascenta como rebanho desinquieto,
finalmente seco, na protecção de um tecto…
noite de 24 de Out. de 2003