... como jardins de Barcelona
imensas, gulosas e frescas
na preguiça de um café,
na incerteza de uma vírgula
ou das asas de uma frase
que venha e voe, que varra
e espalhe o medo, a dor,
o pranto, a poeria derramada
o olhar vórtico preso
à vária resistência, a vida
um violento vulcão extinto,
mas por dentro em ebulição viva,
marulhar de águas gotejantes,
fogo de um navio fantasma
respirando à proa e cuspindo mastros,
e as águas uma navalha acesa,
apontada à telúrica circunstância.
Manhãs suspensas, abismos
que alastram, fugas encetadas
para a fluidez dos astros.
Tudo enfim são anagramas
que as mãos, trôpegas, inscrevem,
na superfície porosa
de um simples guardanapo.
E a vida um papagaio verde
a que já se perdeu o fio
e no poente esbarra e arde.
Manhã de 5 de Maio de 2003