Um comentário de Batista Filho, uma estória sua sobre a inquietação. Está ali abaixo tão escondido… Não resisti a dar-lhe espaço…
Perdoa, amiga, dessa vez “chegar” de tão longe e deixar um comentário tão extenso. Li com atenção e fui tomado de “inquietação” por este e pelo post seguinte. N’alguns dos meus momentos de inquietação saiu o que se segue:
Não escrevia
só ruminava
de há muito.
Ler? Isso sim
tinha valia
nos poucos livros que tinha
e na terra tanta
tanto trabalhada
... que nem um palmo era sua!
Se uma rã cantasse na tarde quente
era chuva, no aprontar que chega logo.
Se rasga-mortalha
(ave agourenta)
pousasse na cancela da casa, tão somente
sorte a do cristão!
Mas se piasse
melhor comprar caixão… se rico fosse!
... pois que pobre carece disso não:
é oferecer a carne nua à terra-mãe
que da matéria morta renascia flor e grão
arrebentando de tanto viço
como se a terra, de barriga cheia
de puro gozo desse riso.
Cismando sobre tal mote, alembrou
como era mesmo o nome?
Decorar?! - dar conta nunca pudera
quanto mais nome estrangeiro!
... mas enfeixara bem o que ouvira:
“Nesse mundão de deuses, de todo lugar e gente
nadica de nada se perde, nem havera de perder;
dos lugares mais afastados e deuses diferentes
nadica de nada se cria ou havera de criar;
nesse mundão de deuses sem conta
(e quase crença nenhuma!)
nadica de nada há de se perder ou se criar
tudo havera de se transformar, tudo havera de mudar.”
Nada se perde ou se cria, nadica!
... só se muda
às vezes
até de lugar!
(E como foi um estrangeiro de sapiciência que o disse
quase todo mundo acreditou nessa ciência, sem atinar sabedoria
... mas ele não! - nunca fora mesmo de ir logo acreditando
só por acreditar!)
Não escrevia.
Só ruminava… de há muito.
Um bicho morto na estrada
era sempre engolido por um sem conta d’outros bichos.
E daquela matéria morta e bruta vinha a energia que precisava
cada criatura presa ao chão ou que pelo mundo vagava.
Mas se da matéria morta e bruta nada se perdia, tudo mudava
pra donde então a energia que um dia animara aquela matéria
que dias outros vira o sol nascer, morrer, renascer… qual ciclo das marés?!
Nadica de nada dizia.
Só ruminava… de há muito
enquanto os seus pés arrastavam-no para a estação.
(Na estação, carcomida pelos cupins, alguns fantasmas, por demais conhecidos, indagavam com os olhos porque já não se fora. Nem isso sabia ao certo, mas sabia que chegara a hora… Disfarçava uma lágrima quando o trem apitou, bem lá no fundo da sua alma. Olhou para o alto. Enxergou a ave. Antes, só a pressentira. Sentiu um misto de alegria e dor. Deixou-se engolir pelo vagão. Enquanto o trem se punha em marcha, mirou pela janela… a ave mirou-o, longa e ternamente, depois partiu, qual flecha veloz, rumo ao infinito azul… dos olhos do homem, igualmente azuis, fez-se maré cheia, pois compreendera: as suas penas não eram suficientemente fortes, para que ele pudesse acompanhá-la.)
Amiga, do fundo de minh’alma, obrigado!
Deixo o meu abraço fraterno e comovido.