Cobre-me o corpo esta memória de cinza breve
Desfolhando sílabas fumegantes. Prenúncio talvez
Da noite sobre o outeiro. Céleres aves d´outrora
Em voo rasante infectadas de vagas profecias ...
O lago é esta flor perdida na foz de um seco rio
Excrescências letais correndo no interior da seiva
Que o manto da lágrima sufoca - a flor e o cio! –
Mandrágora festiva negando-se no vórtice da hora…
Enxutos os olhos é a inútil labareda que se agita
Desmaiada harpa que o canto álacre não requer
Espuma apenas na quebrada onda já sem brio…
Apenas esta ilusão sofrida na lucidez da espera
Corvos brancos pairando sobre o nada e o vento
Em monótona toada gemendo o bater do dia…
Parabéns, Manel! As tuas rumagens solitárias, heréticas, quiçá áridas deram as bagas mais frescas do bosque. Simplesmente adorei!
Engraçado que mesmo sendo o tema algo funesto, muito Antero de Quental, fica-se com uma impressão de águas profundas a marulhar no fundo da vida. Tens aí versos precisos! E este cantinho estava a ficar muito desenxabido. Já pensava que o homem heréctico tinha abafado o poético. Mas não! Bom fim de semana para ti e todos que passarem.
Um beijo no poeta e outro no poema.
Pois que gosto, muito belo, é o que sei dizer.
O Romeiro voltou e fico feliz de voltar a ler-te neste registo. Mas… (ah, pois, já sabes que comigo há sempre um mas) este parece-me um poema do teu lado “lunar”. Mas nem a luz da lua brilha.
Fico à espera de outro poema em que o sol ilumine as tuas belas palavras. Afinal, é Primavera!
Beijos
... gostei particularmente dos corvos brancos. Fizeste-me lembrar de uma galinha verde que tive em criança e que punha ovos de pato. Andava sempre à bulha com gato Alcides que ladrava imenso e comia pevides. Tempos do caraças! O que me fizeste recordar homem!
Abraços.
... o vento amança, já não é o turbilhão d’outrora; mais denso, traz recordações, memórias, sentires e saberes de verões quentes, escaldantes?
beijo, bom domingo
Então, Romeiro, de romagem às memórias, “cinza breve”? A brisa as leva, o alento as traz. Não nos separamos delas. Talvez porque o nosso rio desemboca num lago, sim… Ainda que sempre à espera de ser mar.
Um grande abraço.
Belíssimo soneto.
E lúcido…
Abraço.
Que falta me fazias por aqui, Manel!!!
Não deixes que “as flores se percam” e o “rio seque"… Não há “labaredas inúteis” (se não queimam, pelo menos aquecem e iluminam)
Beijo