Segunda-feira, 16:30, a aproximar-se o fim do dia, prestes a começar o meu turno, com uma aula de acompanhamento de alunos, seguida das aulas da noite. Chego ao meu local de trabalho no momento em que uma viatura da escola segura parte com uma miúda a chorar, entalada entre dois guardas. Uma chusma de alunos, alguns adultos, curiosos que passam, mantêm-se no local ainda a digerir a estupefacção. Ouço os comentários ao passar e não preciso de mais nada para saber que a miúda, uma adolescente bem nutrida, perdeu a cabeça e cravou um xis-ato nas costas de um colega. Recordo a imensidão de vezes em que tive de apreender tesouras e xis-atos, clips e agrafos, por se transformarem em armas inocentemente letais. Recordo o rapazinho que se feriu no olho com os bicos de uma tesoura, a miúda que se defendeu do gang rival e feriu outra com uma garrafa partida e cortante, o jovem que ofereceu ácido moreático a uma miúda deficiente, como se fosse um perfume… e assusto-me. Viste como ela entrou ontem na aula? Passou-se. Até parecia a nossa patroa! Ela nem é nossa stora. Se fosse um stor dava-lhe logo uma berlaitada! ouvi na semana passada, a propósito, segundo percebi, de uma aula de acompanhamento de alunos em que a professora impôs algumas regras.
Um destes dias, numa turma da tarde onde vigora tendencialmente a risota e o trolóló, para os pôr a pensar e incentivar o gosto pela lusa gramática resolvi pôr a prémio, para além de uma nota positiva na caderneta, um inocente chocolate. O moço que o ganhou suou as estopinhas ao atacar as estruturas subordinadas e lá as desenvolveu em arquitectónica beleza. Foi simbólico. Ficámos todos felizes. Na reunião de pais, conta-me a Directora de Turma, cai a polémica. Oferecer um chocolate? Então ela acha que o meu filho é algum miserável que passa fome? Reprovação geral de todos os outros. Só ofereceu a um aluno? Isso é que está mal. Se oferecia a um, devia ter oferecido a todos. Risada minha. Que raios. Afinal o meu erro foi não ter oferecido também chocolates aos pais para me deixarem trabalhar e deitar mão a todas as formas possíveis de gerir aquelas hostes… Imagino quantos recursos meus não serão ainda julgados em hasta paterna… eu que me entrego e envolvo e não desisto nunca.
Desprendo-me das memórias e dirijo-me à reprografia, para levantar material imprescindível às aulas da noite. Na sexta-feira havia deixado os originais, impressos em minha casa, prontos a serem policopiados. Numa mudança de turno, as funcionárias, acusando o excesso de serviço, tinham-lhe perdido o norte. Telefonei de manhã para me assegurar que tinha o material pronto. Soube que seria preciso voltar a entregar o original. Sugestão da funcionária: mandar por mail. Rejubilei por poder poupar os meus tinteiros… Mas agora verifico, pelo ar surpreso da funcionária, que não chegou nada. Parece que o mail da reprografia não anda a funcionar lá muito bem. Transpiro. E agora? Alívio! Tenho tudo na minha “pen”. Preciso apenas de imprimir algures, sendo o algures o maior dos desafios numa escola. Sala de profes, dos 3 Pcs um não tem saída usb, outros dois têm, mas não reconhecem a pen. Aliás, arrancam e empanturram logo, com o peso dos anos em que serviram no Montepio Geral, entidade donde partiu há anos incomensuráveis a generosa oferta. Desnecessário seria esse périplo: a impressora tem um letreiro enorme: Avariada. A outra ainda maior: Não mexer. Biblioteca: os dois Pcs têm saída usb, mas não me reconhecem a pen. Pc da funcionária. Ok. Ela confirma que reconhece todas as pens, indiscriminadamente do seu volume ou proveniência. Estou salva, penso. Não. A funcionária não tem ordem de deixar os professores acederem ao Pc. Brilhante. Lembro-me que tenho o material publicado num site da net.
Volto atrás e tento aceder. O tempo vai-se esgotando. Lenta, lenta, a lista azul preguiça e o site não abre. Toca a campainha. Chegou a hora de comparecer na sala de profes, para ser chamada a substituir alguém que falte. Desisto. Talvez não me chamem. Assim foi. Ninguém faltou. Regresso à Biblioteca e ao meu site. O tempo a passar. Vitória. Abro o documento e dou ordem de impressão. Nada. Outra vez. A impressora muda e queda. A funcionária diz que ela já anda assim há uns dias. Desisto. Vou ao Conselho Executivo. Imprimir só na Secretária, mas tenho de ter autorização do Administrador de rede e o dito não está. O Pc da assistente do CD nem tem net, nem tem saída usb. Que me resta? Improvisar na aula, usar a experiência e saber acumulado de recurso móvel em que nos fomos transformando, ano após ano de contrariedades afins. Descrever esta minha aventura, na esperança de que algum alto responsável a leia e daí se lembre de nos erigir a estátua dos otários da nação, os únicos funcionários do estado que têm de adquirir do seu bolso todo o material de escritório que utilizam na sua profissão, sem direito sequer a dedução no IRs. Apetece-me fazer a greve dos tinteiros e deixar de facilitar, personalizar, melhorar aprendizagens já que isso me sai do bolso, como aliás me sai agora o meu futuro, na módica quantia de 360.000 euros. E jamais chegarei a professor titular, passe embora o meu brilhantismo, os “en” cursos e especializações, as “en” avaliações de Bom ou de Excelente que possa vir a ter, as anónimas experiências de sucesso saído de um cérebro que não será o mesmo daqui a poucos anos. E isso também não traz vantagens a ninguém, pois mesmo com todas as titularidades e brilhantismos a fasquia dos escalões superiores continuará elevadíssma, sujeita a injustas quotas. Ou seja, ser ou não ser bom, é pouco importante afinal. A melhoria das práticas administrativamente aniquilada. A morte profissional anunciada por um estatuto que hipocritamente diz visar uma melhoria do ensino, mas só se preocupa em equilibrar o défice, à custa de todos os educadores.
Em suma, isto tudo serve para dizer que estou em greve. E não digo mais, porque ainda estou na ressaca dos mil e um testes que tive de fazer durante o fim de semana para o recorrente e estão aqui alinhadinhos à minha frente para corrigir. Talvez devesse fazer também a greve das canetas. Mas quem deixará de aproveitar estes dois dias para organizar o trabalho acumulado? E pronto. Anónima e silenciosa greve de zelo. Quem explica aos pais e encarregados de educação que com um poder autista, incompetente, teimoso, surreal e cínico, ninguém sabe muito bem para onde caminha a Educação neste país?