Pintura de Henri Fuseli, claro…
Acordou com um poema antigo nos lábios como se ao lado do candeeiro estivesse pendurada a voz meiga da luz. Andava alguém na escuridão mas nada era audível, nem passos nem respiração, apenas estava alguém. Mesmo sem vislumbrar contornos do seu mundo conhecido, sabia-se num outro cujas arestas lhe pareciam arredondadamente leves, suaves e flexíveis, próprias de um espaço de borracha ou algodão. A sensação inominável de ver com os dedos, tactear um mundo que dispensa a visão, porque é luz e dela vive.
Vinham na sua direcção pirilampos que lhe entravam olhos a dentro iluminando-a por fora em mil cores do arco-íris. A pele trémula de afagos, electrizada no íntimo como o candeeiro do imenso salão onde agora dançava, mariposeando em volta de um vasto mundo de estátuas, mármore e peças de marfim. Pausa. Um gole de silêncio, cheio de uma música feita de ecos fragmentados. Cobriam-na rendas que lhe segredavam ao ouvido todas as estórias de todas as bordadeiras e tecedeiras do mundo, um colete que lhe esfaqueava o corpo em cada crime perpetrado em corpo de mulher, lágrimas manchavam os lenços de cambraia esvoaçantes, ela era todas as mulheres menstruadas num mesmo ciclo, muitas mãos lhe puxavam o vestido, rostos tristes de crianças a reclamar-lhe o colo, os bicos túrgidos, apetecidos, revirados, reclamados, mirrados de tanto leite tanta obra de paixão e morte.
Voltou-se para olhar o que deixava atrás de si e nada viu. Quis retorcer, não a deixaram. Ela pertencia agora ao mundo dos sem voz. Flores, havia flores e círios a arder-lhe no ouvido. Alguém a retomava no extenso palacete da eternidade e ela não sabia. Açucenas espalhadas pelo chão, odores magníficos da morte e um esquife num carrossel à velocidade da luz. Voava agora projectada a mil anos-luz da realidade, ia talvez feliz, num voo ícaro de encontro a esses braços que sentia eternizados no corpo. Desapareceu no reverso de um pálido sorriso, adentrando-se na esfera imprecisa do vazio. Conhecer a ausência de gravidade e sentir o arrepio da queda, ser sombra e ser sem se sentir matéria, mas sentir-se matéria no planar cadenciado contra a anti-matéria de outro corpo. Absorvida, sugada, desmineralizada para dentro de alguém, despossuída de si, só matéria gasosa, hélio ou massa leve.
Eleva-se com a leveza de um véu, docemente soprado pela brisa acariciante de um mês primaveril. Suspensa do mundo, despe-se do corpo, transforma-se em sorrisos e porém a doçura de águas quentes, marulhantes, vivas, invade-lhe o que resta dos membros. Sente a pulsão dos sentidos e quer tocar-se. Nada encontra e porém é amada em cada milímetro da pele por mãos de ave, penosamente leves, na tortura do toque. Debate-se contra uma legião de peixes que a trespassam, um cardume distraído que lhe atravessa o corpo, têm pressa, vão povoar talvez outro sonho, agora surge um polvo, o corpo volta-lhe, as mãos tocam corais que a ferem, o sangue escorre-lhe dos dedos, os seios sangram, as rendas são de rede e envolvem-lhe o corpo pescado pelos sonhos, os anjos voltam para a resgatar do obituário de mais uma noite no mundo das sombras, que brancas se fazem lume.