reiniciando os caminhos já trilhados, sempre em novas circunstâncias, ocorreu-me uma recente travessia matinal do Tejo em que o barco me pareceu, de súbito, ancorado no meio do rio…
a ténue sugestão de neblina
na margem sul e muito ao rés das águas
perpassa no horizonte
sulcado por flamingos
e o rio corre lento na paisagem
Lisboa é uma linha fugidia
a acender-se no velho casario
e ao marulhar do rio
num cais abandonado
a lama vai cobrindo toda a margem
já mal desponta o grave cavername
da velha nau ancorada na vasa
poleiro de gaivotas
entre o mar e as colinas
grito-cinza que se lança à tempestade
e bordam cacilheiros seus destinos
em teias que entretecem densas névoas
e a seda que une as margens
é gente que neles singra
em derrotas já sem leme e sem miragens
mas o Sol que entretanto já espelha
por toda a extensão a madrugada
faz do rio ouro e prata
e aponta ao horizonte
o futuro erguido em poalha alvoroçada
a luz que cobre de cor a paisagem
intensa como o sopro duma aragem
desvenda outro porvir
desdobra a liberdade
de forjar o homem novo na cidade.