poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sexta-feira, Outubro 27, 2006

O Tempo Para Além do Tempo

L’ARBRE JAUNE de Edouard CHAULLET (1924 - 1995)
Huile sur toile - 55 x 46 cm

Vislumbro um tempo, para lá do tempo, penumbra acesa,
rubi azul, espaço entre o ido e o porvir, entre o que é
e o que não existe - ónix branco intemporal, quartzo
a pulsar fora do mundo. É um espaço vago que entre o nada
e o tudo se perfila, tempo de indizível refúgio, espaço invisível
como nidação que só a ave vê, ninho que se plantou em beiral
de inacessível penhasco.
Existe o tempo da montanha e o espaço do mar, o tempo do murmúrio
e o tempo volúvel do girassol. Tantos os tempos tantos os sentires,
tantos os espaços, tantas as falésias, tantas as vidas, tantos os adventos,
tanto o amor, tanto o espaço fluido de um tempo nem chegado nem ido,
que temporiza o sentir, acerta o diapasão, enlaça as palavras, se abre
em mundo sobre nós, se fecha sobre nós em desejo, voando mais veloz
que a maresia ou o sopro de um beijo…
Existe um tempo para lá do tempo: esse em que nos contemplamos
e nos não vemos __ espuma de onda em dispersão; esse em que
nos sentimos sem sentir __ espuma de onda desmaiada ;
esse em que nos desejamos alvos e a que nos entregamos em intemporal enlace,
maior que qualquer espaço ou onda que se quebre em fúria num penhasco…
Existe um tempo que não é de ninguém, mas secretamente nosso apenas,
como oculto é também em frágil penhasco, o exíguo espaço
em que intemporalmente planamos, rajada de vento que somos nos braços vazios de alguém…

02/03/03

publicado por libelua • às 08:10 AM • categoria: poesia



página 1 de 1 páginas