poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Sexta-feira, Maio 26, 2006

o ouro da palavra

O tempo tem andado velho encimesmado; a vida tem sido vaga e variada no seu vagar entediado.
E tendo tido o trigo e a palavra, tendo sido amados pelos deuses, ficamos emudecidos como pedras,
cercados pelas águas de Letes, as incipientes lagoas da alma, onde nadam razões caladas.

Havia sido escrito nas fábulas: teríamos talvez naufragado, mas havíamos de arder em paixões e mágoas
com as cinzas presas na fala. Somos a cadeia anafórica da morte - uma deíxis sem referência temporal -
aproximadamente quase nada se nos quisermos eternizar. Escreverei um dia esta carta so-le-tra-da i-nu-si-ta-da.

Hei-de quebrar o selo do silêncio e oferecer-vos o ouro da palavra se ouro houver no silêncio que vos trago. Devereis
reabrir cada sílaba lacrada, como o papiro da vida, folha frágil, onde o tudo evanescente é o subdomínio matemático
do na-da.

Um vendaval anuncia a dispersão de uma noite de almas e lamentos depois talvez madrugada iluminada. O sol literal,
aquele que beija indiferente a terra ou o mar, o verme ou o roseiral virá diligente aquecer de ternura as águas sábias
e silentes onde Ofélia um dia apareceu le-va-da como um junco do canavial da existência…


publicado por deSaraComAmor • às 11:09 PM • categoria: poesia



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