poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Domingo, Novembro 26, 2006

panteísmo

Pintura de Imelde Tobia, nata a Perugia nel 1911,

tenho uma serra azul a crepitar no mar
neblinas luminosas afagam as pedras
a chuva recolhe para dentro do olhar

tenho esta manhã de gesta inquieta
a poesia solta neste orvalho urbano
a luz que penetra nos cantos da noite
a memória densa que dói e seduz

o tempo aparou as dobras do medo
nascem em casulos borboletas leves
solta-se a ternura na pele dos dedos

escrevem-se cores por fora do sol
liberta-se a voz no verde da serra
há uma idade velha que passa por nós
o corpo que apela à clemência da luz

a natureza espera o meu gesto fútil
pintá-la para quê se o belo existe
além das libações que lhe cumpro hoje

evoco a serra porque é o meu mundo
as árvores solteiras respiram virtude
os poetas bebem harpas e alaúdes
onde só o vento os torna fecundos

a vida que vela sensata por nós
a vela que volteia no ar da manhã
a paixão debruada no brilho da foz
a idade que vira para a baía da paz

reflicto o que vejo neste espelho duplo
de um lado a existência, a fala no outro

a natureza é este corpo suspenso
divindade muda de apaziguamento e luz…

Bom Domingo! 

publicado por deSaraComAmor • às 10:58 AM • categoria: poesia



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