correm as manhãs à solta na cidade sem flores
nenhuma poesia nos estendais nem nos olhares
nem nas ruas escuras da rouquidão dos motores
o tempo demora-se à janela a beber a neblina
ou a sonhar árvores de algodão na bruma
todas as coisas parecem suspensas até o mar
basta um gesto para tocar o pensamento
um punhado de matéria eléctrica funcional
prosaicamente penso o que vejo e nada mais
e vejo a triangulação do mundo
escondida em formas perfeitas e angulares
parabólicas mudas a captar sinais
ecos de vidas urbanizadas ou por urbanizar
que explodem ao longe sem sequer gritar
somos a medida única das coisas sensoriais
mas não podemos continuar a ser paisagem
que as silvas invadiram e abraçaram na
memória confortável do olhar