poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

:: Terça-feira, Dezembro 26, 2006

Da Escrita

Escrever é um acto impulsivo. És como um fumador passivo, respiras ar e fumo como se não pudesses ingerir um sem o outro. Escreves porque tens de dizer o que houver a dizer a quem dizer, ainda que penses que é a ti próprio que o dizes. Por vezes começas cegamente no lento labor de embrulhar uma ideia, encriptar um gesto, uma vontade, um sentimento, torna-se experimental o que dizes, a tua culinária é saborosa em primeiro lugar para ti, no final sentes-lhe a falta de sal, talvez pimenta, ingeres-te completamente. Um dia avanças com o corpo, arrasas a mente, cobres e descobres a memória, já não podes parar, abraçaste Deus e o Diabo duma só penada, escreves porque te encaminhaste para o labirinto das palavras e descobriste as mil e uma formas de te dizer, o vício da parábola, o vestido luminoso da metáfora, o fingimento a arte de te dramatizares em breves actos de múltiplas cenas. Só tu entras e sais, mas vão contigo outros e outras como tu, os que descreves, os que prescreves, os que lês e os que vendes como tu, pois adquiriste o direito de contradizer, depois de nada mais te restar fazer. Probematizas o vazio, fazes-te imitação do que imitas, filiação, devoção, paixão. Cultivas secretamente Tanatos num vaso de flores salgadas, ao mesmo tempo que te agarras às saias de Édipo para ganhares o direito à tua alma, mas a poesia já te menosprezou o coração como objecto alquímico e tu sabes. Tornaste-te um dia compulsivo, reduziste o mundo ao teu mundo, apartaste-se da fonte, ganhaste as asas da sublimação para um dia substituires num voo a própria vida. Nessa altura o poeta que és ensaia cenários que irradiquem de si possíveis bolbos, raízes abraçadas, persegue obsessivamente a originalidade escreve em dobras de tule, bombazina e tabuada, inventa a tábua rasa criativa, desmonta influências, mata o Outro, devora e vomita estéticas, produz estética. Nessa altura, o poeta está tecnicamente falido.  Como homem. Mas terá atingido a voz mais pura da pedra luminosa da palavra.

publicado por deSaraComAmor • às 05:08 PM • categoria: poesia



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