poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Quarta-feira, Novembro 01, 2006

do tempo da escrita e da escrita sem tempo

Por vezes atravessamos momentos em que a verbalização concreta do que claramente sentimos se impõe sobre quaisquer metáforas mais ou menos felizes. E hoje, sei que podia urdir enleios de escrita, versos sem métrica, uma estória inusitada, uma conversa com os meus poetas mortos, descrever-me outra e sempre eu, e estaria a iluminar os meus recantos, a purificar os meus sentidos, a escrever na lusa língua, a humanizar-me na minha racionalização do real. Podia. Mas já há muito que não consigo mais do que revisitar o disco rígido e ressuscitar uns versos antigos para pôr aqui. O tempo. O tempo ocupou o lugar do próprio tempo e não sobra nada que o tempo me permita transformar em tempo. Nada. Cansaço. Horários de restos de horários. Tarde e noite. Horas vazias pelo meio. A preencher com tempo que nunca sobra para tudo que os novos tempos me pedem. E tempo também em casa, manhãs aflitas a correr contra o tempo e hoje, dia em que os filhotes me pedem passeios com a mãe, preencherei o meu dia com trabalho, ainda tonta da noite de trabalho, o chegar a casa sem lugar para estacionar, carregando a pasta do dia e a pasta da noite e a pasta de existir.

Por isso, sinto-me assim como uma pedra que mais não deseja que desaparecer devagarinho no sono e ficar por lá muito tempo, para refrescar a cabeça os nervos, o corpo, a memória, tudo… fugir a esta anódina burocracia que nos embranquece a criatividade, numa longa folha branca por imprimir, já que o tempo esse é um tirano burocrático que pressiona, pressiona as têmporas até partir.

Este ano lectivo apresenta-se rugoso de conflitos, áspero de incertezas, o fantasma do exílio sempre a pairar, sempre a vir encapotado lembrar que para o ano, ou no outro, ou no outro, estarei de novo onde calhar. Ou nem isso. E trabalho, trabalho, trabalho acumulado em piras por arder. Cada vez mais trabalho. Talvez seja melhor desistir de querer. Seja o que for. Resumir-me à condição plena de trabalhar de manhã à noite, sem feriados nem fins de semana e conceber o mundo uma interminável aula onde sou sujeito e objecto de aprendizagem de mim própria e desistir de querer pintar o perfil das flores ou a aura das folhas que leva o vento nas suas asas rítimicas… Deixar de fingir a dor que não sinto e passar a sentir a dor que não sei sentir.

Uma profissão que já nos deu tantas letras, tantos poetas, tantos homens que fizeram história pela palavra, uma profissão que sustenta almas, assim desmerecida, espezinhada como as minhas folhas que não consigo alcançar? Não estranhem se por uns tempos este blog se ausentar de textos meus. Que este silêncio se transforme temporariamente numa crónica de desistência. Será a novidade do novo tempo a tomar conta de todo o meu tempo. Mas não a fazer-me desistir de continuar a semear a resistência. Voltarei.

Obrigada pelas vossas passagens, silenciosas ou não.
Até breve, espero.

publicado por libelua • às 12:43 PM • categoria: poesia



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