Talvez neste horizonte o breve fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no intimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul ...
Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.
O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco nos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.
Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo
Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...
Faz isso!! enfeita os teus dias de inspiração, de beleza, de natureza, de tudo o que puderes colher e transformar - folhas, chás, uvas, vinhos, frutos - morde, rasga e sê sempre intenso, nesse sentir e no palpitar que é a vida…
Beijo
ainda com a alma prenhe da ‘minha beira’, onde estive uns dias, duplamente significante me foi este teu texto de, e repito-me, imagens perfeitas.
meu abraço.
Os teus poemas parecem, por vezes, uma peregrinação por ti próprio e pelos teus sentimentos. “E clamo/Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...” Dualidade complicada. Mas, sem dúvida, um belíssimo final para este poema. Beijos
Pois eu cada vejo menos ... terra. Só água; apenas água. Quando regressar, nunca mais me meto noutra! Quero lá saber das “descobertas”!!, das viagen de circum-navegação, dos Gamas e dos Cabrais. O que eu quero é apanhar-me num bom “porto de abrigo"… e que façam a “história” sem mim; a ver se me ralo…
Abraços.
"celebrar a palavra” em “rumor de fogo” é o que tu fazes sempre que nos dás poemas como este...E é sempre um prazer imenso percorrer cada “vereda” dos teus versos...E a lonjura se faz perto…
Um beijo, Manel.
Um dos mais belos poemas seus que já li.
Vai pra minha pasta de especiais.
Um beijo grande-grande, daqui.
Rumei até aqui, palmilhando letra a letra para te encontrar nesta casa que te guarda.
Cheguei romeiro!
[ pronto, ok, dá um desconto! já é tarde e eu não digo coisa com coisa!]
... e vou-me com «E no portal de mim / Me acolho exausto»
meu beijo.
Excelente este teu poema.
Cheio de boas imagens e palavras.
Abraço e bfs.
Segurademim, belo programa ... poético. Grato. Beijos
T., duplo prazer o meu. De ter ler e de os meus poemas merecerem a tua atenção. Beijos
Lique, reconheço que apenas sei falar “das peregrinações” por mim próprio. Mas dizem-me que os poetas são egocêntricos. (pelo menos nisso, imito-os… rss). Grato pela tua presença, sempre amiga. Beijos
Legível, ora bem!… Era o que eu pretendia deizer, mas não me chegou a voz para tanto…
Abraços
Maria, grato Maria. Sabes quanto contam as tuas palavras amigas. Beijos
Márcia, ... e que melhor destino para o meu poeminha?!… Envaideces-me, sabias? Grato. Beijos
Mwoman, bem vinda a bordo, Mulher! gosto de te ver aqui, palmilhando as minhas letras… por isso te “chamei” ... rsss
Beijos
T., Grato. Quem me dera que tivesses passado o umbral… Beijos
NILSON, grato pelo estimulo. Lisonjeiras palavras, vindas de um Poeta. Abraços
Depois de te ler este poema, meu caro, tão belo e “esquisito” e tão ardente, fica-me, apenas, a razoavelmente grande amargura de não estar a contar contigo no encontro de poesias e de poetas que estou a organizar.
Não, meu caro, esta é pessoal: dificilmente me esquecerei da tua ausência.
É um fio de água que conduz à vida. É esse fio que conduz a vida. Mas é preciso que ele corra…
Um grande abraço.
Meu caro Jorge,
Não vejas na minha “ausência” a menor desconsideração. Reconheço que te dão prazer estes encontros e que são úteis como espaço de divulgação de talentos.
Mas tu bem sabes que não me levo a sério, nem me convences (ço) do contrário. A minha gratidão pela tua insistência…
Abraços