poemas de trazer por casa e outras estórias (III)

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:: Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006

Fio de água

Talvez neste horizonte o breve fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no intimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul ...

Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.

O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco nos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.

Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta a porta caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo. E clamo
Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...

publicado por Romeiro • às 05:13 PM • categoria: poesiaestórias contadas (20) •

:: estórias:

Faz isso!! enfeita os teus dias de inspiração, de beleza, de natureza, de tudo o que puderes colher e transformar - folhas, chás, uvas, vinhos, frutos - morde, rasga e sê sempre intenso, nesse sentir e no palpitar que é a vida…

Beijo smile

contado por segurademim  em  02/09  às  11:41 AM

ainda com a alma prenhe da ‘minha beira’, onde estive uns dias, duplamente significante me foi este teu texto de, e repito-me, imagens perfeitas.

meu abraço.

contado por T.  em  02/09  às  03:25 PM

Os teus poemas parecem, por vezes, uma peregrinação por ti próprio e pelos teus sentimentos.  “E clamo/Casa em que me guardo. Terra quanta vejo ...” Dualidade complicada. Mas, sem dúvida, um belíssimo final para este poema. Beijos

contado por lique  em  02/09  às  10:47 PM

Pois eu cada vejo menos ... terra. Só água; apenas água. Quando regressar, nunca mais me meto noutra! Quero lá saber das “descobertas”!!, das viagen de circum-navegação, dos Gamas e dos Cabrais. O que eu quero é apanhar-me num bom “porto de abrigo"… e que façam a “história” sem mim; a ver se me ralo…

Abraços.

contado por legivel  em  02/10  às  12:04 AM

"celebrar a palavra” em “rumor de fogo” é o que tu fazes sempre que nos dás poemas como este...E é sempre um prazer imenso percorrer cada “vereda” dos teus versos...E a lonjura se faz perto…
Um beijo, Manel.

contado por maria  em  02/13  às  08:09 PM

Um dos mais belos poemas seus que já li.
Vai pra minha pasta de especiais.
Um beijo grande-grande, daqui.

contado por Márcia  em  02/13  às  08:16 PM

Rumei até aqui, palmilhando letra a letra para te encontrar nesta casa que te guarda.

Cheguei romeiro!

[ pronto, ok, dá um desconto! já é tarde e eu não digo coisa com coisa!]

contado por MWoman  em  02/15  às  01:07 AM

... e vou-me com «E no portal de mim / Me acolho exausto»

meu beijo.

contado por T.  em  02/15  às  07:39 PM

Excelente este teu poema.
Cheio de boas imagens e palavras.
Abraço e bfs.

contado por NILSON  em  02/17  às  04:32 PM

Segurademim, belo programa ... poético. Grato. Beijos

contado por  em  02/17  às  05:19 PM

T., duplo prazer o meu. De ter ler e de os meus poemas merecerem a tua atenção. Beijos

contado por  em  02/17  às  05:20 PM

Lique, reconheço que apenas sei falar “das peregrinações” por mim próprio. Mas dizem-me que os poetas são egocêntricos. (pelo menos nisso, imito-os… rss).  Grato pela tua presença, sempre amiga. Beijos

contado por  em  02/17  às  05:25 PM

Legível, ora bem!… Era o que eu pretendia deizer, mas não me chegou a voz para tanto…

Abraços

contado por  em  02/17  às  05:28 PM

Maria, grato Maria. Sabes quanto contam as tuas palavras amigas. Beijos

contado por  em  02/17  às  05:31 PM

Márcia, ...  e que melhor destino para o meu poeminha?!… Envaideces-me, sabias? Grato. Beijos

contado por  em  02/17  às  05:32 PM

Mwoman, bem vinda a bordo, Mulher! gosto de te ver aqui, palmilhando as minhas letras… por isso te “chamei” ... rsss

Beijos

contado por  em  02/17  às  05:35 PM

T., Grato. Quem me dera que tivesses passado o umbral… Beijos

contado por  em  02/17  às  05:39 PM

NILSON, grato pelo estimulo. Lisonjeiras palavras, vindas de um Poeta. Abraços

contado por  em  02/17  às  05:41 PM

Depois de te ler este poema, meu caro, tão belo e “esquisito” e tão ardente, fica-me, apenas, a razoavelmente grande amargura de não estar a contar contigo no encontro de poesias e de poetas que estou a organizar.

Não, meu caro, esta é pessoal: dificilmente me esquecerei da tua ausência.

É um fio de água que conduz à vida. É esse fio que conduz a vida. Mas é preciso que ele corra…

Um grande abraço.

contado por OrCa  em  02/18  às  11:14 AM

Meu caro Jorge,

Não vejas na minha “ausência” a menor desconsideração. Reconheço que te dão prazer estes encontros e que são úteis como espaço de divulgação de talentos.

Mas tu bem sabes que não me levo a sério, nem me convences (ço) do contrário. A minha gratidão pela tua insistência…

Abraços

contado por  em  02/23  às  05:23 PM

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