Podia começar por ser um passeio na cidade e o cenário ser um poema de Cesário Verde, numa paleta de Outono. Podia ser Outubro e as primeiras chuvas a caírem nas poças da calçada. Lisboa seria ainda uma cidade mourisca, sem as ferragens luzidias dos carros que agora passam e pesam no ar como ameaças de morte por asfixia gástrica. A subida seria leve e fácil, sinuosamente lenta do Carmo para a Trindade, a pé, pelas vielas e escadinhas exalando murmúrios de parnasiana saudade. Haveria gabardinas a proteger do excesso de luz no olhar, haveria gaivotas atardadas no regresso à ribeirinha recolhida na extensão da maré. A melancolia vinha directamente da iluminação a gás, em simbiose de sombras distorcidas na calçada, materializadas em vultos e vivências anónimas presas num tempo, em efémeras buscas, preocupações rotineiras. Não saberiam talvez ainda. Um quotidiano tísico arregimentado pelas mãos expressivas nos gestos que vão esboçando, os membros tensos, a subida rápida do eléctrico, podíamos tê-lo apanhado e rir pela inesperada correria, corados e felizes como rosas, mas então teria sido raro e leve o prazer da subida, mal começa e já chegamos, ainda bem que viemos a pé, iludimos assim as nuvens do tempo.
Somos breves e agora juntos parecemos maiores, talvez seja “aquela visão da fantasia” (1) que buscamos ébrios de absinto às “ (...) mesas espelhentas do Martinho.”, em arrojos pueris na ponta do verso alexandrino, Laura que passa e não te olha, uma deslumbrante Milady feita de arminho e indiferença, o vidro da tosse que vem no último momento, a solidão embrulhada em papéis, quem os lê, quem os eleva à condição de documentos dos dias das horas dos arrojos e lamentos? Se a minha amada um longo olhar me desse/ Dos seus olhos que ferem como espadas,/Eu domaria o mar que se enfurece/ E escalaria as nuvens rendilhadas”. (1) Não importa se seria Laura, se Lídia se outra qualquer a teu lado, pálida e mítica no seu momento secretamente arrebatado. Éramos apenas frágeis sombras sem matéria e porém a noite coloria cada gesto e palavra nascida do silêncio, a despeito da chuva esparsa que escorria tornando o (nosso) mundo uma aguarela impressionista.
A caminho do Príncipe Real, podíamos parar e olhar para trás. Uma cidade é um livro aberto com suas páginas soltas, suas janelas fechadas, suas metáforas em vasos ressequidos, suas paisagens pinceladas de pessoas, a captação única do momento, oculta em cada olhar, suas sintonias de luz, sombra e luar. Podíamos beber o ar que se respira em Lisboa húmida, Lisboa brumosa, o outonal fervor das folhas molhadas, pisadas, privadas de voar e ficar apenas assim num banco a olhar o Tejo, sacudidos pelos ruídos dos eléctricos sacolejantes, gizando os carris em agudos lamentos. “Se ela deixasse, extático e suspenso/ Tomar-lhe as mãos “mignonnes” e aquecê-las,/Eu com um sopro enorme, um sopro imenso/ Apagaria o lume das estrelas”. A intemporalidade a nosso lado, escrita no arrojo com que nos negávamos a mão e desenhávamos os barcos do Tejo, em cada luz que se movimentava na escuridão distante. Dirias, olha este é o nosso presente, que não existiu, porque somos um passado de luto que busca o radioso futuro que pousa às vezes brevemente nas pombas pálidas dos amantes. Olha, estas são as memórias que colhemos dos poetas e vestimos para parar o tempo, fazendo desta noite a semente que busca a terra como eu te busco no reverso da minha mente. Mil e uma memórias te cerceiam neste momento, porque este é o silêncio criador onde nos abrigámos para reunir todos os murmúrios frágeis da noite amante. Um passeio de Outono, uma árvore esplendida onde nos plantamos para tomar os pulsos da cidade e medir a intensidade do momento que nos resta, antes de voltarmos a ser passado.
Então tu dirias do teu gesto “Sentado à mesa dum café devasso/ Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura/ Nesta Babel tão velha e corruptora/ Tive tenções de oferecer-te o braço”. (2) E eu com a distância que vai entre um verso e um gesto haveria de quebrar o poema nas tuas mãos para te ocultar o meu rosto em rosas, nada é tão pueril como um pensamento geminado e verbal resgatado à timidez da voz. Sim, pouco posso dizer de um corpo esvaído em ternura a planar entre nós. Dão-nos esta anisocronia para pintar a gosto e não temos paleta nem tintas, nem sequer um lençol para provar que existimos e marcámos o mundo com as nossas cinzas. Fica o teu berço estendido, uma estátua que amanheceu inusitada no largo e os varredores da Câmara levaram conjuntamente com as últimas folhas caídas do velho plátano. Diligentes almas recolherão as nossas palavras, rasgadas a canivete num banco de precárias formas, moldado pela imaginação prodigiosa doutros Cesários, loucos, pessoas invidentes e visionárias em fuga à realidade crua dos bicos de gás na calçada. Que dirias tu, depois, do teu braço pendente, da tua boca cheia de palavras e dos meus passos de arminho, cada vez mais perto, cada vez mais profundos na tua pele e sem cronologia habitável. Nada!
Passarias poético e luminoso como astro ou barco no lastro das correntes quentes do oceano. Fecharíamos a noite “...sem pecado e sem inocência.” (3). Por que nos dariam mais se o tempo é um violino incompleto, cujas cordas afinadas se quebram uma a uma nas nossas mãos cansadas? A nossa dimensão não é a vida. Nem é a morte, diria eu como se fosse Natália e trouxesse já as mãos impressas com os títulos frescos da próxima madrugada. “Triste eu saí. Doía-me a cabeça./ Uma turba ruidosa, negra, espessa,/Voltava das exéquias dum monarca. (...) Avultava, num largo arborizado, Uma estátua de rei num pedestal”. (2) “E se aquela visão da fantasia/ Me estreitasse ao peito alvo como arminho,/Eu nunca, nunca mais me sentaria/ Às mesas espelhentas do Martinho”. (1)
Hoje saímos do poema. Cá fora o sol aperta-nos contra si como filhos renascidos da maré negra dos fados. Somos um esboço inequívoco de luz amarelecida pelo tempo, mas avivada pela vida nas artérias de cada único momento. Uma subida até ao arrojo da alma despida de corpo poético, talvez seja o último eléctrico da noite a partir sem regresso, o vento de feição e as caravelas a bailar no olhar, passageiros enfeitiçados vamos, é tempo, ouve-se, muito ao longe, um poeta murmurar perigosamente perto dos nossos ouvidos:
(…)
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;
Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.
(…)
(4)
(1)Cesário Verde “Arrojos”
Lisboa, Diário de Notícias, 22 de Março de 1874
(2) Cesário Verde “Eu, que sou feio”
(3) Natália Correia “Queixa das Jovens Almas Censuradas”
(4) Cesário Verde “Eu e ela”