poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

O Espírito do Natal

Bem-vindos a esta terceira versão dos POEMAS DE TRAZER POR CASA E OUTRAS ESTÓRIAS. Espero que neste novo servidor possamos receber-vos melhor, embora no mesmo formato e com a mesma decoração, porque sabe bem guardar constâncias num mundo de grandes impermanências. Ainda porque prezamos o azul, como marca do sonho e mar das navegações despretensiosas que fazemos.
Para inaugurar o espaço, começo hoje a publicar a primeira parte de uma estória passada numa inesperada dobra do tempo…

I

Clara e luminosa, ela rasga a pacífica noite, sentindo-se segura ao volante do destino, embora embrenhada numa estrada secundária a circundar a serra. Já avista as luzes da povoação, onde amigos lhe emprestam o brilho ocasional da família. Ao lado, as prendas cintilam como as estrelas e estas piscam alegremente como se espera numa noite de Natal. Tudo a postos e ao alcance da mão, a vida, como o amor, o telemóvel, a estrada até qualquer parte do mundo, os cartões de crédito, o sorriso alisado. Mas a euforia dura pouco. Um objecto na estrada, o carro guina, rodopia, o piso gelado ajuda a dança vertiginosa e ela apenas vê árvores endoidecidas, a estrada varrida por luzes e outros faróis no escuro. O choque foi absolutamente inevitável e cruel, com uma estridência lancinante de latas e vidros partidos.
No outro carro, o homem travou e virou para a berma da estrada minimizando o choque, mas as duas viaturas tocam-se e repelem-se, empurram-se e deslizam vorazmente para o mistério negro da ravina. Silêncio. A noite de repente vestida de uma bruma inquietante em volta dos carros. Talvez a figura bizarra que vem lá do fundo, do que parece ser um aqueduto, seja fruto do choque contra o volante, pensa ela e volta a ler-se outro tanto nos olhos dele. Ambos encaram o homem que se aproxima, como se da própria morte se tratasse. Estão bem, fora as dores no corpo, os zunidos na cabeça, o coração aflito.
Quem se atreve a abraçar a noite e a intranquilidade, deixando a segurança quente do carro? Os faróis banham agora em pleno um rosto enegrecido pelo frio, o nariz vermelho, o ébrio balançar. Um mendigo?
Ambos agem em consonância de gestos e atitudes. Telefonar. Ligar ao mundo. Voltar ao mundo. Pedir ajuda, a polícia, um reboque, um novo passaporte para o bem estar perdido. Mas o seu mundo estilhaçado não deixa ver claro na ordem anterior. Optam por confrontar-se mutuamente, ou enfrentar a escuridão e o velho vagabundo.
Que aconteceu, é ele quem fala primeiro. O vagabundo mede-lhe o estatuto com um rápido olhar à marca do carro e ao corte assertivo do fato escuro. Ela, coberta de lantejoulas e vidros do pára-brisas desfeito, assemelha-se a uma fada da noite, própria para entretecer mendigos solitários numa noite de Natal. Talvez pensasse estar a curtir a ainda breve bebedeira, não tivesse o homem do carro falado e proferido aquelas palavras, que aconteceu? Sim, que aconteceu, articula agora a sua voz gutural, com a cabeça quase metida no interior do carro. Ela afastou-se para onde o hálito não a bafejasse e instintivamente preferiu o ar pouco amigável do homem aperaltado.
Estamos lixados. Perdeu o controle do carro foi? Se calhar ia muito depressa, não? Não! Protestou ela. Foi algo na estrada, bati num pacote qualquer, uma trouxa, um objecto que não pude ver. Talvez algum pertence aí desse senhor…
Eu? Alto lá! Não tenho pertences, tenha paciência. Sou eu e esta garrafa e ali uma mantinha que me deram no último Natal. Um belo tributo cristão, por sinal que foi. 
Pois bem, lindo serviço! E agora que vamos fazer, o seu carro anda? Talvez, não sei.
E subir a ravina? Como íamos fazer, mesmo se andasse?
O frio mordia-lhes as mãos, o olhar, a voz, mas a febre de encontrarem ligação ao mundo fê-los revoltear bancos e esvaziar malas, bolsos, nada, o telemóvel saltara para a boca da noite e o dele… jazia mudo e quedo nas profundezas da lataria amolgada.
Vamos ver se passa algum carro na estrada. O silêncio com garras. O vagabundo a rir escarninho. Por aqui? Coisa rara. A estrada nova é mais frequentada, embora evite a serra e se prolongue numa fita interminável, para chegar quilómetros e quilómetros depois ao sítio onde esta chega. O melhor será os senhores ficarem por aqui à espera que venha o dia. E o vento gélido lembra-lhes a urgência de um abrigo, a exposição à noite primordial dos tempos, uma caverna, um buraco onde este vento não entre. Mas onde? Ele quer ir buscar auxílio a pé. Mas teme deixar a desconhecida com o vagabundo embriagado, ela prefere segui-lo, vão. Ao fim de uns passos ouvem a risada sardónica do homem como um mau presságio, ela desequilibra-se na berma, os sapatos são demasiado altos para a noite, para a caminhada, tudo que têm e conhecem como confortável e selectivo, é demasiado inútil para aquela hora e aquele lugar. Não irão longe.
Mas não querem seguir o vagabundo que os convida com o olhar para o seu paraíso. Parece-lhes que ao fazê-lo abraçam para sempre a mesma condição e se perdem da vida, do conforto, da segurança, do brilho lustroso do luxo.
Só me faltava esta, vai ver que nos leva para a gruta de Belém. Ainda lá encontramos o burrico e a vaca ao lado de uma mendiga recém-parida! Ela não sabe rir, a boca é um esgar petrificado que o frio escavou profundamente. Parece-lhe descabido o comentário, como se subitamente se escavasse um outro fosso entre ela e os dois homens, mas desta vez ainda mais intransponível do que o do vagabundo.
Eu vou com ele, disse.

II

Vou também consigo. O meu cavalheirismo impede-me de deixá-la ficar sozinha, disse o homem enquanto fitava a bocarra negra da noite. Mas desconfio destes tipos. Nunca se sabe o que nos podem fazer. Nem sabemos se não está apenas a atrair-nos para o seu antro com más intenções.
Vai ter de confiar. Alguma vez na vida temos de confiar em alguém.
Pois. Confiarmos e sermos esfaqueados pelas costas pelos nossos melhores amigos.
Parece que já passou por isso.
Passei por pior até.
Nota-se.
Chegaram ao refúgio do vagabundo. Nada mais que um açude seco, abrigado do vento. Apenas uma manta e garrafas vazias, uma acabada de encetar.
Já vive aqui há muito tempo?
O suficiente. Por mim trocava de hotel, mas não há mais nenhum na vizinhança.
Hummmm. Silêncio entre os três. O vagabundo oferece um gole da sua garrafa. Ele recusa com um esgar de nojo. Ela apenas diz, polidamente: obrigada, não costumo beber.
Detesto o Natal, acrescentou. Somos obrigados a procurar família, quer a tenhamos ou não. Não sei porquê! Estaria bem melhor na minha casa. Sozinha, sim, mas segura e confortável.
Toda a segurança é ilusória e o conforto, esse, depende de nós. Repare como tudo é relativo… Eu estou aqui absolutamente confortável. Já vocês, não acredito que sintam o mesmo.
Claro, acrescentou o outro, irritado. Numa escala de degradação, cada bocadinho de conforto alcançado, depois de se perder um conforto maior, é sempre melhor que nada.
Degradação? Que entende por degradação? Como pode estabelecer paralelismos entre o viver debaixo de um açude e a degradação do ser?
Hummmm, minha cara filósofa, aposto que tem um curso de humanidades e faz assistência social gratuita. A extrapolação é sua. A degradação da vida, não é a mesma coisa que a degradação do ser.
Calado, o vagabundo seguia um rio interior de aparentes águas calmas. Lançada a discussão deixava que a mulher lhe advogasse a causa. Indiferente.
Não se importo com o que eu sou ou deixo de ser… De facto eu também não acho que sejam a mesma coisa. Mas precisamente a sua omissão teve todo o ar de insinuação. Explique-se. Parece ser exímio em dizer, sem se poder afirmar que disse. Deixe-me também lançar o meu palpite. Político? Gestor?
Minha cara, as lacunas discursivas são o lugar que um bom comunicador deixa ao entendimento do outro. Digamos que é uma espécie de promoção do interlocutor ideal…
O vagabundo fitou-o nos olhos. Objectou friamente: Claro. E eu sou o interlocutor zero, o otário que não ocupa o sentido dessas tais lacunas discursivas, porque não as entende. Claro que não pode haver cumplicidade se esta for acessível à plateia… Por isso, o senhor quer fazer de mim o seu referente.
Hummmm, estou espantado. Para alguém que vive num açude, sabe argumentar bastante bem.
Vê? Eu tinha razão! Mais uma presunção errada a que agora fez! Como se alguém que vive num açude não tivesse capacidade de pensar… Ou continuamos na tese da degradação do ser, por perda de ligações ao social?
Bravo, sim senhora. Agora pareceu-me mais uma socióloga a defender a sua tese de mestrado. E quanto a si, parece-me que também teve a sua dose de intelectualidade. Espanta-me que pessoas integradas possam vir a chegar a isto…
Não consegue imaginar-se no meu lugar, pois não?
Sinceramente, não.
Pois eu sim, acrescentou ela a tiritar de frio. Tanto consigo que algo me tocou nos ossos, assim como a mão gelada da morte.
Afinal é muito frágil. Julgava-a mais forte.
A minha fragilidade é intrínseca à existência humana. Nada mais frágil… Recordo-lhe como ainda há menos de uma hora seguíamos seguros da nossa vida.
Talvez demasiado seguros, disse entre dentes o vagabundo.

Continua

publicado por libelua • às 10:51 PM • categoria: contos



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